terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sobre o livro «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery, Antígona, 2025 (1955). Tradução de Júlio Henriques.



 







Eis um livro que nos coloca de modo revolucionário perante o desconchavo que a sociedade contemporânea nos revela. Albert Cossery num extraordinário romance policial obriga-nos a olhar de frente para a estrutura social e económica em que vivemos. Albert Cossery ri-se dela, porventura afirmando: “aos costumes disse nada” como, em tempos idos, terminavam alguns documentos escritos de índole castrense.

Aqui, tudo é colocado em causa perante a suprema busca da felicidade e da alegria, pois esse objectivo passa pela destruição dos cânones socio-políticos com que essa sociedade opressiva mantém cativos e infelizes os seres viventes que a alimenta. E a procura da felicidade (e a sua assunção) passa neste romance pelo literal, absoluto e radical despojamento e ascetismo. Sem nada de nosso, essa sociedade e os algozes que nela se protegem, nada poderão fazer contra nós, pois nada nos pode tirar porque nada temos. A partir daí podemos gozar a própria alegria, a absoluta liberdade e afirmar, então:  "aos costumes disse nada”. Pratique-se, finalmente, a mendicidade, sim mas de modo orgulhoso e aristocrático e o almoço será oferecido alegremente gratuito.

De um modo intenso, literariamente perfeito e através de uma intriga narrativa filosoficamente ininterrupta, Gohar, o ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, contabilista do prostíbulo de Set Amina e mendigo por convicção; El Kordi, funcionário indolente do Ministério das Obras Públicas, revolucionário por teoria; e Ieguene, poeta, vendedor de haxixe e presidiário reincidente, irão desvendar uma nova perspectiva justa, livre e igualitária da sociedade a Nur El Dine, o chefe da polícia no Cairo.

«Mendigos e Altivos» é um tesouro libertário, o romance refractário por excelência, como diria o malogrado Luís Oliveira, ideólogo prático da editora Antígona.

Esta edição tem prefácio de Roger Grenier (2013), um glossário de termos árabes egípcios, um conjunto de fotografias do autor, alguns textos evocativos e as páginas iniciais de «Uma Época de Filhos de Cães», romance inacabado de Albert Cossery.

Livro fundamental para acabar com o neo-liberalismo desenfreado (mas também com o velho marxismo-leninismo!)


jef, agosto 2026

 

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