domingo, 27 de dezembro de 2020

Sobre o filme «O Mal Não Existe» de Mohammad Rasoulof, 2020































Bella Ciao!

Este é um filme belo e importante. Mesmo muito belo e muito importante. Defende uma causa, infelizmente ainda universal e cada vez mais actual. Um filme contra a hedionda pena de morte que  sublinha a objecção de consciência por parte de quem a tem de executar. Ganhou o urso de ouro no Festival de Berlim e levou o seu realizador Mohammad Rasoulof à prisão e à proibição de realizar filmes por propaganda contra o regime iraniano.

O mais interessante é o facto das quatro histórias, independente entre si, conjugarem-se, interligando-se moralmente não pela perspectiva do executado mas do executante e da possibilidade de recusa por parte deste. As histórias vão apontando o dedo à ignomínia de modo cada vez mais profundo perante a falta de ética daquele acto bárbaro. A primeira história conta a vida simples e honesta, o modo pacato, respeitador, inocente de um carrasco. A segunda acelera e coloca a questão do crime institucionalizado por norma legal, descriminalizando o criminoso, terminando com uma fuga da prisão e uma cancão: Bella Ciao! A terceira vai derrotar o encantamento de um noivado pela brutal consciência de um crime “involuntário”, na execução de um ser amado e inocente. A quarta conclui o ciclo inteiro de uma vida escondida e adulterada por uma evasão que evitou o perpetrar da execução. A confissão do facto, no final da vida, destrói as ligações e impossibilita o amor entre gerações.

O realizador junta-se a Jafar Panahi e a outros realizadores impedidos de filmar por crime de rebeldia contra o Estado de um país com uma cultura e uma cinematografia fulgurantes. E apesar de não conter o brilho narrativo de Abbas Kiarostami, todas as quatro histórias são inscritas numa beleza emocional quase dorida, incontida pela linha narrativa livre e ágil que nos faz recordar as histórias maravilhosas com que a antiga Pérsia nos vem encantando até aos dias de hoje.   

    

jef, dezembro 2020

«O Mal Não Existe» (There Is No Evil) de Mohammad Rasoulof. Com Ehsan Mirhosseini, Shaghayegh Shourian, Kaveh Ahangar, Mahtab Servati, Baran Rasoulof. Argumento: Mohammad Rasoulof. Fotografia: Ashkan Ashkani. Música: Amir Molookpour. Produção: Farzad Pak, Mohammad Rasoulof, Kaveh Farnam, Farzad Pak. Irão / Alemanha / República Checa, 2020, Cores, 151 min.

 

Sobre o filme «Um Lugar à Beira-mar» de Takeshi Kitano, 1991































Se existe uma palavra para descrever o filme, essa palavra é «candura».

Toda a vida está aqui contida, simples ou complexa. Tão nostálgica, tão efémera, tão profunda. Tão bela. Fico com a mesma sensação de plenitude que fiquei ao ver essa absoluta obra-prima de Abbas Kiarostami «Close-up» (1990). Nada mais se pode acrescentar ao modo de olhar os dias que vão correndo, assim muito depressa, ou tão devagar.

Shigeru (Kurodo Maki) é surdo-mudo e trabalha na recolha de lixo. Namora com Takako (Hiroko Oshima), também surda-muda. Encontra uma prancha de surf partida, restaura-a e começa a surfar. O seu sonho concretiza-se. De início, não é fácil, sob o riso dos surfistas mais experientes mas sempre sob o olhar complacente, quase devoto, de Takako. Com o ordenado seguinte compra uma prancha profissional. Abnegadamente, vai melhorando a olhos vistos e um professor, dono de uma loja de surf, oferece-lhe um fato e insiste para que participe nos torneios federados. Na praia, falha o primeiro porque não ouvem a chamada. Mas vence um troféu no seguinte. Shigeru oferece o seu velho fato a um novo iniciado. O ciúme aparece, assim como uma furtiva lágrima. Depois, o ciúme desaparece. E uma prancha surge na praia vazia.

