terça-feira, 14 de abril de 2026

Sobre a peça «Evita» de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Paulo Sousa Costa / Yellow Star Company. Capitólio, 2026.



 













































Muito interessante assistir ao musical «Evita», hoje, em Lisboa, enquanto vejo Donald Trump a fazer-se passar por Jesus Cristo; pouco depois do prisioneiro Bolsonaro empunhar armas frente à multidão entusiasmada; enquanto Javier Milei, o argentino, exibe motosserras e conquista o voto do povo. Sim, a mesma Argentina da desvalida Eva Duarte, mais tarde santa Eva Péron, vice-presidente e voz dos “descamisados”, que não possuía redes sociais ou algoritmos digitais mas igualmente conquistou o poder graças a uma vontade indómita e uma determinação ilimitada. Evita, assim se apelidava a si própria, viveu o apogeu, de modo fulgurante e fugaz até à sua morte em 1952. Sete anos de esplendor, apenas. Como qualquer estrela pop ou actor levado na flor da idade pela droga ou acidente de viação, e para gáudio da eterna fama ou devoção. Regressando ela, anos mais tarde, a Buenos Aires, embalsamada, de branco, num caixão de vidro.

É campo perfeito para que Andrew Lloyd Webber e Tim Rice escrevessem uma nova e imortal ópera-rock (1978). Uma peça musical que chega a Lisboa, numa das épocas teatrais mais maravilhosamente agitadas da capital. Pela mão de Paulo Sousa Costa e da Yellow Star Company.

E a alegria e também qualidade da produção subscreve a aparente simplicidade com que monta (ou desmonta) o figurino deste drama, construído através de uma enorme analepse, ou flashback, de duas horas. No início, um caixão de vidro é cerimoniosamente construído pelo povo sobre duas mesas simples de bar ou cabaret. Um requiem ou um salve regina, um tango, uma breve elegia a condensar a meteórica tragédia de Eva Duarte.

Sofia Escobar interpreta de alma, voz e corpo a fragilidade da figura imortal, e Diogo Morgado, mordaz e forte, evoca o contraponto heroico e teatral da fábula, como coro grego explicando e desfazendo o logro de tal ambição, de tal encenação. Ainda a voz de Diogo de Carvalho, Ricardo Soler e Rebeca Reinaldo a fazer todo o sentido no timbre e na harmonia dessa mesma ascensão e queda, representada num cenário arquitectónico simples (para não distrair e concentrar emocionalmente o drama), num palco exíguo que transforma as coreografias em actos íntimos de dança, apenas interrompidos, entre cenas, aqui e ali, por curtos e silenciosos espaços temporais a negro.

Uma peça musical que nos emociona e diverte mas que nos coloca também para a eterna questão: será que a história no mundo se repete?


 27 de março a 28 de junho de 2026. De quinta-feira a sábado, 21h00. Sábado e domingo, 16h00 e 21h00

 

jef, Capitólio, 11 de Abril de 2026

«Evita» de Andrew Lloyd Webber (música) e Tim Rice (letra). Encenação e direcção artística: Paulo Sousa Costa. Com: Sofia Escobar (Eva Péron), Diogo Morgado (Che), Diogo de Carvalho (Péron), Ricardo Soler (Magaldi), Rebeca Reinaldo (Amante de Péron), André Lourenço (Ensemble), Beatriz Lema (Ensemble), Diogo Pinto (Ensemble), Eliseu Ferreira (Ensemble), Inês Martins (Ensemble), João Maria Reis (Ensemble), José Valente (Ensemble), Maria Almeida (Ensemble), Maria Braga (Ensemble), Mariana Marques Guedes (Ensemble), Miguel Barroso (Ensemble), Miguel Sousa (Ensemble), Sílvia Mirpuri (Ensemble). Assistente de encenação: João Vilas. Coreografia: Mariana Luís e Pedro Borralho. Direcção musical: Carolina Puntel. Figurinos: Sofia Lima, Tony Miranda. Cenografia: Fred Klaus. Aderecista: Carolina Almeida. Desenho de luz: João Oliveira. Cartaz, criativo e voz off: Pedro Matias Maria. Fotografia: José Correia. Designer gráfico: Vasco Lopes. Capitólio. Produção: Yellow Star Company. Duração: 120 minutos.

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