quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Sobre o filme «Crepúsculo em Tóquio» de Yasujiro Ozu, 1957



 












É difícil imaginar um filme de Yasujiro Ozu que não termine com uma centelha de esperança no interior da eterna questão familiar, no confronto de gerações, na modernização da sociedade ou na aceitação e fuga das ancestral tradição japonesa. Mas existe. Este.

Porém, «Crepúsculo em Tóquio», para além de ser uma obra-prima formal e na gestão do melodrama, possui alguns factores que o tornam ainda mais denso e trágico, sem fornecer às personagens um ponto de fuga ao destino declarado.

O mistério que faz com que o pai, bancário, Setsuko Hara (Takako Numata), vive só com a rebelde filha solteira Akiko Sugiyama (Ineko Arima) e a filha mais velha Shukichi Sugiyama (Chishu Ryu), em desavença com o marido alcoólico, é o cerne do drama e sabemo-lo logo de início. Enquanto a irmã mais velha, Sugiyama, cumpre a formalidade doméstica de servir com reverência o pai enquanto trata do seu pequeno filho, Akiko vestida de modo ocidental, não cumpre nenhum ritual oriental, dá-se com a ralé de bares e salões de majongue e chega sempre tarde a casa sem grandes explicações. A suspeita por Akiko da causa de ter vivido sem a mãe e a busca da sua identidade vai colocar toda a família em conflito. Akiko tenta confrontar o pai, Shukichi impede-a, e aquela vai em busca da verdade. Naquela altura, Akiko está só e foi abandonada pelo namorado de quem engravidou.

Akiko parece ser a vítima de todo o descontrolo familiar e quando ouve o pai repreendê-la definitivamente com a frase trágica “Já não és minha filha”, leva-a à letra e corre a tirar explicações. A irmã já havia tentado impedir que o drama não tivesse consequências mas sem sucesso.

Entretanto, ouvimos nós, espectadores, um grupo de jogadores de majongue a contar a história anedótica da gravidez de Akiko, por interposta personagem, entre risos e chacota, na cena mais sombria, quase tétrica, de todo o filme. Sabemos que a partir dali não haverá volta a dar. A tragédia consumar-se-á.

Um filme verdadeiramente inesquecível.

 

jef, dezembro 2023

«Crepúsculo em Tóquio» (Tokyo Twilight / Tokyo boshoku) de Yasujiro Ozu. Com Ineko Arima, Setsuko Hara, Isuzu Yamada, Chishu Ryu, Teiji Takahashi, Masami Taura, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kinzô Shin, Kamatari Fujiwara, Nobuo Nakamura. Argumento: Kôgo Noda e Yasujiro Ozu. Produção: Shochiku-Ofuna. Fotografia: Yuharu Atsuta. Música: Takanobu Saitô. Japão, 1957, Preto e Branco, 140 min.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Sobre o filme «Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes Nem Depois» de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, 2022



















Passados alguns minutos, começamos a entender a estratégia dos realizadores; a dar tempo ao nosso tempo presente enquanto vemos o filme; a abstrairmo-nos do que esperávamos, essa homenagem documentarista ao filme «Os Verdes Anos» de Paulo Rocha. 

Nada disso. Durante a pandemia e respectivo confinamento, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata tiveram mais que tempo para contemplar demoradamente os cenários que viam da sua janela. Ali por baixo, sessenta anos antes, andaria Paulo Rocha a filmar Isabel Ruth, Rui Gomes, Ruy Furtado ou Paulo Renato. Lisboa, cruzamento da Avenida de Roma com Avenida Estados Unidos da América, entre cafés, o Vá-Vá, o Suprema ou o Luanda.

De tal contemplação emerge um objecto ímpar e inusitado. Um objecto que obriga a parar, a olhar não propriamente com o olhar nostálgico de uma reportagem passadista, nem para o futuro inexistente desse mundo que desapareceu.

«Os Verdes Anos» de Paulo Rocha são irrepetíveis e uma reportagem sobre o que se passou nos meses de rodagem seria importante para, principalmente, os ratos de cinemateca. Além disso, em plena pandemia a circulação das pessoas, se existente, era para poucos!

Então, qual a estratégia?

«Os Verdes Anos» e «Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes Nem Depois» coincidem exactamente na metragem, nos planos e decores, nos ângulos captados, também na duração e na sequência das cenas. Somente, no segundo caso, ninguém pode aparecer, não existem personagens narrativas, apenas figurantes (ou pseudo-figurantes… Tomar atenção à saída do morador com medo de tocar em algum objecto contaminado com o vírus! Aliás o humor, sub-reptício, vai passando pelo filme quase sem darmos por ele. Esse é um dos seus trunfos!)

