segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Sobre o filme «Os Irmãos de Leila» de Saeed Roustayi, 2022


 
























Ainda não esquecemos «A Lei de Teerão» (2019), essa ópera dramática entre a acção trágica e confinada e a violência acelerada de um mundo quase burlesco, e Saeed Roustayi apresenta-nos novo filme de acção. Desta vez, uma saga familiar onde todos são pobres, quase todos desempregados ou com pendor para a burla ou para o disparate. Aqui, ninguém é feio, ninguém é porco, ninguém é mau (como diria Ettore Scola, em 1976). Todos discutem e todos se amam. Ninguém se incompatibiliza guerreando-se. Lutam pela sobrevivência familiar, pela sua moral, pela sua probidade.

Um filme onde não existem actores secundários. A história começa com a luta operária contra o encerramento da fábrica de produtos metalo-mecânicos onde Alireza (Navid Mohammadzadeh) trabalha e de onde foge sem indeminização nem honra, talvez por cobardia. Porém, quando chega a casa o caso passa para a irmã Leila (Taraneh Alidoosti), das poucas empregadas da família, que tenta gerir o caos familiar e procura uma solução financeira para ocupar os irmãos de comportamento quase infantil. Até que a atenção se vira para o pai (Saeed Poursamimi) que tenta a todo o custo ainda conquistar a sua dignidade de mais velho tornando-se patriarca do gigantesco clã. Só que esse passo é dado apenas a poder de ouro contado.

Aqui olhamos toda a técnica do cinema clássico de acção ou realista americano ou europeu mas onde Saeed Roustayi acrescenta uma velocidade cinematográfica e um fôlego social muito particulares.

De novo, em «Os Irmãos de Leila» é preponderante a sequência dos planos acompanhando os meandros de argumento que são alicerces para um jogo muito fino a ser entregue a actores fundamentais.


jef, novembro 2022

«Os Irmãos de Leila» (Leila's Brothers) de Saeed Roustayi. Com Taraneh Alidoosti, Saeed Poursamimi, Navid Mohammadzadeh, Payman Maadi, Farhad Aslani, Mohammad Ali Almohammadi, Navereh Farahani, Mehdi Hoseininia, Mohammad Javad Babapour, Nayereh Farahani, Mehdi Hosseinina, Hossein Norouzi. Argumento: Saeed Roustaee. Produção: Saeed Roustaee e Javad Nozurbegi. Fotografia: Hooman Behmanesh. Música: Ramin Kousha. Irão, 2022, Cores, 165 min.

 

domingo, 4 de dezembro de 2022

Sobre o filme «O Trio em Mi Bemol» de Rita Azevedo Gomes, 2022




















Rita Azevedo Gomes apresenta-nos a mais serena, profunda e perfeita reflexão sobre a imperfeição dos dias, sobre a terna imperfeição do amor comum. Uma visão carinhosa e complacente dos males que nos ocorrem, que nos podem acorrer.

E o mais estranho é que o filme não tem qualquer truque, apenas o desejo de filmar em conjunto numa altura em que a máscara era exigível e o confinamento nos tirava a alegria de ir ao cinema e sugeria (em sonhos) à realizadora que não mais iria poder filmar.

O realizador Jorge (o próprio realizador espanhol Ado Arrieta), alegremente, quase em jeito pueril, passa o tempo a dizer que têm de refazer as cenas, de voltar a filmar e, no fim, diz mesmo entre sorrisos que todos devem regressar ao princípio. Adélia (Rita Durão) representa ou faz dela própria em momentos alternados onde o seu francês é emendado em cena pelo actor-não-actor Pierre Léon (Paul). Há muito que Adélia e Paul se divorciaram mas ela visita-o regularmente e conta-lhe longamente os seus encontros e desencontros amorosos. Ele escuta-a com benevolência, também inveja, e recorda-lhe que, de momento, se encontra sozinho. Sem dúvida parece entenderem-se numa parcela ínfima (mas de crucial importância para a humanidade) que é a comunhão no seio de uma partitura musical, um trecho musical que possui o imponderável poder de elevar o ser humano ao mais alto estrato do firmamento emocional…

É evidente que Mozart (e a sua inestimável arte de sacar tardiamente a mais maravilhosa veia nostálgica do clarinete: o concerto KV 622, os quintetos KV 581 ou o KV 452) é cúmplice principal. Aqui, o Trio para piano, clarinete e viola “Kegelstatt” KV498!

Também a casa vazia, as janelas, as portas, os muros, as esquinas e o jardim da casa de Moledo arquitectada por Siza Vieira são igualmente personagens principais.

