sábado, 29 de agosto de 2020

Sobre o disco «La Gaia Scienza: Johannes Brahms – Quartett c-moll, op. 60 & Quintett f-moll, op. 34» Winter & Winter / AnAnAnA, 2001

















Stefan Winter, o produtor e cabecilha-mor da etiqueta alemã insiste na interessante faceta de, a cada álbum publicado, oferecer uma interpretação paralela, ou melhor, fornecer algumas pistas suplementares sobre as motivações que suportam as suas novas edições. Uma espécie de psicanálise musical que, não fosse tão inteligente, seria tomada por presunçosa. No caso, os Quarteto e Quinteto para piano e cordas de Brahms são executados tradicionalmente pela formação italiana La Gaia Scienza que traz no seu currículo Winter & Winter a execução de diversas peças provenientes da sabedoria dilaceradamente meditativa de Franz Schubert. Não será assim difícil imaginar o ambiente introspectivo e de profundidade melancólica desta interpretação de um autor que usou a música de câmara como exercício para o seu rigoroso trabalho de composição mas, sobretudo, como expressão maior para as paixões que lhe moldavam a criatividade. Assim, Stefan Winter, cumprindo as próprias palavras do compositor, veste o disco de amarelo, azul e encarnado, e aponta um revólver à cabeça de Johannes Brahms.


jef, setembro 2001

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Os deuses não escolhem
















































Os deuses não escolhem

Ao fundo da cena, por entre o pano da invisibilidade, o pianista torna-se o observador atento da tragédia que se desenrola ali perto, no palco, iluminado a branco. Empédocles, perante o terrível dilema, é arrastado até à escolha impossível. Amado pelo povo como deus, é, simultaneamente, odiado pelos doutores como usurpador da fé e da devoção divina. Depois, repudiado como traidor por quem o amou, também é invejado pela ignomínia de chefes e sacerdotes que lhe cobiçam o alto critério do seu pensamento. Agora, amparado na inquebrantável lealdade do seu seguidor, Pausânias, e na paixão pura e devota da jovem Pânthea, vê-se obrigado a fugir da cidade e do jardim onde o escutaram e veneraram. Mas é na montanha que ele encontra o refúgio necessário e pode, finalmente, saciar a sede na fonte da sabedoria. Apenas a natureza lhe devolve a tranquilidade e nela reencontra o significado para a sua liberdade. Mais tarde, imploram que regresse mas ele recusa. É tarde demais, já nada o fará voltar atrás. O tormentoso caminho para a sua última decisão está agora serenamente traçado! No eco da clara planície povoada de pequenos seixos, transformada na densa montanha redentora, ressoa ainda a voz firme de Empédocles que, virado para o seu fiel amigo, declarara para que todos o oiçam:

«Pausânias! Não te esqueças disto: Aos mortais nada é dado de graça.»

A música adquire a força de um pungente recitativo que reforça os laços entre cada emoção e o carácter de cada personagem. Como se as palavras fossem demasiado verdadeiras para serem escutadas, são as sábias notas musicais das derradeiras sonatas de Schubert que permitem abrir as portas que levarão o pensador até à sua livre escolha. A sombra do herói desaparece, o cenário suspende-se na crueza das cores saturadas. O piano silencia-se. O público compreende.

É, precisamente, através no silêncio de uma partitura ausente que se progride durante os minutos finais sobre a tela negra, livre de imagens, legendas e genéricos, que o realizador Pedro Costa sugere a reentrada para a outra realidade. No fundo, o espectador tem ali a chave que o fará regressar da longa apneia em que mergulhou. O tempo e o espaço são-lhe devolvidos mas ele fica retido pelo preciso, mas enigmático, objecto da obra. O silêncio da música talvez seja o único epílogo possível para o filme que acabou de ser exibido. Sem margens nem conceitos. É ali que o espectador se confronta, em definitivo, com o labirinto de imagens e soluções de vida que lhe foi proposto. Será que aquela realidade lhe concedeu os autênticos parâmetros capazes de interpretar a falsa serenidade em que vive? Ou a falsa realidade do écrã possuirá, exclusivamente, a dimensão da sensibilidade de quem a ela assistiu? No fundo, apenas ali se contou uma história. No Bairro da Fontainhas em Lisboa. A demolição. Uma família e a vendedeira de couves e alfaces. Alegrias, tristezas, amizades, trabalhos, doenças, afectos e amarguras. Nada mais! Uma fábula de carne e osso, sem mote mas com moral. Como em todas as histórias, só palavras e imagens unidas pelo olhar da consciência de cada um. É assim, um filme pode trazer todas as perguntas mas tem o direito de recusar o prémio das respostas que lhe são exigidas. Porque, acima de tudo, ele é o símbolo das possíveis escolhas.

