quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Sobre o filme «Cidade Portuária» de Ingmar Bergman, 1948


 

























Este parece ser um filme (in)comum, filmado a preto e branco numa cidade europeia fustigada pelo pós-guerra, mostrando a vida difícil dos portos e dos estivadores quando o marinheiro Gösta (Bengt Eklund) chega a Hamnstad e logo se confronta com a tentativa de suicídio por afogamento de Berit (Nine-Christine Jönsson). Duas vidas que se irão cruzar. Gösta toma a própria consciência como uma prisão, Berit sente o mesmo mas pelo seu passado, cuja presença permanece no eterno ricto odioso de sua mãe (Berta Hall). Se as personagens rodam abertas e musicais em torno do primeiro, outras surgem como sinais de agoiro que devem ser afastados em volta de Berit. Contudo, o encontro do casal com Gertrud (Mimi Nelson), uma amiga de Berit ex-colega de reformatório, vem colocar visível a consciência de um e o passado de outro. Aliás, Gertrud é o catalisador do drama e é através dela que o lado, digamos, interior da cidade se desvendará.

Seria um filme (in)comum não fosse ele filmado por Bergman, deslumbrado com o neorrealismo italiano das cidades, das docas e das fábricas, das ruas e dos bailes. Mas tombando sempre para a proximidade dos rostos, para o magnífico enquadramento das cenas no interior dos quartos e das salas, das escadas e das traseiras enclausuradas dos prédios, como claustros. Tudo fotografado de modo sublime por Gunnar Fischer.

E se todos os filmes fossem tão (in)comuns como aqueles filmados por Bergman?


jef, setembro 2024

 

«Cidade Portuária» (Hamnstad) de Ingmar Bergman. Com Nine-Christine Jonsson, Bengt Eklund, Berta Hall, Erik Hell, Mimi Nelson, Birgitta Valberg, Sif Ruud, Britta Billsten, Harry Ahlin, Nils Hallberg, Sven-Eric Gamble, Yngve Nordwall, Nils Dahlgren, Hans Strååt, Erik Hell. Argumento: Olle Lansberg e Ingmar Bergman, baseado no romance de Olle Lansberg “O Ouro e os Muros”. Produção: Harald Molander. Fotografia: Gunnar Fischer. Música: Erland von Koch. Suécia, 1948, P /B, 99 min.

 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Sobre o filme «Os Fantasmas Divertem-se» de Tim Burton, 1988



 























Todo o Tim Burton e logo na sua segunda longa metragem. Numa furiosa sequência de cenas, planos, cenários, maquetes, marionetas, cores, histórias e moralidades. Temos a história do amoroso e tradicional (mas malogrado) casal Adam e Barbara Maitland (Alec Baldwin e Geena Davis) na sua bela casinha na Nova Inglaterra. Temos o casal de novos-ricos que vêm revolucionar a vivenda lego quase ao estilo «O Meu Tio» de Jacques Tati (1958), Charles e Delia Deetz (Jeffrey Jones e Catherine O'Hara). Temos a maravilhosa Winona Ryder a fazer da jovem filha gótica Lydia Deetz, o espaventoso decorador de interiores Otho (Glenn Shadix) e, por fim, saído da maquete do cemitério da aldeia, o demónio decadente, malcriado e hiperactivo Betelgeuse (Michael Keaton). Tudo ali se encontra como num pesadelo apressado ao som do “Calipso”. O casamento forçado entre o nojento Betelgeuse e a angelical Lydia quase consumado por um aranhiço mecânico, o cenário desértico onde Adam e Barbara tentam fugir de enormes serpentes de duas bocas, os cadáveres do casal de noivos que são chamados pelo médium e se vão desfazendo em pó, a sala de espera e o consultório do mundo morto-vivo, uma espécie de Bauhaus psicadélica onde todos se mexem já ao som da partitura de Danny Elfman.

Como se a enciclopédia Tim Burton fosse convocada para uma soirée dançante mas lhe fosse imposto o funesto tempo de hora e meia, ao fim da qual transformar-se-ia em abóbora. Ou talvez tenha havido alguma outra imposição e a produção o tenha golpeado. O espectador tem de correr sobre as diversas histórias sem tempo para confirmar ou apreciar ou deliciar-se com aquela parafernália de objectos. Apetece fazer parar o filme fotograma a fotograma e respirar fundo sobre cada cor, cada som, cada esgar, cada personagem. Afinal, Alec Baldwin e Geena Davis pouco ali importam e até nem sabem assim tão bem mascarar-se de fantasmas com um lençol.


