Uma
questão de espiritualidade, mais do que de fé.
A
complexa beleza do filme condensa-se no sorriso final de uma criança. Reconfortante. O epílogo
na ingenuidade, cúmplice e puro, na crença absoluta. Certamente é esse o
epílogo de todo o filme, é essa a marca que deixa silenciado o espectador. Ela
é Maren (Ann Elisabeth Groth), a única que entende o verdadeiro significado da palavra,
ou da ‘loucura’ religiosa do tio Johannes Borgen (Preben
Lerdorff Rye) – devocão ou alienação, blasfémia ou amor incondicional.
Para
deixar qualquer um em silêncio emocionado ou com um sorriso crítico, Dreyer entrega
toda a história a cada um dos rostos das personagens. É ali mesmo que reside cada uma das verdades. Cada rosto tem a expressão indelével de uma alegoria, quase de uma fábula bíblica. Cada personagem contém a simbologia das várias ideias de espírito.
Dreyer
filma praticamente tudo num palco apenas – a casa luminosa do velho Morten Borgen (Henrik
Malberg), o proprietário rural rico, assim o acusa o humilde alfaiate Peter
(Ejnar Federspiel), cuja casa lúgubre recebe a oração semanal da triste comunidade,
mas também uma certa chamada telefónica que desencadeará o drama. Mesmo as
cenas no exterior são tidas como palco ansioso e de procura constante entre as
dunas, por onde desaparece Johannes deixando uma nota escrita (e perpassa um gato preto, ao longe, numa extraordinária e permanente minúcia descritiva!).
O
som da quinta (Knud Kristensen) e a música (Poul Schierbeck) permanece como
um pano de fundo, como a fazer lembrar que a vida dos homens, afinal é tão terrena
quanto a daqueles animais, como daquela paisagem tolhida pelo vento e pelo
desaparecimento.
Um
filme de uma argúcia narrativa tal, de uma beleza cinematográfica tão sublime, que
obriga ao silêncio reverente qualquer um, mesmo a um convicto ateu como eu (pois, claro, também tenho direito à minha própria espiritualidade, racional e
emocional.)
‘Ordet’,
jamais esquecerei a palavra.
jef, maio 2026
«A
Palavra» (Ordet) de Carl Theodor Dreyer. Com Henrik Malberg (Morten Borgen),
Emil Hass Christensen (Mikkel Borgen), Preben Lerdorff Rye (Johannes Borgen),
Carl Kristianseh (Andre Borgen), Birgitte Federspiel (Inger Borgen), Ann
Elisabeth Groth (Maren Borgen), Susanne (a pequena Inger Borgen), Ove Rud (o
padre), Ejnar Federspiel (Peter, o alfaiate), Sylvia Eckhausen (Kirstine, a
mulher do alfaiate), Gerda Nielsen (Anne, a filha do alfaiate), Henry Skjaer (o
médico), Hanne Agesen (Karen), Edith Thrane (Mette Maren). Argumento: Carl Theodor Dreyer segundo a peça de
teatro de Kaj Munk. Produção: Carl Theodor Dreyer,
Erik
Nielsen, Tage Nielsen. Fotografia: Henning Bendtsen. Som: Knud Kristensen. Música:
Poul Schierbeck. Direcção artística: Erik Aaes. Guarda-roupa: N. Sanat Jensen. Dinasmarca,
1955, P/B, 126 min.




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