quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «Harry, um Amigo ao seu Dispor» de Dominik Moll, 2000



















Se existe um filme que crie um desconforto continuo, crescente, um suspense confrangedor colocado no estômago do espectador, esse filme é «Harry, um Amigo ao seu Dispor».
Se existe família mergulhada no sofrimento do quotidiano, ela é a de Michel (Laurent Lucas), de Claire (Mathilde Seigner) e das suas três filhas pequeninas, Jeanne (Victoire de Koster), Sarah (Laurie Caminata) e Iris (Lorena Caminata).
Se existe amigo pronto para ajudar Michel, de memória e determinação ferozes, antigo colega de liceu, passeando por França com a sua namorada Prune (Sophie Guillemin), é ele Harry Balestero (Sergi López).
Se existe argumento hitchcockiano servido por uma cadeia de situações estratégicas, embora inverosímeis, oferecido a actores em estado de excelência, é o deste filme.

Um filme, digamos diabólico e amoral, feito à medida de um magnífico Sergi López que dá a dimensão da perversidade do personagem de modo luminoso e sub-reptício, fazendo o espectador desejar esquecer os preceitos judiciais do Ocidente para devolver àquela família o rumo da felicidade. A todo o custo. Não interessa o preço.

Existe um humor fino, delirante, simbolicamente ‘ilegal’ e ‘surrealizante’, a unir este Michel, sério pai de família, abnegado e escritor frustrado, e uma outra personagem, Michèle, criada por Isabelle Hupert para Paul Verhoeven no filme «Ela» (2016).

«Harry, um Amigo ao seu Dispor» é um policial sem polícias, que faz acreditar que as coincidências do destino são dados a jogar ao sabor da realidade intriguista.

jef, fevereiro 2018
                                                                      

«Harry, um Amigo ao seu Dispor» (Harry, un ami qui vous veut du bien) de Dominik Moll, 2000. Com Sergi López, Laurent Lucas, Mathilde Seigner, Sophie Guillemin, Liliane Rovère, Dominique Rozan, Michel Fau, Victoire de Koster, Laurie Caminata, Lorena Caminata. Música: Davi Sinclair Whytaker. França, 2000, Cores, 117 min.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «Beuys» de Andres Veiel, 2017



















O que atrai no documentário de Andres Veiel é o próprio objecto em que se centra: o artista alemão Joseph Beuys. Um ser superactivo e fremente, aguardando que o dia que chegará venha resgatar a liberdade do artista que vê na arte o objecto imprescindível para transformar a sociedade. A arte, o tal objecto ao alcance de todos, assim como deviam ser a academia e a política. A arte, a ser praticada e criticada por todos, o verdadeiro trampolim para um certo novo mundo surgido de uma revolução e de um sorriso.

Tento recordar.

Joseph Beuys correu muito e criou polémica. Naturalmente, divertiu-se.
Estudou medicina, serviu a Luftwaffe, teve um acidente na Crimeia. Quase morreu. Foi salvo pelos tártaros que o curaram com gordura e cobertores de feltro. Usou a gordura de porco em degradação em salas de exposição, forrou pianos e galerias de feltro. Executou «A Matilha», com uma carrinha Volkswagen e 24 trenós. Mostrou-se como era, com uma lebre morta nos braços. «Como Explicar Desenhos a uma Lebre Morta» Em Kassel, pretendeu disseminar 7.000 carvalhos por 7.000 pedras que se espalhariam para outras cidades. «7.000 Eichen». Em Nova Iorque, fechou-se durante dias numa sala com um coiote. «Eu Gosto da América e a América Gosta de Mim». Fundou diversos movimentos estudantis, ajudou a organizar o partido Os Verdes. Foi expulso da academia por insubordinação. A sua obra foi exibida em retrospectiva no Museu Guggenhein de Nova Iorque.

Nasceu em Krefeld, 1921. Faleceu em Düsseldorf, 1986.


Teve uma vida do caraças, pelo que me é dado perceber através de um documentário apressado, caótico, tentando imitar a pressa estética do artista mas esquecendo que existem apenas três ou quatro modos de contar uma história, seja ela ficção ou documental. Fiquei confuso a desejar saber mais sobre a obra, não sobre a fascinante persona «Beuys». Um filme deslumbrado por um milhão de belos retratos de Beuys mas que, por superávido, ultrapassam a própria estética criada por um ser angustiado e bondoso, triste e enérgico, que não tinha tempo para dormir.

Qualquer coisa de aventureiro, solitário, estético e intransigente. Qualquer coisa de Jacques Brel, qualquer coisa de Tintin.

jef, fevereiro 2018

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Beijo











Um beijo só pode ser definido
se repetido, como o eco das palavras
lançadas ao risco do abismo.
Um beijo só pode ser molhado
pela língua doce da saliva,
como a pedra que deslisa e repete na
superfície da água humedecendo o lado
que guarda a probabilidade
da levitação.


jef, 11 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «Linha Fantasma» de Paul Thomas Anderson, 2017

















É um filme deslumbrante.
Vivam estes três enormes actores: Daniel Day-Lewis (Reynolds Woodcock), Vicky Krieps (Alma) e Cyril (Lesley Manville) que se desdobram em planos grandes de uma tensão luminosa, em guerrilha amorosa, de cortar a respiração, numa luta surda entre o amor, o poder, a solidão e a angústia pela perfeição no trabalho, pela ausência do resto, pelos segredos, pelos silêncios! Pela obsessão do ritual!

