terça-feira, 9 de julho de 2019

Sobre o filme «O Estranho Mundo de Jack» de Henry Selick, 1993















Não temo dizer que este é um dos filmes da minha vida. De tempos a tempos revejo-o para ter a certeza de que ele contém todos os princípios activos de um filme eterno. Em apenas 73 minutos, quase uma curta metragem, temos uma das histórias de amor devoto mais pungentes da história do cinema. Sally e Jack. A primeira, mulher sensível e inteligente prevendo o futuro de cada acção, o segundo homem-criança movido pelo desespero da rotina mas também pela absoluta ingenuidade infantil da descoberta.

Todo a cidade de Halloween vive nesse espantoso mundo pueril, semocrático, generoso e entusiasmado. Ou quase. Claro que existe o contraponto da maldade para que a benevolência seja glorificada. O Oogie Boogie Man e o Dr. Finklestein fazem esse espantoso papel.

Depois existe o recorte estético de todas as personagens, finas como filigrana, sempre entre o grotesco e o hilariante, numa estratégia de o riso sublinhar o negro fito dos monstros e vice-versa. Não há outro filme de tamanha elegância, tão fina e acutilante.

Depois (ou antes) existe a banda sonora de Danny Elfman com as suas inigualáveis canções e interpretação.

Depois existe a contenção da narrativa face ao tempo descrito.

Depois existem os mais esplendorosos cenários, como miniaturas onde as marionetas se movem delicadamente ligadas sempre por um fio de costura. A imagem de Sally sempre a ‘coser-se’é de uma beleza e efemeridade total. A imagem final de Jack ‘Pai Natal´ esfarrapado pelas anti-aéreas da Cidade do Natal, caído em graça-desgraça no cemitério nevado, é única.

Depois há o ‘cão-fantasma- rodolfo’ Zero.

Um filme de todos os tempos! Acho que o vou ver novamente!

jef, julho 2019

«O Estranho Mundo de Jack» (The Nightmare Before Christmas) de Henry Selick, 1993. Com a voz de Danny Elfman (Jack Slelington), Ken Page (Oogie Boogie), William Hickey (Dr. Finklestein), Catherine O’Hara (Sally), Greg Proops (Harlequin Demon), Debi Durst (Corpse Kid). História e personagens: Tim Burton; Argumento: Caroline Thompson; Música e interpretação: Danny Elfman; Produção: Disney / Touchstone Pictures. EUA, 1993, Cores, Animação – StopMotion, 73 min.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Sobre o livro «A Gaivota» de Sándor Márai. Dom Quixote, 2016. Tradução de Piroska Felkai / Clara Boléo
















O conselheiro de estado tem 45 anos, vive em Budapeste e acabou de enviar ao ministro um documento que, no dia seguinte, quando for divulgado poderá alterar o destino da Europa. Os diversos continentes alinham-se perante a estratégia nazi. Paris (ou Vichy) teve a sua estratégia. A Húngria poderá ter outra. O homem vive na ressaca de um velho amor que desapareceu abruptamente mas sobrevive de modo tranquilo entre guerras e as memórias que se repetem. Nessa mesma manhã uma jovem finlandesa pede-lhe para ser recebida. Precisa de emprego, talvez protecção. À noite, ele irá ver o «Baile de Máscaras» à ópera de Budapeste.

Ao longo de um dia e uma noite, o conselheiro perceberá que as memórias (ou a vida, talvez as guerras) não se repetem mas sobrepõem-se.

Sándor Márai que, a dada altura do livro, parece, ele próprio, perder-se numa série repetida de genes, ‘matizes’, imagens e ideias fixas, permanece como escritor fora de época, ou fim de época, no seu tom cuidadoso, mais existencialista e psicanalítico que romântico. Talvez oitocentista, zweiguianista, que sempre nos deixa numa aura ou penumbra irremediáveis face a um tempo passado de que só a memória, que podemos alterar a qualquer momento, nos salvará.

jef, julho 2019

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Sobre o filme «Abaixo o Amor» de Peyton Reed, 2003















Gosto muito desta comédia «musical» e «visual». Feminista, sexista, sensual e sexual. Nada aqui parece mal, excepto estarmos em 1962, em Nova Iorque, Estados Unidos da América, onde o avanço da tecnologia ‘doméstica’ não acompanha as mentalidades machistas dentro de portas e as ideias sociais e políticas estão muito aquém da evolução ‘aero-espacial’ promovida pela guerra fria.

Aqui tudo brilha em tons cor-de-rosa e cinza ‘fashion’ e o sorriso é menos hipócrita que profissional. O comércio impera no mundo das revistas sociais e a revista masculina «Know» irá ser substituída pela feminina «Now», após o estrondoso sucesso mundial do livro de ajuda emocional-sexual «Down with Love» de Kim Novak, perdão Barbara Novak, perdão Nancy Brown (Renée Zellweger). Ali se assegura que o chocolate evita o amor e eleva as mulheres ao eficaz nível 3 através do sexo ‘à la carte’, como acontece aliás no mundo do androceu. Assim, as mulheres conquistarão o mundo laboral e a metade do céu que lhes pertence. Mas para isso Barbara Novak terá de conquistar o interesse editorial do galã-repórter-conquistador Catcher Block (Ewan MacGregor). Aliás, o astronauta na Nasa Zip Martin.

