terça-feira, 13 de agosto de 2019

Sobre o filme «O Criado» de Joseph Losey, 1963













Suspeito vagamente que os críticos, hoje em dia, considerem este um filme datado, ou seja, cristalizado no tempo, sem o vigor da intemporalidade. Um filme que não consegue fugir às circunstâncias social, política e moral de uma época muito especial, de um país e de mundo muito particulares.

E não será pelo argumento cénico do dramaturgo Harold Pinter, muito de palco, de vários palcos sobrepostos, como no teatro isabelino, desse cruzamento extraordinário dos vários diálogos escutados na popularidade do pub mergulhando as personagens principais, quase silenciosas, caídas ali a boiar num aquário. Tudo envolvido na aura modernista de um jazz burguês (John Dankworth), consumido por aristocratas blasés que falam da desmatação florestal do Brasil como se fosse a azeitona de um dry martini. Tudo enquadrado da sumptuosa fotografia de Douglas Slocombe, espelhando as ruas molhadas ou o espraiar gélido da neve, em esquadria com janelas fechadas, escadas de serviço ou pombos tristes.

Também não será pela expressionista crítica política ou a troca de identidades sociais entre o requintado aristocrata Tony (James Fox) e o manipulador criado Hugo Barrett (Dirk Bogarde). Muito menos pela genial caracterização de Tony através do espelho na atitude da sua namorada Susan (Wendy Craig) ou de Hugo pelo comportamento da sua amante-irmã Vera (Sarah Miles). Ainda menos a aproximação homossexual praticamente explícita quando, no jogo de escondidas, o criado procura o amo pela casa e vai anunciando que este tem um ‘segredo vergonhoso’.

Tudo parece no sítio certo. As sombras à Hitchcock. O suspense à Kubrick. A arquitectura à Antonioni. Os planos à Nicholas Ray. Os diálogos à David Lean… porém, existe uma ostentação de estilo e uma pose cristalizada no sorriso de Dirk Bogarde e na angústia arrogante de James Fox que me faz descolar o coração do olhar à medida que o filme vai passando.

É, exactamente, no descolar do coração para a razão do espectador que se encontra a brilhante força politicamente dialéctica deste filme.

jef, agosto 2019

«O Criado» (The Servant) de Joseph Losey. Com Dirk Bogarde, James Fox, Sarah Miles Wendy Craig, Harold Pinter. Argumento: Harold Pinter segundo o romance de Robin Maugham. Fotografia: Douglas Slocombe; Música: John Dankworth. 1963, Grã-Bretanha, P/B, 112 min.                                        

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Sobre o ciclo «Buñuel X 25» no cinema Nimas e «As Folhas de João Bénard da Costa»
















Ver (e rever) muitos dos filmes de um dos realizadores que mais influenciaram a revolução no mundo do cinema é acto de certo colecionismo mas também de confirmação de uma das coisas de que mais gostamos na vida. Filmes raros, excelentes cópias, horários comerciais alargados, folhas de sala explicativas.

Podemos mergulhar. no final do dia, sem pressa, num mundo muito especial de fantasia, sonho, política, sexualidade, estética, zoologia, sociologia, arte dramática, arte cénica, arte fotográfica, arte literária, arte musical... Podemos ainda retirar as nossas conclusões e reiterar os nossos afectos cinematográficos. Aprofundar comparações e assegurar que adoramos ‘incompreender’ um filme. Sair da sala de cinema em busca do próximo filme, da próxima sessão, da próxima admiração.

E, claro, ir a correr para casa ler «As Folhas da Cinemateca» de João Bénard da Costa!

Os textos de João Bénard da Costa revelam todo o conhecimento da obra de Luis Buñuel mas, muito mais importante, sublinham o pormenor essencial, o olhar sub-reptício da personagem, a marca da subversão. Expõem o afecto exacerbado, a inteligência emocional, a exaltação estética, de quem ama apaixonadamente um objecto como símbolo insubstituível da humanidade.

João Bénard da Costa nunca explica mas coloca o dedo sobre o que mais o espanta, mas também naquilo que tanto gosta de ‘incompreender’ nos filmes quando Luis Buñuel usa essa táctica artística de sobrepor sempre a sua intuição exuberante e estilizada à tradicional narrativa cronológica.