Takeshi Kitano conta tudo em silêncio como em homenagem ao inicial átomo cinematográfico, enquanto se vão ouvindo uma série de “gnossianas” melancolicamente joviais de Joe Hisaishi.

Tudo filmado como se os actores estivessem numa plateia e a câmara fixa filmasse na exacta perpendicular de cada uma das filas ou no perfeito paralelismo dos passos dos personagens, em travellings que não hesitam nem cruzam. Como se estivéssemos a ouvir uma história para crianças ou uma parábola bíblica.

Para que não restem dúvidas de que a dúvida é certa.

No fim, todos regressam, como no teatro, agora na praia, agradecendo com risos e pantomimas o aplauso silencioso de uma câmara genial!


jef, dezembro 2020

«Um Lugar à Beira-mar» (A Scene at the Sea / Ano natsu, ichiban shizukana umi). Com Kurodo Maki, Hiroko Oshima, Sabu Kawahara, Toshizo Fujiwara, Susumu Terajima, Katsuya Koiso, Toshio Matsui, Yasukazu Ishitani, Naomi Kubota, Tsuyoshi Ohwada, Tatsuya Sugimoto, Meijin Serizawa, Tetsu Watanabe, Keiko Kagimoto, Kengakusha Akiyama. Argumento e Montagem: Takeshi Kitano. Fotografia: Katsumi Yanagishima. Música: Joe Hisaishi. Produção: Masayuki Mori e TakioYoshida. Japão / 1991 / Cores / 96 min.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Felizes Juntos» de Wong Kar Wai, 1997


































Wong Kar Wai sente-se tão à vontade em Buenos Aires como em Hong Kong. Melhor. É Buenos Aires que o prende e motiva a sua linguagem colorida e musical, feita de pormenores, aproximações microscópicas, sorrisos velados, lágrimas apartadas, para que a história de amor e repúdio nunca caia em melodrama e persiga a sua via caminhando até ao farol argentino do fim do mundo. O farol onde as mágoas se podem libertar, libertando quem delas é cativo.

No início, sobre a garganta furiosa das águas do Iguaçu Caetano Veloso canta “Cucurrucucu Paloma”. Mas os dois namorados Lai Yiu Fai (Tony Chiu-Wai Leung) e Ho Po Wing (Leslie Cheung), já desentendidos, não a chegarão a ver juntos. Lai segue para Buenos Aires e trabalha diariamente em vários empregos. Ho percorre a cidade à procura de aventuras e namorados. Até que, após uma luta, este aparece ferido junto a Lai que o recolhe com carinho, cuidando e alimentando-o, mas reprimindo o amor que ainda lhe guarda. Mais tarde, Lai descobrirá a dádiva cerimoniosa do amor junto de um colega de cozinha onde trabalha, Chang (Chen Chang), que levará as suas penas até ao fim do mundo num gravador de cassetes.

O mais espantoso é que o modo denso, tenso mas ao mesmo tempo terno e fugaz, híper-realista, com que nos é mostrado o quarto onde os dois amantes vivem, subtraindo-lhe a provável claustrofobia, mostrando antes a aproximação (e a simultânea recusa) de um amor desejado mas irrealizável. Tudo em torno de um candeeiro que, quando aceso, exibe a queda de água nas cataratas do Iguaçu. Símbolo de uma falhada estação de chegada mas também de um hipotético porto de abrigo.

As cenas no interior do quarto lembraram-me a forma amorosa com que Jim Jarmursch acarinha as personagens. As cenas nas estradas distantes em busca de um Iguaçu perdido, recordou-me Wim Wenders e as suas viagens para resgatar ou esquecer a sombra funesta do passado.

Tudo narrado com o difícil equilíbrio entre a tragédia do amor imperfeito e a esperança da redenção no futuro.