Mas se um filme é sobretudo um símbolo, este revela-se na beleza absoluta de cada um dos quadros sobrepostos. Uma beleza reencontrada, unicamente, em obras como “Nostalgia” de Tarkovsky, “Mãe e Filho” de Sokurov ou “Persona” de Bergman. E como nestas, aqui poderemos procurar o sinal inevitável, o supremo símbolo da liberdade artística. A cena passa-se no “quarto da meninas”. Vanda recebe nos seus domínios com a parcimónia que caracteriza os sapientes, o agora despojado Pango. Através de planos sucessivos, ali está ele sentado, mais ao longe Vanda, reclinada sobre a cama e, lá atrás, na parede marcada, apenas uma fotografia. Um passado.

Vanda diz: «Mas é a vida que a gente quer, é esta.»

Pango responde: “Não, não é a vida que a gente quer, parece que é a vida que a gente é obrigada a ter. Parece que já é um destino, é um traço...”

Vanda insiste: “É a vida que uma pessoa quer, acho eu. Hoje em dia é assim!”

Coincidência ou não, a peça decorria no palco ao mesmo tempo em que era exibido o filme. Separados por séculos, formas, expressões e músicas, ambos colocam no seu centro o mais sublime elemento da existência do homem que é, em simultâneo, o mais profundo significado da obra de arte. Talvez Empédocles estivesse a responder a Vanda. Talvez Vanda, involuntariamente, encontrasse o verdadeiro sentido para a vida e o quisesse partilhar com o filósofo, o poeta, o músico, o encenador, o realizador, o público. Se aos deuses lhes retiraram o poder do discernimento, que os simples mortais possam usar, então, esse dom que só a eles foi atribuído – o poder da liberdade, a liberdade de escolher!

 

jef, maio 2001

«No Quarto da Vanda» de Pedro Costa, 2000. Com Vanda Duarte, Zita Duarte, Lena Duarte, António Moreno, Paulo Nunes, Paulo Gonçalves, Pedro Lanban, Fernando Paixão.

«A Morte de Empédocles» (1ª versão) de Friedrich Hölderlin / Teatro da Cornucópia, Março 2001. Encenação: Luis Miguel Cintra. Cenário e figurinos: Cristina Reis. Intérpretes: Rita Loureiro, Sofia Marques, José Manuel Mendes, Luis Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Ricardo Aibéo, João Grosso. Música: excertos das sonatas para piano de Franz Schubert D 959 e D 960, interpretadas por Nuno Vieira de Almeida

«A Morte de Empédocles» de Friedrich Hölderlin. Edição bilingue. Tradução e prefácio: Maria Teresa Dias Furtado. Relógio D’Água Editores, 2001

«Schubert Piano Sonatas – D575, D894, D959, D960» por Alfred Brendel. Philips / Universal, 2001




terça-feira, 25 de agosto de 2020

 











«Utopia Americana. Significará isto ironia? Será uma piada? Estarei a falar a sério? E de que modo? Refiro-me ao passado ou ao futuro? Será pessoal ou político? Estas canções não descrevem um imaginário ou um lugar impossível possível mas sim uma tentativa de retratar o mundo em que agora vivemos. Muitos de nós, suspeito, não estamos satisfeitos com esse mundo – o mundo que fizemos para nós mesmos – bem, tem que ser assim? Estará aí outro dia? Estas canções são sobre esse olhar e essas interrogações.» David Byrne na ‘American Utopia’.

 

Há muito que David Byrne usa um determinado método de trabalho para estruturar os dias, pensar, olhar o mundo, criar, escrever, publicar, escutar e fazer-se ouvir. Através desse método, utiliza o passado não como tábua de salvação mas como sedimento que, sob a pressão dos anos, vai formando rocha metamórfica. No presente. Talvez por isso, não inclua no duplo álbum ao vivo «Psycho Killer» (faixa que talvez tenha mesmo sido tocada na Broadway…), escolhendo antes «Road to Nowhere» para ir terminando o espectáculo. Uma espécie de arquitectura, argamassa estruturada e consciente, que o leva a concluir o primeiro disco com «Glass, Concrete & Stone» vindo do anterior álbum de originais, de título sintomático «Grown Backwards» (2004).

Após os oito álbuns editados com os Talkins Heads e dos posteriores onze, a solo ou em associação, há um outro componente mineral que regressa sistematicamente para lhe rever, ajustar e redefinir o citado método. Um procedimento paralelo mas igualmente persistente: Brian Eno. Essa companhia pela qual surgiu «Remain in Light» dos Talkings Heads (1980) ou um objecto tão indefinido quanto secular de nome «My Life in the Bush of Ghosts» (1981).