E essa visão tão modernamente romântica, tão dramaticamente directa que Eric Rohmer tem de conversar sobre tudo e sobre nada em longas homilias pagãs, amorosas, litúrgicas e letárgicas numa época em que ainda não havia telemóveis mas que também ninguém sonhava com a chegada de uma pandemia que viraria o mundo do avesso.

Acima de tudo, essa maravilhosa timidez cinematográfica de Rita Azevedo Gomes que subtrai tudo que que não é essencial para nos colocar à frente da estrutura mais singela do desejo amoroso, da mais íntima volição musical.

Um filme difícil de esquecer!


jef, junho 2022

«O Trio em Mi Bemol» de Rita Azevedo Gomes. Com Rita Durão, Pierre Léon, Ado Arrieta, Olivia Cábez, Mauro Soares, Mário Veloso. Argumento: Rita Azevedo Gomes e Renaud Legrand, a partir da peça de teatro de Éric Rohmer. Produção: Rita Azevedo Gomes e Gonzalo García-Pelayo. Fotografia: Jorge Quintela. Som: Olivier Blanc, António Porém Pires, Tiago Matos. Portugal/ Espanha, 2022, Cores, 127 min.

domingo, 27 de novembro de 2022

Sobre o livro «Uma Abelha na Chuva» de Carlos de Oliveira (1953), Livraria Sá da Costa, 1996.



 








D. Cláudia observa, superior, as caras dos convivas fúnebres transfiguradas pelas chamas da lareira.

“No entanto, pensando melhor, tais juízos partiam de argumentos alicerçados no real: manias, doenças, tiques psicológicos e morais, etc. Não eram construções à toa. De maneira nenhuma. Podiam bem deduzir o seguinte sem se atraiçoar: vê-los desfigurados é vê-los verdadeiros; todos eles fabricam fel; abelhas cegas, obcecadas.”

D. Cláudia, a de alma transparente, faz de compère ou de coro grego ou de alter-ego do escritor que, resumindo, dá por finda a ronda por estes seres falhados, ressabiados, rancorosos, empanturrados de inveja e remorsos, com um longo passado cinzento mas sem qualquer futuro.

Álvaro Silvestre vive afundado em brandy e na tentativa de redimir os pecados constantes, de se denunciar, de fugir da mulher, D.Maria dos Prazeres, da sua instigação. Tenta entrar no quarto mas a porta encontra-se fechada à chave.

De Montouro a Corgos chove continuamente e a tempestade não dá tréguas sobre o mar longínquo como um túmulo nem sobre a oficina de olaria do mestre António.

“O desespero sem remédio que espreitava dentro dele irrompeu de novo. Pela madrugada irreal. Compreendeu que nada podia sufocá-lo. Duma maneira ou doutra, na indiferença da mulher ou na conversa do palheiro, fosse no que fosse, ouvi-lo-ia sempre. Agora mesmo uma voz errando no silêncio lhe insinuava: as aves largam para o espaço mas serão destruídas; há laranjas sãs pelas ramagens mas hão-de apodrecer; as vindimadeiras cantam, o gado pasta, os homens cavam, mas tudo, tudo é estrume da terra. No silêncio deserto a voz obsidiante persistia: quando quiseres matar a sede, lavar o sarro desta noite, das conversas tidas, das conversas ouvidas, a água secará de vez.”

Na minha leitura baralhada, caótica, feita de vagar e de comparações torpes, surge-me este livro escrito em XXXV estâncias (que devem ser lidas entre pausas como nos livros de poemas). Asseguro-me que bem compreendo como as personagens nos aparecem nítidas e interiores, ora penumbrosas ora diáfanas, como as de José Cardoso Pires, e as descrições narrativas tão feéricas e incontornáveis como as de Eça de Queirós.

 

jef, novembro 2022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Sobre o disco «ForeverAndEverNoMore» de Brian Eno, Opal, 2022





















Sim, na realidade é o mesmo Brian Eno dos Roxy Music (“Roxy Music”, 1972; “For Your Pleasure”, 1973).

O mesmo de “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” (1974), “Another Green Day” (1975), “Before and After Science” (1977); “Fourth World Vol. 1 Possible Musics” (com Jon Hassell) (1980).

Aquele do “Remain In Light” dos Talking Heads (1980) e do “My Life In A Bush of Ghosts” (com David Byrne) (1981).

Sim, tal e qual, o de “Another Day On Earth” (2005) ou do sêxtuplo álbum “Music For Installations” (2018).

