sábado, 3 de maio de 2025

Sobre o filme «O Bobo» de José Álvaro Morais, 1987
























Esqueçam o Oliveira Marques, o José Mattoso, o José Hermano Saraiva… José Álvaro Morais apresenta a mais completa História Concisa de Portugal em «O Bobo». Só não digo para esquecer a História de Alexandre Herculano pois o filme tem como esqueleto dramático e arqueológico o romance de Herculano, a famosa e eterna luta entre o filho e a mãe, Afonso Henriques (Luís Miguel Machado) e Dona Tareja (Isabel Ruth), tendo pelo meio o Conde D. Henrique, o marido e Fernão Peres de Trava (Luís Miguel Cintra), o amante galego. Assim começava Portugal numa alta comédia trágica e freudiana. E falo em arqueologia, pois nessa ciência histórica os cacos encontrados debaixo de terra de um cântaro partido devem ser reconstruídos com uma massa recente e branca para não confundir o passado com o presente. Aqui o presente é apenas uma máscara do passado.

No longo processo de filmagem, montagem e produção desta obra-prima, tudo parece iniciar-se com uma confusa apresentação através do diálogo em voz off entre as personagens principais Rita (Paula Guedes) e Francisco (Fernando Heitor) tendo por pano de fundo a omnipresença de um fantasma: João (Luís Lucas). Que se passará no enorme palco onde todos se cruzam, na ribalta ou nos bastidores, personagens e actores: um filme ou uma peça de teatro? Que se passará na casa do Estoril construída em socalcos isabelinos desde a varanda dos lautos pequenos-almoços até ao sótão-apartamento de Rita e Francisco? Que Portugal é este que é filmado junto ao Padrão dos Descobrimentos, por que correrá ela tragicamente dos braços do soldado, que partirá para a guerra, para os braços de seu pai, rico e burguês? Afinal, porque assistimos a esta comédia de uma burguesia on the rocks que brinca ao 25 de Abril, às armas roubadas às forças ocultas pós-revolução? Será mesmo um filme policial? Será um filme político? Um filme poético? Por que razão o coração de Dulce (Luísa Marques) não pode ser dedicado ao fiel Egas Moniz Coelho (Víctor Ramos)?

Quem os salvará certamente será o Bobo da Corte, aquele que sempre nos salvará!

Um filme único, uma encenação diabolicamente perfeita, uma banda sonora feita de mil camadas esplendorosas. Mil actores e figurantes numa montagem que parece ser surrealística e impossível de ser posta em prática. Porém, com um resultado claramente obscuro sobre o interior de cada um de nós. Sobre todos nós.

Uma trágica comédia sobre um País que, aos trambolhões, lá vai a caminho dos mil anos de existência.


jef, maio 2025

«O Bobo» de José Álvaro Morais. Com Fernando Heitor, Paula Guedes, Luis Miguel Cintra, Isabel Ruth, Luís Lucas, Carlos Farinha, Jasmim de Matos, Bibi Perestrelo, Isabel Feijó, Raul Solnado, Fernando Marchão, Rui Lopes, Bernardo Figueiredo, José Carlos Pratas, José Luís Lameira, José Manuel Neto, Pedro Martins, Pedo Sousa, Valentim Dias, Zacarias Carteiro, Rui Sequeira, Adelaide João, Raquel Maria, Chico de Alfama, Isabel Branco, Joaquim Leitão, João Pinconé, José Maria Vaz da Silva, Manuel João Moura, Margarida Vila-Nova, Miguel Melo, Pedro Melo, Pedro Efe, Pedro Lopes, João de Almeida, João Guedes, Luís Miguel Machado, Victor Ramos, Rogério Samora, Luísa Marques, Alexandre O’Neill, Glicínia Quartin, Victor Folgado, Vicky, João Filipe Morais, José Manuel Costa, Luís de Matos, Marcello Urgeghe, Mário Ruivo, Porfírio Lopez, Maria Amélia Matta, Maria Flávia de Monsaraz, Maria Gonzaga, Pedro Caldeira Cabral, Miguel de Lucena, Vasco Pimentel, Carlos Zíngaro, José Eduardo, Sebastião de Carvalho, António Vaz da Silva, Carlos de Azevedo, Francisco Avelar, João Madruga, Virgílio Castelo, F. Pinto Coelho, António Escudeiro, Francisco Silva, Tony Morgon, Jaime Afonso, Odete Prazeres, João Marote, José Gomes, Paulo Costa, Carlos Fonseca, Emilien Lambert, Rui Cinatti, José António Camões, João Lagarto, Ana Bola, António Cruz, Fernando Correia, Isabel Galhardo, João Martins, João Romão, Jorge Caldas, Jorge Silva Melo, José Jorge Duarte, José Nascimento, José Ribeiro da Fonte, Lito, Manuel Costa Cabral, Maria Paola Porru, Octávio Espírito Santo, Sara Lima, António Alçada Baptista, Maria de Medeiros, Lagoa Henriques, Rão Kyao, Luís Manuel Machado, José Marecos Duarte, Carlos Pimenta, Arlete Soares, António Variações. Argumento: Rafael Godinho, José Álvaro Morais segundo o romance de Alexandre Herculano “O Bobo”. Produção: António da Cunha Telles e José Álvaro Morais. Montagem: José Nascimento. Fotografia: Mário de Carvalho e Octávio Espírito Santo. Música: Pedro Caldeira Cabral, Carlos Azevedo e Carlos Zíngaro. Guarda-roupa: Anahory e José Luís Barbosa. Portugal, 1987, Cores, 120 min.