E não são apenas as tesouras a esgarçar os tecidos, ou as costureiras, perfeitas, a costurar o assombro, ou a música original de Jonny Greenwood (é um pecado sair-se da sala sem que terminem os últimos acordes). É o ódio instalado no rosto de Reynolds quando é importunado pelo raspar da faca na torrada áspera, o chá a cair de alto em fio na chávena, preponderante, invasivo. O som impressiona visivelmente!
Tudo envolto num guarda-roupa tão inesquecível quanto o são os chapéus nas corridas de Ascot em «My Fair Lady» (George Cukor, 1964) ou os vestidos no baile em «O Leopardo» (Luchino Visconti, 1963).

O confronto dos olhares de Reynolds, Alma e Cyril é único. Quem primeiro baixar os olhos, é fulminado! Nesta guerra dos comportamentos exemplares, da exemplar educação, do mais fino rancor contido, do amor mais aflitivo, ninguém perde. Por isso, também ninguém morre!

E se houver dúvida sobre a importância visual e sonora deste filme que se reveja a cena fulcral da confecção, apresentação e deglutição da omelete de cogumelos.

Apenas fica o espectador mesmo a ganhar com o esplendor da luz nas escadas, com esse amor infinito.

Repito: este é um filme deslumbrante! Viva o cinema digital!

jef, fevereiro 2018


«Linha Fantasma» (Phantom Thread) de Paul Thomas Anderson. Com Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Camilla Rutherford, Vicky Krieps. Fotografia: Paul Thomas Anderson, Música: Jonny Greenwood, Guarda-roupa: Mark Bridges. EUA, 2017, Cores, 130 min.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «O Carteirista» de Robert Bresson, 1959
















Para entender «O Carteirista» devemos esperar pelo olhar. No olhar suspenso está escrito aquilo que não é contado no outro lado do filme.

A nota inicial que fala de um bom homem que é levado pelas vicissitudes da vida à arte do roubo e esta ao encontro com determinada jovem mulher, não é suficiente.

Nem a determinação filosófica de Michel (Martin Lasalle) sobre a superioridade do acto de certos homens: «Temos de admitir que alguns homens capazes, dotados de inteligência, talento e até mesmo génio, e indispensáveis à sociedade, em vez de estagnarem, deveriam em certos casos ser livres de desobedecer à lei».

Nem Dostoievski («Crime e Castigo»), nem Max Stirner («O Único e a Sua Propriedade»). Nem o jogo de gato e de rato que Michel promove com o inspector da polícia (Jean Pelegri).

Nem essa espécie de triângulo amoroso, surdo e compulsivo, existente entre o protagonista e Jacques (Pierre Leymarie) e Jeanne (Monika Green), terminando na cena redentora de um beijo acariciado por entre as grades da prisão. «Ó Jeanne, para chegar a ti que estranho caminho me foi dado percorrer!»

Nem o jogo fulminante das mãos dos ladrões na cena dos roubos na estação de comboios.

Nem a música de Jean-Baptiste Lully a sublinhar as cenas de certa vitória.

Para gostar de «O Carteirista» temos de seguir o tempo do olhar e das mãos e saber que nele ficará para sempre guardado, e talvez inexplicado, o princípio do destino e a vocação para o alterar.

jef, fevereiro 2018
                                                                   
«O Carteirista» (Pickpocket) de Robert Bresson. Com Martin Lasalle, Monika Green, Pierre Leymarie, Jean Pelegri, Kassagi, Pierre Etaix, Mme Scal. Música: Jean-Baptiste Lully. França, 1959, P/B, 75 min.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «O Verão do Skylab» de Julie Delpy, 2011













Sim. Nutro um amor especial por Julie Delpy. Começou por uma paixão colectiva juntamente com o actor Ethan Hawke, unidos nos filmes de Richard Linklater. «Antes do Amanhecer» (1995), «Depois do Anoitecer» (2004), «Depois da Meia-noite» (2013).

Julie Delpy faz filmes inteligentes, contidos e carregados de uma alegria emocionante, familiar, onde as relações afectivas tomam o lugar principal na cadeia narrativa. A ‘família’ é a própria história. A ironia é uma das suas armas, outra será esse modo humano de dizer que todos querermos ser diferentes apesar de parecermos todos iguais. Ela é meio francesa e meio americana e usa o facto para brincar com o tradicional confronto, sempre com um pé num continente e outro no seguinte. Um pé na realização, outro na representação ou no argumento. Trabalha com amigos e isso nota-se na epiderme das suas comédias. Filma de modo descomprometido, como se estivesse em casa, e ainda consegue colocar os filmes no circuito comercial.