Viva Luis Buñuel!
Viva João Bénard da Costa!
Viva o ciclo «Buñuel X 25» no cinema Nimas (Medeia Filmes)!

jef, agosto 2019

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Líquido o pensamento












Líquido vai o pensamento lasso
Por tal via cingindo a doce curva da margem
E o rio correndo entre um Verão tão escasso
Fazendo esquecer Ícaro o calor do Sol que já anda perto
E o aviso célere de Dédalo que na vertigem
Faz da queda o rumo por demasiado certo.

Pudéssemos nós apartar esta saudade
Longínquas as tardes que nos vão entardecendo
Deixando à espera sob as árvores da cidade
Os beijos ternos que vamos já esquecendo.


jef, agosto 2019

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Sobre o filme «Susana» de Luis Buñuel, 1951



















«Susana, Demónio e Carne» é uma comédia de anti-costumes que passou incólume pelo crivo da censura, retirando-lhe somente os dois substantivos adjectivantes. Estreou no Condes, em Lisboa, na Primavera de 1955. Contudo, as duas palavras condensam o fulcro da ironia e do sentido ultra subversivo deste filme.

Em noite de tempestade, Susana (Rosita Quintana) é encarcerada por mau comportamento na solitária do reformatório onde vivia. Ratos, tarântulas e morcegos são os seus companheiros. Ela ajoelha-se perante a sombra das grades que tem a forma da cruz de Cristo e pede a Deus que a tire dali já que ele a fez tal como aqueles inocentes animais. Deus concede-lhe a bênção, as grades soltam-se e ela rasteja, como uma cobra, no meio da tormenta até chegar a casa onde vive a família feliz de D. Carmen (Matilde Palou), mãe e esposa extremosa, e da criada Felisa (Maria Gentil Arcos), segunda dona da casa, a criada tão supersticiosa quanto ardilosa. Este é o trio feminino.

O trio masculino é composto por Jesús (Victor Manuel Mendoza), o estimado e abnegado trabalhador da quinta de D. Guadalupe (Fernando Soler), o pai, concluído por Alberto (Luis López Somoza), o filho, o meticuloso estudante de agronomia. Jesús, pai e filho vão ser irremediavelmente seduzidos pelo demónio e pela carne de Susana.

Contudo, Deus que concedeu o desejo e a sedução aos animais, homens e mulheres incluídos, irá retirar Susana de cena, arrastada de volta ao reformatório, e a paz volta ao Éden agrícola, após uma demoníaca série de vergastadas dada por D. Carmen com o chicote oferecido por Felisa. O Sol regressa, a égua fica curada, os cordeiros saltitam e Alberto sentar-se-á outra vez só depois de seu pai se sentar.

Pelo meio, ficam os ombros estrategicamente desnudados por Susana, os ovos esmagados pelo abraço de Jesús, escorrendo pelas pernas tentadoras, os afectos trocados com Alberto entre livros científicos ou no interior escuro do poço, o beijo ardente dado por D. Guadalupe a sua esposa, após a excitação do fugaz encontro com Susana.

Tudo aqui é líbido, carne, olhar, paixão, desejo, erotismo paradisíaco e ironia anti-moral, num frenesim cénico, dramático e de circulação de câmara, que faz de Rosita Quintana a mais bela e ‘feroz’ Susana do universo.

jef, julho 2019

«Susana» (Susana, Demonio y Carne) de Luis Buñuel. Com Rosita Quintana, Fernando Soler, Luis López Somoza, Victor Manuel Mendoza, Matilde Palou, Maria Gentil Arcos. Argumento: Luis Buñuel e Jaime Salvador baseado num conto de Manuel Reachi. Fotografia: José Ortiz Ramos; Música: Raúl Lavista. Produção: Internacional Cinematográfica / Sergio Kogan. 1951, México, P/B, 85 min.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Sobre o filme «Os Esquecidos» de Luis Buñuel, 1950

























Este é um muito belo mas agreste filme sobre a vida miserável da infância nos subúrbios da cidade do México. Parecendo “neo-realista” pelo apelo inicial às forças progressistas do futuro, logo dá o dito pelo não dito avisando que a coisa que vamos ver não será optimista.