 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Sobre o filme «Vermiglio» de Maura Delpero, 2024


 
























A azul e branco ou o sofrimento da neve. Também o sofrimento da Primavera.

A grande guerra está a terminar e numa aldeia muito a norte na Itália montanhosa chegam dois desertores que devem ser escondidos. Um deles quase família do professor Cesare (Tommaso Ragno), o outro, forasteiro vindo do mais sul da Itália, Pietro (Giuseppe De Domenico). A família do professor é grande e em tempos de guerra tudo tem de ser esforçadamente conquistado e repartido entre todos. E todos têm uma história para contar, começando por Lucia (Martina Scrinzi), filha mais velha do professor, que não fica indiferente a Pietro. «Vermiglio» é uma história simples, tão simples como o frio da neve ou, depois, a ansiedade pelas cartas que chegariam através do Mediterrâneo, já na Primavera próxima.

Todas as histórias se cruzam quase em silêncio, como o nascimento dos bebés, ou a sua morte. Como a repressão do ódio adolescente ou da libido escondida. Como o amor devido a todos e por todos distribuído. Como o leite bem medido, como a refeição frugal pelo Natal. Como as notas e o aproveitamento dos alunos no final do ano lectivo.

O olhar melancólico e resignado pelo ciclo injusto da vida, um ciclo contudo inelutável. Um olhar feito essencialmente pela aproximação aos objectos que as mãos tocam, que os olhos observam como se fossem os objectos a contar a verdade sobre o sentimento que as personagens devem calar. Um olhar feminino acutilante e de uma beleza feroz onde a voz da mãe é a única a quem o grito de revolta é permitido.

Tal como no outro filme italiano, «As Quatro Voltas» de Michelangelo Frammartino (2010), a paisagem e a sua eterna mutação conduzem a narrativa pelo ciclo da vida e do retorno. Torna-se a personagem principal.

Filme de um belo e extremo romantismo.


jef, abril 2025

«Vermiglio» de Maura Delpero. Com Tommaso Ragno, Roberta Rovelli, Giuseppe De Domenico, Roberta Rovelli, Martina Scrinzi, Carlotta Gamba, Orietta Notari, Santiago Fondevila, Rachele Potrich, Anna Thaler, Patrick Gardner, Enrico Panizza, Luis Thaler, Simone Benedetti, Sara Serraiocco, Domenico Ferraioli, Leone Gubert, Romina Cescolini, Fabio Daprà, Maurizio de Florian, Matteo Adriano Delpero, Sabrina Campagna, Melissa Bertolini, Luca Genetti, Maurizio Bontempelli, Pietro Longhi, Paolo Begher, Elio Gregori, Dario Ruffini. Argumento: Maura Delpero. Produção: Maura Delpero, Francesca Andreoli, Santiago Fondevila, Leonardo Guerra Seràgnoli. Fotografia: Mikhail Krichman. Música: Matteo Franceschini. Guarda-roupa: Andrea Cavalletto. Itália / França / Bélgica, 2024, Cores, 119 min.

terça-feira, 29 de abril de 2025

Sobre o livro «Why Not Now? Memórias, poesia, reflexões e outros textos» de João Carlos Roque, 2024










Este não é um livro sobre gatos, nem sobre o silêncio, apesar de começar com aqueles e terminar com este.