É um filme que nos dá tempo para observar, nos ensina a ver lentamente enquanto pensamos no seu esqueleto e músculos e órgãos filmado em 1963. «Os Verdes Anos» está lá mas como fantasma etéreo e futurista de uma obra-prima.

Quem não tem antes ou depois não gostará do filme, mas tem de reconhecer que haverá poucos cineastas que nos colocam o relógio em pausa e concedem o espaço apenas para olhar, sem julgar, sem entristecer, simplesmente para reflectir no modo imprescindível que é a arte cénica e visual (e auditiva, também, quantas acções passam para lá da câmara!)

Muito especiais são as canções interpretadas por Isabel Ruth, principalmente na cena final, oferendo a marcha popular em honra à cidade de Lisboa em troca de, no original, a fuga e sequestro de Júlio pelos faróis dos automóveis.

Resumindo, um filme para quem gosta dos filmes de Paulo Rocha e tem tempo para contemplar.


jef, novembro 2023

«Onde Fica Esta Rua? ou Sem Antes Nem Depois» de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. Com Isabel Ruth, João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata. Produção: João Matos, Vicent Wang, João Pedro Rodrigues. Fotografia: Rui Poças e Lisa Persson. Música: Isabel Ruth, Séverine Ballon e Carlos Paredes. Portugal / França, 2022, Cores, 88 min.

 

Sobre o filme «Os Verdes Anos» de Paulo Rocha, 1963

















Nada mais há a dizer quando passam 60 anos sobre o mais arquitectónico filme realizado sobre a melancolia (ou o fado) ancestral de se ser português, de se viver permanentemente no interior da nostalgia de um passado rural e no desconforto pela inevitabilidade do futuro que chega para alterar as regras urbanas e morais de uma cidade que ainda espera o nevoeiro de um tal Dom Sebastião.

O primeiro filme realizado por Paulo Rocha e produzido por António da Cunha Telles, protagonizado pela novíssima Isabel Ruth (Ilda) e pelo novíssimo Rui Gomes (Júlio), busca os mais directos e sintécticos diálogos de Nuno Bragança e coloca-os numa história tão simples quanto fulcral – o namoro quase pueril entre a alegre Ilda e o tímido Júlio, que mais tarde descobrirá os simulacros da traição e do ciúme, e termina na desmedida apoteose que o destino sempre oferece às grandes tragédias clássicas.

É a estratégia dos longos planos, da falsa linearidade dos decores e das esquadrias perfeitas, dos ângulos rectos, dos pontos de fuga infinitos. O correr da câmara junto das paredes olhando as velhas janelas ou os tectos desvalidos. A estratégia de colocar frente a frente a moderna Lisboa “fascista” e a velha baixa lisboeta ou o além-tejo monárquicos. A travessia do Tejo como salvaguarda do presente ou culpa do que está para vir.

Esse lento desmoronar do desejo, o declínio das expectativas.

O assassínio da esperança num novo lugar numa nova urbe desde o início anunciado pelos acordes de Carlos Paredes, ineludíveis.

Intocada a beleza de um futuro nascido para o Novo Cinema Português. Presente e eterna.

 

jef, novembro 2023

«Os Verdes Anos» de Paulo Rocha. Com Rui Gomes, Isabel Ruth, Ruy Furtado, Paulo Renato, Alberto Ghira, Cândida Lacerda, Carlos José Teixeira, Harry Wheeland, Irene Dyne, Júlio Cleto, Óscar Acúrcio, Manoel de Oliveira, Carlos Jesus Alfonso, Olga De Campos, Ruy Castelar, Manuel Bento, Victor Dias , Henriqueta Domingues, Joaquim Antonio Mendes. Argumento: Paulo Rocha e Nuno Bragança (diálogos). Produção: António da Cunha Telles. Fotografia: Luc Mirot. Música: Carlos Paredes. Guarda-roupa: Rafael Calado e Ada Cruz. Portugal, 1963, Preto e Branco, 84 min.

domingo, 3 de dezembro de 2023

Sobre o filme «O Som do Nevoeiro» de Hiroshi Shimizu, 1956

















A Força do Destino.

Um precioso melodrama que toma a poética japonesa como ponto de partida para contar uma história que se inicia com a fuga do professor de botânica, Kazuhiko Onuma (Ken Uehara), para as montanhas alpinas japonesas, sendo aí acompanhado por Tsuruko (Michiyo Kogure), sua secretária e depois amante. Kazuhiko refugia-se do tumulto citadino, da derrota do Japão e do violento pós-guerra, da invasão avassaladora de uma nova cultura “americana” que vai tentar pôr termo aos ancestrais modos culturais nipónicos. De certo modo, o professor foge também da sua mulher que vem para o confrontar com a sua relação extra-cionjugal e a decisão própria em participar activamente na nova sociedade japonesa.

