sexta-feira, 8 de maio de 2026

Sobre o filme «Eva» de Joseph L. Mankiewicz, 1950









Esta é uma das comédias mais aristocraticamente requintadas que Hollywood alguma vez nos ofereceu. Um requinte tão multifacetado que é difícil tomamo-lo por um dos seus lados, ou reflexos, apenas. Por alguma razão, termina com a reverência virtual da “novíssima Eve”, Phoebe (Barbara Bates), perante o jogo de espelhos – qual «Dama de Xangai» (Orson Welles, 1947)!

Digamos que é um requinte extraordinário liderado pelo ciúme que o próprio filme concebe pelo teatro em palco. Teatro pelo teatro, em absoluto. Porque o ciúme é o seu tema fundador. Um ciúme teatral que quando está prestes a descambar para o drama reverte-se, diverte-se, e desvia-se para a alta comédia. Por essa razão, após a conversa entre Eve Harrington (Anne Baxter) e Karen Richards (Celeste Holm) nos lavabos femininos, Karen regressa à mesa onde os dois eternos casais jantam e a cena termina com o riso irreprimível desta ao ouvir certa notícia da boca de Margo Channing (Bette Davis). Sublime climax-anti-climax!

Um filme requintado e de uma sincera simetria. Temos dois magníficos e aristocráticos compères-voz off, o primeiro que nos apresenta a história, explicando-a em longuíssimo flash back, o omnisciente Addison DeWitt (George Sanders) e, depois, a maravilhosa Karen Richards, complacente e divertida, que resolve do principio ao fim meter a foice em seara alheia, sem ser propriamente omnisciente como o primeiro. Eles compõem a trama sabendo que, como fiel dessa simetria, sempre estará presente a maravilhosa Birdie (Thelma Ritter), uma espécie de deusa-criada que sobre tudo opina sem duvidar da sua pontaria analítica. O coro grego!

Temos no centro o casal Margo Channing e o encenador Bill Simpson (Gary Merrill) e, do outro lado central, o escritor de peças Lloyd Richards (Gregory Ratoff) e a parcimoniosa Karen Richards. Tudo sempre à beira do conflito pelo eterno atraso da diva do teatro Margo, temendo sempre a impossibilidade de continuar a representar o papel de jovem heroína. O ciúme pela idade de Eve Harrington, o desencanto por deixar de ser o centro da festa, o centro de si própria. 

Depois surge entre os convidados, ainda para ofuscar Margo e iluminar a sua bebedeira, Marilyn Monroe (Miss Casswell), bela, jovem, inexperiente e ingénua, sem saber a diferença entre “criado” e “mordomo”, num trocadilho que não desfaz a premonitória frase que George Sanders diz sobre Marilyn “I can see your career rising east like the sun” / “vejo a tua carreira a erguer-se, a nascente, como o sol”.

Depois existem cenas que parecem saídas do mais puro teatro isabelino, quando na cama do próprio palco Margo desespera por saber que irá ser substituída pela jovem Eve, e desenrola um chorrilho de trocadilhos sobre o pouco inocente nome de Eva, enquanto Margo é invectivada e ao mesmo tempo mimada por Lloyd, seu marido.

Tudo parece saber-se no exacto momento em que tudo volta a desconhecer-se, num labirinto de actizes e actores maravilhosos, personagens, corpos, vestidos, jóias, casacos de peles e palavras que confundem e deslindam em permanente jogo de contrários narrativos. Nunca os olhos de Bette Davis foram tão ávidos, nunca a figura de George Sanders, tão pontualmente esclarecedora, a luminosidade de Marilyn, tão luminosa, a parcimónia de Celeste Holm, tão bondosa, a irreverência de Thelma Ritter, tão cómica.

Sobre todos os aspectos que olhemos os espelhos que se reflectem em «All About Eve», este filme é um deslumbramento!


jef, maio 2026

«Eva» (All About Eve) de Joseph L. Mankiewicz. Com Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Marilyn Monroe, Thelma Ritter, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Gregory Ratoff, Barbara Bates, Walter Hampden, Randy Stuart, Craig Hill, Leland Harris, Barbara White, Eddie Fisher, William Pullen. Argumento: Joseph L. Mankiewicz baseado na novela e na peça radiofónica “The Wisdom of Eve” de Mary Orr. Produção: Darryl F. Zanuck. Fotografia: Milton R. Krasner. Música: Alfred Newman. Guarda-roupa: Edith Head (Bette Davis), Charles Le Maire, Joan Joseff (jóias).  EUA, 1950, P/B, 138 min.

 


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