terça-feira, 13 de outubro de 2026

Sobre as exposições de Pedro Cabrita Reis e Joana Vasconcelos, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, 2026



 



































Uma improvável ligação para comemorar os 10 anos do Museu. É a função da Arte e da imaginação dos seus curadores.

Visito o Museu pela primeira vez num fim de semana de entrada gratuita.

Milhares de visitantes à beira Tejo. Os visitantes fazem parte do espectáculo. Ou são eles o espectáculo, além do rio Tejo, claro.

Pedro Cabrita Reis «Com o Coração Livre de Cuidados»: todos passam por essa espiral das arrebatadoras telas impressionistas e panorâmicas, 28 no seu número. «Nymphaea Redux». Ou pelos mais pequenos mas não menos numéricos quadros alegóricos da sua persona «Ridi Paglaccio». Fotografo uma das pequenas telas de paisagens vagamente ou destorcidamente helénicas.

As pessoas seguem rápido pois mais desejam Joana Vasconcelos «Venus». Eu nunca tinha assistido à famosa parafernália gigantesca de objectos sintéticos e/ou sincréticos, que atraem e repelem em simultâneo e na mesma proporção, por entre os velhos vestidos criados por Valentino (Garavani). O retorcido plástico de «Coração Independente Vermelho», as mutantes flores vaporizadas Bosch de «A Todo o Vapor» ou as cintilantes, ameaçadoras, carnívoras flores luminosas do obscuro «Jardim do Éden».

O modo como a arte contemporânea se torna impenetrável por tamanha multidão de espectadores e, ao mesmo tempo, libidinosamente popular e oferecida.

Gostei muito.

jef, 4 de outubro de 2026

Sobre a peça «O Casamento de Fígaro» de Pierre Caron Beaumarchais. Teatro do Bairro, 2026.



 






















Lembrando Maio de 1999, «O Casamento de Fígaro» na belíssima tradução de Luis Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia. 

O mesmo texto agora pela encenação de António Pires, a provocação social, política e revolucionária de 1784, quando foi estreada, a guerra dos sexos e o conflito entre classes, a aristocracia que nasce para que nada lhe falta sem esforço e os pajens e as aias que têm de usar o mérito, o engenho e a arte para trabalhar e atingir os seus fins.

Assuntos que continuam na ordem do dia. Os clássicos, felizmente (ou infelizmente) permanecem como pontos de honra apontando o dedo à sistemática e eterna iniquidade humana. A luta de classes e o poderio masculino sobre a astúcia feminina.

Porém, esta “Louca e ininterrupta Jornada” é uma alta comédia, irónica e prazenteira, cheia de portas e esconderijos, troca de identidades, ardis bem urdidos, confiança quebrada, e depois reposta, numa espécie de comédia pueril onde os homens todos sem excepção são tidos por tolos, nada entendem, joguetes nas mãos das intrigas femininas. No entanto, Beaumarchis nada pretende mudar e tudo ilude com o mais luminoso e divertido happy end, em alegria e festa, após uma tortuosa “jornada" nocturna no jardim, por baixo dos castanheiros.

Envoltos num ambiente de cortinas e tule, semelhantes a suaves nuvens ou doce e branco merengue, as personagens ali se divertem. A fantástica Sofia Marques, no papel de Condessa Rosina, o eterno Fígaro nas mãos do sempre inesquecível Francisco Vistas, a sombria sempre noiva Marcelina, provocadora e defensora da causa feminina, tendo por dentro a actriz Alexandra Rosa, ou a bela e fresca Susana dando a mão à actriz Vera Moura.