É um daqueles filmes que temos de correr atrás das personagens, da música, do guarda-roupa hiperbólico, dos decores fantasiosos, dos cenários plásticos, dos diálogos acelerados, sem nos apercebermos que somos levados pelo ‘non-sense’ do humor que só no palco poderá buscar alguma verosimilhança. Não interessa a realidade, apenas o fio cómico e ilógico da história com a qual nos enganam, com que se enganam. Onde os actores secundários Sarah Paulson (Vikki Hiller) e David Hyde Pierce (Peter MacMannus) são tão ou mais importantes que os actores principais.

Desde Beaumarchais que assim é. Também nas comédias loucas «As Duas Feras» (Howard Hawks,1938), «Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos» (Pedro Almodovar, 1988) ou «Toda a Gente Diz Que Te Amo» (Woody Allen, 1996).

Filme de Verão, pois então!

jef, julho 2019

«Abaixo o Amor» (Down with Love) de Peyton Reed. Com Renée Zellweger, Ewan McGregor, David Hyde Pierce, Sarah Paulson, Tony Randall, Rachel Dratch . Música: Marc Shaiman; Guarda-roupa: Daniel Orlandi. EUA, 2003, Cores, 97 min.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Sobre o filme «As Férias do Senhor Hulot» de Jacques Tati, 1952

















Quando as férias vão começar deverá haver suficiente ansiedade na chegada à praia. E não é apenas porque o Senhor Hulot apareceu, gentil, amável, generoso, mas desastrado, na sua viatura fora de uma moda que Jacques Tati nunca cumpriu.

Jacques Tati nestas férias 'fala muito', da guerra passada, talvez da actual, da crise e da angústia das bolsas, dos estudantes que pretendem uma sociedade nova, da vida que afinal comporta sempre a nostálgica tristeza do fim das férias. Mesmo quando elas mal se iniciaram… Jacques Tati é rei nessa melancolia que transporta a consciência de mundos que estão prestes a desvanecer-se. E fá-lo dentro de um cenário quase claustrofóbico onde a marcação de cena é mais próximas do bailado do que do teatro. Quer seja na baía atlântica onde se situa o Hotel de la Plage, quer estejamos no seu interior.

Claro que existe a luminosidade única (Jacques Mercanton, Jean Mouselle). Claro que o tema musical de Alain Romans aparta o dia da noite; interrompe as cenas burlescas para sublinhar a comoção encantatória quando é avistada na janela a jovem banhista, em enquadramento perfeito. Também essa espécie de silêncio musical refaz o dia-a-dia tranquilo que o Senhor Hulot teima em fazer descarrilar, quer transforme uma canoa num tubarão sanguinário, quer deixe entrar a dramática nortada pela porta, quer jogue ténis com a infalível técnica aprendida no quiosque um minuto antes; quer ele opte por colocar o fogo de artificio a girar noite dentro ou o swing-bop em alto e bom som no gira-discos.

Contudo, a cena que traduz tanto o Senhor Hulot como a persona Jacques Tati são a delicadeza e a sensualidade da dança no baile de máscaras entre a Columbina e o Pirata, deixando o velho que passeia sempre a cinco metros da esposa, definitivamente do lado de Hulot, ao espreitá-los pela janela.

Finalmente, quando tudo acaba em bem, as férias terminam, ele fica, afinal, a brincar com os miúdos. A velha inglesa que o adora despede-se encantada até ao ano que virá. O velho entrega-lhe a sua morada sem que a mulher dê conta. O Senhor Hulot continuará sozinho.

Jacques Tati e a sua sombra, o senhor Hulot, mesmo em férias, serão sempre os patronos do sorriso delicado, do silêncio inteligente, da solidão elegante.

jef, julho 2019

«As Férias do Senhor Hulot» (Les Vacances de Monsieur Hulot) de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Michele Rolla, Valentine Camax, Raymon Carl, Lucien Fregis; Louis Perrault. Som e Tema musical: Alain Romans. Fotografia: Jacques Mercanton & Jean Mouselle; Argumento: Jacques Tati & Henri Marquet; Produção: Fred Orain. França, 1952, P/B, 84 min.


quarta-feira, 3 de julho de 2019

Sobre o livro «Os Amores Difíceis» de Italo Calvino. Dom Quixote, 2019. Tradução de José Colaço Barreiros.

 













São 13 histórias escritas por Italo Calvino entre 1949 e 1967, pela primeira vez assim reunidas em edição portuguesa. São 13 aventuras representantes do estado de miniatura, minúcia e, digamos, materialismo afectivo, que ensopa toda a sua escrita. Como se fossem 13 exercícios psico-filosóficos sobre o ‘acto amoroso’, esse que, ao longo dos dias e dos anos, ficará eternamente para trás em detrimento das circunstâncias que o criou ou despoletou.

