segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Sobre o filme «Movimento em Falso» de Wim Wenders, 1975


























No início, a mãe de Wilhelm (Marianne Hoppe) coloca-lhe na mala de viagem dois livros: «A Vida de um Imprestável» de Joseph Freiherr Von Eichendorff e «A Educação Sentimental» de Gustave Flaubert. Wilhelm (Rüdiger Vogler) deseja ser escritor e parte em viagem pela Alemanha. Encontra Laertes (Hans Christian Blech), um rei de Ítaca colaboracionista nazi e cantor, Mignon (Nastassja Kinski) uma artista de circo que nunca fala, Therese (Hanna Schygulla), uma actriz famosa, Bernhard (Peter Kern), um poeta austríaco que procura a essência da crítica, um industrial suicida (Ivan Desny). Todos têm um percurso a executar, uma memória a liquidar. Contudo nenhum consegue contar a história por inteiro. Discutem a dimensão da palavra, da poesia ou da política enquanto as crianças brincam e correm em torno de uma Alemanha que procura um leito tal como o rio que corre absorto ao longo da estrada. É aí que o grupo se separa e Wilhelm, sozinho, sobe ao topo da montanha e regressa a imagem daquele que caminha sobre o mar de névoa de Caspar David Friedrich.

O argumento é de Peter Handke sobre a novela «Wilhelm Meister LehrJahre» de Goethe. A montagem do filme (Peter Przygodda e Barbara von Weitershausen) é arrepiante de intensidade, movimento sincronizado, capacidade narrativa. A música (Jürgen Knieper) aprofunda tragicamente a frustração. Porém, a vida continua sobre (ou sob) as ruínas do presente.

Um filme fundamental sobre a nossa Europa, o nosso Mundo de hoje.

jef, dezembro 2019

«Movimento em Falso» (Falsche Bewegung) de Wim Wenders. Com Rüdiger Vogler, Hanna Schygulla, Nastassja Kinski, Peter Kern, Ivan Desny, Marianne Hoppe, Lisa Kreuzer, Adolf Hansen. Argumento: Peter Handke baseado no texto «Wilhelm Meister LehrJahre» de Goethe. Fotografia: Robby Müller e Martin Schäfer. Montagem: Peter Przygodda e Barbara von Weitershausen. Música: Jürgen Knieper. Alemanha, 1975, Cores, 93 min.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Sobre o filme «Ao Correr do Tempo» de Wim Wenders, 1976














«O tempo é a nossa história».
Qualquer coisa assim vai sendo repetida entre os dois quase amigos na viagem que fazem, quase involuntariamente, ao longo de uma fronteira que desejam mas também temem usurpar. A fronteira geográfica estabelece mais a fractura entre gerações entre guerras do que o paralelo que separa ocidente e oriente. Que venha a América, já que a exibição de cinema e a impressão de jornais andam desfocadas da actualidade e a amizade, o suicídio, a condição humana, são coisas a serem discutidas aprofundadamente.
Uma “neue Welle” definida esteticamente pela arquitectura crua das linhas que apontam para o escombro e a vontade de futuro, onde a ternura e o riso são tão importantes quanto a necessidade de ruptura. Os actores sem duplos, sem rede, tomados a nu pelo passado e pela paisagem.
Quando surgiu o filme, o mundo andava numa roda-viva, entre bombas, convulsões, terrorismo e revoluções. O mundo precisava de filmes e jornais. Víamos deslumbrados Wim Wenders, Reiner Werner Fassbinder, Andrei Tarkovksy…
O mundo agora continua numa roda-vida e a necessitar com urgência de salas de cinema e imprensa séria.
E eu continuo deslumbrado por «Im Lauf der Zeit»!

jef, dezembro 2019

«Ao Correr do Tempo» (Im Lauf der Zeit) de Wim Wenders. Com Rüdiger Vogler, Hanns Zischler, Lisa Kreuzer, Rudolf Schündler, Marquard Bohm, Hans Dieter Traier, Franziska Stömmer, Peter Kaiser, Patrick Kreuzer, Michael Wiedemann. Argumento: Wim Wenders. Fotografia: Robby Müller, Martin Schäfer. Música: Axel Linstädt. Alemanha, 1976, preto e branco, 175 min.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Sobre o 16º Auto de Natal «Ser Rei», promovido pela Irmandade da Misericórdia de São Roque, Dezembro 2019. Igreja de São Roque, Lisboa















Neste momento, dia 23 de Dezembro de 2019, pelas 15h00, na belíssima Igreja do Largo Trindade Coelho, está a ser representado o 16º Auto de Natal «Ser Rei», promovido pela Irmandade da Misericórdia de São Roque.

Este ano brincam eles aos reis, sublinha Ana Lázaro, a autora. O rei Herodes é déspota mas piegas. Os reis Magos são generosos e viajados. O rei Menino Jesus está aí a chegar e já provoca ciúmes, inveja, apreensão por concorrência régia.