O Teatro do Bairro é um dos primeiros responsáveis por manter em cena, actualmente, uma grande parte da dramaturgia clássica, peças imprescindíveis para entender a apressada volubilidade da sociedade contemporânea.


jef, 11 de outubro de 2026

 

Texto: Pierre Caron Beaumarchais. Tradução: Luis Miguel Cintra. Encenação: António Pires. Com Alexandra Rosa (Marcelina), Carolina Campanela (Fininha, prima), Dinis Gomes (Conde Almaviva), Francisco Vistas (Fígaro), João Araújo (Meirinho), João Maria (Querubim), Mário Sousa (Médico, Advogado), Sofia Marques (Rosina, Condessa), Vera Moura (Susana). Cenografia: João Mendes Ribeiro. Cenografia: Alexandre Oliveira. Figurinos originais: Susana Moura e adaptação de outros figurinos de Luís Mesquita e Luísa Pacheco. Desenho de luz: Rui Seabra. Desenho de som: Paulo Abelho. Costureira: Rosário Balbi. Construção de cenário: Fábio Paulo. Operação de luz: António Serrão e João Madeira. Operação de som: Vasco Maciel. Ilustração: Joana Villaverde. Produtor: Alexandre Oliveira. Ar de Filmes / Teatro do Bairro. Duração: 130min


9 Outubro a 6 Novembro

Quarta a Sexta. 21h00

Sábado e Domingo. 17h00

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Sobre o concerto de Ist Ist, Lisboa 2026


 









































Lisboa, Alvalade. O RCA Club. Entre o Pingo Doce e o Continente, duas igrejas evangélicas e a estância de madeiras Lino & Filhos Lda.. Não longe dos Bombeiros e do Mercado de Alvalade.

Um local à antiga tão longínquo e obscuro, quanto amável e acolhedor. Uma arquitectura mínima que faz lembrar um velho Ritz Clube ou uma Velha Voz do Operário. Um balcão com venda ininterrupta de cerveja ladeado por uma escada cujo corrimão que, por ausência de estratégia, não acompanha até ao fim os degraus fazendo dançar até ao chão os incautos amantes desse pós-proto-amável punk dos Ist Ist, banda da grande e inglesa Manchester, que produz música através da sua própria editora e divulgadora– a Kind Violence Records. Desde 2014.

São eles: Adam Houghton – vocais e guitarra; Mat Peters – teclados, sintetizadores e guitarra; Andy Keating – baixo e Joel Kay – Bateria.

Ao fundo, para meu gáudio e de tantos velhos conhecedores e amantes de Joy Division, New Order, The Durutti Column, Depeche Mode, The National / Matt Beninger ou dos portugueses Decline and Fall (todos de velho negro e usado cabedal), brinda-se, com precisão inglesa pelas 21h30, à moderna velha escola da acústica eléctrica, simples e precisa, quase fora de moda. Batida romântica sob refrões firmemente dementes ou perdidamente amorosos. Temas vindos dos álbuns Architecture (2020), The Art of Lying (2021), Protagonists 2023), Light a Bigger Fire (2024) e Dagger (2025). Todos com capas requintadamente estéticas.

Alegre (e negra) convivência entre o povo lusitano e os britânicos exilados neste oeste europeu. Tudo fixe, tudo calmo, tudo animado por esse ritmo forte e sintético.

Saímos felizes mas não chegámos a ir comer o gelado na Conchanata mas comprei o cd «Dagger» de 2026 (o povo musical precisa de apoio!)

(As imagens do concerto são cortesia de Renan Nascimento.)


jef, 10 de outubro 2026

Sobre a peça «Macbeth» de William Shakespeare, Teatro Nacional D. Maria II, 2026



 





























A mais recente referência que tenho de «Macbeth» é a comédia idealizada por Manuel Jerónimo a partir de Shakespeare, levada à cena em 2024 na Boutique da Cultura – «Macbeth - A Peça Escocesa». Aquela peça que não se pode nomear por maldição, dessa vez passada nos bastidores de um restaurante “haute couture” onde a floresta avançava segundo os movimentos de uns vasos com plantas sintécticas do Ikea. Um delírio.

