«Susana, Demónio e Carne» é uma comédia de
anti-costumes que passou incólume pelo crivo da censura, retirando-lhe somente
os dois substantivos adjectivantes. Estreou no Condes, em Lisboa, na Primavera de
1955. Contudo, as duas palavras condensam o fulcro da ironia e do sentido ultra
subversivo deste filme.
Em noite de tempestade, Susana (Rosita
Quintana) é encarcerada por mau comportamento na solitária do reformatório onde
vivia. Ratos, tarântulas e morcegos são os seus companheiros. Ela ajoelha-se
perante a sombra das grades que tem a forma da cruz de Cristo e pede a Deus que
a tire dali já que ele a fez tal como aqueles inocentes animais. Deus
concede-lhe a bênção, as grades soltam-se e ela rasteja, como uma cobra, no
meio da tormenta até chegar a casa onde vive a família feliz de D. Carmen (Matilde
Palou), mãe e esposa extremosa, e da criada Felisa (Maria Gentil Arcos),
segunda dona da casa, a criada tão supersticiosa quanto ardilosa. Este é o trio
feminino.
O trio masculino é composto por Jesús (Victor
Manuel Mendoza), o estimado e abnegado trabalhador da quinta de D. Guadalupe
(Fernando Soler), o pai, concluído por Alberto (Luis López Somoza), o filho, o
meticuloso estudante de agronomia. Jesús, pai e filho vão ser irremediavelmente
seduzidos pelo demónio e pela carne de Susana.
Contudo, Deus que concedeu o desejo e a
sedução aos animais, homens e mulheres incluídos, irá retirar Susana de cena,
arrastada de volta ao reformatório, e a paz volta ao Éden agrícola, após uma
demoníaca série de vergastadas dada por D. Carmen com o chicote oferecido por
Felisa. O Sol regressa, a égua fica curada, os cordeiros saltitam e Alberto sentar-se-á
outra vez só depois de seu pai se sentar.
Pelo meio, ficam os ombros estrategicamente
desnudados por Susana, os ovos esmagados pelo abraço de Jesús, escorrendo pelas
pernas tentadoras, os afectos trocados com Alberto entre livros científicos ou
no interior escuro do poço, o beijo ardente dado por D. Guadalupe a sua esposa,
após a excitação do fugaz encontro com Susana.
Tudo aqui é líbido, carne, olhar, paixão,
desejo, erotismo paradisíaco e ironia anti-moral, num frenesim cénico,
dramático e de circulação de câmara, que faz de Rosita Quintana a mais bela e
‘feroz’ Susana do universo.
jef, julho 2019
«Susana» (Susana, Demonio y Carne) de Luis
Buñuel. Com Rosita Quintana, Fernando Soler, Luis López Somoza, Victor Manuel
Mendoza, Matilde Palou, Maria Gentil Arcos. Argumento: Luis Buñuel e Jaime
Salvador baseado num conto de Manuel Reachi. Fotografia: José Ortiz Ramos;
Música: Raúl Lavista. Produção: Internacional Cinematográfica / Sergio Kogan.
1951, México, P/B, 85 min.
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