Jonás
Trueba parece rejeitar a inevitável comparação do seu filme com os de Éric
Rohmer. Compreensível a comparação, bem como a sua rejeição. Também neste, as
personagens vogam num mundo sem sistema, apenas levados por uma história sem
aparente importância, entre o camião do lixo que está a chegar e o engano numa estação de comboios, pelas palavras de um livro, por um dia sem trabalho a
passear no campo dos arredores de Madrid. Ao espectador é-lhe oferecido de bandeja o tempo para ouvir a banda sonora tocada por Chano Domínguez, Bill Frisell ou
Bill Callahan enquanto contempla os olhares, ora velados ora cristalinos,
dos dois casais que se encontram, finalmente, num qualquer dia durante a
pandemia. É nesses olhares que reside toca a história do filme.
A
grande diferença entre os dois realizadores está no modo enciclopédico com que
o francês filma, por ordem e método, expondo directamente o final como tese definitiva, e o subjectivo elo cinematográfico de Trueba que nunca conta a história por inteiro, deixando a
infelicidade ou a desconstrução da vida comum nos interstícios de um suave almoço
de borrego assado ou no jogo a pares de pingue-pongue. Ou na hipotética análise
de um torço de Apolo cuja perfeição estética e dialogante reside exactamente na
ausência do rosto e dos membros.
Se
Rohmer faz tese nos seus magníficos filmes, Trueba apenas lança a brilhante hipótese
num possível sorriso, numa provável melancolia, na dúvida terna de um
improvável recomeço. Rohmer surge com super-narrador. Trueba, como intra-observador.
Já agora, lembrei-me ainda, ao sair do cinema, dos filmes incompletos e musicais de Kelly Reichardt
jef,
fevereiro 2023
«Têm
de Vir Vê-la» (Tenéis que venir a verla) de Jonás Trueba. Com Itsaso
Arana, Francesco Carril, Irene Escolar, Vito Sanz, Chano Domínguez, Jonás
Trueba. Argumento: Jonás Trueba. Produção: Javier Lafuente e Jonás
Trueba. Fotografia: Santiago Racaj. Música: Chano Domínguez, Bill Frisell, Bill
Callahan. Espanha, 2022, Cores, 64 min.
Sem comentários:
Enviar um comentário