Como um certo delírio é, afinal, a peça escrita por Shakespeare. Macbeth, um mesmo muito competente José Raposo, é mandatado pela enérgica e autoritária Lady M., interpretada pela super-actriz Bárbara Branco, que enche o palco de perfídia e alma do marido de dúvidas, remorsos e fantasmas. Os dois montam o plano maquiavélico de assalto ao trono da Escócia.

Claro que a super-bruxa, vestida de D. Maria II (o maravilhoso João Grosso, que já aparecera como malogrado rei da Escócia, Duncan) e o cenário a aparentar a fachada do teatro nacional, outrora incendiado, e o fogo e o fumo e as trovoadas demoníacas (talvez um pouco intensas demais), para além da exuberância da tragédia pautadas pelas maldições-previsões das três divertidas bruxas (Ana Tang, Ana Coimbra e Stela), torna tudo um pouco avesso à tragédia e mais à comédia de costumes… Isto sou eu a dizer ou a sentir.

Mesmo a cabeça de Macbeth, finalmente atirada sem pudor nem estilo para o caldeirão, onde as bruxas tinham atirado previamente  as asas de morcego, as pernas de sapo ou as almas de gato, tudo indica um exagero que apenas é atenuado pela mestria de um texto genial e delirantemente sangrento, que oferece finalmente um diálogo fulcral, à boca de cena, com o apaniguado do futuro rei da Escócia Malcolm (Sandro Feliciano), dito por um fantástico Macduff (June João). O diálogo da moral final que representa a salvação da peça, talvez como William Shakespeare tenha idealizado no interior de tanta sanguinária maldade.

Uma peça felizmente maldita! Uma peça eterna, quer seja na cozinha de um restaurante gourmet amaldiçoado, quer no interior de um Teatro Nacional ameaçado sempre pelas chamas e pelas lotações esgotadas, em 2026!

Os clássicos são imprescindíveis! Não têm hora nem tempo!


jef, 3 de Outubro de 2026

«Macbeth». Texto: William Shakespeare. Encenação e tradução: Pedro Penin. Com Ana Coimbra (uma bruxa), Ana Tang (uma bruxa), Bárbara Branco (Lady Macbeth), Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding (Banquo), João Grosso (Duncan, rei da Escócia, bruxa-mor / D. Maria II), José Neves, José Raposo (Macbeth), June João (Macduff), Sandro Feliciano (Malcolm), Stela (uma bruxa, Lady Macduff), Vítor Silva Costa. Cenografia: Joana Sousa. Composição e desenho de som: Filipe Baptista. Luz: Daniel Worm d’Assmpção. Figurinos BÉHEN (Joana Duarte). Produção: Teatro Nacional D. Maria II. 150 minutos.

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Sobre o filme «Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor



 











Antes de mais, «Naza» é um belo exemplo de cinematografia. Ou, mais simples e apesar do que se ouve, um belíssimo filme! Sob a luz negra da noite de Telavive, sob as janelas iluminadas mostrando a tranquilidade familiar, seccionada, pois nunca se vê a identidade dos rostos, num jogo preciso de enquadramentos, triangulações, pontos de fuga ou linhas de convergência; alternando com a azáfama rodoviária das grandes vias iluminadas pelos faróis da grande cidade; banhado pelas negras águas mediterrânicas; num simples terraço, são entrevistados por Yuval Abraham, o realizador, 24 militares da tecnológica elite militar israelita, que não são identificados por óbvios motivos. Mais uma vez a obscuridade é a alma do negócio ou da chacina. Conta-se como as casas e os bairros de Gaza eram digitalmente identificados, parametrizados e escolhidos por electrónica e inteligência artificial. Escolhidos os alvos onde supostamente viviam elementos do Hamas e enviadas bombas certeiras para os atingir. Não interessava saber-se quem seria atingido ou sacrificado. Era mais um jogo que divertia quem o jogava mesmo sabendo que matavam famílias inteiras, velhos, mulheres e crianças. Algumas vezes, o elemento identificado supostamente como sendo do Hamas saía ileso. Nada se vê sob a citada luz negra de Telavive, o militar apenas ilustra com um desenho a branco e preto, bairro a bairro, andar por andar, os prédios de Gaza que devem ser destruídos pelas bombas. Apenas um critério, o genocídio em Gaza.

