Há mil anos a Nave deixou a Terra em direcção a planetas improváveis.
Quem a dirige é o medo da morte (e principalmente da vida) do monge; a filantropia orgulhosa e
política da grande senhora e o
egoísmo tecnicista do cientista. Três
espíritos que, tendo-se libertado voluntariamente dos corpos, seguem juntos pela
tecnologia controlando a Nave. Deviam sentir-se mais unidos para melhor orientarem
a longa viagem que fazem a partir do planeta mãe. Uma viagem de difícil retorno.
A chegada a esses planetas distantes também é tão improvável como o seu rumo incerto.
Assim sendo, para os ocupantes-humanos não há regresso (ou passado), nem chegada
(ou futuro).
Assim, Carter Horton apenas segue o presente, agora que a
Nave aportara a um planeta inóspito e fora acordado do seu “sono gelado” em
que o mergulharam durante centenas de anos. Por razões imprevistas, os outros
cubículos estão vazios. Durante o sono, os seus camaradas tinham morrido.
Quem o informou do facto foi Nicodemus, o autómato.
Horton não podia regressar, seria olhado como obsoleto na
Terra depois de tantos anos, nem seguir viagem pois tinha viajado a dormir por
tempo demais. Chegara a um destino imprevisível. O planeta onde se encontrava era
o único recurso possível, o único presente para viver. Ali, o túnel que ligava
aos outros planetas do universo estava misteriosamente encerrado, ou seja, aquele
planeta também não tinha destino possível. Apenas a Nave e o seu triplo comando
poderiam conter a solução.
Agora, sem espaço nem tempo, Horton estava simplesmente
encurralado pela consciência política do facto de sequer ter poder sobre essas
dimensões universais. Foi isso que o Carnívoro lhes explicou ao recebê-los.
Depois, o Carnívoro foi mostrar-lhes a construção onde ele vivera com
Shakespeare, alter ego de um humano, também ele sitiado, e que se habituara a
escrever o próprio dia a dia nas margens de um livro que continha as obras
completas do dramaturgo com que se nomeara.
O Carnívoro queria que lhe desobstruíssem o túnel. Desejava
sair dali quanto antes, aquele planeta não era fiável.
Shakespeare escreve sobre a "hora-de-Deus", o limite do tempo,
a curva do espaço, a poluição, a inteligência que derrota o comum instinto de sobrevivência
na Natureza.
«Estamos
todos perdidos na imensidão do universo.
Perdemos a nossa casa, não temos
lugar para onde ir ou, o que é pior, temos muitos para onde ir. Estamos
perdidos não apenas nos abismos do nosso universo mas também nos abismos do
nosso espírito. (…) Venham de onde vierem, os homens hoje são, pelo menos
intelectualmente, vagabundos impenitentes. (…) A espécie humana está
fragmentada e continua a fragmentar-se através das estrelas. (…) Vagabundos
incuráveis.»
Paira, no entanto, sobre a atmosfera o cheiro nauseabundo
do Charco e sobre a casa onde vivera Shakespeare está pendurada a respectiva
caveira. Shakespeare solicitara ao Carnívoro que lhe roesse a carne até aos
ossos, quando ele estivesse prestes a morrer.
A caveira de Shakespeare como que sobrevoa todo o romance em
modo de consciência. A caveira é a própria consciência de um Shakespeare que
escreve à margem das tragédias de Shakespeare.
E sobre tudo, aproxima-se a ameaça do Mal que pode corromper o Bem. É preciso partir não se sabe de onde, não se sabe para onde. Simplesmente o lugar da consciência.
William Shakespeare sabia do que escrevia.
jef, abril 2026

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