Mystery Park na Biblioteca. André Ruivo escreve histórias curtas através de desenhos e vai registá-las à biblioteca, diga-se livraria, que é a mesma coisa. Esta biblioteca-livraria, diga-se cidade, está cheia de livros, de prateleiras, luz e cadeiras. Emoções. Mas não tem clientes, logo esta biblioteca-livraria-cidade não existe. Porém, ela mesmo agora contradiz-me e apresenta-se em papel e tinta, na minha mão. Os potenciais utilizadores andam um pouco alheados da cidade-livraria-biblioteca emocional, e passeiam, prontos para a sedução, mas também cativando, fumando, passeando o cão, lendo o jornal… A eles fica-lhes bem o gerúndio, pois não amam nem odeiam, apenas vão suspeitando que a vida não terminará ali, em Mystery Park, e talvez valha a pena ir indo até à cidade das bibliotecas procurar-lhe a continuação.
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Sobre os livros «Biblioteca», the inspector cheese adventures (2011) e «Mystery Park», chili com carne (2012), de André Ruivo
Mystery Park na Biblioteca. André Ruivo escreve histórias curtas através de desenhos e vai registá-las à biblioteca, diga-se livraria, que é a mesma coisa. Esta biblioteca-livraria, diga-se cidade, está cheia de livros, de prateleiras, luz e cadeiras. Emoções. Mas não tem clientes, logo esta biblioteca-livraria-cidade não existe. Porém, ela mesmo agora contradiz-me e apresenta-se em papel e tinta, na minha mão. Os potenciais utilizadores andam um pouco alheados da cidade-livraria-biblioteca emocional, e passeiam, prontos para a sedução, mas também cativando, fumando, passeando o cão, lendo o jornal… A eles fica-lhes bem o gerúndio, pois não amam nem odeiam, apenas vão suspeitando que a vida não terminará ali, em Mystery Park, e talvez valha a pena ir indo até à cidade das bibliotecas procurar-lhe a continuação.
terça-feira, 24 de abril de 2018
Sobre o livro «Gangsters» de André Ruivo. The Inspector Cheese Adventures, 2012
(Pode dizer-se que este
texto é uma tentativa de crítica, seja o que isso for…)
André Ruivo rejeita a
legenda-ilustração para epíteto da sua arte. Mais nítida do que em obras
anteriores, essa vocação mostra-se no conjunto de imagens ‘não tituladas’ reunidas
no livro «Gangsters». A rejeição da frase escrita indexada à peça desenhada
transfere, na sua abstracção figurativa, o trabalho para o olhar do
leitor-narrador.
Citando dois exemplos clássicos, também Paula Rego e Pedro
Proença deixam ao leitor a liberdade de ajustar os sinais gráficos à sua
própria cadeia interpretativa. André Ruivo parece insistir em que qualquer tipo
de baias retira «autoria» à imagem.
Ora, se a primeira
liberdade de André Ruivo é a da não-legendagem, então a segunda rejeição é a da
intencionalidade, quer ela seja política, social, ou ambiental. É impossível associar
estas imagens a uma linha programática como é fácil fazê-lo com George Grosz ou
João Abel Manta. No entanto, as presentes ilustrações podem de modo muito aberto
celebrar a liberdade de expressão e a força colectiva no modo individual em que
se apresentam.
Concluindo, os 12
retratos incluídos em «Gangsters» são desafios gráficos, histórias puras e
livres, lançadas ao espírito do observador apenas pelo traço expressivo das
personagens e pela violência com que a cor nelas é aplicada.
Sobre o livro «Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos» de Mário de Carvalho. Porto Editora, 2018
Este livro é sobre a contemplação da descrença, a narrativa
da desesperança. E a sua maior ironia centra-se no termo exacto do seu título,
referência ao poema de Mário Cesariny que é citado em epígrafe, páginas adiante.
Talvez o humor aí se conclua.