Naturalmente, as imagens omissas vêm recordar o monumental filme de Claude Lanzmann «Shoah» (1985) sobre o Holocausto nazi, Treblinka ou Auschwitz-Birkenau, onde as possíveis imagens são permanentemente substituídas pela das figuras entrevistadas. Nada mais, pois o que se pretendia com o Holocausto não era apenas chacinar um povo, mas destruir-lhe o essencial, o espaço, a história e as memórias.

«Naza», pela sua contundente “noite sem imagens” também recorda o surpreendente filme «A Imagem que Falta» de Rithy Panh (2013) onde Camboja e o seu povo foi despojado integralmente da sua vida da sua cultura, das suas aldeias. Até o nome lhes foi retirado pelo regime de Pol Pot e dos Khmer Vermelho, entre 1975-1979. Um filme que o realizador filmou através da transfiguração das atrocidades por marionetas (numa espécies de “stop motion”) pois tudo o que existia como documentos foi sistematicamente destruído pela ditadura. A memória como futura ameaça.

A memória, uma permanente ameaça para o futuro, como acontece actualmente (e novamente) em Gaza e aqui descrita por quem, a partir de Israel, era pago para obliterar a história e o povo palestinianos, convidados aqueles para um jogo real-letal executado por consolas militares. Afinal, uma certa banalidade do mal, e respectiva oficialização, lembrando Eichmann e as célebres palavras de Hannah Arendt.

Saio do cinema, com a sala quase esgotada e depois de uma salva de palmas por parte dos espectadores. Saio em silêncio, estranhando o ódio sistemático dos isrealitas perante o povo ancestral daquelas paragens, estranho ainda mais um genocídio praticado por que já sofreu um dos maiores horrores da história da humanidade. Talvez o judeu Sigmund Freud soubesse explicar o facto “de uma criança abusada vir a transformar-se num pai abusador”. 

Shoah por Shoah. Ou como quem diz, proverbialmente: “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu”.


jef, outubro 2026

«Naza» de Yuval Abraham e Rachel Szor. Com Yuval Abraham. Argumento: Yuval Abraham e Rachel Szor. Produção: Jonathan Glazer, James Wilson, The Guardian. Fotografia e  montagem: Rachel Szor. Reino Unido, 2026, Cores, 80 min.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sobre o filme «O Vídeo de Benny» de Michael Haneke, 1992



 





















A semente da violência em contraponto com o processo imoral da assunção da culpa.

«O Vídeo de Benny» é uma das obras mais integras e condensadas no abecedário do realizador, onde o fulcro da narrativa se fixa na expressão silenciada, sempre quase silenciosa, de Benny, a expressão da total aparente inocência do actor Arno Frisch (que veremos cinco anos depois em «Brincadeiras Perigosas»). 

Tudo está perfeito no mundo das cassetes vídeo que se alugavam por dias na loja. Tudo está estável na serenidade burguesa da família de Benny, 14 anos. Os pais (Angela Winkler e Ulrich Mühe) passam o fim de semana na quinta e Benny enclausura-se no quarto pouco arejado da casa de Viena. Tudo é filmado e o resultado acumulado nas cassetes é mais verosímil de que a realidade. Benny encontra na loja uma rapariga (Ingrid Stassner), também ela fascinada pelos vídeos na loja e convida-a para casa. Depois, há que experimentar, há que ir mais além.

Tudo é descrito na sombra crua e pixelizada do vídeo. Tudo fica registado para memória futura. Aqui não há culpa, nem sequer remorso. Apenas pragmatismo numa sociedade que se abstém (ou se desvia) da empatia emocional.

Um filme rigoroso e brutal que mostra como Haneke é o mestre da génese da violência e da exegese da suspeição na sociedade ocidental.