Como ler João Carlos Roque?

Mais do que um comunicador, é um conversador. Exerce a vocação de narrador, de contador da realidade, em simultâneo apelando, exigindo até, um interlocutor, um ouvinte para que possa documentar por palavras suas os facto, os actos e os dias que por ele vão passando. João Carlos Roque revela-se, por isso, um diarista ou, neste caso concreto, um “anuarista” a partir dos anos 50 do século passado quando os Natais aconteciam pela sua Covilhã da infância, até chegar a um certo passado-presente que ele toma nas próprias mãos como dádiva.

Por que o faz agora é a questão que coloca ao leitor através do título que regressa de um blogue que o ocupou (e o acarinhou) durante meses, largos anos, oferecendo-lhe a possibilidade de publicar correntemente através da divulgação digital, obtendo o contacto imediato com os leitores que o incentivavam directamente a continuar as sequentes crónicas ou histórias.

Mas apelidar a este conjunto de textos contos ou crónicas não será justo pois, apesar do autor não se coibir de expressar as suas opiniões, nunca termina ele com a comum moral final ou conclusão diegética que as crónicas normalmente exibem.

O livro é uma espécie de anuário de viagens, de percursos, de amor e de sexualidade (no caso, homossexualidade), expressos numa assumida agilidade narrativa, de uma descrição apaixonada e rigorosa descrição dos pontos turísticos ou até dos casos mais ou menos caricatos e divertidos, que até poderiam ser esquecíveis caso não tivessem sido vividos com tanta intensidade e emoção. Também nada tem de confissão pois aqui o autor apresenta-se integralmente, de corpo e espírito inteiro e uno.

Tal como no livro anterior, «A Ilha de Metarica – memórias da guerra colonial» (Index e-books, 2014), um tema também documentado no presente livro, os relatos são simples, sem constrangimentos ou pudor da intimidade ou do quotidiano. Os percursos, as cidades, as amizades, os encontros, os olhares são narrados comoventemente directos, olhos nos olhos do leitor. É interessante que a fotografia de capa seja a de um olhar sério, frontal, intensamente felino, que nos impõe o silêncio sem nunca nos silenciar. (Conhecemos bem tal imposição pelos gatos). Diga-se que os gatos surgem apenas em dois apontamentos: essa espécie de salmo «Há Muito Tempo» e mais no final «Boris e Teka», este por exigência do público amante desses bichos.

Porém, na página 59 «É na solidão que me Encontro» o livro parece suspender-se num ponto de situação emocional onde é colocada a poética do abandono. Um aparente contraponto de todo o livro para quem vive a par e passo com a comunicação.

Outro contraponto, ou apenas para contrariar a confessa falta de vocação como ficcionista, podemos tomar os micro-contos «A Borboleta» ou «José», exactamente como a sua poesia na qual não se ausenta a profundidade e o ritmo liricamente românticos.

Porém, o diálogo ou a rumo do livro tem uma significativa viragem em 2004, com o aparecimento de um nome e de uma cidade, personagens capitais: Déjan e Belgrado. A partir daí toda a viagem muda de figura.


Então, como ler João Carlos Roque?

Como grande colecionador e memorialista que o autor não pode desmentir que é. O autor pede tempo. Pede tempo para si e para que o oiçam, mesmo que, respeitosamente, depois o contradigam. Grande dialogador, jamais provoca, apena conta ou relata em tempo, que é seu por direito, um tempo que é presente, diria urgente, para lhe trazer de volta quem já partiu ou anda longínquo. O tempo e a distância, dois assuntos que apenas por vezes só o silêncio parece dar sentido.

Assim começa, assim o livro termina.


jef, abril 2025

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Sobre o livro «Estação Morta» de Maria Ondina Braga, colecção O Chão da Palavra, Vega 1980.


 









Maria Ondina Braga é uma autora silenciosa. A escrita aparece como um véu tutelar sobre a moderna literatura portuguesa. Igualmente como fundação estruturante da escrita contemporânea em português. Contudo e apesar de muito respeitada, quase não é lida.