jef, setembro 2024


«Os Fantasmas Divertem-se» (Beetlejuice) de Tim Burton. Com Alec Baldwin, Geena Davis, Annie McEnroe, Maurice Page, Hugo Stanger, Michael Keaton, Rachel Mittelman, Catherine O'Hara, J. Jay Saunders, Mark Ettlinger, Jeffrey Jones, Winona Ryder, Glenn Shadix, Patrice Martinez, Cindy Daly, Douglas Turner, Carmen Filpi, Simmy Bow, Sylvia Sidney, Robert Goulet. Argumento: Michael McDowell, Warren Skaaren segundo a história Michael McDowell e Larry Wilson. Produção: Michael Bender, Richard Hashimoto. Fotografia: Thomas E. Ackerman. Música:

Danny Elfman. Guarda-roupa: Aggie Guerard Rodgers. EUA, 1988, Cores, 92 min.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Sobre o filme «Bruno Reidal – Confissões de um Assassino» de Vincent Le Port, 2021



 























De onde surge a pulsão sexual. Onde reside a pulsão da morte. Qual o papel da devoção (ou alienação ou repressão) perante o imaginário católico? Como se unem no interior de uma criança e, mais tarde, no desenvolvimento da puberdade.

França rural e seminarista. 1905. Bruno Reidal, 17 anos, entrega-se como culpado e prefere escrever as suas memórias perante um júri que lhe poderá atribuir a condição de doente psiquiátrico.

É a voz do criminoso-doente-culpado-inocente que guia o espectador através de uma sistemática, sóbria e sombria confissão epistolar de alguém que, eternamente e alternadamente, se culpabiliza e se inocenta perante um mundo que surge como medieval ao som das sumptuosas e místicas partituras de Olivier Messiaen.

Tudo nos é relatado pelo olhar de Bruno Reidal. Nada vemos mas também nada nos é ocultado. Nada podemos julgar. Num grande flashback, os minutos finais unem-se ao início do filme e aí somos confrontados com a consumação do sangue que, mais uma vez por confissão, demostra uma descomunal desilusão face à tão aguardada revelação.

Um filme ponderado e quase reverente perante o que não tem solução.

O papel fundamental para o actor Dimitri Doré.

Uma forte reflexão estética e ética oferecida ao espectador.


jef, setembro 2024


«Bruno Reidal – Confissões de um Assassino» (Bruno Reidal, confession d’un meurtrier) de Vincent Le Port. Com Dimitri Doré, Jean-Luc Vincent, Roman Villedieu, Alex Fanguin, Tino Vigier, Nelly Bruel, Ivan Chiodetti, Dominique Legrand, Antoine Brunel, Tristan Chiodetti, René Loyon, Rémy Leboucq, André Salson, Astrid Vialard, Jeanne Fauchier, Gabriel Chiodetti, Nathan Fosse, Nicolas Chiodetti, Esteban Dechambre, Victorien Delpuech, Arnaud Massol. Argumento: Vincent Le Port. Produção: Thierry Lounas, Pierre Emmanuel Urcun, Roy Arida. Fotografia: Michaël Capron. França, 2001, Cores, 101 min.

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Sobre o filme «Mulheres Que Esperam» de Ingmar Bergman, 1952


























Numa casa de férias junto a um lago, quatro mulheres aguardam a chegada dos maridos que regressarão mais tarde da cidade. Uma outra, jovem e irmã de uma delas, escuta-as.

São contadas histórias. Não serão tanto segredos ou confidências já que todas elas se conhecem bem, estão unidas e partilham o confortabilíssimo estatuto social e económico da família Lobelius. São contados cinco episódios que aos poucos, familiarmente, se cruzam e que vão deixando uma marca inesquecível na memória dos amantes de cinema e, em especial, dos do génio de Ingmar Bergman.

Pelos vistos, também terá deixado marca forte na censura do tempo da outra senhora. E, digamos, que até se compreende a razão. O filme foi apenas visto publicamente em Portugal em 1989, 37 anos depois da estreia.

Pois se todas aquelas mulheres se acomodam ao conforto da poltrona Lobelius, também todas rejeitaram submeter-se ao percurso linear que a tal sociedade lhes exigiria.

É um filme de uma sensualidade tão exuberante, de uma beleza gráfica quase expressionista e tão pouco heterodoxa, relativamente ao padrão do “delicodoce” fascismo português, que é com sarcasmo que pensamos na visualização desta espécie de comédia burguesa (mascarada de tragédia) pelo lápis azul dos censores, velhos amantes de «O Pai Tirano» (António Lopes Ribeiro, 1941) ou «O Pátio das Cantigas» (Francisco Ribeiro 1942).

E todas as cinco histórias têm um pano de fundo estético e emocional oposto ao anterior.

