domingo, 20 de outubro de 2024

Sobre o filme «Ossos» de Pedro Costa, 1997


 

































«Ossos» é um filme inquietante. Extremamente inquietante. Surge como antecâmara, três anos antes, do colossal «No Quarto da Vanda». Contudo, este não é menos colossal, não é menos belo através da sua recente digitalização.

As imagens (agora) sucedem-se, brilhando quase renascentistas, perante o romantismo quase naturalista destas personagens cujo rumo é tão forte quanto decadente. Sem eira nem beira, sem passado, sem futuro, de presente rasurado.

A história não dá tréguas ao espectador, sincopada, alterada, resignada porque não revoltada nem desesperada. Romântica porque não neorrealista, naturalista porque a vida de Clotilde (Vanda Duarte), Tina (Maria Lipkina) e Eduarda (Isabel Ruth) vivem na espuma da ressaca de uma maré cujo refúgio é, e será sempre, a amizade, mesmo que fracturada pelo infortúnio brutal de uma vida que não as deseja…

Isabel Ruth e o serviço doméstico (e muito mais) transporta-me a «Os Verdes Anos» de Paulo Rocha, 1963.

Um belíssimo filme sobre a inconsequência da vida.


jef, outubro 2024

«Ossos» de Pedro Costa. Com Vanda Duarte, Nuno Vaz, Maria Lipkina, Isabel Ruth, Inês de Medeiros, Miguel Sermão, Berta Susana Teixeira, Clotilde Montron, Zita Duarte, Beatriz Lopez, Luísa Carvalho, Ana Marta, Carolina Eira, Ricardo Tavares. Produção: Paulo Branco. Imagem: Emmanuel Machuel. Guarda-roupa: Isabel Favila. Portugal, 1997, 94 min.





quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Sobre o filme «As Filhas do Fogo» de Pedro Costa, 2023


















Os nove minutos de Pedro Costa são como um evangelho apócrifo. Um humilde mas sumptuoso retábulo tríptico onde três mulheres-irmãs olham e espreitam o fogo, ou para lá do fogo, e cantam o que está para lá da vida. Cantam e sofrem o que o esquecimento tem de ignóbil por desprezar a memória e a dor para além do tempo.

Nove minutos para que a beleza nos fique suspensa sem modo, moda ou modelo.

Um hiato no tempo sem termo.

Um requiem pelo eterno padecimento da humanidade.

O ícone da beleza colossal.


jef, outubro 2024

«As Filhas do Fogo» de Pedro Costa. Com Elizabeth Pinard, Alice Costa e Karyna Gomes. Produção: Marta Mateus / Clarão Companhia. Imagem: Leonardo Simões. Montagem: Vítor Carvalho. Música: “Passacaglia” de Biagio Marini (OP. 22); Canção de embalar ucraniana tradicional. Composição e direcção musical: Marcos Magalhães. Gravação de vozes e mistura: Hugo Leitão. Gravação de instrumentos: Pierre Lavoix. Excerto de “A Erupção do Vulcão da Ilha do Fogo” de Orlando Ribeiro, 1951. Portugal, 2023, 9 min.

 

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Sobre a peça «Querido Evan Hansen» de Steven Levenson, Benj Pasek e Justin Paul, 2024




































Em Lisboa (em Portugal), surge teatro do bom, inteligente e popular, por todas as salas. Teatros que se enchem de público e para todos os gostos.

Fui ver ontem o meu primeiro musical ao vivo e, confesso, ia muito de pé atrás pois tenho sempre relutância de me afastar dos meus preconceitos paradoxais.

Porém, com «Querido Evan Hansen», entendi que se devem deitar fora todos os paradoxos preconceituosos. Um musical que fala de famílias apressadas, sem tempo para escutar, miúdos-graúdos dentro da solidão e do distanciamento social, do suicídio jovem, da depressão, do alheamento, das notícias falsas, da crise das redes sociais e da necessária solidariedade para nos apartarmos, miúdos e graúdos, do declíneo fatal a que o isolamento pode conduzir.

Um facto, e estava absolutamente convencido que não iria emocionar-me, um facto é que botei alguma lágrima.

Sem quaisquer artefactos cenográficos para além de uma cama, sofás e uma mesa que, girando, provocam as mudanças de cena, a atenção pede os múltiplos ecrãs que não legendavam mas atribuíam significado ao despojamento do palco e à extenuante velocidade (des)informativa dos ecrãs pessoais e actuais. Lá atrás a orquestra toca.

