quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Sobre o filme «A Vergonha» de Ingmar Bergman, 1968




 












A abominável arte da guerra segundo o extraordinário olhar de Ingmar Bergman. Antes, os efeitos de uma hipotética e abominável guerra fratricida no corpo e na alma de um casal de músicos exilados numa ilha após a extinção da orquestra pela iminência do conflito. Eva Rosenberg (Liv Ullmann) e Jan Rosenberg (Max von Sydow) têm uma estufa de mirtilos, criam galinhas e coelhos, vivem num idílio enquanto falam da possibilidade de um próximo primeiro filho. Contudo, o idílio está ameaçado. Os sinos não param de tocar e não é domingo, o telefone toca mas ninguém fala do outro lado, eles devem sair de casa depressa mas o carro não pega e o casaco está esquecido. Há um sonho inicial e não é agradável.

O efeito da guerra está espelhado nos sonhos, esse, o sonho inicial, depois aquele em que Eva diz que está a viver o de uma outra pessoa e questiona o acordar alheio, aquele outro em que vê o muro branco e as rosas em chamas. Para além dos sonhos, fundamental é o som (Lennart Engholm) num dos filmes mais violentos de Bergman. Como resistir a um conflito que atinge cada um (e como é expressamente referido) sob o signo da culpa, da dor e do medo? Que fazer quando ambas as partes (indistintas pelos fardamentos iguais) os fazem colaboracionistas ou os tomam por colaboracionistas. Como fugir à barbárie se as estradas estão incendiadas? Como resistir ao ódio que a guerra instala em cada um dos seus corações?

O fim está próximo. Após comprarem o peixe a Filip (Sigge Fürst) e venderem os frutos ao presidente da câmara, Jacobi (Gunnar Björnstrand), visitam o amigo antiquário (Hans Alfredson) para lhe comprarem uma garrafa de vinho. Este aparece fardado, mobilizado, e despede-se das suas antiguidades e dos amigos, deixando-os a ouvir uma caixa de música de porcelana do século XVIII. É a alegoria mais programática do filme que mal começou. Para terminar no larguíssimo plano oceânico que suporta um pequeno barco sem barqueiro.

Um filme belíssimo, trágico e urgente para um bélico e ignóbil início do século XXI.


jef, fevereiro 2026

«A Vergonha» (Skammen) de Ingmar Bergman. Com Liv Ullmann, Max von Sydow, Sigge Fürst, Gunnar Björnstrand, Ulf Johansson, Hans Alfredson, Frank Sundström, Vilgot Sjöman, Bengt Eklund, Gösta Prüzelius, Willy Peters, Barbro Hiort af Ornäs, Agda Helin, Ellika Mann, Rune Lindström, Axel Düberg, Lars Amble. Argumento: Ingmar Bergman. Produção: Lars-Owe Carlberg. Fotografia: Sven Nykvist. Som: Lennart Engholm. Música: Excertos de Brandenburg Concerto nº 4, de J. S. Bach. Guarda-roupa: Mago. Suécia, 1968, Cores, 103 min.




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