Há reis para todos os géneros, mas aqui são todos bonzinhos, desde os mais pequeninos (do Parque Infantil de Santa Catarina) até aos mais velhos (do Centro de Dia do Alto do Pina), no coro, que cantam modas antiga, muito antigas, divinas, vindas de um velho Portugal, de um velho Cabo Verde. Eles cantam e comovem-nos. Dizem que ser rei é renascer para a consciência e para sermos bons. Um belo conceito moral e político. Quem nasce pode vir a mudar o mundo. Um milagre!

O Auto de Natal na Igreja de São Roque, todos os anos, a não perder. A ver entre amigos e com muita festa. Isto é o que teoricamente se chama Natal, quer seja cristão, pagão ou mesmo ateu.

Abraços de boas festas.

jef, dezembro 2019

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Sobre o filme «Graças a Deus» de François Ozon, 2018
















Este filme é uma ficção baseada em factos reais. Avisam-nos no início. Na região de Lyon, o padre Bernard Preynat (Bernard Verley) abusou recorrentemente de dezenas (ou centenas) de jovens escuteiros que tinha à sua guarda. Os factos ocorreram nas décadas de 1980-1990 mas só vieram a público em 2014-2015. A denúncia dos crimes, o confronto com a cumplicidade assumida da hierarquia católica e a posterior acção judicial, é iniciada por Alexandre (Melvil Poupaud), a que depois se juntam François (Denis Ménochet), Gilles (Éric Caravaca), Emmanuel (Swann Arlaud) e muitos outros.

O filme tem uma rapidez entusiasmada de mestre, podendo dizer-se que é quase um filme epistolar pois, enquanto decorre toda a sequência de peripécias narrativas, vamos escutando em voz off o teor de múltiplos e-mails trocados e de cartas guardadas mais ou menos em segredo. Poupa François Ozon tempo e filme, ganha o espectador em expectativa cinéfila. Tudo decorre nas mãos e na expressão de um monte de belíssimos actores.

Um filme político de denúncia de crimes exumados da cripta perversa, mórbida e criminosa, de uma igreja católica que não sabe olhar e gerir a sexualidade das suas confrarias com a necessária naturalidade. Justiça seja feita ao Papa Francisco que, com tanta resistência , tem vindo a dar cada vez mais atenção judiciária ao assunto!

Um filme inteligente, escorreito e firme mas que não tem tempo de expressar a vocação emocional que outros tantos filmes de François Ozon já demonstraram.

jef, outubro 2019

«Graças a Deus» (Grâce à Dieu) de François Ozon. Com Melvil Poupaud, Bernard Verley, Denis Ménochet, Swann Arlaud, François Marthouret, Éric Caravaca, Bernard Verley, Martine Erhel. Argumento: François Ozon. Fotografia: Manuel Dacosse. França / Bélgica, 2018, Cores, 137 min.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Sobre o filme «Tommaso» de Abel Ferrara, 2019
















O melhor do filme é mesmo Willem Dafoe. Esse gentil monstro, criança aflita, que marca de modo tão plástico todas as cenas de uma família quase normal. Tommaso, realizador a preparar o argumento de um filme está em crise, não propriamente de criatividade mas da tal “normalidade”. Vive em Roma com a esposa e a filha pequena, dá aulas de expressão dramática e dança, vai a sessões dos alcoólicos anónimos, à noite enerva-se com os sem-abrigo barulhentos, vai às compras, passeia nos jardins, vai arranjar o candeeiro. A família rouba-lhe espaço e afecto, tem pesadelos e uma ou outra alucinação. Normal. A posição de Tommaso no centro de cada cena, câmara junto ao rosto e a expressão marcada pelas rugas, é sintomática de uma cidade quente mas intimamente solitária.

Muito curioso, esse lado de Abel Ferrara ao colocar a sua própria esposa e filha (Cristina Chiriac, Anna Ferrara) nos braços de Tommaso, persona dele próprio. Tal como recentemente fizera Pedro Almodóvar em «Dor e Glória» com a persona do realizador Salvador Mallo interpretado pelo também ‘plástico’ Antonio Banderas. Só que aqui a moral da história parece ser: ‘a vida normal levará à loucura!’.

Pena é que, aqui e ali, o caminho da narrativa se vai enrolando em momentos ‘quase banais’, coisa que não se espera de Abel Ferrara ou de Willem Dafoe.

jef, dezembro 2019

«Tommaso» de Abel Ferrara. Com Willem Dafoe, Cristina Chiriac, Anna Ferrara, Stella Mastrantonio. Argumento: Abel Ferrara. Fotografia: Peter Zeitlinger. Itália, 2019, Cores, 115 min.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Sobre o filme «Onde Estás, Bernadette?» de Richard Linklater, 2019
















Parece-me que este filme saiu um pedacinho ao lado da intenção do realizador de filmes-teatro com actores-irmãos que figuram e configuram o espaço como se fosse deles. Assim acontecia em «Boyhood – Momentos de Uma Vida» (2014), «Antes do Amanhecer» (1995), «Depois do Anoitecer» (2004) ou «Depois da Meia-noite» (2013).

