quinta-feira, 5 de março de 2026

Sobre o filme «Blue Moon» de Richard Linklater, 2025



 

















Onde se prova que o teatro, chamemos-lhe assim, com este vocábulo simultaneamente redutor e abrangente, é a arte que, por excelência, Richard Linklater, o realizador que filma de tudo um pouco, melhor sabe orquestrar.

«Blue Moon» é um filme à antiga Hollywood onde o discurso minucioso e ininterrupto está no centro dessa noite funesta que aponta o fim artístico do letrista (digamos melhor poeta, para também colocar a palavra no centro da questão), Lorenz Hart (1895-1943) (Ethan Hawke). Digamos, o seu derradeiro acto vital – a noite de estreia na Broadway do musical «Oklahoma!» (31 de Março de 1943), quando o compositor Richard Rodgers se separou musicalmente de Hart e encetou a colaboração com Oscar Hammerstein II. Lorenz Hart não suporta o espectáculo até ao final e segue para o bar onde o espera a benevolência complacente e confidente de Eddie (Bobby Cannavale), o barman. Também ali encontrará o piano do soldado, temporariamente de licença, Morty Rifkin (Jonah Lees), amenizando a guerra com os sucessos dos musicais da época; ou ainda o silêncio do ensaísta Elwyn ‘Andy’White (Patrick Kennedy). Pois, na parte que o toca mais de perto, Hart aguarda a chegada da jovem, sua musa e protegida, Elizabeth Weiland Margaret Qualley). Afinal, o ‘teatro literário' de Linklater baseia-se nas cartas realmente trocadas entre Hart e Elizabeth.

Contudo, o acto dramático ocorrido nessa noite apenas, e apenas no espaço cénico daquele bar, centra-se no movimento expressionista do actor Ethan Hawke que desaparece sob a pele do poeta, diminui de estatura, cria a personagem maior, quase burlesca, quase patética, de um homem desiludido, traído, vencido, mas ainda sobrevivendo com o fantasma da sua altivez de grande artista, alcoólico e abandonado.

Cada cena (ou plano) de Ethan Hawke é suportada pelo reflexo de cada um dos seus ouvintes, a quem ele dedica toda a derradeira verve, sejam eles o rapaz que vem entregar as encomendas de rosas – Sven (Giles Surridge); o aclamado ‘traidor’, Richard Rodgers (Andrew Scott); ou o concorrente Oscar Hammerstein II (Simon Delaney).

Richard Linklater e Ethan Hawke entregam a Hollywood a fantasia e o fascínio da Broadway. Também a sua definição dramática e o respectivo e voraz declínio.


jef, março 2026

«Blue Moon» de Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale, Andrew Scott, Margaret Qualley, Patrick Kennedy, Jonah Lees, Simon Delaney, Giles Surridge, Cillian Sullivan, Michael James Ford, John Doran, Anne Brogan, David Rawle, Aisling O'Mara, Caitríona Ennis, Robert Kaplow, Andrew Bennett, John Cronin, Elaine O'Dwyer. Argumento: Robert Kaplow inspirado nas cartas entre Lorenz Hart e Elizabeth Weiland. Produção: Mike Blizzard, Richard Linklater e John Sloss. Fotografia: Shane F. Kelly. Música: Graham Reynolds. Guarda-roupa: Consolata Boyle. EUA / Irlanda, 2025, Cores, 100 min.