Uma belíssima história de amor, tão impossível quanto comum.


jef, dezembro 2020

 «Felizes Juntos» (Happy Together) de Wong Kar Wai. Com Tony Chiu-Wai Leung, Leslie Cheung, Chen Chang, Gregory Dayton. Argumento: Wong Kar Wai e Manuel Puig, segundo um romance deste último. Fotografia: Christopher Doyle. Música: Danny Chung. Canções: “Cucurrucucu Paloma” por Caetano Veloso, Astor Piazzolla, “Happy Together” por The Turtles. Produção: Produção: Wong Kar Wai, Chan Ye Cheng, Hiroko Shinohara, T.J. Chung, Jet Tone Films. Hong Kong / China, 1997, P/B e Cores, 96 min.

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Sobre o «Jornal de Natal», The Inspector Cheese Adventures & Xerefé edições, Dezembro 2020.


 






































Não existe mais nenhum jornal como este!

O melhor presente de Natal! E tão em conta!

São 24 páginas para 23 artistas que ilustram um Natal como deve ser. Mesmo em papel de jornal, 41 x 29 cm. Dos antigos, a preto e branco, sem agrafos, páginas grandes que, ao desdobrar, se sacodem um pouco para folhas se endireitarem.

Imagens preenchendo todo o nosso campo de visão, abarcando-o, motivando-o, espevitando-lhe a lembrança de passados recentes e velhos futuros.

As imagens parecem antigas mas são muito novas. Parecem uma sucessão de documentos ilustrados, notícias sem tempo, anúncios publicitários fora de moda. Exactamente como os calendários do Advento ilustrados, com janelinhas para abrir e observar com o microscópio do desejo.

Que a página seguinte, a 25ª, a do próximo ano 2021, seja ilustrada pelos sonhos que todos merecemos e imaginamos.

 

jef, fevereiro 2020

 

Postos de venda do «Jornal de Natal» (1 euro). AÇORES: Companhia das Ilhas. AVEIRO: Gigões e Anantes. BRAGA: 100a Página. COIMBRA: Escola da Noite. ÉVORA: Fonte de Letras. LISBOA: Baobá, it’s a book, Leituria, Lusco Fusco, Snob, STET, Tinta nos Nervos. PORTO: Poetria. SINTRA: Hipopomatos. VILA NOVA DE GAIA: Velhotes. VILA REAL: Traga Mundos.

Editores: Ana Biscaia e André Ruivo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Anjos Caídos» de Wong Kar Wai, 1995












Surge como uma série de quadros remanescente do filme anterior, «Chungking Express» (1994). Dois personagens com as suas histórias percorrem esteticamente a noite imparável de Hong Kong, iluminada por néons, ao som do chocalhar das pedras de Majongue. Uma noite que, apesar de atafulhada de gente, de snack-bares orientais e diners fumarentos mantém cada um deles no seu mundo perfeito e solitário. Wong Chi-ming (Leon Lai) é assassino profissional e recebe mensagens por fax com os trabalhos a executar. Ho Chi-mo (Takeshi Kaneshiro), foge à polícia, vive com o pai, não fala, obriga todos os que encontra a serem seus clientes em negócios que foi engendrando: geladaria, talho, lavandaria, barbearia. O primeiro não deseja conhecer a sua parceira de profissão por temer apaixonar-se. O segundo aprende a filmar em vhs e grava o último bife que o pai lhe frita. Uma rapariga de cabelos louros difíceis de esquecer une os dois personagens. Uma das canções da jukebox contém um derradeiro recado.

Talvez seja o filme em que o próprio realizador se deslumbra com o deslumbramento da sua própria linguagem, levando o filme atrás de um sentido musical que nos faz parar diante das canções. Laurie Anderson & Brian Eno, Massive Attack, Marianne Faithfull. Não lhe podemos escapar. Se a banda sonora e as imagens feéricas tornam «Anjos Caídos» num filme musical ou num vídeo-clip de longa-metragem é pouco importante!