Aqui, Cate Blanchett faz de Bernadette Fox, uma arquitecta de renome que, após um desaire de engenharia ou de finanças em certo projecto, sai de Los Angeles para Seattle e centra-se na família e na sua nova casa, um palacete arruinado, afugentando tudo e todos os que lhe passam pela frente. Excepto a sua filha Judy (Judy Greer) que propõe para prémio de fim de curso uma ida em família à Antárctica. Contudo, as coisas complicam-se e ela resolve fugir sozinha.

O problema é que nem Cate Blanchett consegue vingar na torrente de palavreado que a ansiedade paranóica da personagem lhe exige, nem o filme consegue sair por um instante do registo de telefilme de domingo à tarde. Chuvoso.

Nem há suficiente paisagem gelada, nem um único pinguim-imperador, e só de relance vislumbramos a maravilhosa fotogenia de Cate Blachett.

jef, dezembro 2019

«Onde Estás, Bernadette?» (Where'd You Go, Bernadette) de Richard Linklater. Com Cate Blanchett, Kristen Wiig, Judy Greer, Laurence Fishburne, Billy Crudup, Megan Mullally, Emma Nelson, James Urbaniak, Troian Bellisario, Zoe Chao. Argumento: Rchard Linklater, Holly Gent e Vincent Palmo Jr. segundo o romance com o mesmo nome de Maria Semple. EUA, 2019, Cores, 109 min.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Sobre o livro «Peregrinação» de Olivier Rolin. Sextante, 2019. Tradução por Joana Cabral.















Olivier Rolin está nos Açores, ilha do Faial. Visita o observatório meteorológico e sismológico e vê com atenção as agulhas que gravitavam com tinta sobre os aparelhómetros. Diz:
«Escrever grandes coisas com a delicadeza das patas de um insecto, em suma, traçar grandiosos gatafunhos, não será este o ideal de qualquer escritor?» pp. 25

Olivier Rolin, escritor francês, melhor conhecedor de Portugal, ou eterno espectador de Portugal, instala-se em Cascais, numa residência literária, rodeia-se de mar, Fernão Mendes Pinto, Camões e Álvaro de Campos, e mergulha nessa capacidade de ser nostálgico em que, diz, serem os portugueses verdadeiramente honestos.

Rodeia-se de dezenas de cadernos de apontamentos, vai decifrando-os e falando, sem ordem aparente, de forma circular como o mundo que não tem fim, ou escrevendo, sobre as viagens que teve de fazer ou foi impelido, por vocação ou instinto, a fazer. Também dos seus livros, que sempre de viagens falam. Fala das suas paixões, e das suas paixonetas, fala dos seus amigos, das regiões que visitou e que talvez não visitará mais. Fala de pormenores de salas vazias, onde jantou sozinho, fala de mamutes enterrados na neve, de cacos arqueológicos que se colam, deixando ao arqueólogo apenas o seu interior remendado e vazio. Sim, fala da solidão e dos seus mortos. Do Sudão, do deserto, de Sarajevo, da guerra, de Xangai, da multidão, do extremo árctico que une a ex-união soviética ao resto do planeta.

Pergunta:
«Porque é que o tempo tem de apagar emoções tão violentas (mas não a sombra formada pela sua recordação)?» pp. 148

Porém, Olivier Rolin nunca fala com melancolia. Ele sabe como cruzar Júlio Verne, e as suas fúrias narrativas e fantasiosas, com George Perec, e a sua certeza geográfica no pormenor ínfimo de um espaço. Está lá «Suite no Hotel Crystal» (2014), assim como «Porto Sudão» (1994), «Tigre de Papel» (2002), «Baku, últimos dias» (2010), «O Meteorologista» (2014), «Sibéria» (2011), «A Invenção do Mundo» (1993) ou «Veracruz» (2017).

(Lembrei-me ainda de Rui Cardoso Martins, no modo jornalístico de olhar a verdade de uma guerra cruzado com a fantasia ficcionada de uma história que nos puxa para diante.)

Por fim, esclarece-nos:
«A vida não é uma linha, uma trajectória, é uma árvore infinitamente ramificada e frondosa, uma cabeleira imensa. Essas outras vidas forjaram aos poucos a tua, e, nesses destinos que já não conheces, no Peru, no Sudão, na Rússia, em todos os lados por onde passaste, uma parte ínfima de ti continua a viver – ou a morrer – sem ti. É disso, afinal, que queres tentar dar uma ideia – acaba finalmente de ser claro para ti.)» pp. 205

jef, dezembro 2019