Como a própria autora, é uma escrita que viaja pelos recantos do mundo, da Europa ao Oriente, iniciando a escrita de viagem e as autobiografias ficcionais. É uma autora solitária, melancólica, impressionantemente profunda, mas será injusto classifica-la como feminista ou depressiva.

Nos contos de «Estação Morta», a viagem é permanente, a solidão persistente, a interioridade que se fecha sobre si, mas também se revolta, revela-se uma espécie de coda. Também, a novidade da revolução dos cravos, do movimento dos militares ou a descolonização parecem estar como uma trama sobre a qual as personagens femininas se vão desvendando.

A desabrida Carolina, depois espectro de uma casa quase assombrada, a “Vivenda Hortense”; A Ritinha da renda de bilros, a Marina e a Senhora Teresa; o abraço de despedida da chinesa Miss Thérèse; a vida e paixão de Cremilde; a fuga e o reencontro com Virgilina; o queixo como trauma de Clementina; o profano, a devoção, a dúvida e os votos e da Irmã Desterro; o mal interior incontrolável de «O Mal Sagrado».

Contudo, Maria Ondina Braga também é uma descritora do processo masculino: numa viagem de barco de Singapura e Ceilão, encontramos Mr. Green que abandonou a produção de chá e a vida familiar e mundana pelo amor às aves («O Homem Pássaro»); talvez o grande mistério do Grande Hotel do Parque não estará propriamente em Dora ou em Mme. Henriette, mas no instável Lourenço («Estação Morta»); e o descontentamento burguês pela fisionomia de Clementina é sublinhada pelo exaspero de Rogério.

O clima quase misterioso do conto «Estação Morta» fez-me lembrar aquele de Teresa Veiga, «A Estalagem de Aldebarã» (2024), ou «O Barão» de Branquinho da Fonseca (1942).

Maria Ondina Braga é uma escritora gigante e inclassificável que terá a sua obra completa editada pela Imprensa Nacional. Até agora saíram: 1 – Autobiografias Ficcionais e 2 – Biografias no Feminino.


jef, abril 2025

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Sobre o filme «Cão Preto» de Guan Hu, 2024



 




















Um filme encantado. Desses difíceis de catalogar, de definir, saber qual é a história que realmente estão a contar. Um filme estranho mas que nos cativa, em primeiro lugar pelo coração, depois pela fotografia, e não por último, pela paisagem, pela arquitectura, por um certo design, moral e enternecedor.

O deserto de Gobi. Uma paisagem montanhosa sem fim, a noroeste da China, a sul da Mongólia, a caminho de uma povoação igualmente desertificada, desocupada por decreto, a um passo da demolição. Uma enorme matilha de cães vagueia pelo deserto e faz capotar a camioneta onde viaja Lang que regressa a casa após dez anos de prisão. Lang não fala. O pai é cuidador do decrépito e abandonado jardim zoológico, com pavões, um lobo e um tigre da Manchúria. Um galgo preto vagueia pela povoação e esconde-se num prédio, presume-se que seja perigoso, que tenha raiva. É preciso capturá-lo, assim como todos os outros que fogem pelas ruas. Mas, de facto, é o cão preto que persegue Lang que também é perseguido pela família de alguém que morreu num acidente. Lang é acusado de o ter provocado. Eis que um circo decrépito se aproxima da cidade. Eis que as Olimpíadas de Pequim 2008 se aproximam. Eis que um eclipse total do Sol acontecerá em breve, levando a uma debandada para as montanhas no deserto para o observarem. Um bom augúrio. Mas onde se terá escondido o cão preto? Por onde passeia o tigre da Manchúria?