Brian Eno tem 74 anos e diz ter agora a voz mais grave e que deseja adaptá-la às sonoridades paisagísticas abstractamente urbanas que cria e nas quais vem sempre mergulhando. Não fica parado. Nunca. Segue em frente e coloca a tal voz mais grave ao serviço das personagens humanas (ou sombras humanas) que vai colocando, aqui e ali, nestas dez faixas. A poesia é humana, por definição romântica. E este disco é romântico e poético. A meio caminho aquático do que aí vem. Igualmente a meio caminho do álbum pop de 2005 e daqueles ambientais de 2018. Porém mais cinematográfico, plástico, sincrético. Mais unificador ou ecuménico, outros diriam. Tanto faz.

«ForeverAndEverNoMore» lembra-me esse fio de ariadne que, sem termos bem noção da sua direcção, nos agarra na memória musical tão antiga e a projecta no futuro, talvez incerto ou angustiado, talvez sereno e complacente.

A música que ouvimos tanto nos forma como nos integra. Há muito que Brian Eno me confirmou tal axioma através da sua teoria dos sons.


jef, novembro 2022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Sobre o filme «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» de Rainer Werner Fassbinder, 1972



 





















Revê-lo agora, em cópia restaurada, num ecrã grande e com idosa maioridade é um acto de compreensão estética e ética do mundo.

Um filme sobre a palavra e o poder, vindo do teatro, filmado em palco isabelino, três ou quatro estruturas ostensivamente cénicas, sobrepostas, a cama no centro, onde as figuras femininas se cruzam e interpretam as suas próprias angústias, as suas próprias razões, à luz do próprio olhar cruzado, silenciado, ofendido ou assumido, negando em cada cena tudo aquilo que terá sido dito ou assumido na cena anterior. Como tantas vezes acontece ao longo de uma vida inteira. Aqui em duas horas e sobre o olhar de manequins-espelho, maquilhagens-máscara, lágrimas teatrais, guarda-roupa ostensivamente dramático, exuberante, irreal.

Fassbinder prova-nos que um filme de sucesso comercial pode ser tão pouco comercial, tão incomum, tão heterodoxo, tão esteticamente plástico, tão contido e estilizado. Tão clássico. Tão teatral no sentido em que no teatro tudo o que não é visto é por nós assegurado como verdade. A verdade do amor como forma de negar a liberdade ao outro. A verdade do poder como forma de subjugar o afecto. A verdade de assumir a submissão como modo de aceitar um amor silenciado. Desde a tragédia grega, Shakespeare, Brecht, Ibsen ou Bergman.

Todo o acto dramático parece condensar-se na relação da recém-divorciada Petra von Kant (Margit Carstensen) com a jovem sedenta de futuro e liberdade Karin (Hanna Schygulla), sob o olhar envidraçado e assumidamente submisso da secretária Marlene (Irm Hermann), em contraponto com a resignada, talvez invejosa, Sidonie (Katrin Schaake). Também em conflito consigo própria e olhando-se ao espelho nos olhares de sua mãe Valerie (Gisela Fackeldey) e de sua filha Gabi (Eva Mattes). Valerie reencontrou Deus, Gabi, iniciou-se no amor adolescente.

Afinal, a história do poder e da submissão no mundo nascido este do recanto da paixão e das entranhas femininas.


jef, novembro 2022

«As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» (Die Bitteren Tränen der Petra von Kant) de Rainer Werner Fassbinder. Com Margit Carstensen, Hanna Schygulla, Katrin Schaake, Eva Mattes, Gisela Fackeldey, Irm Hermann. Argumento: Rainer Werner Fassbinder. Produção: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler Cenários: Kurt Raab. Guarda-roupa: Maja Lemcke. Fotografia: Michael Ballhaus. RFA, 1972, Cores, 89 min.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Sobre o filme «O Medo Come a Alma» de Rainer Werner Fassbinder, 1973































Um dos filmes mais intensamente políticos sobre o amor. Ou como R.W. Fassbinder transforma a realidade para que esta adquira a sua mais real profundidade e nos leve a acreditar que a arte é um dos grandes êmbolos ou alavanca com energia suficiente para modificar a sociedade.

O caso parece ter mesmo acontecido, tendo sido noticiado, mas o desfecho é muito mais cruel do que o da história que o realizador conta.

Emmi (Brigitte Mira), mulher com idade para ser avó, empregada de limpeza, é levada até a casa, num dia de chuva, por um jovem negro, imigrante marroquino, gentil e cerimonioso, Ali (El Hedi ben Salem), a trabalhar numa oficina de automóveis. A noite passa-se carinhosamente pois os transportes já não podem levar Ali de volta até casa. Emmi e Ali apaixonam-se. Emmi e Ali resolvem casar-se. Emmi e Ali casam-se.

