quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sobre o filme «A Grande Cidade» de Satyajit Ray, 1963






















O cinema de Satyajit Ray é enorme, universal, e oferece-nos este «A Grande Cidade» como um manual prático de procedimentos citadinos ou uma bíblia teórica sobre o comportamento humano.

Estamos em Calcutá, em 1963, a viver em casa do extremoso pai de família Subrata Mazumdar (Anil Chatterjee), acarinhado pela esposa vigilante Arati Mazumder (Madhabi Mukherjee), acompanhado pelo filho de ambos, a sua irmã estudante e os seus pais. O espaço é exíguo. Todos se compreendem, entreajudam-se, agregam-se, mas todos também reprimem certos modos atávicos e ancestrais de incompreensão ou desagregação. A intimidade é criada no seio de uma cidade gigantesca e sem portas. O dinheiro escasseia, a doença exige, o desemprego espreita. A mãe de todos, Arati, não terminou o curso mas deseja intimamente realizar-se procurando um emprego para ajudar nas despesas. A tal cidade sem portas é vigilante, fracturada e injusta. Porém, a justiça não será vencida, não poderá haver cedências. O amor assim o dita.  

De um modo prosaico, podemos comparar o filme a uma cebola ou a um caleidoscópio tão múltipla é a forma como nos mostra a família, o afecto, a cidade, a cultura, os preconceitos, o racismo, a história. Uma história sobre a condição feminina que, afinal, poderá ser, afinal, a história da condição masculina.

Toda a beleza fica sustentada nas lágrimas de Arati, no carinho com que Subrata as seca, no caminho que ambos depois seguem, lado a lado, pelo interior da cidade monumental. Monumentalmente neo-realista é esta cena pelo traço de futuro conquistado com que sublinha o final de um dos mais bonitos filmes do mundo.


jef, junho 2021

«A Grande Cidade» (Mahanagar) de Satyajit Ray. Com Anil Chatterjee, Madhabi Mukherjee, Jaya Bhaduri, Haren Chatterjee, Sefalika Devi, Prasenjit Sarkar, Haradhan Bannerjee, Vicky Redwood. Argumento: Satyajit Ray segundo a história de Narendranath Mitra. Fotografia: Subrata Mitra. Produção: R.D. Bansal. Índia, 1963, P/B, 131 min.

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Sobre o livro «Confusão de Sentimentos» de Stefan Zweig, Antígona, 2004. Tradução de Manuela Gomes.














«Para deixar um coração irremediavelmente destroçado, o destino não precisa nem de um grande impulso nem de recorrer a uma força brutal e brusca; dir-se-ia que a sua indomável vontade de moldar retira prazer, justamente, em aniquilar por um motivo fútil. Na nossa obscura linguagem humana, chamamos a esse primeiro contacto indefinido «causa fortuita», e comparamos com surpresa a sua dimensão diminuta com as consequências muitas vezes poderosas que dele advêm; mas, do mesmo modo que uma doença não começa com o diagnóstico que dela se faz, também o destino de uma pessoa não começa só quando se torna visível e se concretiza. Muito antes de atingir a alma a partir de fora, o destino manobra por dentro, no espírito e no sangue. Conhecer-se é já defender-se – e quase sempre em vão.»