Todas elas surgem inicialmente como trágicas consequências de uma desilusão ou mesmo de um acto falhado, porém sempre existe um facto ou uma frase anti-climax que faz virar do avesso o suposto caminho mais dramático.

Mas nem todas… Existe uma história que é ostensivamente ocultada pela protagonista. Por fim, uma penúltima delirante e enclausurada comédia de elevador à Howard Hawks ou Billy Wilder.

Finalmente, os amantes fogem de barco e alguém diz, do exterior e altivo: «Deixa-os convencidos que estão a fazer algo proibido. Deixa-os até que o verão passe.»

Um filme único, imprescindível, deslumbrante.

Filme-catálogo Ingmar Bergman.


jef, setembro 2024

 

«Mulheres Que Esperam» (Kvinnors väntan) de Ingmar Bergman. Com Anita Björk, Maj-Britt Nilsson, Eva Dahlbeck, Gunnar Björnstrand, Birger Malmsten, Karl-Arne Holmsten, Jarl Kulle, Aina Taube, Håkan Westergren, Gerd Andersson, Björn Bjelfvenstam, Märta Arbin, Torsten Lilliecrona, Victor Wifstrand, Wiktor Andersson, Douglas Häge, Lil Yunkers, Lena Brogen, Ingmar Bergman. Argumento: Ingmar Bergman segundo a história de Gun Grut. Produção: Allan Ekelund. Fotografia: Gunnar Fischer. Música: Erik Nordgren. Suécia, 1952, P /B, 107 min.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Sobre o filme «A Torre sem Sombra» de Zhang Lu, 2023



 



















Um filme que, de modo lírico, confirma que a existir um único tema no cinema (talvez na arte) esse é a solidão. Ou melhor, esse estranho, por vezes confortável, outras vezes insuportável, hábito ou rotina solitários que se entranha com o tempo no nosso singular e interior modo de percorrer o dia-a-dia.

«A Torre sem Sombra» é um templo budista nos arredores de Pequim, com séculos de existência e que parece não lançar sombra apesar do ângulo de que esteja a ser olhado. Ali perto mora Gu Wentong (Xin Baiqing), um homem de meia-idade que se dedica à crítica gastronómica, divorciado, pai de uma menina inteligente e carinhosa que vive com a tia, irmã do pai. Gu Wentong, homem bondoso que reside na casa que fora da mãe, recebe do cunhado um papelinho com um número de telefone no dia em que foram visitar a campa da mãe. A partir dali, duas ou três histórias cruzam-se ligando um passado de certo modo oculto ou mal interpretado e um futuro que parece não se enquadrar facilmente nas normas sociais ou afectivas a que Gu Wentong, afinal, habituou a sua solidão. Um facto é que a desconcertante exuberância da fotógrafa que o secunda na tarefa jornalística, de nome impronunciável, Ouyang Wenhui (Huang Yao), vem de modo inusitado ligar o presente a esse passado. No fundo, um passado ancestral da China que mal reconhece a transformação cosmopolita e digital do futuro que está ali mesmo ao virar da esquina.

O melhor do filme é esse lado bondoso, humorístico mesmo, de ligar a insondável nostalgia regressada das tradicionais canções chinesas a um certo futuro enraizado na benevolente lógica do perdão.

Talvez para isso mesmo necessário andar para a frente mas de costas viradas, como um anónimo transeunte no parque ensinou a fazer a Gu Wentong.

  

jef, agosto 2024

«A Torre sem Sombra» (The Shadowless Tower) de Zhang Lu. Com Xin Baiqing, Huang Yao, Tian Zhuangzhuang, Ji Nan, Wang Hongwei, Li Qinqin, Wang Yiwen, Liu Wanting. Argumento: Zhang Lu. Produção: Xu Jiahan, Peng Jin, Zhang Jian, Huang Yue, Lu Sheng. Fotografia: Piao Songri. Música: He Xiao. China, 2023, Cores, 144 min.

 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Sobre o filme «O Longo Adeus» de Kira Muratova, 1971



 
























Gosto particularmente destes filmes em que somos atirados para dentro da história sem aviso prévio.

Estamos num viveiro de flores em sistema hidropónico, os trabalhadores circulam, a explicação botânica entra, os clientes aparecem depois. Talvez estejam perto do cemitério. Há que arranjar e florir a campa do avô. Yevgeniya (Zinaida Sharko), alegre e desenvolta, tira o belo chapéu e coloca o véu, por respeito. Conta ao filho adolescente, Sacha (Oleg Vladimirsky), como o avô era também divertido. Sacha segue-a próximo mas à distância, observando a energia da mãe. Depois vem a sequência do comboio em direcção a uma festa numa casa rica à beira-mar-negro. Aqui é ouvido primeiro o mar, só depois o veremos.