Uma bela fábula irreal tão próxima da realidade, da solidão, do silêncio, do deserto. Quase um terno conto infantil que, por vezes, me fez lembrar a fantasia científica de Ridley Scott, ou a visionária paisagem cinematográfica de Stanley Kubrick, ou o carinho abstracto das esquecidas personagens de David Lynch. Também as imaginárias cidades circenses, sempre a um ponto da comédia, sempre a um ponto da nostalgia, de Federico Fellini. Talvez tudo aquilo não passe de um enorme sonho fantástico com os galgos de Amadeu em fundo e como alegoria.


jef, abril 2025

«Cão Preto» (Black Dog / Gou Zhen) de Guan Hu. Com Eddie Peng, Chu Bu Hua Jie, Youwei Da, Jia Zhang-ke, Liya Tong, You Zhou, Xiaoguang Hu, Yiquan Wang, Ben Niu, Yuanzhang Yin, Li Zhang, Hongzhe Mo-Tu, You Wu, Youwei Da. Argumento: Guan Hu, Bing Wu e Rui Ge. Produção: Jing Liang, Justine O e Wenjiu Zhu. Fotografia: Weizhe Gao. Música: Breton Vivian. Guarda-roupa: Zhou Li. EUA / China, 2024, Cores, 116 min.

 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Sobre o musical «Rent» de Jonathan Larson. Teatro Variedades, 2025.



 






























Este espectáculo tem um cariz excepcionalmente nostálgico. Mas essa nostalgia agudiza-se, torna-se mais profunda, porque tudo nele é contemporâneo. Pode estar a ser vivido nos dias de hoje. É vivido nos dias de hoje. De certo modo, uma nostalgia futurista.

Felizmente, a SIDA / VIH tornou-se uma doença crónica e o AZT agora está integrado num complexo químico que salva vidas. Mas nos anos 90 do século passado não era assim…

… Porém, a pobreza, o frio e a fome na grande cidade de Nova Iorque, também a exclusão, a discriminação, a toxicodependência, a gentrificação da cidade, e a crise da habitação, permanecem e agudizam-se, tornam-se universais!

Por outro lado e como contraponto ultra-romântico, não esqueçamos que o libreto tem por pano de fundo a ópera “La Bohème” de Puccini. A amizade, apesar de todas as dificuldades, de toda a juventude, é o princípio e a força emocional e espiritual que glorifica o amor como modo para tornar infalível a resistência e manter a esperança focada no futuro.

É inevitável não nos comovermos pela longevidade e universalidade de uma peça cujo autor, Jonathan Larson, faleceu na véspera da estreia absoluta na Broadway.

Por influência de um amigo muito atento, em tempo assisti à gravação da derradeira e emocional representação de «Rent», a 7 de setembro de 2008, no Nederlander Theatre em Nova Iorque, e posso assegurar que a versão portuguesa não desmerece daquela actuação: a agilidade dos diversos planos cenográficos num palco restrito em que decorrem as histórias em simultâneo, a velocidade narrativa com que a acção e as canções se cruzam, e a qualidade musical e a entrega interpretativa de actores-cantores.

Que viva “La Vie Bohème”!

 

13 de abril de 2025

«Rent». Música e Letras: Jonathan Larson. Com Bruno Huca (Tom Collns), Carlos Martins (Gordon), Dennis Correia (Angel), Diogo Leite (Roger Davis), Gonçalo Martins (The Man), Inês Ramos (Mrs. Márquez), Margarida Martins (Alexi Darling), Marta Lys (Joanne Jefferson), Marta Mota (Mrs. Cohen), Nuno Martins (Mark Cohen), Pedro Fontes (Benny), Pedro Paz (Mr. Grey), Rafaela Monteiro (Maureen Johnson), Sara Claro (Mrs. Davis), Sissi Martins Mimi Márquez). Músicos: Pedro Alvadia, Diogo Soares, David Campos, André Soares. Encenação original e consultor artístico: Michael Greif. Encenação: Sissi Martins. Direcção Musical: Pedro Alvadia. Adaptação portuguesa: MTL. Cenografia e Figurinos: Pedro Morim. Desenho de luz: João Fontes. Desenho de som: Daniel Fernandes. Direção Cena: Sílvia Moura. Produção: Martim Galamba / Bruno Galvão / produção Musical Theater Lisbon (MTL) em acordo com Music Theatre International. Duração: 135 min.. Teatro Variedades.

De 26 de março a 27 de abril no Teatro Variedades.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Sobre «A Peça Que Dá Para o Torto» de Henry Lewis, Jonathan Sayer e Henry Shields. Teatro Tivoli, 2025.



