segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre a peça «A Gaivota» de Anton Tchékhov. Teatro da Trindade, 2026.



 


















O que mais apaixona na escrita de Tchékhov, talvez mesmo comova, é o lado ternurento com que cobre todas as personagens, sempre a um passo da comédia quando estamos à beira de uma tragédia familiar. Mas, na realidade, uma família consegue ser sempre trágica e cómica ao mesmo tempo.

Em «A Gaivota» é surpreendente como esse facto surge do interior do próprio texto, do teatro dentro do teatro, da procura um tanto frustrada do artista em busca do sentido e do cerne da própria arte. Tchékhov faz desse mote a metáfora da ave morta por ciúme ou desespero ou mesmo tédio. Esta metáfora e as palavras iniciais da peça escrita por Constantino (André Leitão), e cuja representação é logo gorada no início, vão perpassando ao longo texto até ao final, como um refrão, relembrando ao espectador que quase todos os seres da Terra já desapareceram, numa evocação dramática do apocalipse. No entanto, todos alegremente permanecem ou regressam àquela quinta longínqua, de acesso e transportes difíceis. Regressamà própria metáfora, à ausência de fé, de futuro. A metáfora da morte.

Contudo, existe o permanente e alegre fingimento do eterno retorno: o tio Pedro (Guilherme Filipe) parece à beira do colapso mas sempre resiste para o seu vinho, para o seu charuto; Irina (Alexandra Lencastre), a diva, roda sobre o seu vaidoso auto-elogio como uma eterna sobrevivente, uma eterna vingadora; Simão (Flávio Gil), o alegremente triste professor, consente casar com a desgostosa Márcia (Margarida Bakker) pois esta prefere casar a morrer. Alexandre (Ivo Canelas), Nina (Rita Rocha Silva) ou Constantino perseguem o fantasma da sua provável arte, ou seja o fantasma de si próprios. Ou seja, a alegoria da gaivota empalhada em cima do piano.

Diogo Infante tem o cuidado de actualizar apenas ligeiramente o ambiente da quinta, retirando referências geográficas, acelerando e adoçando a contemporaneidade com pequenas referências aos dias de hoje mas deixando-o a meio caminho de algum donbass perdido, de algum Alentejo cristalizado. Sobretudo, entrega Tchékhov aos actores que, num ritmo permanente e certeiro entre cenas, devolvem aos espectadores a alegria plena de uma peça fundadora da modernidade do teatro existencialista.


jef, Teatro da Trindade, 22 de Fevereiro de 2026

 «A Gaivota» de Anton Tchékhov. Versão e encenação: Diogo Infante. Apoio à dramaturgia: Margarida Tavares. Cenografia: Catarina Amaro. Música original: Artur Guimarães. Figurinos: Filipe Faísca. Guarda-roupa: Joana Margarida. Desenho de luz: Nuno Meira. Sonoplastia: Rui Santos. Fotografia de Cena: Alípio Padilha. Com: Alexandra Lencastre (Irina Arkadina), André Leitão (Constantino Treplev), António Melo (Leo Shamraev), Flávio Gil (Simão Medvedenko), Guilherme Filipe (Pedro Sorin), Ivo Canelas (Alexandre Trigorin), Margarida Bakker (Márcia Shamraev), Pedro Laginha (Hugo Dorn), Rita Rocha Silva (Nina Zaréchnaya) e Rita Salema (Paulina Shamraev). Produção: Teatro da Trindade INATEL. Duração: 1h50.

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