Da trilogia da Glaciação fazem parte ainda «O Sétimo Continente» (1989) e «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (1994).


jef, outubro 2026

«O Vídeo de Benny» (Benny’s Video) de Michael Haneke. Com Arno Frisch, Angela Winkler, Ulrich Mühe, Ingrid Stassner, Stephanie Brehme, Stefan Polasek, Christian Pundy, Max Berner, Hanspeter Müller, Shelley Kästner, Wolfgang Böck, Cecile Gordon, Paulus Manker. Argumento: Michael Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Bernard Lang. Fotografia: Christian Berger. Montagem: Marie Homolkova. Som: Karl Schlifelner. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria / Suíça, 1992, Cores, 110 min.

Sobre o livro «O Alienista» de Machado de Assis, Guerra e Paz, Colecção Clássicos n.º 44, 2026 (1882)



 







Como podemos, hoje, interpretar «O Alienista»?

Como uma sintomática charla, quase burlesca, executada em 13 episódios / capítulos, sobre a equidade científica do julgamento perante o próprio acto de julgar a sanidade mental e o afastamento de cada indivíduo face à norma estatística do comportamento humano?

Exemplo 1. «– Trata-se de coisa coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. (…) A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.»

Exemplo 2. Fala o vereador Sebastião Freitas: «– Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?»

Como uma paródia triste sobre o acto político e a volatilidade da ideia colectiva e das convicções sociais?

Exemplo. «Entretanto a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro. (…) A ação podia ser restrita – visto que muita gente, ou por medo, ou por hábitos de educação, não descia à rua, mas o sentimento era unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde – dada a diferença de Paris e Itaguaí – podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.»

Como um romance rápido, em forma de novela (já que foi inicialmente publicada como folhetim num periódico). Sagaz, mordaz, divertido, sarcástico até à medula, imparável de ler.

Exemplo no início. «Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte cinco anos, viúva de um juiz-de-fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes.

(…) D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos»

Acima de tudo, «O Alienista» é um texto muito ágil, um humorístico scherzo quase musical, um tratado nostálgico sobre a eterna impraticabilidade da inteligência humana.


jef, outubro 2026

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre o filme «Natal Amargo» de Pedro Almodóvar, 2025



 


























«Negros Hábitos» (1983), «Tudo Sobre a Minha Mãe» (1999) ou «Fala com Ela» (2002)...

A meio do filme «Natal Amargo» perdi-me na história e comecei a recordar todos os filmes de Almodõvar que me encantaram e encantam ainda. São muitos… Depois voltei a tentar seguir a história e dei-me conta de que estava a apreciar de novo o magnífico colorido, a produção de Agustín Almodóvar, a música de Alberto Iglesias, as linhas definidas pelos corpos das personagens, pelo seu guarda-roupa em contraste com a belíssima composição cénica, os adereços escolhidos a dedo, as actrizes sempre a um passo da comoção ao som da híper-dramática «La Llorona» de Chavela Vargas, e as lágrimas, sempre as lágrimas, nos grandes planos daquelas belas expressões.

Mas e a história?...

Parece que Almodóvar tentou mergulhar em si próprio mas não conseguiu sair da superfície do plano de água – Punindo-se através daquela cena muito particular em que a médica pergunta à personagem principal, Elsa (Bárbara Lennie), que emana do guião que está a ser escrito pelo segundo personagem principal, Raúl (Leonardo Sbaraglia): O que é um “director” (realizador) de culto, se ela faz parte de alguma seita…

O humor esvai-se aos poucos, lentamente, e todas aquelas belas mulheres choram, choram muito. As figuras vêm de um mundo que só a elas próprias diz respeito deixando os espectadores de fora.

A vibração caótica e fulgurante que nos guiava pela fantasia colorida da realidade de «A Lei do Desejo» (1987) ou de «Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos» (1988) ou «Voltar» (2006), onde está? Afinal, o filme vai-se perdendo numa espécie de comiseração flagelada sem nos chegar verdadeiramente ao coração, sem chegar ao climax emocional, tão criativo e tão particular em Pedro Almodóvar.

