Recupero
uma tradição que verdadeiramente nunca me pertenceu. O circo.
Reparo que existe no espectáculo, agora sem animais, sem miséria, sem
sofrimento humano, sem nostalgia, um lado de distracção que apenas o circo, como
arte, sabe transmitir. Ali, estamos face a um universo que apenas a ele próprio
pertence. E se soubermos descontrair e esquecer o resto, ou seja, o mundo, a
ele também podemos pertencer. Como acontece a uma criança que descobre um brinquedo
novo.
«Ovo»
é sobretudo um espectáculo musical, extraordinariamente alegre, híper-colorido,
caleidoscópico mesmo, onde as figuras ambulantes, quase anti-gravidade, referem
o mundo dos insectos e dos outros seus companheiros, os artrópodes. Será um
espectáculo mais próximo do circo convencional se considerarmos que os números
se sucedem a um ritmo sem pausas, excepto aquelas de se devem às mudanças de
cenários e de artefactos cénicos e técnicos, sendo essas pausas editadas ou
escondidas pelo samba, pela canção brasileira, pelos ritmos sul-americanos.
Extraordinária
é a iluminação sobre o guarda-roupa, e o próprio guarda-roupa: o número inicial
das formigas malabaristas com os quivis e as folhas verdes; os gafanhotos que
saltam e trepam a parede, as duas crisálidas que vagueiam suspensas nascidas de
um véu de efeito cénico único. Ou o aparecimento da mutável figura da aranha
contorcionista.
Um
facto é que, ao longo do espectáculo, todos os seres de esqueleto
externo se movimentam ao sabor do romance entre uma Joaninha/ Ladybug (Michelle
Matlock / Neiva Nascimento) e por um estranho Estrangeiro transportador de um
enorme ovo (Jan Dustler / Gerry Regitschnig), romance patrocinado por Master
Flipo (Joseph Arrigo), um artrópode-palhaço de muito difícil classificação zoológica.
Uma
diversão, uma fantasia, que deve ser consumida como se nos entregassem um
embrulho muito colorido suspeitando nós que no interior está um brinquedo de
forma deliciosamente inesperada, escolhida a preceito.











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