quinta-feira, 21 de maio de 2026

Sobre o livro «Greve Geral» de André Ruivo, Casa da Esquina / The Inspector Cheese Adventures, 2026



 



























105 x 78 milímetros. 36 páginas-couché envoltas numa capa de leve cartolina escarlate com badanas onde o título vem gravado em profundidade. Um extra-ordinário A7! É o microcosmo do artista plástico que, uma vez mais, assume mais o seu pendor de cronista gráfico do que de ilustrador social.

É o mais pequeno livro impresso da sua vasta obra e a concisão milimétrica da respectiva esquadria faz concentrar a atenção do leitor sobre cada um dos dias que passam pelo diário do artista (e do espectador). É como um presente filatélico que é oferecido ao nosso passado recente. Ou seja, o leitor não precisa de vasculhar na pilha de jornais dos meses transactos ou nas notas que deixou pespegadas nos ímanes do frigorífico: em «Greve Geral» está tudo descrito com a proverbial intimidade política tão característica da última fase plástica do artista – as cores amplas e em fundo monocromático no interior de contorno negro digital sublinham (até parece que ampliam) quanto a tempestade nos impediu de ver o sol; quanto o genocídio na Palestina nos angustiou os noticiários; quanto o Natal é vermelho, igual à Greve Geral, igual à raiva de não querer trabalhar para aquele patrão. Mas o Sol ainda está lá em cima, apesar da depressão dos dias entediados, apesar do Ventura, apesar da chuva persistente.

Ler cada dia André Ruivo através da sua resistência bruta, da teimosa persistência, quantas vezes, talvez, contra a sua própria vontade de desistência, é um acto de extrema eficácia.

Muitos coleccionaram o Almanaque Bertrand. Eu, com orgulho e alegria, colecciono o Almanaque Ruivo!


jef, maio 2026

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