segunda-feira, 20 de abril de 2026

Sobre a peça «Rei Lear» de William Shakespeare, Teatro do Bairro, 2026





 


















































Como entender o prazer, o entusiasmo, talvez a necessidade, de, hoje, estar em palco e assistirmos a «Rei Lear» publicado pela primeira vez em 1607 (e representado em 1606)? Como justificar a sumptuosidade clássica e dramática da mais trágica das tragédias, de onde poucos saem vivos?

Será pela eterna similitude da questão política quanto à partilha de terrenos e bens (naquela vaga era pré-cristã ainda não se falava em poços de petróleo)?

Será pela notada decrepitude de um monarca que se abstém do poder e dos bens para os distribuir pelas três infantas, suas filhas e herdeiras, mas não possui já o discernimento de bem as julgar nem quer abdicar do séquito de centenas de cavaleiros, pretendendo continuar a circular pelo território, outrora seu, sem obrigações de estado mas mantendo intactas a reverência para com o monarca e as respectivas mordomias?

Será pela infalível clarividência sobre a inveja e igualmente pouca sabedoria, também o menor afecto demostrados, que obrigam as duas herdeiras mais velhas a intrigarem, dizendo o dito pelo não dito, a mentira pela verdade, trocando a lisonja pela responsabilidade, deixando, afinal, o velho rei empobrecido e desvairado entregue à tempestade sem tecto e acompanhado somente pela lealdade sem barreiras do bobo e depois por um homem selvagem que ocupa uma pobre cabana onde poderão abrigar-se da borrasca?

Ou será pelo maléfico enredo de mentiras e mal-entendidos arquitectado por um filho bastardo que pretende conquistar a riqueza do seu pai e do seu irmão, o legítimo?

Obviamente todas as respostas afirmativas às questões são verdadeiras, e muitas outras poderiam ser feitas, pois tão trágica tragédia demonstra-se infinita quanto a análises e interpretações. Contudo, seria leviano não perceber que o que me leva acima de tudo a entusiasmar-me com esta longínqua história vinda de uma lenda antiquíssima sobre um hipotético monarca com três filhas, lenda que terá passado ainda a canção de bardo, é a sua absoluta poética colocada em suspenso perante os olhos e o coração do espectador. 

É soberbo o acto em que o filho bom, mascarado de andarilho, leva Gloucester até ao precipício onde este se pretendia lançar. Um falso precipício onde nada se vê por Gloucester estar cego, onde nada se ouve vindo do mar por este estar tão infinitamente distante (e ausente).

Também a cena pungente final quando o velho Lear doente, sustenta o cadáver da filha, mortalmente sofrido, como uma Pietà, e Kent pede para o deixarem partir, não o perturbarem mais, pois seria odiá-lo prolongar-lhe a existência neste mundo feroz.

Maravilhoso tal conjunto de actores que sofrem por Lear, diante nós, num casto por quase românico cenário, numa sequente circulação de personagens na penumbra de portas ogivais, tronos vazios, escadas fúnebres e paredes tumulares que giram. O exercício carinhoso e hercúleo de movimentação cenográfica para tão delicada e labiríntica marcação de cena.


jef, 18 de abril de 2026


Rei Lear, um dos textos maiores de William Shakespeare, conta-nos a história de um monarca envelhecido que decide dividir o reino entre as três filhas, esperando retirar-se do governo, mas conservar a autoridade e a reverência de todos. Ao exigir declarações públicas de devoção, desencadeia um jogo político que rapidamente se volta contra ele. Expulso do poder e traído pelas próprias alianças que julgava seguras, Lear vagueia num mundo que já não lhe pertence. Na tempestade e na ruína descobre demasiado tarde a fragilidade do poder e da própria condição humana.

 

Texto: William Shakespeare. Tradução: Álvaro Cunhal. Encenação: António Pires. Com Adriano Luz (Lear, Rei da Bretanha), André Ramos, Carolina Campanela (Cordélia), Cláudio da Silva (Bobo), Crista Alfaiate (Regane), Dinarte Branco (Duque de Albânia), Dinis Gomes (Duque de Cornualha), Francisco Vistas (Edmundo), Gonçalo Norton (Osvaldo, intendente de Goneril), Hugo Mestre Amaro (Rei de França), Jaime Baeta (Edgar / Tom de Bedlam), João Barbosa (Conde de Kent), Marcello Urgeghe (Conde de Gloucester), Rodrigo Machado (Duque de Borgonha) e Sofia Marques (Goneril). Cenografia: João Mendes Ribeiro. Figurinos: Luísa Pacheco. Música: Daniel Bernardes. Caracterização: Nuno Esteves (Blue). Assistente de encenação: Carolina Ferrão. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Operação de luz: António Serrão e João Madeira. Operação de som: Vasco Maciel. Chefe de guarda roupa: Inês da Mata. Assistentes de guarda-roupa: Beatriz Dinis e Ema Falcão; Ilustração: Joana Villaverde. Fotografia de cena: Miguel Bartolomeu. Produção: Carolina Leite Ribeiro, Isabel Carvalho, Ana Bordalo, Alexandre Oliveira. Ar de Filmes / Teatro do Bairro.

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