E é uma pena. Pois eu gostaria muito de ter adorado o filme!

(Felizmente ainda vemos, por momentos, Rossy de Palma).


jef, outubro 2026

«Natal Amargo» (Amarga Navidad) de Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Victoria Luengo, Patrick Criado, Quim Gutiérrez, Carmen Machi, Gloria Muñoz Gloria Muñoz, Nico Martín, Amaia Romero, María Morales, Rossy de Palma, Milena Smit, Aitana Sanchéz-Gijón. Argumento: Pedro Almodóvar. Produção: Agustín Almodóvar. Fotografia: Pau Esteve Birba. Som: Knud Kristensen. Música: Alberto Iglesias. Direcção artística e arte: Antxón Gómez, Isabel Peinado, Carlota Casado. Guarda-roupa: Paco Delgado. Espanha, 2026, Cores, 111 min.

 

Sobre o filme «Laura» de Otto Preminger, 1944



 

































Procuro versões da canção «Laura» (David Raksin / Johnny Mercer). Facilmente encontro nos discos de Ella Fitzgerald ou Julie London, por exemplo. Sem dúvida que a canção ressoa sobre todo o filme, desde o início (sem as palavras de Johnny Mercer), e sobre o retrato de Laura como um dos factos mais misteriosos do filme, tal como a voz off que nos cativa a favor da perspectiva de quem a pronuncia, tomando nós pela voz da verdade. No entanto, o mistério que se adensa em torno do fantasma de Laura (Gene Tierney) e da paixão espiritual e, depois, pós-platónica do detective McPherson (Dana Andrews), é sobretudo um apuro dramático em que todos dialogam sem interrupção sobre um crime que, parece, esses todos, levarem com leve ânimo: Waldo Lydecker (Clifton Webb), Shelby Carpenter (Vincent Price) ou Anne Treadwell (Judith Anderson). O sedutor fantasma, afinal, serve para colocar em confronto quatro ou cinco escalas sociais que surgem mais ou menos aristocráticas mas que todas pertencem à pequena burguesia endinheirada. Salve-se Bessie Clary (Dorothy Adams), a empregada devota e protectora de Laura. E claro, o detective McPherson, esse ser distante e próximo, profissional e apaixonado, em simultâneo.

Leio também com devota atenção a folha da cinemateca de João Bénard da Costa. Tudo ali faz sentido e cobre de senso o argumento que nos vai dando pistas acusatórias sobre todos e a todas elas nega o sentido. Supremo humor! Como será possível que as personagens se persigam constantemente, entrem nas casas uns dos outros (na de Laura, principalmente) com o beneplácito do circunspecto caderninho de apontamentos de McPherson, Numa espécie de filme "de Portas". Todos parecem suspeitar de todos ou todos desejarem ou odiarem, sempre com um sorriso sarcástico ou com matreira displicência.

E ainda temos os decores, os adereços, os fatos e os vestidos, os chapéus! Tudo parece ser feito para em nada o espectador poder acreditar mas cuja verossimilhança não somos incapazes de resistir, como se o espectador representasse a personagem final deste supremo filme negro desses encantados anos 40 do cinéfilo século passado.  


jef, outubro 2026

«Laura» de Otto Preminger. Com Gene Tierney (Laura Hunt), Dana Andrews (Mark McPherson), Clifton Webb (Waldo Lydecker), Vincent Price (Shelby Carpenter), Judith Anderson (Anne Treadwell), Dorothy Adams (Bessie Clary), Kathlenn Howard (Louise), James Flavin (McAvity). Argumento: Jay Dratler, Samuel Hoffenstein e Betty Reinhardt, baseado num conto de Vera Casparay. Produção: Otto Preminger para a 20th Century Fox. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: David Raksin. Guarda-roupa: Bonnie Cashin. EUA, 1944, Cores, 88 min.