 















Quem cresceu a ver na televisão as comédias portuguesas dos anos 30 e 40 do século passado, jamais esquecerá «O Pai Tirano» (António Lopes Ribeiro, 1941). Mais tarde, não perderá igualmente o desvario com-sentido-sem-sentido dos Monty Phyton, percebendo que existe no humor britânico qualquer coisa de burlesco, bizarro, perene e fundamental, que tem tanto de caricatural como de sarcástico. Por isso político também. As personagens vindas de Horace Walpole, de Charles Dickens ou Oscar Wilde não conseguem deixar de fazer sorrir. Também Hércule Poirot, Miss Marple ou Tommy e Tuppence, criados por Agatha Christie para resolver os seus mistérios por vezes até palhaços parecem ser.

«A Peça Que Dá Para o Torto» é, precisamente, uma paródia à peça «A Ratoeira» retirada de um conto da escritora inglesa. E tal como em «O Pai Tirano» será representada por um grupo teatral amador. Em vez de o “Grupo Teatral dos Grandelinhas” aqui é “Núcleo de Teatro da Sociedade Cultural e Recreativa do Sobralinho”. (É impossível que o tradutor Nuno Markl tenha esquecido o velho Grandela.)

Mas aqui o amadorismo toca os limites do irrazoável, os actores estão convictos que actores são mas perdem as deixas, os técnicos de apoio de palco andam distraídos. Tem tudo para correr mal mesmo antes de começar. e um facto é que o que parece acontece na realidade.

Logo no início, surge morto Charles Haversham, precisamente nas vésperas do seu casamento com Florence Colleymoore. Mas não será o último. E todos têm razões para beneficiar com aquela morte, excepto o cenário que surge como a mais indefesa vítima, que aos poucos se vai desfazendo, terminando com a queda do lustre, o último pedaço de adereço que ainda permanecia intacto.

Esta peça é, acima de tudo, uma obra impressionante de arquitetura e engenharias cenográficas dando uso a tão intricada e rápida sucessão de mudanças de cena e alteração na posição de adereços que chega a parecer impossível como os actores conseguem dizer as falas seguindo deixas tão ilógicas e, ao mesmo tempo, movimentando-se sem parar e sem se magoarem, tal a exigência física dos papéis. Tem momentos verdadeiramente hilariantes, apesar de alguns outros pecarem, por vezes, pela repetição excessiva fazendo perder, deste modo, a surpresa e intensidade dramática da comédia. O que é também muito divertido será imaginar como nos bastidores se estão a movimentar os técnicos de palco reais contra a cena dos técnicos de palco "falsos".

Dois actores parecem fazer metade da festa. O fantástico Telmo Ramalho (Cecil Haversham / o jardineiro), o deslumbrado actor que adora saber que está a ser apreciado pelo público que o aplaude na plateia, e o mais discreto e humilde defunto, Valter Teixeira (Charles Haversham) que, sistematicamente, entra fora de tempo e de cena, arcabuz em riste, perseguindo o seu assassino.

Por fim, é mesmo extraordinário como Lisboa agora se enche de espetáculos teatrais, em simultâneo, com excelentes produções, de todos os géneros, para todos os gostos e com salas esgotadas! Será que voltou a ser necessário ir ao teatro para fugir do mundo em que vivemos? Ou será, exactamente, para melhor o compreendermos?


12 de abril de 2025

«A Peça Que Dá Para o Torto» (The Play That Goes Wrong). Texto: Henry Lewis, Jonathan Sayer e Henry Shields. Tradução: Nuno Markl. Encenação residente: Frederico Corado. Com Afonso Lagarto (operador de luz e som, procura colectânea dos Duran Duran), Ana Marta Contente (apoio de palco e duplo de Florence Colleymoore), André Leitão (Perkins, o mordomo), Duarte Grilo (Mr. Thomas Colleymoore), Leonardo Progano (Mr. Fitzroy / Inspector Carter), Matilde Breyner (Florence Colleymoore), Telmo Ramalho (Cecil Haversham / o jardineiro), Valter Teixeira (Charles Haversham), Gabriel Palhais, Joana Pialgata, Rodrigo Oliveira (apoio de palco). Encenação original: Hannah Sharkey. Cenografia original: Nigel Hook. Desenho de Luz original: Ric Mountjoy. Guarda-Roupa original: Roberto Surace. Coreografia original Dave Hearn. Música original Rob Falconer. Teatro Tivoli. 120 minutos.