segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Insónia









Insónia

A janela aberta respira sobre os montes
O Sol ainda não
O galo canta muito ao longe
Não dá para o ouvir
Não chega para me acordar
A faca não lhe afia o pescoço
Suspeito que canta só para espantar o metal,
aliviar-lhe o fio
Mas o amanhecer próximo, estridente, permanece como o primeiro
que a Terra conheceu
A luz, muita, e a brisa do renascimento
o calor novo,
as penas da galinha
e o canto do galo por escutar
O peso do sono
o estribilho da lâmina


jef, janeiro 2017

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sobre a peça de teatro «As Grandes Dionísias» de Firmino Bernardo & Suzana Branco, Apenas Livros, 2013


No princípio era o verbo. Se o evangelista João tem razão, essa razão vem da palavra dita, ouvida, dialogada. Pois antes, muito antes de Cristo e da palavra como dogma, está a palavra como ritual, como máscara, como reinterpretação. A palavra e o teatro nascem com a humanidade. Fazer teatro não é mentir, é compreender. Luigi Pirandello, Peter Handke, Manuel Halpern, escreveram teatro sobre teatro, a palavra sobre a palavra. Também Firmino Bernardo e Suzana Branco rescrevem a tragédia «As Bacantes» de Eurípedes, estreada em 406 a.C., para entender um grupo de teatro amador em conflito com um encenador de haute culture: «Nunca tentaste compreender-nos». «E vocês, já tentaram compreender o que significa fazer teatro?». «Esqueçam-se de vocês e lembrem-se do espectáculo», põe ordem, finalmente, o Taberneiro, investido como «deus ex machina», coro, actor e encenador. A voz que, com humor e razão, vem salvar a cabeça de Penteu, a cegueira de Agave, o futuro da palavra, a realidade do disfarce, a alegria do público. No princípio é, na verdade, o Teatro. E o teatro lido tem um sabor muito especial. Palavra!

jef, julho 2013

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sobre o realizador Ira Sachs e os filmes «Homenzinhos» (2016) e «O Amor É uma Coisa Estranha» (2014)



















O mais interessante no realizador Ira Sachs é a gestão emocional dos personagens em confronto com a realidade económica e social em que a amizade, o amor e a família, têm de sobreviver.
Dá espaço a Ben (Alfred Molina) e a George (John Lithgow) quando decidem casar em Manhattan, após 39 anos de relacionamento, na sequência da aprovação do casamento entre homossexuais mas, logo depois, surge o desemprego súbito directamente relacionado com a decisão. 
Dá espaço à amizade crescente entre os dois míudos, Jake (Theo Taplitz) e Tony (Michael Barbieri), enquanto os pais de ambos entram em conflito por causa de um contrato de arrendamento e da «gentrificação» (vá lá, Google!) da zona residencial de Brooklyn.
Ira Sachs é mestre em fazer apaixonar os espectadores pelas suas personagens, transmitindo-lhes o carácter profundo da emoção, da transparência, da bondade.
Ira Sachs pretende mobilizar as consciências fazendo-nos crer que iremos assistir a uma sadia e suave comédia (ao ritmo e tempo de um Woody Allen) para, mais à frente, trocar as voltas à gentileza das personagens expondo-as ao embate das circunstâncias de uma cidade formatada pelas leis gélidas do mercado. Afinal, estamos perante melodramas, onde ninguém parece sair ileso.
O amor entre Ben e George é interrompido. A amizade entre Jake e Tony deve findar. O espectador, emocionalmente desamparado, fica sentado na cadeira sem saber o que pensar. A realidade é mesmo assim, os afectos tantas vezes amputados.
Contudo, o cinema não é realidade. Tem de ser mais. Ira Sachs não faz render o ouro que propõe e devia ceder mais tempo ao que narra, mais estética à tragédia.
É essa a estética de «Ladrões de Bicicletas» de Vittorio De Sica (1948), «No Quarto da Vanda» de Pedro Costa (2000) ou «Eu, Daniel Blake» (2016). Tem de haver solução na Arte para a cidade vazia, para a economia abstracta.

jef, janeiro 2017

«Homenzinhos» (Little Men) de Ira Sachs. Com Greg Kinnear, Jennifer Ehle, Paulina García, Alfred Molina, Theo Taplitz, Michael Barbieri e Alfred Molina. Grécia / EUA, 2016, Cores, 85 min.
«O Amor É uma Coisa Estranha» (Love is Strange) de Ira Sachs. John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei. EUA, 2014, Cores, 90 min.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sobre o filme «O Estado das Coisas» de Wim Wenders, 1982


















«Stories only exists in stories (where as life goes by without the need to turn into stor...) Life without stories, it isn’t worth living.» Vamos lendo, vamos ouvindo, por dentro de um filme.
Vivemos em permanência entre o passado terminado e o desejo de um futuro permanentemente fora do nosso alcance. O que fazer com a fina epiderme do presente sem possibilidade de história ou redenção? «O Estado das Coisas» assume a tese, a antítese, a síntese do paradigma.