Talvez, então, “realista”…Também não. A tensão que apresenta, entre a carga onírica e a força erótica, retira a atenção do ‘objecto social’ e coloca-a sobre o desejo interior por realizar de cada um dos personagens. As cenas de sedução entre a mãe de Pedro (Stela Inda) e ‘El Jaibo’ (Roberto Cobo) ou as cenas do sonho-pesadelo de Pedro (Alfonso Mejía) condensado no desejo pela mãe que o repudia, terminando na disputa pelo pedaço de carne crua entre ele e ‘El Jaibo’, são tão explícitas que não deixam margem para interpretações directamente ‘políticas’.

Também pouco tem de ‘romantismo’. Mais uma vez, o simbolismo e as suas interpretações. Os galos e as galinhas que representam a morte ao aproximarem-se da personagem ou são mortas elas mesmas à paulada; a violência extrema dos jovens sobre D. Carmelo, o cego (Miguel Inclán), ou sobre o aleijado que fica sem o carro de apoio que rola rua abaixo; ou as cenas eróticas em que Meche espalha leite de burra nas pernas ou quando ela se vê no colo libidinoso de D. Carmelo e aponta-lhe a faca; ou quando o pedófilo (Charles Roomer) tenta seduzir Pedro (olhados através do silêncio do vidro de uma montra), digamos que o filme tudo está impregnado uma pulsão sexual máxima e de uma brutal vontade de destruição. Só ultrapassada pela imagem de morte de ‘El Jaibo’ secundado no estertor final por um cão que corre sobre a imagem e a do corpo de Pedro a rolar lixeira a baixo a um segundo da palavra 'fin'.

Difícil de definir a genial arquitectura deste drama que expõe a violência como modo estético e a ausência-presença de afecto condensada simplesmente na oferta e na devolução do colar com o redentor dente de um morto do cemitério por parte de ‘Ojitos’ (Mario Ramirez) a Meche.

(Fiquei a pensar que relação teria este filme – dentro de mim – com «Juventude Inquieta / Rumble Fish» Francis Ford Coppola 1983, «Amor Sem Barreiras / West Side Story» Jerome Robbins & Robert Wise 1961, «Ladrões de Bicicletas» Vittorio De Sica 1948, «Aniki Bóbó» Manoel de Oliveira 1942).

jef, julho 2019

«Os Esquecidos» (Los Olvidados) de Luis Buñuel. Com Alfonso Mejía, Stela Inda, Miguel Inclán, Roberto Cobo, Alma Delia Fuentes, Francisco Jambrina, Efrain Arauz, Javier Amezcua, Mario Ramirez, Juan Villegas, Jorge PérezJesús Garcia Navarro, Hector López Portillo, Ángel Merino, Ramón Martinéz, Diana Ochoa, Francisco Muller, Salvador Quiroz, José Moreno Fuentes, Charles Roomer, Ignacio Solorzano. Argumento: Luis Buñuel e Luis Alcoriza. Fotografia: Gabriel Figueroa; Música: Rodolfo Halffter sobre temas de Gustavo Pittaluga. Produção: Ultramar Filmes, Oscar Dancigers e Jaime Menasco. 1950, México, P/B, 80 min.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Sobre o filme «Viridiana» de Luis Buñuel, 1961












O mais espantoso em «Viridiana» é o facto deste filme conter todos os ‘sinais de Buñuel’, mantendo-os, porém, ofuscados pela cena da ‘última ceia’ dos mendigos fotografada à Leonardo da Vinci com ‘a máquina fotográfica’ que a mãe oferecera à pobre mulher quando ela nasceu. Tal a cena é violenta, bela, brutal, crucial, central, omnipresente, no filme. Tudo parece ficar a quilómetros de distância quando o cego (Joaquín Roa), ao sair da sala, leva nos passos arrastados o véu nupcial da noiva morta. 
Este filme parece um dicionário buñueliano.