Evan Hansen (João Sá Coelho), entre o secundário e a universidade, é invectivado pela híper-ocupada-apressada mãe, Heidi Hansen (Gabriela Barros), a seguir o conselho do médico e começar a escrever regulamente a si próprio cartas de auto-motivação: «Querido Evan Hansen, hoje vai ser um dia bom». Tudo isto se passa nos primeiros minutos e quase surge como tema publicitário da peça. Evan Hansen vive sob o regime da ansiedade ou da inadaptação às expectativas maternais ou à própria desadaptação interior. Não tem amigos, talvez até sofra de bullying e tem as mãos constantemente suadas por nervoso. Porém ao perder a carta que escreveu e fora imprimir, a sua vida muda de figura…

É muito interessante como a sobriedade cenográfica apenas faz concentrar o espectador na intriga que se desenrola a partir de uma certa mentira impiedosa ou da benevolência que o acaso tantas vezes oferece.

Esqueçam o velho teatro de intervenção. Aqui está a arte contemporânea a tentar impedir que o mundo ainda se enterre mais no buraco que anda a escavar hoje em dia.


jef, 13 de outubro de 2024

«Querido Evan Hansen». Texto: Steven Levenson. Música: Benj Pasek e Justin Paul. Encenação, tradução e adaptação: Rui Melo. Com Dany Duarte (Connor), Gabriela Barros (Heidi Hansen), Miguel Raposo (Larry Murphy), Sílvia Filipe (Cynthia Murphy), Brienne Keller (Alana), Inês Pires Tavares (Zoe Murphy), João Maria Cardoso (Jared) e João Sá Coelho (Evan Hansen), e com os Músicos: Artur Guimarães (teclados), Tom Neiva (bateria), André Galvão (baixo), Marcelo Cantarinhas (guitarra), João Valpaços (violoncelo) e Inês Nunes (viola de arco). Cenografia: Eric da Costa. Direcção Musical: Artur Guimarães. Movimento: Bruno Cochat. Figurinos: Rui Lopes. Desenho de Luz: Cristina Piedade. Desenho de som: Sérgio Milhano. Vídeo: Pedro Prata. Produção: Força de Produção. 110 minutos.

Teatro Maria Matos, de 11 Setembro a 3 Novembro.

Quinta a Sábado às 21h e Domingo às 17h.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Sobre o livro «A Varanda do Frangipani» de Mia Couto, Círculo de Leitores 1997










Na varanda sobre o Índico todos são prisioneiros. A Fortaleza de São Nicolau é uma irremediável tumba, cárcere, asilo, paiol, ilha rodeada de passado e de mar por todos os lados. Também de história, guerra e malfeitoras. Também de amor, silêncio e sorrisos. Parece que o autor encafuou todo o continente moçambicano dentro das muralhas daquele minúsculo lar para idosos. Uma espécie de terreiro ou vaso onde pernoita o aroma das flores de uma única árvore – o frangipani. Um espaço onde se vão acumulando as escamas de um tal pangolim, animal de estimação do futuro que durante as chuvadas surge para contar as novidades.

Afinal, irá chegar Izidine Naíta, um polícia de investigação que tenta encontrar suspeitos pela morte inexplicada de Vasto Excelêncio cujo corpo terá ficado entre marés, água salgada e pedregulhos. Contudo, aquele apenas possui seis dias de investigação e transportará no interior o morrediço Ermelindo Mucanga, um pré-falso-herói-morto que com relutância volta ao mundo dos vivos. Enfim, a relutância esvai-se quando o corpo do polícia faz a alma de Ermelindo aproximar-se da beleza da enfermeira Marta Gimo.

Tudo resto está contido nos depoimentos realizados pelos velhos e pelas velhas, falsos viventes porque prisioneiros dos seus próprios corpos.

Um romance que faz de Moçambique uma espécie de jardim interior, a fortaleza de São Nicolau, formoso e habitado por morcegos e andorinhas, contido na redoma da sua imaginativa crença animista e de um passado ecológico e poético.


jef, outubro 2024

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Sobre o filme «Grand Tour» de Miguel Gomes, 2024

 




 

















Como um grande piscar de olho às viagens de Júlio Verne, Miguel Gomes entrega o passaporte à imagem que corre lesta sob os nossos olhos enquanto vamos perseguindo a perseguição que Molly (Crista Alfaiate) faz ao seu noivo Edward (Gonçalo Waddington) que foge a sete pés de Rangum, na Birmânia, mal sabe da sua chegada, para depois passar por todas as latitudes orientais. A voz off conta a história na língua do país que vamos olhando. A narração e a leitura dos telegramas pertencem a 1918, porém as imagens são de uma época muito para cá, talvez contemporâneas, não sabemos. Pouco sabemos, aliás. O cenário é real mas a ficção assenta-lhe bem. Quase não precisamos de lhe dar atenção, porque a fotografia é rainha e o som é rei. A música descentra a narrativa.