«Os Sobreviventes» está a ser rodado em Sintra. O Planeta não oferece condições e as famílias caminham à procura de um lugar seguro que as acolha… mas a película termina, o financiamento não aparece, Hollywood distancia-se, os actores e toda a equipa de rodagem ficam suspensos numa Lisboa que aguarda salvação. O realizador Friedrich Munro (Patrick Bauchau) parte em busca de dinheiro e de Gordon (Allen Goorwitz), produtor desaparecido, mas Los Angeles espera também pelo presente. Nada a fazer! Aguardemos também.

«A vida pode ser a cores mas o preto e branco é mais realista!» diz Samuel Fuller, o realizador, aqui Joe, o cameraman. A América quer seduzir a Europa mas já ninguém vê filmes a preto e branco. Já ninguém olha para o passado. Relíquia Macabra, Sublime Expiação. Charles Laughton, Jonh Ford, Douglas Sirk, John Huston…
Mas o sonho do futuro permanece por cumprir (tese) e apenas nos agarraremos às imagens que ficam captadas no passado (antítese). Em «O Estado das Coisas» cada plano é afinal a absoluta síntese estética desse desamparo, dessa multifacetada angústia e declínio.

América, Europa, para que as queremos? 
Haverá ainda algum planeta seguro onde o presente não se derreta inexoravelmente? Quais as palavras inventadas pelos alemães para dizer naufrágio, suspensão, tédio?

jef, janeiro 2017

«O Estado das Coisas» (Der Stand der Dinge / The State of Things) de Wim Wenders. Com Patrick Bauchau, Geoffrey Carey, Isabelle Weingarten, Jeffrey Kime, Rebecca Pauly, Jeffrey Kime, Camilla Mora, Alexandra Auder, Paul Getty III, Viva Auder, Samuel Fuller, Artur Semedo, Francisco Baião, Robert Kramer, Allen Goorwitz, Roger Corman, Martine Getty, Monty Babe, Janet Rasak, Judy Moradian. Música: Jürgen Knieper. Portugal / EUA / Alemanha, 1982, Cores, 121 min.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sobre o filme «Uma História de Amor» de Spike Jonze, 2013


















Amor em valor absoluto. Solidão e transparência.
Há muito que não se via um filme de «ficção científica» tão claro nos propósitos teóricos, tão definido na estratégia da imagem, na escolha dos edifícios, das cores, na gestão dos espaços interiores e exteriores, na concepção do guarda-roupa, das canções. Uma espécie nova de «comédia romântica» a ser contemplada através de dois aspectos fundamentais: a solidão e a transparência. A solidão dos olhares de Theodore (Joaquin Phoenix) e Amy (Amy Adams) face à transparência da voz de Samantha (Scarlett Johansson). A solidão de um futuro onde as missivas de amor permanecem escritas por eruditos encartados, a transparência de uma arquitectura onde a vida e os corpos dos cidadãos não são expostos mas acarinhados na eterna busca de uma definição interior de amor. Mas é na definição, pública e única, que o cinema tem oferecido do amor que o título traduzido excede em significado o original. Esta história de amor não é virtual, é real, muito real, por isso também pode ser vista como «tragédia» sobre a solidão e a transparência do dia-a-dia futuro. A transparência do poder de um argumento sustentado por diálogos em solidão perfeita.

jef, fevereiro de 2014

«Uma História de Amor» (Her) de Spike Jonze. Com Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Chris Pratt, Rooney Mara, Kristen Wiig. EUA, 2013, cores, 126 min.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Jacarandá Jacaranda mimosifolia D. Don


 as fotografias são do querido colega José Carlos Figueiredo






















jacarandá, palissandra
Família Bignoniaceae (Bignoniáceas)

Originária da América do Sul (Argentina, Bolívia, Brasil) é uma árvore caducifólia de porte médio, de crescimento relativamente rápido, que atinge cerca de 15 m de altura. Possui uma copa ampla, arredondada a irregular, e o tronco, de 30 a 40 cm de diâmetro, é ligeiramente retorcido; com casca clara e lisa quando jovem, que se torna rugosa e mais escura com a idade. Gosta de humidade, prefere lugares abertos, ensolarados, solos férteis e bem drenados. A sua madeira é muito dura e tem excelentes propriedades mecânicas.