Novamente com Brian Eno, surge em 2018 o disco «American Utopia». Sobrepõe-se-lhe uma recente matriz de luminosidade laboral de sintoma pop e cariz construtiva. Com ele vêm «I Dance Like This», «Every Day Is a Miracle», «Everybody’s Coming to My House». Junta-se-lhe «One Fine Day» do álbum «Everything That Happens Will Happen Today» (2008). O mundo pode não estar a ser assim tão bem escrito sobre as linhas tortas que o homem lhe tem imposto mas a última coisa que deve acontecer é perder-se a consciência e a vontade de que tudo pode ser de novo, social, cultural, ecológica e politicamente, revertido e melhorado. A meio da canção ele diz: “We’re only tourists in this life / only tourists but the view is nice”. Há sempre um certo milagre na vida através do qual tudo pode ser amavelmente contemplado, generosamente negociado ou raivosamente exigido. Por isso, aqui entra também, quase no fim, a canção de combate tribal de Janelle Monáe «Hell You Talmbout» (2015).

David Byrne sempre preferiu a percussão da tribo africana, com os pés a exigirem levantar a poeira vermelha, ao batuque do hip-hop urbano e sincrético, suavemente adoçado por sapatilhas violentas. Oiçam-se, assim, as versões de «Burning Down the House» ou «Blind».

Se existe um espírito criativo absolutamente livre ele é o de David Byrne, nada está fora do alcance da sua integração musical. Ele prefere cobrir o álbum de originais com as imagens do esquecido artista plástico nova-iorquino Purvis Young e despir o palco de artefactos, mesas, cadeiras, sapatos, cabos eléctricos. Apenas uma cortina de correntes metálicas (Maira Kalman) e os 13 músicos vestidos de clássicos fatos cinzentos (HeatherMary Jackson). A ausência obriga o essencial a descobrir-se, a dança a mover-se, as palavras a assumir nova consciência musical iluminando o mundo.

E está aí a chegar o filme realizado por Spike Lee. Atenção!

 

jef, agosto 2020

 

Referencial de Inércia









Referencial de Inércia


Quem salta, salta sempre sobre alguma coisa.

Essa coisa está subjacente ao impulso, ao movimento, ao salto.

A coisa refere-se, por inerência, ao salto mas está parada.

Por exemplo, é a terra sob os pés.

Sem a coisa parada sobre a qual se salta não há movimento.

Tire-se-lhe a referência quieta e esse movimento termina no Universo.

Acabam os pés que pulam, acaba a terra que fica.

O fim da anima.

O firmamento implode sobre si mesmo, fica ressequido, desaparece num átomo simples.

O electrão tomba sobre o próprio núcleo, o átomo extingue-se também.

Fica apenas uma pequena rã, incrédula, antes do salto, antes do ovo.


Porém, debaixo dos pés da rã a Terra moveu-se!


jef, agosto 2020

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Sobre o filme «The Knack… And How to Get It» de Richard Lester, 1965

 










Uma espécie de comédia rápida e delirante; scherzo coreografado; apontamento de bailado sobre a belíssima música de John Barry; divertimento sobre a falsa ingenuidade e a presunção do falso galanteador. Tudo girando à volta de uma cama de ferro com dois metros e a sua importância na real arte da sedução quando Londres se encontra no epicentro da revolução sexual. Este filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Nancy (Rita Tushingham) chega a Londres, deslumbrada e ingénua, e procura as instalações da YWCA. Colin (Michael Crawford) é um ingénuo professor de liceu que deseja uma cama larga e um pouco do talento de sedução (the knack) demonstrado pelo seu amigo Tolen (Ray Brooks). Encontra Nancy por quem tomba enamorado, tenta exibir as lições dadas por Tolen mas sem sucesso. Toda a velha geração londrina, numa espécie de coro grego geriátrico, range os dentes, franze o nariz, critica o desvario juvenil… mas a nova cama de ferro é um sucesso.

E contra mim falo, para apreciar este filme por inteiro, será necessário saber inglês na ponta da língua, um inglês citadino, de gíria, de rua, de certa intimidade. As legendas não lhe chegam e contêm imprecisões desconcertantes.

É um filme datado, de época, marcado pela visão urgente de uma ‘new vague’ artística. Um filme divertidíssimo, mas muito datado, que deve ter obrigado os actores a um esforço físico notável e, agora, obriga o espectador a ir ter com uma época e uma cidade nostalgicamente finitas.

 

jef, agosto 2020

 

«The Knack… And How to Get It» de Richard Lester. Com Rita Tushingham, Ray Brooks, Michael Crawford, Donal Donnelly. Argumento de Charles Wood segundo a peça de Ann Jellicoe. Fotografia: David Watkin. Música: John Barry. Grã-Bretanha, 1965, P/B, 85 min.