Este é o introito com que se inicia, precisamente, o conto «Coração Destroçado». A história de um velho e respeitado funcionário, árduo trabalhador em prol da família, que resolve ir passar umas férias com a esposa e a filha às meridionais temperaturas, deixando para trás as termas germânicas onde costuma tratar-se dos habituais cálculos biliares. Numa noite de insónia, um movimento no corredor e uma suspeita diabólica cola-se-lhe ao destino. Será uma das melhores definições para a escrita de Stefan Zweig. Uma escrita tão desvalorizada como amada pelos leitores mundiais que, em Portugal, fez encher as estantes de muitos lares com as consecutivas edições das Livraria Civilização, nos passados anos 1940-50. Tão psicologicamente existencialista (ou romanticamente realista) como Dostoiévski, Pirandello, Kafka ou Flaubert, é capaz de arrastar o leitor através dos minuciosos véus que, sucessivos, escondem a personalidade das figuras pelas quais o autor visivelmente se apaixona. E o que o une a todas aquelas vedetas literárias é esse sábio jeito de mostrar as clivagens, medos e interstícios das personagens sem lhes colocar sobre a cabeça qualquer espada moral. Ele tem sempre o cuidado de mostrar todas as faces de que se compõem, logo todas as causas e cambiantes, levando o leitor a, com ele, também por elas se enamorar. E fá-lo de um jeito muito sóbrio, quase tímido, escondendo a mestria novelesca numa cultura universal, sem fronteiras de língua ou outra, de que era absolutamente e apaixonado devedor.

Neste volume não surgem o famosíssimo «Vinte e Quatro Horas da Vida duma Mulher» (1935), o sintomático «O Alfarrabista Mendel» (1929) ou o derradeiro «Novela de Xadrez» (1942). Porém, entre as oito ficções estão talvez duas das mais complexas e carismáticas novelas do escritor: «O Medo» (1925) e «Confusão de Sentimentos» (1927). É raríssimo ler-se assim a atroz ansiedade de uma mulher presa na teia que o seu próprio tédio construiu, ou o angustiante sofrimento de um amor calado e proibido entre o professor e o seu aluno.

Sem dúvida, Stefan Zweig sabe dissecar sem alguma vez culpar a alma dos homens.

Em 1942, escreveu «O Mundo de Ontem» mas pode ser muito bem o símbolo futuro de uma cultura livresca, nostálgica e humanista que tem urgentemente de voltar a ser popular.

 

jef, junho 2021

 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Sobre o filme «Prisão Maior» de Joseph Losey, 1960
























Diz a IMDb que Joseph Losey estudou com Bertold Brecht. Na realidade, existe qualquer coisa de profundamente humano na dramaturgia do realizador (mesmo quando Harod Pinter não intervém). Talvez mesmo fracturante, amoral, onde as personagens são tudo e, no fundo, pouco são no justo momento em que a realidade os encosta à parede (ou às grades da prisão). Tal como nos heróis de Brecht.

Johnny Bannion (Stanley Baker) é rei e senhor numa prisão onde chefia prisioneiros e controla guardas até ao instante em que a liberdade é imposta e a prisão de um mundo de crime, subserviente a códigos bem mais específicos e inatacáveis, se sobrepõe à sua própria dominância. Ele expulsa todos da festa que se realiza na sua própria casa, incluindo Maggie (Jill Bennett) a anterior namorada que chega para exigir tributo, e encontra deitada e escondida na sua cama Suzanne, uma extraordinária Margit Saad, a exigir uma devoção a que ele ficará devedor. 

O golpe na casa de apostas das corridas de cavalo é bem-sucedido, o dinheiro é escondido mas ele tem de voltar à prisão. O estigma dominador do seu mundo parece agora desfazer-se. A autoridade que antes impunha é cercada pela desconfiança, pela revolta, pelo desprezo, tanto no interior da prisão como do outro lado. A solidão aproxima-se, cerca-o. Resta-lhe fugir até à neve, apesar de ferido, e calar o segredo. Rezará nos braços de quem lhe exige a revelação do lugar perdido e a câmara afasta-se do corpo estendido no campo gelado. Não existe símbolo mais poderoso e redentor do existencialismo humano. O silêncio contra a fúria. Nada mais resta aos heróis caídos.