A arquitectura das imagens e do som é fundamental para o leitor-espectador construir a história através dos episódios que surgem sem explicação. A beleza das imagens e do seu enquadramento absorve quantas vezes a atenção do espectador que tem de desviar os olhos das legendas. E um facto é que parte da história está a ser contada apenas pelas imagens e pelo som daquela narrativa seccionada, fragmentada, sincopada, modernista.

Cada sequência de cenas vai-nos oferecendo acima de tudi a profundidade emocional, quase psicanalítica, de uma mãe híper-activa e desesperada por ver o filho distanciar-se, fruto da puberdade emergente, da vontade de rejeitar o controlo maternal e o desejo, quase onírico, de ir viver com o pai ausente (talvez fugitivo) revivido por slides que remontam à arqueologia e a cartas ou telefonemas que serão espiados pelo desespero da mãe.

Se o filme inicia pelo viveiro-cemitério, fora do tempo e da sociedade, pelo contrário termina com uma festa administrativa de atribuição de galardões e onde uma mãe busca exasperadamente a proximidade do filho.

Um daqueles filmes que nunca mais sairão da memória, dos olhos e dos ouvidos do espectador. Não tem tempo ou espaço. Parece de ontem mas é de futuro que fala, parece soviético e oriental mas é moderníssimo e quase britânico, parece uma sucessão de quadros e de canções, uma sequência íntima de segredos, mentiras e confidências, onde os planos centrados sobre os actores e os ligeiros planos maiores constroem um magnífico álbum de fotografia.

Filme-ícone que, por vezes, me levou a recordar o dicionário de arquitetura de Michelangelo Antonioni/Monica Vitti ou o compêndio expressionista de John Cassavetes/Gena Rowlands.

«O Longo Adeus» é imperdível e sublime é Zinaida Sharko!


jef, agosto 2024

«O Longo Adeus» (Dolgie Provody) de Kira Muratova. Com Zinaida Sharko, Oleg Vladimirsky, Yuriy Kayurov, Svetlana Kabanova, Lidiya Bazilskaya, Sofya Belskaya, Andrey Borisenko, Marchella Chebotarenko, Yelena Demchenko, G. Devyatova, Lidiya Dranovskaya, Oleg Emtsev, Viktor Ilchenko, Evgeniy Kovalenko, A. Maslakov, Tatyana Mychko, N. Parfyonova, Nikolay Rozhkov, Igor Starkov, Viktor Strizhov. Argumento: Natalya Ryazantseva. Produção: Gennady Karyuk. Fotografia: Sven Nykvist. Música: Oleg Karavaychuk. Guarda-Roupa: Natalya Akimova. URSS, 1971, P/B, 97 min.

 


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Sobre o filme «Depois do Ensaio» de Ingmar Bergman, 1984


 






















Por vezes, no início, uma voz off  sobrepõe-se, como um pensamento crítico, à cena e à própria voz de quem pensa. A voz nega e contradiz a acção e a palavra que está naquele momento a ser dita. Quem fala (sobrepondo) e que (nos) pensa é o encenador Henrik Vogler que tem o hábito de ficar a dormitar, reflectindo,  sobre a secretária em palco depois dos ensaios de «O Sonho» de Strindberg. Henrik Vogler é representado por Erland Josephson que representa Ingmar Bergman que encenou por mais de uma vez tal peça. Henrik é interrompido na sua sonolência dramática por Lena Olin, a actriz que é Anna, que anda a ensaiar o papel na peça de Strindberg, com o falso pretexto de procurar uma pulseira perdida. Anna confessa a Henrik que odeia a própria mãe Rakel (Ingrid Thulin) que foi em tempos amante daquele e um dia também o visitou no palco vazio após um ensaio. Rakel regressa à cena, num segundo Tempo – Acto, sublinhando a frase que conta como o teatro é a arte da repetição, e a repetição, a arte da verdade e da sua própria negação. Como sugere a voz off.

Um filme enorme e definitivo, encerrado no amor pelo teatro e na rejeição pelo pó de palco claustrofóbico em que aquele se encerra e consome. Tal como o passar do tempo e o confronto inexorável com a velhice.

Porém, o palco, esse, nunca envelhecerá.


jef, agosto 2024

«Depois do Ensaio» (Efter Repetitionen) de Ingmar Bergman. Com Erland Josephson, Ingrid Thulin, Lena Olin, Nadja Palmstjerna-Weiss, Bertil Guve. Argumento: Ingmar Bergman. Produção: Jörn Donner. Fotografia: Sven Nykvist. Suécia, 1984, Cores, 70 min.