Muito interessante assistir ao musical «Evita», hoje, em
Lisboa, enquanto vejo Donald Trump a fazer-se passar por Jesus Cristo; pouco depois
do prisioneiro Bolsonaro empunhar armas frente à multidão entusiasmada;
enquanto Javier Milei, o argentino, exibe motosserras e conquista o voto do
povo. Sim, a mesma Argentina da desvalida Eva Duarte, mais tarde santa Eva
Péron, vice-presidente e voz dos “descamisados”, que não possuía redes sociais
ou algoritmos digitais mas igualmente conquistou o poder graças a uma vontade
indómita e uma determinação ilimitada. Evita, assim se apelidava a si própria,
viveu o apogeu, de modo fulgurante e fugaz até à sua morte em 1952. Sete anos
de esplendor, apenas. Como qualquer estrela pop ou actor levado na flor da
idade pela droga ou acidente de viação, e para gáudio da eterna fama ou devoção. Regressando ela,
anos mais tarde, a Buenos Aires, embalsamada, de branco, num caixão de vidro.
É campo perfeito para que Andrew Lloyd Webber e Tim
Rice escrevessem uma nova e imortal ópera-rock (1978). Uma peça musical que
chega a Lisboa, numa das épocas teatrais mais maravilhosamente agitadas da
capital. Pela mão de Paulo Sousa Costa e da Yellow Star Company.
E a alegria e também qualidade da produção subscreve a aparente
simplicidade com que monta (ou desmonta) o figurino deste drama, construído
através de uma enorme analepse, ou flashback, de duas horas. No início, um caixão de vidro
é cerimoniosamente construído pelo povo sobre duas mesas simples de bar ou
cabaret. Um requiem ou um salve regina, um tango, uma breve elegia
a condensar a meteórica tragédia de Eva Duarte.
Sofia Escobar interpreta de alma, voz e corpo a
fragilidade da figura imortal, e Diogo Morgado, mordaz e forte, evoca o contraponto
heroico e teatral da fábula, como coro grego explicando e desfazendo o logro de
tal ambição, de tal encenação. Ainda a voz de Diogo de Carvalho, Ricardo
Soler e Rebeca Reinaldo a fazer todo o sentido no timbre e na harmonia dessa
mesma ascensão e queda, representada num cenário arquitectónico simples (para
não distrair e concentrar emocionalmente o drama), num palco exíguo que
transforma as coreografias em actos íntimos de dança, apenas interrompidos, entre cenas, aqui e ali, por curtos e silenciosos espaços temporais a negro.
Uma peça musical que nos emociona e diverte mas que nos coloca também para a eterna questão: será que a história no mundo se repete?
jef, Capitólio, 11 de Abril de 2026
«Evita» de Andrew Lloyd Webber (música) e Tim Rice (letra). Encenação
e direcção artística: Paulo Sousa Costa. Com: Sofia Escobar (Eva Péron), Diogo
Morgado (Che), Diogo de Carvalho (Péron), Ricardo Soler (Magaldi), Rebeca
Reinaldo (Amante de Péron), André Lourenço (Ensemble), Beatriz Lema (Ensemble),
Diogo Pinto (Ensemble), Eliseu Ferreira (Ensemble), Inês Martins (Ensemble),
João Maria Reis (Ensemble), José Valente (Ensemble), Maria Almeida (Ensemble),
Maria Braga (Ensemble), Mariana Marques Guedes (Ensemble), Miguel Barroso
(Ensemble), Miguel Sousa (Ensemble), Sílvia Mirpuri (Ensemble). Assistente de
encenação: João Vilas. Coreografia: Mariana Luís e Pedro Borralho. Direcção musical:
Carolina Puntel. Figurinos:
Sofia Lima, Tony Miranda. Cenografia: Fred Klaus. Aderecista: Carolina Almeida.
Desenho de luz: João Oliveira. Cartaz, criativo e voz off: Pedro Matias Maria. Fotografia:
José Correia. Designer gráfico: Vasco Lopes. Capitólio. Produção: Yellow Star
Company. Duração: 120 minutos.







Sem comentários:
Enviar um comentário