segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Sobre o livro «Vidas Secas» de Graciliano Ramos, Principis, 2024 (1938)



 








«Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabrito.

Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.»

 

Em 1938, Graciliano Ramos escreve «Vidas Secas». Em 1954, Jorge Amado escreve «Os Subterrâneos da Liberdade». Em 2018, Itamar Vieira Junior escreve «Torto Arado». A eterna desventura dos alienados da sociedade que, cega, vai, década após década, teimando e continuando a alienar esses que, verdadeiramente, a sustentam.

Fabiano, sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho, o papagaio e a cachorrinha Baleia atravessam, quase em farrapos e com os pés calejados, a seca próspera, escondendo-se apenas nas escassas sombras que as catingueiras concedem. A catinga e o Sertão Nordestino brasileiro. Fogem do desamparo e da fome, tentam um novo chão, uma nova terra, um charco de água. Mas a sorte foge-lhes. O charco cobre-se de aves migrantes que lhe chupam a água. O patrão branco não cede, o soldado amarelo impõe a lei da força ao mais fraco, na feira os juros da dívida comem o lucro magro. Não há volta a dar. Ainda se Fabiano soubesse ler como sabe desbastar um cavalo. Felizmente, sinha Vitória ainda sabe fazer contas com um escasso ábaco de pedrinhas e sementes, reconhece o roubo que Fabiano não entende. Fabiano está prestes a revoltar-se mas a timidez envergonhada reprime o impulso que o levaria à desgraça. Sinha Vitória apenas deseja uma cama menos má onde pudesse descansar. Apenas a cachorrinha Baleia costura os laços que entre eles existem, sem cobrar o afecto que lhe cabe como quinhão. A cadela escanzelada é a consciência de todos e o motivo para descobrirem os subterrâneos da sobrevivência. Mas a fuga parece inevitável. Talvez lá longe haja alguma linha de água um pouco acolhedora, talvez se vislumbre uma cidade que os deixe entrar e respirar novamente.

«Vidas Secas» talvez seja a definição pura de neo-realismo, contudo a carga poética das palavras de Graciliano Ramos e a intensidade sentimental no interior de cada personagem, sublinhada na resistência moral da magra cadelinha Baleia, ligue esta novela a um tardio e comovente romantismo.

Um livro impossível de esquecer, principalmente numa altura em que a pobreza e as migrações pela sobrevivência nunca foram tão desesperadas.

Morte e vida severina!


jef, dezembro 2025

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