a)     A vestal, quase vegetal, Viridiana (Silvia Pinal) é a impoluta e casta mulher até ao derradeiro momento, como o é Meche em «O Bruto», Gloria em «Ele», Severine em «Bela de Dia», Rosario em «Uma Mulher sem Amor», Conchita em «Este Obscuro Objecto de Desejo»,…
b)    Os animais, sempre os animais! O cão que é salvo da carroça e o gato que salta sobre o rato parecem os companheiros mais queridos de «Robinson Crusoe».
c)     A abelha retirada do tanque parece a mosca salva do dry martini em «Este Obscuro Objecto de Desejo».
d)    O kit que Viridiana traz na mala para rezar (ou para se penitenciar) surge como o material que Francisco Galván leva até sua mulher para, talvez, a seviciar, em «Ele».
e)     A atracção homossexual que D. Jaime (Fernando Rey) tem pelas roupas nupciais da sua noiva morta é a mesma tida por Robinson Crusoe e o Sexta-feira.
f)      D. Jaime ou mesmo o primo Jorge (Francisco Rabal) poderiam ser Francisco Galván em «Ele», Andrés Cabrera em «O Bruto», Don Quintin em «A Filha do Engano».
g)     A abnegação espiritual, a prática caritativa e a eterna dúvida de consciência espiritual, faz de Viridiana um «Nazarin».
h)    A duplicidade das personalidades femininas entre Viridiana e Ramona (Margarita Lozano) parece as duas Conchitas em «Este Obscuro Objecto de Desejo» ou o duelo de semelhanças entre Beatriz e Andara em «Nazarin».
i)       Os pés de Rita (Teresa Rabal) que saltam à corda têm o mesmo peso definidor dos pés de Gloria cobiçados por Francisco Galván em «Ele».
j)       E os mendigos que repastam e divertem têm o mesmo cariz político, demoníaco e dramático das prostitutas em «Nazarin», as famílias em «O Bruto» ou «A Filha do Engano».

Poderíamos ficar aqui a fazer comparações mais ou menos tolas, porém, nada se compara com «Viridiana» nessa sua repulsa-atracção em tocar a sedosa e apelativa teta pendente da vaca, instigada pelo vaqueiro, quando, logo depois, a cena é abruptamente interrompida pela criança, que vai derramar o leite na cabeça do animal.

Digam o que disserem, «Viridiana» é um filme genial!

jef, julho 2019

«Viridiana» de Luis Buñuel. Com Silvia Pinal, Francisco Rabal, Fernando Rey, Margarita Lozano, Joaquín Roa, Teresa Rabal, José Calvo, Victoria Zinny, Luis de Heredia, José Manuel Martin, José Carcia Tienda, Lola Gaos, Rosita Yarsa, Maruja Isbert. Argumento: Luis Buñuel, Julio Alejandro. Fotografia: Férnandez Aguayo; Música: Mozart: Requiem; Haendel: Messias; Beethoven: 9ª Sinfonia. Produção: Gustavo Alatriste, Pedro Portabella, Ricardo Muñoz Suay. 1961, México / Madrid, P/B, 90 min.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Sobre o livro «Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa», antologia de Ana Hatherly. Direcção-Geral do Ensino Primário, Lisboa 1960



















Uma das minhas melhores, mais ternas, circunstanciais, inesperadas, fundamentais, colectâneas de poesia portuguesa contemporânea!

«Ao Povo Português o que é seu!», refere a vinheta ilustrada.

Salazar epigrafa.
«Uma das principais preocupações (…) é a de conservar a frescura, a simplicidade natural, a fraternidade humana e cristã do povo português.»

Ana Hatherly colige, expõe, explica.
«A poesia é sempre a história emocional dum povo, a história da sua vida no sentido mais largo da palavra. (…) Assim, naturalmente, cada época terá os seus poetas, os seus “historiadores”.»

Sophia de Mello Breyner Andresen escreve:
«Porque os outros se mascaram mas tu não»;

Alexandre O'Neill acrescenta:
«Não podias ficar presa comigo / à pequena dor que cada um de nós / traz docemente pela mão / a esta pequena dor à portuguesa / tão mansa quase vegetal»

Natália Correia afirma:
«É um cipreste que se dissimula / No dia que nos leva pela mão / E uma rosa enforcada na medula / Duma pomba maior que o coração.»

Eugénio de Andrade seduz:
«Aqui estou, fronte pura, rodeado / de sombras, de soluços, de perguntas. / Aceita esta ternura surda, / este jasmim aprisionado.»

E  escrevem ainda
David Mourão Ferreira, Ruy Cinatti, Vitorino Nemésio, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, José Régio, António Quadros, Alberto de Lacerda, António de Cértima, António de Navarro, António de Sousa, Eugénio de Andrade, Fernanda de Castro, Joaquim Paço d'Arcos, Mário Beirão, Miguel Torga, Natércia Freire, Sebastião da Gama, Tomaz Kim.

Mais a capa e as vinhetas de Ruy Pacheco e Mário Pacheco.

jef, julho 2019