«Fabiano recebia na partilha a quarta
parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se
limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira,
desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de
um cabrito.
Se pudesse economizar durante alguns
meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se
trepa.»
Em 1938, Graciliano Ramos escreve «Vidas Secas». Em 1954,
Jorge Amado escreve «Os Subterrâneos da Liberdade». Em 2018, Itamar Vieira
Junior escreve «Torto Arado». A eterna desventura dos alienados da sociedade
que, cega, vai, década após década, teimando e continuando a alienar esses que, verdadeiramente, a sustentam.
Fabiano, sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais
velho, o papagaio e a cachorrinha Baleia atravessam, quase em farrapos e com os
pés calejados, a seca próspera, escondendo-se apenas nas escassas sombras que
as catingueiras concedem. A catinga e o Sertão Nordestino brasileiro. Fogem do desamparo
e da fome, tentam um novo chão, uma nova terra, um charco de água. Mas a sorte
foge-lhes. O charco cobre-se de aves migrantes que lhe chupam a água. O patrão branco
não cede, o soldado amarelo impõe a lei da força ao mais fraco, na feira os
juros da dívida comem o lucro magro. Não há volta a dar. Ainda se Fabiano
soubesse ler como sabe desbastar um cavalo. Felizmente, sinha Vitória ainda sabe
fazer contas com um escasso ábaco de pedrinhas e sementes, reconhece o roubo
que Fabiano não entende. Fabiano está prestes a revoltar-se mas a timidez envergonhada
reprime o impulso que o levaria à desgraça. Sinha Vitória apenas deseja uma cama
menos má onde pudesse descansar. Apenas a cachorrinha Baleia costura os laços
que entre eles existem, sem cobrar o afecto que lhe cabe como quinhão. A cadela
escanzelada é a consciência de todos e o motivo para descobrirem os subterrâneos
da sobrevivência. Mas a fuga parece inevitável. Talvez lá longe haja alguma
linha de água um pouco acolhedora, talvez se vislumbre uma cidade que os deixe entrar
e respirar novamente.
«Vidas Secas» talvez seja a definição pura de neo-realismo,
contudo a carga poética das palavras de Graciliano Ramos e a intensidade sentimental
no interior de cada personagem, sublinhada na resistência moral da magra cadelinha
Baleia, ligue esta novela a um tardio e comovente romantismo.
Um livro impossível de esquecer, principalmente numa altura
em que a pobreza e as migrações pela sobrevivência nunca foram tão
desesperadas.
Morte e vida severina!
jef, dezembro 2025

Sem comentários:
Enviar um comentário