Tudo se passa na sucessão dos equinócios de Outono e das suas luas e nevoeiros, numa série de episódios em flashback. A utilização do ciclo anual da natureza florestal e da contida poesia japonesa, a linearidade dos decores, a fulcral síntese dos diálogos, a fixação da câmara frente à expressão dos actores que devolve ao espectador a proximidade insolúvel do futuro e a colocação ao longo da narrativa dos sinais inevitáveis de um drama absoluto, deixam este belíssimo filme na esfera da ópera verdiana, das histórias de Stefan Zweig e, acima de tudo, do respeito carinhoso mas tenso entre gerações que marca a cinematografia do enorme Yasujiro Ozu.

Um drama sem mácula nem tempo.


jef, novembro 2023

«O Som do Nevoeiro» (Kiri no oto) de Hiroshi Shimizu. Com Michiyo Kogure, Ken Uehara, Keizô Kawasaki, Keiko Fujita, Chieko Naniwa, Takeshi Sakamoto, Bontarô Miake, Kumeko Urabe, Eijirô Yanagi. Argumento: Yoshikata Yoda, segundo o romance de Hideji Hôjô. Produção: Masaichi Nagata. Fotografia: Sôichi Aisaka. Música: Akira Ifukube. Japão, 1956, Preto e Branco, 84 min.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Sobre o filme «As Mãos Sobre a Cidade» de Francesco Rosi, 1963




















O filme trouxe-me de imediato à memória visual (e talvez não apenas a essa particular memória) três dos filmes que pertencem à minha colecção de filmes emocionalmente inesquecíveis. Falo de «O Milagre de Milão» (Vittorio De Sica, 1951), «La Dolce Vita» (Federico Fellini, 1960) e «A Noite» (Michelangelo Antonioni, 1961). Todos estes são construídos em torno das definições de urbanismo, arquitectura, memória, nostalgia, decadência e necessidade de futuro. São filmes visionários, revolucionários e, nestes dois sentidos, modernistas. Também, os três, são ultra-românticos.

«As Mãos Sobre a Cidade» faz agora parte deste pequeno grupo acrescentando, contudo, a inflamação visual, a intrépida rapidez narrativa, a cenografia hiper-realista, o som brutal da argumentação e a dimensão operática da movimentação de actores e figurantes.

Essa urgência cinematográfica está baseada na ansiedade exacerbada, talvez mesmo na angústia do presente ser impotente para impedir o livre curso dos jogos políticos camarários e da especulação imobiliária. Os bairros novos e requintados têm de ser construídos junto aos bairros praticamente em ruínas onde vivem milhares de paupérrimas famílias napolitanas.

Edoardo Nottola (Rod Steiger) especulador imobiliário tem de sacrificar o seu filho engenheiro quando ocorre um desmoronamento fatal devido ao avanço da construção dos novos bairros para ricos. O inquérito do edil não chega a conclusão alguma – a lapiseira do desenhador não faz distinção nas plantas da dupla parede de suporte de uma parede simples. As casas ameaçam ruir a qualquer momento, as famílias pobres têm de ser retirados pelo perigo de desmoronamento. A nova cidade deve conquistar o espaço. A composição camarária ameaça as recentres construções mas eleições estão aí.

Nottola entra na campanha eleitoral. Deve ser eleito para que Nápoles mude de rosto. O Centro e a Direita entram em confronto com a Esquerda. O tráfico de influências move-se sem descanso para assegurar o negócio da construção civil do pós-guerra.

Francesco Rosi filma tudo com a urgência de uma denúncia fulcral e, nesse aspecto, o filme torna-se mais actual do que nunca, também político, logo igualmente futurista. Mas afasta-se peremptoriamente da nostalgia romântica .

Contudo, o espectador não pode esquecer que no interior da exaltação narrativa desta denúncia, existe o magistral brilho da fotografia (Gianni Di Venanzo) e uma inesquecível beleza cenográfica.

 

jef, novembro 2023

«As Mãos Sobre a Cidade» (Le mani sulla città) de Francesco Rosi. Com Rod Steiger, Salvo Randone, Guido Alberti, Angelo D'Alessandro, Carlo Fermariello, Marcello Cannavale, Dante Di Pinto, Alberto Conocchia, Terenzio Cordova, Gaetano Grimaldi Filioli, Vincenzo Metafora, Dany París. Argumento: Francesco Rosi, Raffaele La Capria, Enzo Provenzale e Enzo Forcella. Produção: Lionello Santi. Fotografia: Gianni Di Venanzo. Música: Piero Piccioni. Itália, 1963, Preto e Branco, 101 min.