Desde «A Aventura de um Soldado» ou «A Aventura de um Bandido» ou «A Aventura de uma Mulher Casada» que marca a vertente emocional de uma certa luta de classes, até «A Aventura de um Fotógrafo», «A Aventura de um Poeta» ou «A Aventura de um Míope» marcando o existencialismo da vocação criativa face à insatisfação da imagem concretizada.

O apuro narrativo-descritivo de «A Aventura de uma Banhista», «A Aventura de um Viajante» ou a derradeira «A Aventura de um Automobilista» eleva este conjunto de contos à bitola académica dos textos que devem ser tentados e copiados por todos os que desejam escrever!

Felizmente, uma réstia de esperança (ou entendimento) reside no maravilhoso ‘desencontro horário’ de «A Aventura de um Casal».

Italo Calvino é único no pormenor libertário, na busca do reflexo fantasioso do mundo que brilha no cristalino de quem o está a olhar. A reler, sempre!

Pena ser a tradução de José Colaço Barreiros apressada e pouco exigente, pouco revista, sem ter em conta as devidas diferenças sintácticas ou diegéticas entre o italiano e o português. Mais do que em qualquer outro autor traduzido, o mérito da tradução está no pormenor. Está na vírgula que conduz sem tropeções a leitura pelo brilho aquático e mediterrânico de Calvino. Não é o caso.

jef, julho 2019

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Sobre o filme «Linhas Tortas» de Rita Nunes, 2019
















Existe na primeira longa-metragem de Rita Nunes qualquer coisa de muito sólido, cativante, que faz o espectador ficar atento e de olhos bem abertos, avisado desde logo que está perante um melodrama de contornos clássicos, desses cuja verosimilhança e coincidências não devem ser atribuídos à realidade mas sim à intriga novelesca.

Rasputine, alter-ego de twitter de António (Américo Silva), escritor e cronista, homem bem poisado na vida, torna-se ‘cúmplice’ da jovem actriz Luísa (Joana Ribeiro) que anda um pouco de cadeias às avessas com o seu ‘pouco’ namorado inglês. Depois, há um acidente em plena Avenida da República lisboeta e a história dá uma reviravolta. Familiar.

A fotografia de Manuel Pinho Braga mostra uma bela Lisboa fora do tempo, plástica e dócil, longe do bulício actual Airbnb, onde as caras dos actores são colocadas emocionalmente frente ao nosso olhar. Os diálogos são interessantes sem roçar a presunção. As cenas sucedem-se esteticamente rigorosas sem pedir meças. O enredo parece-nos entusiasmar. Contudo, pelo meio da segunda meia hora, e quando ainda gostaríamos que nos contassem mais, tudo se apressa tornando-se um tanto inexplicado, num filme onde nada deveria estar injustificado.

Contudo, é um filme amável, que dá tanto valor aos actores (Viva Américo Silva!) quanto ao prazer cinéfilo do espectador. Um filme que tanto reverencia a história do cinema português quanto dela se afasta. Um bom sinal para a arte futura da realizadora Rita Nunes.

jef, junho 2019

«Linhas Tortas» de Rita Nunes. Com Joana Ribeiro, Américo Silva, Miguel Nunes, Ana Padrão, Manuel Wiborg, Maria Leite, Elmano Sancho, Jorge Vaz Gomes, Joana Pais de Brito. Produção: Paulo Branco; Fotografia: Manuel Pinho Braga. Portugal, 2018, Cores, 68 min.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Sobre o filme «Os Olhos de Orson Welles» de Mark Cousins, 2018























É importante olharmos nos olhos Orson Welles e ficarmos na eterna e hipnótica dúvida. Porque com este filme torna-se evidente que jamais saberemos quem foi Orson Welles.

O invulgar caminho narrativo que o realizador Mark Cousins faz (através de uma terna e devota voz-off), entre a reverência, o espanto, mas também a provocação, descrevendo a desconhecida obra gráfica do realizador, dá-nos a ideia de uma investigação que jamais terá um fim, de uma história que não chegará a qualquer conclusão.

Afinal, Orson Welles era um artista plástico, um político aguerrido, um louco visionário, um peão de brega, um cavaleiro Quixote, um rei deposto, um bobo de coroa real (os capítulos!)? estaria ele assim tão seguro nas suas viagens, nas suas paixões? Por que pintava e desenhava assim o que lhe passava pela frente?

Qualquer coisa entre Macbeth e Ivan, o Terrível? Ou mais perto de Charles Foster Kane ou de Harry Lime ou de Michael O’Hara? Citizen Kane, Terceiro Homem, A Dama de Xangai? Quais os labirintos de planos e espelhos, de prédios e ruas, melhor o descreverá? (Terão Paola Mori ou Rita Hayworth sobrevivido?)

Terá Orson Welles vencido ou desistido? Os seus filmes (ou a sua estética) jamais o definirão. Mark Cousins sabe disso e, repito, fá-lo com excepcionais ternura e devoção.

jef, junho 2019

«Os Olhos de Orson Welles» (The Eyes of Orson Welles) de Mark Cousins
Grã-Bretanha, 2018, Cores, 115 min.