Também em «As Aventuras de um Chinês na China» de Júlio Verne ou «Tokyo-Ga» de Wim Wenders (1985) o exotismo e a estranheza que provoca o ambiente oriental a um ocidental são temas maiores. A discrepância temporal e a perturbação cenográfica e sonora fez-me lembrar muito vagamente a linha operática de um dos filmes do meu coração: «O Navio» de Federico Fellini (1983).


 jef, agosto 2024

«Grand Tour» de Miguel Gomes. Com Gonçalo Waddington, Crista Alfaiate, Cláudio da Silva, Lang Khê Tran, Jorge Andrade, João Pedro Vaz, João Pedro Bénard, Teresa Madruga, Joana Bárcia, Diogo Dória, Jani Zhao, Manuela Couto e Américo Silva. Argumento: Mariana Ricardo, Telmo Churro, Maureen Fazendeiro, Miguel Gomes. Produção: Allan Ekelund. Fotografia: Rui Poças AIP ABC, Sayombhu Mukdeeprom, Gui Liang. Som: Som: Vasco Pimentel, Li Kelan. Portugal / França / Itália / Alemanha / Japão / China, 2024, P /B e Cores, 128 min.

 


«A Sogra de Luís XIV» de Georges Feydeau, Teatro Comuna, 2024

 



 26 de setembro 2024

«A Sogra de Luís XIV» Texto: Georges Feydeau. Tradução: Luís Francisco Rebelo. Direcção e Espaço Cénico: João Mota. Com Maria Ana Filipe (Ivone), Hugo Franco (Luciano), Maria D’Aires (Maria), Miguel Sermão (José). Cenografia e Pássaros: Renato Godinho. Desenho de Luz: Rogério Vale. 60 minutos. Teatro Comuna, de 19 de Setembro a 19 de Outubro de 2024.

 


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Sobre o livro «Crónicas Marcianas» de Ray Bradbury, Cavalo de Ferro 2021 (1950-1977). Tradução de Paulo Tavares.

 

Estas crónicas realistas situam-se entre Janeiro de 2030 e Outubro de 2054. Mas dir-se-ia que foram escritas para serem lidas em Outubro de 2024. Um anacronismo histórico e futurista de que Ray Bradbury é exímio.

Um facto é que tudo começa por um Verão extemporâneo provocado pelo lançamento de um foguetão, no Inverno. Enfim, imaginárias alterações climáticas. Depois vêm os sonhos mais ao menos húmidos, mais ou menos desiludidos, da Senhora K onde alguém, de olhos azuis, canta velhas canções inglesas. Nathaniel York. O planeta das montanhas azuis está prestes a receber a visita de humanos terrestres. Depois chegam o capitão Williams e o capitão John Black. Mais tarde chegam humanos aos milhares, aos milhões. A invasão de Marte aniquila os autóctones, ou deixa uns poucos a pairarem em leves esferas azuis para lá das montanhas. Extermínio ou aculturação ou gentrificação. O planeta seguinte enche-se de homens que fogem da sua humanidade. Podem, agora, do planeta Azul ter uma visão ampla do planeta Verde que deixaram. Porém, este definha com a ameaça de uma guerra nuclear total… Coisas imaginadas!

Enfim, Ray Bradbury apaixonado pelo antigo Egipto e por Edgar Allan Poe assume nestas crónicas a verdadeira condição humana, entre o humor, a tragédia e o eterno esquecimento. E o tempo, aqui, é coisa abastracta, logo sem relógio ou calendário estabelecidos.

Livro maravilhoso e premonitório. Nem o próprio Ray Bradbury imaginaria. Tirem-no da secção “Ficção Científica” e coloquem-no em “Ensaio Histórico e Social”. Uma pérola de profunda ironia, sarcasmo benevolente e ternura pelo bicho-homem, esse que é eternamente irresponsável, eternamente infantil. Mas também potencialmente amorável.

 

jef, setembro 2024