quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sobre o filme «A Dançarina» de Hiroshi Shimizu, 1988



 




















Este filme coloca-nos uma dúvida muito interessante, talvez mesmo intrigante, ao ser observado na perspectiva de uma sociedade de cultura cristã. A chegada com um breve aviso da jovem endiabrada, libidinosa, sempre cheia de apetite e curiosidade, Chiyomi (Machiko Kyo), a casa de sua irmã Hanae (Chikage Awashima), casada com Yamano (Eiji Funakoshi) – ela bailarina, ele violinista numa casa de espectáculo de variedades –, vem perturbar toda a rotina melancólica do circunspecto casal. Não só do casal mas dos bastidores e de todo o teatro. A presença de Chiyomi também não passa despercebida ao encenador e coreógrafo dos espectáculos.

Parece que Chiyomi transporta toda a série de tentações e pecados que o mundo do teatro de variedades, em jeito Ziegfeld Follies, parece sugerir – ela aprende depressa os números e actua como a irmã nunca conseguiu, ela vive mais, vive alegre e transgride. O mundo teatral, jovial e luminoso, contrasta ostensivamente com o apartamento sombrio e invernoso onde o trio agora vive.

Contudo, o que mais surpreende no filme é a capacidade (cristã!) do perdão se sobrepor ao pecado e de, numa constante dicotomia de claro e escuro, campo contracampo, sorrisos e apreensão, amor e desconfiança, silêncio e ofensa, sobrevivência e regeneração, até de crime e desculpa, o filme oferecer-nos a possibilidade de redenção e de uma possível triste felicidade, cristalizada no futuro.

«A Dançarina» toca de modo abstracto, sem verdadeiramente tocar, relembra talvez, a obra-prima do autor «Imagem de Uma Mãe» (1959), e não será apenas pela presença inesquecível da actriz Chikage Awashima.

O perdão será sempre uma das principais estratégias para a sobrevivência.

 

jef, abril 2026

«A Dançarina» (Odoriko) de Hiroshi Shimizu. Com Chikage Awashima, Machiko Kyo, Eiji Funakoshi, Haruo Tanaka, Keiko Fujita, Noriko Hodaka, Hiroko Machida. Argumento: Sumie Tanaka segundo o romance de Kafu Nagai. Produção: Ikuo Kubodera, Masaichi Nagata / Estúdio Daiei. Director de arte: Atsuji Shibata. Fotografia: Tomohiro Akino. Música: Ichiro Saito. Japão, 1957, P/B. 96 min.

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