De Visconti a Renoir, de Ford a Kubrick, também a Joseph Losey – o cinema completo!


jef, junho 2021

«Prisão Maior» (The Criminal) de Joseph Losey. Com Stanley Baker, Sam Wanamaker, Grégoire Aslan, Margit Saad, Jill Bennett, Rupert Davies, Laurence Naismith, John Van Eyssen, Noel Willman, Kenneth Warren, Patrick Magee, Kenneth Cope, Patrick Wymark, Paul Stassino, Tom Bell, Neil McCarthy, Nigel Green, Tom Gerard, Edward Judd. Argumento: Alun Owen. Fotografia: Robert Krasker. Música: John Dankworth. Produção: Nat Cohen. Grã-Bretanha, 1960, P/B, 97 min.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Sobre o filme «O Pai» de Florian Zeller, 2021







Claro que Anthony Hopkins (Anthony) é extraordinário no modo de nos deixar em palpos de aranha quando a neurologia começa a falhar retirando os filtros do bom comportamento, da boa vizinhança, da memória. Impressionante como consegue fazer baixar sobre o próprio olhar o véu calado da auto-incompreensão e, posteriormente, do alheamento.

Mas sem a desesperada, submissa e silenciosa sua filha Anne (Olivia Colman) essa acrimónia potencial, e agora exposta, de nada valeria.

Sobretudo, o facto de a história ser contada entre fracturas de tempo e lapsos de arquitectura doméstica, sempre pelo lado interior de quem não entende a causa da geografia espacial se revoltar contra a rotina da lembrança, é digno de excelente nota. A lembrar o espanto com que se lê «O Som e a Fúria» de William Faulkner (1929) ou «O Vento Assobiando nas Gruas» de Lídia Jorge (2002).

Mas não será comum essa resignação final, esse apaziguamento emocional interior. Infelizmente, a grande maioria das histórias não têm tal melancolia triste mas pacífica no seu termo. Coisa mais de pesponto cinematográfico hollywoodesco do que de realismo diegético.


 jef, junho 2021

«O Pai» (The Father) de Florian Zeller. Com Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss,     Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker. Argumento: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado no romance deste último. Fotografia: Ben Smithard. Música: Ludovico Einaudi. EUA / França, 2021, Cores, 97 min.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Rocha dúctil

 

Aconchego-me ao Grande Canyon,

entre fundas perspectivas e doces poeiras aromáticas.

Aí, permaneço.

E adormeço nessa penumbra ocidental.

Na penugem do amor,

na lucidez translúcida do fluído,

no instante fortuito da saliva,

no corpo solvente do calor,

num certo reverso da experiência

em que me desfaço e me cuido,

sem saber se, algum dia, me deixarão regressar.

Mas, sim, um dia regressarei

de sono tão invulgar,

do sol sem zénite,

desse líquido porvir.

Agora, estou certo, vou acordar

encadeado pelo crepúsculo

que me fechará os olhos,

como fazem as rochas dúcteis

ao levantarem-se do pó duro da agonia.

Nesse momento, estarei pronto.

E voltarei a partir.

 

jef, junho 2021

 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre o filme «As Consequências do Amor» de Paolo Sorrentino, 2004



















Afinal, a tragédia é uma comédia. Quase todos os filmes de Sorrentino o são, mas este é mais silencioso, mais apurado, mais simples. Com menos espalhafato narrativo e cenográfico que os demais.

Titta Di Girolamo (Toni Servillo) é um homem elegante, discreto, solitário, divorciado que vive num hotel na Suíça e paga a tempo e horas o seu quarto. A rotina é uma praxe. O segredo que guarda também. O dever de seriedade ajuda-o a manter a tal rotina vai para dez anos. Não passa despercebido às mulheres: a empregada de quarto admira-o secretamente. Sente-se atraído por Sofia (Olivia Magnani), a empregada do bar. E ela também por ele. Mas parece não lhe passar cartão. Até que um dia, Titta escreve num pequeno cartão: “projecto de futuro: não subestimar as consequências do amor”. E faz um desfalque.

Essencialmente, é a seriedade e a elegância extremas do actor Toni Servillo que transformam a tragédia em comédia (e vice-versa), dando um cariz “Buster Keaton” a Titta Di Girolamo. O seu desejo é o seu isolamento. A solidão é talvez o mote para o seu calmo desespero.