Mas a sociedade não está preparada para aceitar um amor assim.

Em apenas hora e meia e numa cronologia cénica e dramática rigorosa, bela e perfeita, não só vemos o efeito da sociedade sobre o inusitado casal, como assistimos ao que, dentro de cada um, de Emmi e de Ali, se vai transformando. A relação com as colegas de trabalho e a família de Emmi, a masculinidade e a úlcera de estômago de Ali. As relações laborais, de vizinhança, o racismo, o envelhecimento, a sociedade que dever ser muito mais produtiva do que afectuosa.

Tudo dito de um modo simplesmente belo, sem rodriguinhos de encenação, sem palavras a mais, com os silêncios certos, num palco discretamente exuberante.

Tudo ali conta.

Um filme que devia ser levado à cena em todas as escolas e universidades.

Um filme a ser guardado no coração.


jef, novembro 2022

«O Medo Come a Alma» (Angst essen Seele Auf) de Rainer Werner Fassbinder. Com Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Barbara Valentin, Irm Hermann, Elma Karlowa, Anita Bucher, Gusti Kreissl, Doris Mattes, Margit Symo, Katharina Herberg, Lilo Pempeit, Peter Gauhe, Marquard Bohm, Walter Sedlmayr, Hannes Gromball, Hark Bohm, Rudolf Waldemar Brem, Karl Scheydt, Ingrid Caven, Kurt Raab, Rainer Werner Fassbinder. Argumento: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Jürgen Jürges. Cenários: Kurt Raab, Rainer Werner Fassbinder. RFA, 1973, Cores, 93 min.

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Sobre o filme «O Casamento de Maria Braun» de Rainer Werner Fassbinder, 1979.







Um filme rápido, ágil, veloz. Hollywoodesco ao modo de Fassbinder. Como ele vê o futuro da Alemanha Ocidental após a guerra, entre os escombros de uma velha sociedade destruída, na voragem do poder e na ascensão do seu novo ritmo, voraz. Fassbinder entrega a Hanna Schygulla o poder feminino de edificar essa nova moral, esse novo dogma, esse novo amor.

Por causa da guerra e da mobilização militar, Maria Braun poucas horas passa com o marido, Hermann Braun (Klaus Löwitsch) mas, após aquela terminar acredita que ele regressará, contudo não se resigna nem ao destino, nem ao que a sociedade parece estar a reservar-lhe. Vencerá agarrando todos os truques, todos os subterfúgios, toda a crença de que é capaz de lá chegar. Nada a detém. Mesmo quando o marido regressa e a vê envolvida com um soldado americano. Maria mata o amante, Hermann dá-se como culpado. Por amor. Maria singrará no mundo milagroso dos negócios alemães do pós-guerra. Vai para a cama com o patrão, Karl Oswald (Ivan Desny), tornam-se amigos e amantes. E Karl entrega dinheiro a Hermann, na prisão, às escondidas, para que ele possa sair da Alemanha e regressar com a vida restabelecida. Maria e Hermann Braun amam-se mas tornam-se desconhecidos um do outro. Maria Braun continua a trepar pelos escombros de uma cidade que se reconstrói à imagem da própria Maria Braun.

Um filme que nega veemente a parábola de Fassbinder que afirma “o amor é mais frio do que a morte”. Contudo, no final, a transformação de uma quase comédia em puro melodrama, assegura que Fassbinder nunca deixou de questionar o futuro da sociedade, do cinema e do amor.

Um filme que parece simples mas que também é escrito nas entrelinhas de um diálogo exuberante e cristalino.

Um dos filmes, senão o filme, de Hanna Schygulla.


jef, novembro 2022

«O Casamento de Maria Braun» (Die Ehe der Maria Braun) de Rainer Werner Fassbinder. Com Hanna Schygulla, Klaus Löwitsch, Gisela Uhlen, Ivan Desny, Elisabeth Trissenaar, Gottfried John, Hark Bohm, George Eagles, Claus Holm, Günter Lamprecht, Anton Schiersner, Lilo Pempeit, Sonja Neudorfer, Volker Spengler, Isolde Barth, Rainer Werner Fassbinder. Argumento: Pea Fröhlich, Peter Märthesheimer. Produção: Wolf-Dietrich Brücker, Volker Canaris. Guarda-roupa: Barbara Baum. Fotografia: Michael Ballhaus. Música: Peer Raben. RFA, 1979, Cores, 89 min.