As folhas são amplas, opostas, recompostas e imparipinuladas, com 20 a 45 cm de comprimento, com pequenos e numerosos folíolos ovado-acuminados.

As flores, até 6 cm de comprimento, azul-violáceo, são hermafroditas e dispostas em panículas terminais, de corola bilabiada com o tubo curvo.

O fruto é uma cápsula oval, de 5 a 8 cm de diâmetro, bivalve, grande e lenhosa, achatada, de contorno irregular, deiscente, com numerosas pequenas sementes aladas.

As flores surgem de Maio a Julho, por vezes Agosto e Setembro, antes de se desenvolverem as novas folhas. Pode acontecer também de forma extemporânea e nem em todas as árvores ao mesmo tempo. Os frutos aparecem de Maio a Setembro.

Não serão muitos os que ficam indiferentes à tonalidade violeta que as flores tubulares dos jacarandás deixam sobre as ruas e os jardins, essas flores que precedem a folhagem frágil, semelhante aos fetos que se desenvolvem sobre o tronco das árvores (epífitos). A chegada de novas cores lembra novas estações e novas esperanças. Aligeirando a paisagem de Lisboa, as árvores cujos frutos, noutros lugares, são comparados a castanholas ou a ostras, agrupam-se ostensivamente discretas no Parque Eduardo VII, no Campo Pequeno, no Largo do Carmo, nas Avenidas Novas, na rua D. Carlos I… António Barreto, um declarado devoto a estas árvores, tal como o nome do seu blogue o confirma, escreve «No meio desta ansiedade, uma notícia ajuda a dormir em paz. Uma só certeza: a de que os jacarandás floriram!» (Público, 1995). O Centro Nacional de Cultura promove anualmente passeios para olhar a sua luz. Eugénio de Andrade refere que as suas flores prenunciam o Verão glorioso. O modo como os urbanistas têm difundido a plantação de jacarandás nos arruamentos das cidades portuguesas, principalmente em Lisboa, revela-se um caso muito feliz de comunhão estética com os respectivos cidadãos.

João Eduardo Ferreira
_______

AOS JACARANDÁS DE LISBOA
Eugénio de Andrade

São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.


in «Os Sulcos da Sede» 2001

* botânica


Sobre o livro «Diários Portugueses» de Curt Meyer-Clason, Documenta, 2013


















Literatura. Acção e liberdade.
Dizem da literatura ser coisa difícil de definir, tantas as formas pelas quais se manifesta. «Diários Portugueses» escritos por Curt Meyer-Clason, documentando a sua passagem como director do Instituto Alemão, em Lisboa, no período de 1969 a 1976, são exemplo dessa liberdade literária. O livro lê-se como uma novela onde são descritas, de modo romanesco, personagens únicas em situações únicas (José Cardoso Pires, Natália Correia, Ruben A., Luandino Vieira, ou Beatriz, a mulher das limpezas). Coloca essas e muitas outras figuras dentro de uma Lisboa cujos cantos, recantos e arredores, identificamos com um prazer quase oitocentista. Transforma o estilo diarista, por princípio intimista, na proposta mundana das crónicas contemporâneas, ou dessas outras antiquíssimas que falavam em novas dinastias e revoluções. Tal como nos anos apaixonados de 1969 a 1976. Conhecer Portugal, a Europa e o Mundo, durante esse período, pela escrita modelada, inventiva, satírica do autor, é igualmente um modo de rever a História de forma muito moderna. Curt Meyer-Clason, através do lema: «não devemos viver do trabalho mas viver no trabalho», revela a paixão com que usou a cultura e a literatura para alterar o modo de encarar os obstáculos. Abriu assim as portas transparentes do agora Goethe-Institut aos autores e aos leitores, contornou a censura e a Pide para devolver à cidade a nova poesia, o novo teatro, a nova narrativa. Chamou a atenção para um Mundo que exigia a metamorfose urgente, deu outra definição para Portugal, «essa esponja onde se morde e se parte os dentes».
Os Diários de Curt Meyer-Clason ampliam a difícil definição de literatura, evidenciando que na sua estrutura crítica habitam indeléveis: a liberdade de pensamento e a acção para a cidadania. 
[Atenção ao posfácio de João Barrento que tão bem traduz este livro.]

jef, agosto 2014