quinta-feira, 9 de abril de 2026

Sobre o livro «O Planeta de Shakespeare» de Clifford D. Simak, Colecção Argonauta 242, Livros do Brasil, 1976. Tradução de Eurico Fonseca. Capa de Manuel Dias.



 







Há mil anos a Nave deixou a Terra em direcção a planetas improváveis. Quem a dirige é o medo da morte (e principalmente da vida) do monge; a filantropia orgulhosa e política da grande senhora e o egoísmo tecnicista do cientista. Três espíritos que, tendo-se libertado voluntariamente dos corpos, seguem juntos pela tecnologia controlando a Nave. Deviam sentir-se mais unidos para melhor orientarem a longa viagem que fazem a partir do planeta mãe. Uma viagem de difícil retorno. A chegada a esses planetas distantes também é tão improvável como o seu rumo incerto. Assim sendo, para os ocupantes-humanos não há regresso (ou passado), nem chegada (ou futuro).

Assim, Carter Horton apenas segue o presente, agora que a Nave aportara a um planeta inóspito e fora acordado do seu “sono gelado” em que o mergulharam durante centenas de anos. Por razões imprevistas, os outros cubículos estão vazios. Durante o sono, os seus camaradas tinham morrido. Quem o informou do facto foi Nicodemus, o autómato.

Horton não podia regressar, seria olhado como obsoleto na Terra depois de tantos anos, nem seguir viagem pois tinha viajado a dormir por tempo demais. Chegara a um destino imprevisível. O planeta onde se encontrava era o único recurso possível, o único presente para viver. Ali, o túnel que ligava aos outros planetas do universo estava misteriosamente encerrado, ou seja, aquele planeta também não tinha destino possível. Apenas a Nave e o seu triplo comando poderiam conter a solução.

Agora, sem espaço nem tempo, Horton estava simplesmente encurralado pela consciência política do facto de sequer ter poder sobre essas dimensões universais. Foi isso que o Carnívoro lhes explicou ao recebê-los. Depois, o Carnívoro foi mostrar-lhes a construção onde ele vivera com Shakespeare, alter ego de um humano, também ele sitiado, e que se habituara a escrever o próprio dia a dia nas margens de um livro que continha as obras completas do dramaturgo com que se nomeara.

O Carnívoro queria que lhe desobstruíssem o túnel. Desejava sair dali quanto antes, aquele planeta não era fiável.

Shakespeare escreve sobre a "hora-de-Deus", o limite do tempo, a curva do espaço, a poluição, a inteligência que derrota o comum instinto de sobrevivência na Natureza.

                    «Estamos todos perdidos na imensidão do universo.

Perdemos a nossa casa, não temos lugar para onde ir ou, o que é pior, temos muitos para onde ir. Estamos perdidos não apenas nos abismos do nosso universo mas também nos abismos do nosso espírito. (…) Venham de onde vierem, os homens hoje são, pelo menos intelectualmente, vagabundos impenitentes. (…) A espécie humana está fragmentada e continua a fragmentar-se através das estrelas. (…) Vagabundos incuráveis.»

Paira, no entanto, sobre a atmosfera o cheiro nauseabundo do Charco e sobre a casa onde vivera Shakespeare está pendurada a respectiva caveira. Shakespeare solicitara ao Carnívoro que lhe roesse a carne até aos ossos, quando ele estivesse prestes a morrer.

A caveira de Shakespeare como que sobrevoa todo o romance em modo de consciência. A caveira é a própria consciência de um Shakespeare que escreve à margem das tragédias de Shakespeare.

E sobre tudo, aproxima-se a ameaça do Mal que pode corromper o Bem. É preciso partir não se sabe de onde, não se sabe para onde. Simplesmente o lugar da consciência. 

William Shakespeare sabia do que escrevia.


jef, abril 2026

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