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Sobre o filme «Adam» de Maryam Touzani, 2019

















Sob a penumbra luminosa da casa-padaria da viúva Abla (Lubna Azabal) e da sua pequena filha Warda (Douae Belkhaouda) vem instalar-se Samia (Nisrin Erradi), grávida e sem tecto para ficar em Casablanca. A história é muito fácil de contar não fora os portentosos silêncios e olhares trocados entre as duas mulheres. A pequena Warda é o contraponto de ignição, o discreto e apaixonado fornecedor Silmani (Aziz Hattab), o contraponto do afecto masculino.

Entre as cores densas, pastel e saturadas, vindas de um renascimento realista e flamengo, assenta o entendimento feminino na discreta cumplicidade moral. Este é um filme que tinha tudo para ser lamechas, mas não é! Tudo para ser feminista, mas não é? Tudo para ser dogmaticamente político, chauvinista até, mas não é? Apenas demonstra a realidade comum (e universal) do ser complexo feminino (e maternal), um ser que, de certo modo, faz parte integrante de todos nós.

Pode dizer-se que é um belíssimo filme, terno e ecuménico, que terá o difícil mérito de reunir o aplauso dos críticos e do público, caso este resolva tirar as pantufas do covid e ir até ao cinema contemplar a Metade do Céu.


jef, agosto 2020


«Adam» de Maryam Touzani. Com Lubna Azabal, Nisrin Erradi, Douae Belkhaouda, Aziz Hattab, Hasnaa Tamtaoui. Fotografia: Virginie Surdej. Marrocos, Bélgica / França, 2019, Cores, 100 min.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Sobre o filme «A Doce Vida» de Federico Fellini, 1960










Em 1960 estreavam em Itália «A Doce Vida» de Federico Fellini, «Rocco e os seus Irmãos» de Luchino Visconti e «A Aventura» de Michelangelo Antonioni. E o cinema nunca mais foi igual. 

Ao rever agora, em cópia e som restaurados, grande ecrã, sala cheia e respeitosa, surge-me a ideia de que principalmente Fellini reinventou a tristeza ao desencantar-lhe a sua profundidade nostálgica, onde o presente se dá mal com o passado e evita, a todo o custo, olhar em frente. A noite é longa, o dia aparece repentinamente, acusador, fazendo sobrevoar a figura brilhante de Cristo acima dos escombros construídos da cidade. Marcello Rubini (M. Mastoianni) não consegue ouvir o que dizem as jovens que no terraço apanham banhos de sol, pede-lhes por sinais os números de telefone mas elas recusam.

Fellini vai contado histórias sobre figuras desenraizadas, apesar de tudo imparáveis, que correm e percorrem episódios e lapsos de uma sociedade burguesa que deseja esquecer a guerra e o fascismo mas que vai mergulhar na Fontana di Trevi para esquecer as paredes decrépitas de uma Roma clássica trucidada pelo império do catolicismo. 

Todas essas personagens são pasto dessa infelicidade, dessa indefinida e infinita angústia melancólica: a ‘suicida’ Emma (Yvonne Furneaux), a ‘desapaixonada’ Maddalena (Anouk Aimée), a ‘deslumbrada’ Sylvia (Anita Ekberg), o ‘paternal’ (Alain Cuny), até o pai de Marcello (Annibale Ninchi), o palhaço Polidor, Nadia (Nadia Gray), Fanny (Magali Noel), Nico, o pequeno gatinho branco, a raia monstruosa e fétida que é trazida nas redes até à praia, no final da festa, entre o ensurdecedor barulho do mar. Do outro lado do braço de mar, surge a jovem empregada de mesa de Perugia (Valeria Ciangottini) que lhe suplica em pura inocência. Mas o envelhecido Marcello não a consegue ouvir e volta para trás. E a melancolia do futuro perdido para sempre fica a vibrar no interior do espectador… tanto quanto essas outras cenas finais, também inesquecíveis, de «A Morte em Veneza» de Luchino Visconti (1971) ou de «A Noite» de Michalangelo Antonioni (1971).

Ah, beleza tamanha!


jef, agosto 2020


«A Doce Vida» (La Dolce Vita) de Federico Fellini. Com Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Yvonne Furneaux, Walter Santesso, Adriana Moneto, Lex Baxter, Alan Dijon, Alain Cuny, Valeria Giangottini, Magali Noel, Nadia Gray, Annibale Ninchi, Polidor, Nico, Valeria Ciangottini. Fotografia: Otello Martelli. Música: Nino Rota. Produção: Giuseppe Amato, Angelo Rizzoli. Itália, 1960, P/B, 178 min.