 


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Sobre o filme «A Noite do Dia 12» de Dominik Moll, 2022

















Do realizador Dominik Moll a minha memória vai directamente para o filme «Harry, um Amigo ao seu Dispor» (2000), um thriller psicológico inclassificável, inquietante, inesquecível, que oferece ao actor Sergi Lopez (Harry) o papel da sua vida, entre a comédia trágica, a esquizofrenia delirante e a mortal obsessão.

Com «A Noite do Dia 12», o realizador volta ao percurso através do interior das personagens pela via mais difícil: como epígrafe, ele logo nos apresenta a inconclusão do desfecho, o de um crime por desvendar. Quase todo o filme revela as marcas psicológicas que esses casos deixam até nos investigadores e polícias mais experientes. Por essa inconclusão, os espaços abertos em torno da estação de ski parecem confluir na claustrofobia obsessiva da investigação ou nos exíguos espaços onde são feitos os interrogatórios e os polícias vivem em casulo.

Pouco se revelará se se disser que o caso gira em torno do cadáver de Clara (Lula Cotton-Frapier), encontrado na noite do dia 12. Clara, queimada viva. Clara, inteligente e alegre, que teria uma queda para se apaixonar facilmente por bad boys. Os suspeitos são muitos, as dúvidas ainda mais. As sequelas psicológicas do vazio da investigação no jovem investigador chefe Yohan (Bastien Bouillon), em Marceau (Bouli Lanners), nos restantes polícias ou até na juíza (Anouk Grinberg) são imensas e ultrapassam-nos.

De novo, Dominik Moll conta-nos uma história no modo “realista” transformando um filme supostamente policial numa viagem pelos interstícios emocionais de quem lida por profissão com a morte infligida, as suas causas, as suas consequências. Um filme a não perder.


jef, novembro 2023

«A Noite do Dia 12» (La nuit du 12) de Dominik Moll. Com Bastien Bouillon, Bouli Lanners, Théo Cholbi, Johann Dionnet, Thibaut Evrard, Julien Frison, Paul Jeanson, Mouna Soualem, Pauline Serieys, Lula Cotton-Frapier, Charline Paul, Matthieu Rozé, Baptiste Perais, Jules Porier, Nathanaël Beausivoir, Benjamin Blanchy, Pierre Lottin, Camille Rutherford, David Murgia, Anouk Grinberg. Argumento: Gilles Marchand e Dominik Moll segundo o romance de Pauline Guéna. Produção: Caroline Benjo, Barbara Letellier e Carole Scotta. Fotografia: Patrick Ghiringhelli. Música: Olivier Marguerit. França / Bélgica, 2022, Cores, 115 min.

 

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Sobre o filme «Céu em Chamas» de Christian Petzold, 2023

































O que restará deste filme talvez seja mesmo Paula Beer, aquela actriz que (depois de Nina Hoss!!) o realizador colocou na frente das suas câmaras fazendo-a brilhar em empatia cinematográfica, quero dizer fotogenia. «Em Trânsito» (2018) ou «Undine» (2020). Talvez «Céu em Chamas» sobreviva apenas pelo sorriso e o enlevo dramáticos da actriz.

Parece que Christian Petzold já esqueceu que um dia realizou «Bárbara» (2012) ou «Phoenix» (2014) e nos deu o lado consciente, teatral, histórico e belo do cinema. Agora, o realizador resolveu colocar tudo no mesmo cadinho e levar ao lume das alterações climáticas: a crise literária de um jovem escritor, Leon (Thomas Schubert), os respectivos ciúmes amorosos pela irreverência libertadora de Nadja (Paula Beer), também os ciúmes pelo fotógrafo e amigo Felix (Langston Uibel), este que se toma de amores pelo nadador-salvador Devid (Enno Trebs) e também ciúmes pelo seu malogrado editor Helmut (Matthias Brandt), este que dá mais atenção a Nadja (afinal, ela é muito mais do que parece!) e pelas belas fotografias do portfolio de Felix. No fundo, Leon nem escreve nem se diverte, em suma, é um chato!

Não há dada que falte neste filme mas parece que tudo lhe sobeja (excepto Paula Beer, claro!), numa tentativa falhada de simulacro das comédias dramáticas de praia de Éric Rohmer.


jef, novembro 2023

«Céu em Chamas» (Roter Himmel) de Christian Petzold. Com Thomas Schubert, Paula Beer, Langston Uibel, Enno Trebs, Matthias Brandt. Argumento: Christian Petzold. Produção: Anton Kaiser, Florian Koerner von Gustorf e Michael Weber. Fotografia: Hans Fromm. Alemanha, 2023, Cores, 102 min.