Tem um contrato que não pode quebrar. Tem um irmão surfista com quem não se dá. Tem uma família que não quer saber dele. Tem um melhor amigo que trabalha na reparação das linhas de alta tensão nos Alpes, e que não vê há muito.

Para ele, o amor é inevitável e as suas consequências não as poderá subestimar.

É, afinal, um filme perversamente melancólico sobre a estrutura de uma das organizações mais sinistras de Itália. E essa melancolia amorosa tudo deve à representação de um actor: Toni Servillo.

 

jef, maio 2021

«As Consequências do Amor» (Le Conseguenze dell'Amore) de Paolo Sorrentino. Com Toni Servillo, Olivia Magnani, Adriano Giannini, Antonio Ballerio, Gianna Paola Scaffidi, Nino D'Agata, Vincenzo Vitagliano, Diego Ribon, Gilberto Idonea, Giovanni Morosso, Giselda Volodi. Argumento: Paolo Sorrentino. Fotografia: Luca Bigazzi. Música: Pasquale Catalano. Produção: Francesca Cima, Angelo Curti. Itália, 2004, Cores, 100 min.

 

sábado, 29 de maio de 2021

Sobre o filme «Dias Selvagens» de Wong Kar Wai, 1990





























Wong Kar Wai é o realizador que filma a penumbra das horas, coisa a que os dicionários costumam dar o nome de nostalgia. Quanto tempo dura um minuto? É muito, é pouco tempo? Dará para ser guardada na memória para sempre?

Assim o diletante e desocupado Yuddy (Leslie Cheung) mede o olhar sobre o mostrador do relógio. É este o símbolo (ou o estigma) do filme que perseguirá Yuddy até ao final, martirizado pelo amor apaixonado de duas mulheres: Su Li-zhen (Maggie Cheung) e Leung Fung-ying (Carina Lau) mas também pelo desamor de duas mães, a adoptiva (Rebecca Pan) e a biológica (Tita Muñoz). E é nesse desacerto que ele parte para as Filipinas.

No entanto, uma certa história é confidenciada em desespero de causa e paixão por Su a um polícia de giro nocturno, Tide (Andy Lau), que se torna seu complacente ouvinte. Mas também este parte, agora como marinheiro, para as Filipinas, levando consigo a história escutada de um pássaro sem patas que só poderia poisar para morrer. Exactamente como o amor.

Será a história que irá aproximar Yuddy e Tide quando se encontram, desamparados, construindo uma irmandade baseada na memória partilhada em diferido.

A belíssima fórmula estética de Wong Kar Wai fá-lo perseguir esta soberba nostalgia decadente, mas quase renascentista, pelos filmes seguintes. Com ele transportará o modo novelesco de fazer saltar as personagens no tempo e no espaço, deixando pontas de ligação entre os filmes, guardando a imagem do amor impossível e das coincidências improváveis assentes no impressionante sotaque romântico.

Foi ele que nos gravou na memória os minutos de beleza dos actores Maggie Cheung e Tony Chiu Wai. Também a fotografia de Christopher Doyle e a inesquecível flutuação fatal e melancólica de Nat King Cole ou Xavier Cugar.

Nunca o suor, as lágrimas e a chuva das noites quentes de Hong Kong foram filmados de forma tão comovente.

Wong Kar Wai ensina-nos a nunca mais esquecer estes 90 minutos de filme.


jef, maio 2021

«Dias Selvagens» (Days of Being Wild / Ah Fei jing juen) de Wong Kar Wai. Com Leslie Cheung, Carina Lau, Andy Lau, Rebecca Pan, Jacky Cheung, Tony Chiu Wai, Tita Muñoz. Argumento: Jeffrey Lau e Wong Kar Wai. Fotografia: Christopher Doyle. Música: Terry Chan. Produção: Candy Leung, Alan Tang, Rover Tang, Wing-Kwong Chan. Hong Kong, 1990, Cores, 90 min.