«Os animais, que não humanos, sugerem
não se interrogar sobre a sua condição. Um lagarto não se lamenta de ser
lagarto e nem sequer lhe passa pela cabeça vir a ser borboleta ou elefante, é
apenas lagarto e julga desempenhar bem o seu papel.
«Nós, pelo contrário, protestamos sem
cessar sobre o nosso destino, invejamos o triunfo dos demais, sentimo-nos
culpados de muitos actos que praticamos e, não raro, temos consciência da
mediocridade do nosso desempenho. Este sentimento de culpa é agravado pelo
facto de modernas ortodoxias nos responsabilizarem face ao estado da Terra e
demais ocupantes. Por enquanto, ainda não pedimos desculpa pelo facto de termos
nascido, mas nisso imitamos qualquer mosquito, emérito e despreocupado transmissor
de vírus e de morte.»
Assim, o autor inicia o prólogo deste dicionário, ou bestiário,
com centenas de entradas, desde “abandono” a “zurro”. Quando faço este
pesquisa, o autor adianta-se pois exactamente na última página coloca a palavra “fim”, instigando
o leitor a preencher os espaços em falta, infinitos diga-se, pois ele não
voltará ao caso, pois o Bobi chama para o levar à rua!
Por isso, confirmo que a escrita curta de Pedro Castro Henriques
é tão motivadora e inteligente, divertida e consciente, quanto ilógica e irreverente.
Temos de encontrar para a sua escrita um novo código de leitura. Um novo
abecedário que nos oriente entre as suas farpas políticas, éticas, morais ou ambientais.
No fundo, o alfabeto PCH apenas nos indica novos caminhos para a leitura do
nosso comportamento na sociedade.
Ou seja, «Animalário – um bestiário lusitano» não é mais que
um espelho onde nos podemos rever e compor socialmente. A gravata não fica
bem, o colarinho está desajustado, o chupão vê-se ainda no pescoço… Não podemos sair
assim para a rua! Temos de nos saber comportar como um homenzinho. Neste caso, como um humanozinho!
Diderot enciclopendiou, Lineu ou Gothe quiseram pôr em ordem
alfabética o reino vegetal que Deus tão desorganizadamente criou em tão poucos dias…
Esopo, La Fontaine, ou mesmo os irmãos Grimm, usaram toda a
casta de animais para justificar os piores comportamentos humanos. Aquilino
Ribeiro catalogou e encafuou a zoologia, com saber e parcimónia infantil e
subtil vocabulário na «Arca de Noé – 3.ª Classe»…
…não! Não pensem encontrar no Dicionário ou Enciclopédia
animal de PCH a moralidade factual, o pressuposto religioso, a admoestação
política e social do nosso comportamento.
Uma vez mais. Não! Pedro Castro Henriques é cerimoniosamente
irreverente, repito, literariamente belo, polidamente iconoclasta, psicanaliticamente
clínico, até cínico. (Por favor, ler com atenção a entrada para “leitão”!)
Eu só agora comecei a ler. Uma entrada por noite, em jeito de
compensação bíblica pelos pesadelos ou belos sonhos que encontrarei de olhos
fechados no subconsciente da almofada.
jef, maio 2026



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