Em «O Verão do Skylab», é anunciada a possibilidade de queda de um pedaço do famoso satélite em solo francês, mais concretamente na Bretanha onde a família da avó Amandine está reunida para comemorar o seu aniversário. Julho de 1979. Amandine tem seis filhos, respectivos genros ou noras, uma carrada de netos. Vive ainda com ela um irmão que vive num mundo à parte, o Tio Hubert (Albert Delpy, pai da realizadora e cúmplice frequente nas suas aventuras).

O filho Jacquot é casado com Anna. São pais de Albertine que tem 10 anos e ficará com a avó o resto das férias. Jacquot e Anna chegam de Paris, são intelectuais e de esquerda, trazem o Maio de 68 na ponta da língua. Mas são os únicos. Por isso, a aniversariante roga para que não se discuta política à mesa. Nem a liberdade, nem a emancipação da mulher, nem a Indochina, nem a Argélia. Mas Jacquot, tal como a realizadora, gosta de discutir e contar histórias. (A história da sereia e do tubarão quando se dirigem para a praia de Renault 4, é única!)

«O Verão do Skylab» é um filme muito simples, com um monte de personagens que, afinal, se reúnem num apenas. A família. Ali estão todos os assuntos que lhe dizem respeito, num certo país, numa certa época, e de modo encantadoramente inocente, trocista, carinhoso… 

É bom rever «O Verão do Skylab» quando o frio ainda nos lembra o solstício de Inverno.

jef, fevereiro 2018
                                                                  
«O Verão do Skylab» (Le Skylab) de Julie Delpy. Com Julie Delpy (Anna), Noémie Lvovsky (Tia Monique), Bernadette Lafont, (Avó Amandine), Emmanuelle Riva (Avó Prévost – Mémé), Eric Elmosnino (Jean), Marc Ruchmann (Tio Loulou), Lou Alvarez (Albertine), Vincent Lacoste (Christian), Aure Atika (Tia Linette), Sophie Quinton (Tia Clémentine), Valérie Bonneton (Tia Micheline), Denis Ménochet (Tio Roger), Jean-Louis Coulloch (Tio Fredo), Michelle Goddet (Tia Suzette), Albert Delpy (Tio Hubert), Candide Sanchez (Tio Gustavo), Lily Savey (Sissi), Chloé Antoni (Valérie), Maxime Julliand (Pierre), Félicien Moquet (Jean-Luc),
Antoine Yvard (Philippe), Anne-Charlotte Moquet (Catherine), Angelo Souny (Henri), Léo Michel-Freundlich (Robert), Noah Huntlez (Jonathan), Karin Viard (Albertine adulta), Lee Delong (Jessica). França, 2011, Cores, 109 min.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «A Forma da Água» de Guillermo del Toro, 2017















Com «O Labirinto do Fauno» (2006), Guillermo del Toro criou uma nova fronteira para a fantasia no cinema, lançou raízes para uma estética  do imaginário diversa, tornou mais adulta uma certa criatividade que se associa à mente infantil, suspeito que bastante erradamente. A expectativa foi lançada. Ficámos em guarda para o filme seguinte. Hollywood sonhou. O dinheiro chegou prolixo. A obra nasceu. «A Forma da Água». Choveram os prémios, até por Veneza! Também um monte de nomeações para os globos de ouro e para os óscares!

Fins dos anos 50 ou início dos 60, a guerra fria, os russos, a espionagem, os muito maus, a discriminação feminina, da raça negra, da orientação sexual, dos mudos. O assédio. A aceitação da diferença. Um conjunto extraordinário de Cadillacs.

Uma banda sonora do superactivo Alexandre Desplat, secundado por uma vintena de canções maravilhosas.

Um conjunto de actores de excelência: Sally Hawkins («Blue Jasmine» Woody Allen, 2013), Octavia Spencer («Fruitvale Station – A Última Paragem», Ryan Coogler, 2013), Michael Shannon («Polícia Sem Lei», Werner Herzog, 2009), Richard Jenkins («Sete Palmos de Terra», Nathaniel Fisher, 2001-2005), Michael Stuhlbarg («Chama-me pelo Teu Nome», Luca Guadagnino, 2017).

Um mundo inundado pelo fogo-fátuo da cenografia espampanante!

E para quê?

A fantasia no cinema é coisa deveras complicada de fazer. Perguntem ao fazedores de obras-primas: Victor Fleming («O Feiticeiro de Oz», 1939),  Robert Stevenson («Mary Poppins, 1964), Stanley Kubrick («2001, Odisseia no Espaço», 1968), Steven Spielberg («.E.T. – O Extra-Terrestre», 1982), Tim Burton («Eduardo Mãos de Tesoura», 1990), …

Na minha modesta opinião, não basta uns quantos temas da moda, dinheiro e nomeações para óscares. A fantasia merece um guião plausível, contenção, humildade e aquele toque de génio que espevita a memória criativa do espectador para que este construa o que não existe!

jef, janeiro 2018

«A Forma da Água» (The Shape of Water) de Guillermo del Toro. Com Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Fotografia: Dan Laustsen; Música: Alexandre Desplat. EUA / Canadá, 2017, Cores, 123 min.