sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobre o livro «Pastoralia» de George Saunders, Antígona, 2017. Tradução de Rogério Casanova



 







Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.

Em «Pastoralia» de George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos grandes Estados Unidos da América!

A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?

Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por bastardos.

Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos, em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.

Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir. 

John Steinbeck chamar-lhes-ia “ratos e homens”.


jef, julho 2026

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