Este é um filme sobre uma casa, outrora vermelha, e as gerações que por ela vão passando. As cenas iniciais são soberbas, as perspectivas da cenografia implacáveis. É um filme que tem por centro uma mulher Nora Borg (Renate Reinsve) que tal como para Myrtle Gordon (Gena Rowlands) em «Noite de Estreia» (John Cassavetes, 1977), o palco amedronta, persegue e reprime. É a causa disso que vamos acompanhando através da representação monumental da actriz Renate Reinsve. Nora tem uma irmã mais nova Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) que a protege como uma filha. A fantástica actriz Inga Ibsdotter Lilleaas é como o espelho no qual as duas se revêem no difícil afastamento de um pai, cineasta famoso tendo na mão um argumento para um novo filme – Gustav Borg (Stellan Skarsgård). Tal como Woody Allen já o representara em «Intimidade / Interiors» (1978).
As duas mulheres seguirão o impulso de
aproximação-afastamento de um pai que regressa finalmente e requer atenção. Uma terceira
mulher funcionará como desbloqueio do relacionamento entre pai e filhas. É a
famosa actriz Rachel Kemp (Elle Fanning) chamada pelo realizador para ocupar o
papel principal no seu filme. Esta será o terceiro lado daquele reflexo.
Se
o filme tem por centro, afinal, uma casa e três actrizes que giram em torno do ego de
Gustav Borg, e os reflexos psicológicos e emocionais que este nelas faz
descarregar, no seu decorrer a carga estética e emocional vai amortecendo ou
amolecendo em direcção a uma obra que se vai esquecendo aos poucos de Ingmar
Bergman, John Cassavetes ou Woody Allen para terminar numa sequència de cenas tão diminuta e lisa,
certamente previsível, que faz desbaratar o papel fundamental daqueles actores e o papel de uma casa agora branca que há décadas parece estar a afundar-se nos seus alicerces.
jef,
fevereiro 2026
«Valor
Sentimental» (Affeksjonsverdi / Sentimental Value) de Joachim Trier. Com Renate
Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders
Danielsen Lie, Jesper Christensen, Lena Endre, Cory
Michael Smith, Catherine Cohen, Andreas Stoltenberg
Granerud, Øyvind Hesjedal Loven, Lars Väringer, Ida Marianne Vassbotn Klasson, Vilde
Søyland. Argumento: Eskil
Vogt, Joachim Trier. Produção: Maria Ekerhovd, Andrea Berentsen Ottmar. Fotografia:
Kasper Tuxen. Música: Hania Rani. Noruega / Dinamarca / Suécia / França /
Alemanha / Grã-Bretanha / Turquia, 2025, Cores, 133 min.






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