O que importa é mesmo a irreal realidade do cinema de Wong Kar Wai.


jef, dezembro 2020

«Anjos Caídos» (Fallen Angels) de Wong Kar Wai. Com Leon Lai, Michelle Reis, Takeshi Kaneshiro, Charlie Yeung, Karen Mok, Fai-Hung Chan, Man-Lei Chan, Toru Saito, To-Hoi Kong, Lee-Na Kwan, Yuhao Wu. Argumento: Wong Kar Wai. Fotografia: Christopher Doyle, Andrew Lau Wai Keung. Música: Frankie Chan, Roel A. García. Produção: Wong Kar Wai, Chan Ye Cheng, Jacky Pang Yee Wah, Jet Tone Productions Ltd. Hong Kong / China, 1995, Cores, 99 min.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

 






Palavras, objectos curiosos.

Não matam mas moem.

Não morrem mas salvam.

Estão sempre aqui como em qualquer lugar.

São elas agora como sempre o foram e talvez serão.


Futuro, objecto curioso.

Não existe mas enleva.

Não se esgota mas escasseia.

Apresenta-se diariamente apenas em função de um potencial.

Extingue-se no acto da concretização.


Casa, objecto deveras curioso.

Pode não exibir batente, aldraba, taramela, gelosia

mas permanece casa.

Talvez por ser uma palavra.

Talvez por não admitir sinónimos.

Por se resguardar sempre no passado.


jef, dezembro 2020


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Apaga o Histórico» de Benoît Delépine e Gustave Kervern, 2020




Por vezes (talvez demasiadas vezes), a França esquece-se de que o humor é a coisa mais séria no cinema e no teatro. A comédia, a mais difícil das artes. Esquece-se também que o humor deve fazer o espectador olhar de um modo diferente, tirando à sua própria realidade redes e almofadas, oferecendo-lhe um novo modo de consciência, ético e estético, mas acima de tudo profundamente prazenteiro. Por exemplo, esquece-se que Jacques Tati nos deu o critério arquitectónico e o rigor nostálgico do silêncio em «O Meu Tio» (1958); que Sacha Guitry, em «O Veneno» (1951), trocou as voltas à moralidade provando como o crime compensa e recompensa; que Jean Renoir nunca deixou de sorrir e fazer tremer as instâncias sociais e políticas com obras-primas como «A Grande Ilusão» (1937) ou «A Regra do Jogo» (1939).

Acima de tudo, o humor jamais deverá rebaixar a humanidade à indigência, à indignidade, numa sucessão de gags, peripécias e hipotético riso, em nome da liberdade e do non-sense narrativos. Para mim, não existe non-sense social mais fino, destemperado e sério que em «O Sentido da Vida» dos Monty Python (1983). Mas aqui já atravessámos o canal da Mancha.

E o assunto é mais do que grave e poderia até dar origem às mais vivas gargalhadas. Mas não, apenas ficamos com a sensação de que estivemos a gozar com doentes viciados na internet. Três adultos, Marie, Bertrand e Christine, vivem absolutamente dependentes do pequeno ecrã, já não sabem comportar-se socialmente na família e no espaço em volta, não conseguem trabalhar ou trabalham precariamente. Tentam arranjar um hacker que lhes resolva os problemas que correm descontrolados pelo espaço sideral. Entretanto, sem que o non sense entenda porquê, Bertrand é mordido por um burro. No final, tudo acabará bem, embora negligentemente mal.

Enfim, um tiro em cada um dos pés na comédia cinematográfica.

 

jef, dezembro 2020

«Apaga o Histórico» (Effacer l’Historique) de Benoît Delépine e Gustave Kervern. Com Blanche Gardin, Denis Podalydès, Corinne Masiero. Argumento: Benoît Delépine e Gustave Kervern. Fotografia: Hugues Poulain. França / Bélgica, 2020, Cores, 110 min.