A ‘burguesia’ de Cesariny é uma burguesia pueril, insciente
de si própria, contente, contente por ler sem saber ler. A ‘burguesia’ de Mário
de Carvalho não será ainda a burguesia de Marx ou Engels, a simples burguesia
capitalista mascarada de cartola e charuto, militarizada, com nariz de porco, caricatura
«degenerada» de George Grosz. Nem a pequena burguesia alheada de consciência. É
mais um estado triste e complexo dos que, com dote ou herança à vista, reconhecem no
tempo, inexorável e fatídico, o fim de uma linha que se desejou de algum
estatuto mas que foi deslizando para o desalento, para a solidão.
Onze contos onde perpassa a acrimónia velada contra o
futuro, esse infiel tempo verbal que mostra sistematicamente a traição
insuspeita enterrada no passado. E se não a desvenda, esconde no desinteresse humilhante, quase nonchalant, de um jantar entre negócios e amigos. São amigos
reencontrados que afinal nada mais podem contar uns aos outros; antigos
camaradas que envelheceram; velhos lobos solitários caídos em descrédito
bancário ou na suspeita hereditária da descendência. Aqui o futuro esconde-se
no vão dos pequenos momentos-história da tal caída ‘burguesia’.
Talvez um certo Gustavo Miguel, realizador de cinema,
cirandando nas margens da Lagoa Moura, em «A Sala Magenta» (2008), ou o amante
da «Ronda das Mil Belas em Frol» (2016), lhes dêem parentalidade.
Porém, as histórias deste livro surgem vivas e prontas a
renascer na belíssima estrutura da adjectivação e no alinhavo descritivo tão
pormenorizado quanto é exigido pela suspensão do tempo. Precisamente, é no quase maquiavélico manuseio simples e complexo, vanguardista ou oitocentista,
de palavras e da sua sintaxe que, afinal, reside a sempre futurista escrita de Mário
de Carvalho.
jef, abril 2018
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Sobre o filme «Até Nos Vermos Lá em Cima» de Albert Dupontel, 2017
A produção cinéfila francesa tem destas coisas. Encanta-se consigo
própria. Finge que é a produtiva Hollywood. Presume-se. Encharca-se de
sumptuosos cenários, decores, adereços, guarda-roupa. Aplica credíveis efeitos
especiais. Coloca uma banda sonora a imitar Danny Elfman ou Alexandre Desplat.
Chama bons actores capazes de dar corpo a uma interessante história novelesca
que sublinha o horror que foi a morte nas trincheiras (e mesmo depois do armistício)
da terrível e mais esquecida Guerra Mundial, a primeira. História baseada no
romance de Pierre Lemaitre.
Mas, depois, a tal produção manda apressar a leitura do
espectador porque o tempo da narração não chega para mostrar tantas imagens e temos correr atrás de uma história intrincada sobre traição, amor fraternal,
fraude bancária, ganância desmedida, falcatruas estatuárias, requebros pirosos
sobre a amizade e os desencontros familiares, até estacionarmos num delicodoce happy end com paisagem cartonada marroquina ao fundo.
Que nos fique a ideia tão interessante de praticar a
comédia dramática sobre, repito, uma das guerras mais sangrentas e dilacerantes
de sempre.
Que fique também a interpretação de Niels Arestrup, a fazer
de Presidente-Pater- Familias.
jef, abril 2018.
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Sobre o filme «Taxi» de Jafar Panahi, 2015
Esta é uma das comédias mais inteligentes do mundo.
Em Teerão, Irão, século XXI, um taxi mais ou menos
comunitário segue as ruas e os passageiros vão entrando aleatoriamente. Ou talvez
nem tanto. Neste filme não se sabe onde pára a realidade e começa a realidade
encenada. Mas o teatro vence sempre como símbolo máximo da verdade.
O taxista é o próprio realizador Jafar Panahi, preso político,
impedido de sair do Irão e de fazer cinema. Mas o taxista sorri! Sorri sempre e
conta como são as coisas no país e no mundo. Conta tudo com o humor que faz
realçar os factos mais importantes da vida em comum.
Um homem defende a pena de morte para os ladrões de carros dos
pobres. A professora defende a educação e a reintegração.
O pequeno homem aluga clandestinamente filmes ocidentais,
descobre o realizador, desmascara o cenário para o espectador. Com o realizador
a seu lado vende muito mais dvd.
As duas senhoras têm de devolver os dois peixinhos vermelhos
ao lago artificial até ao meio-dia. Impreterivelmente. O aquário escaqueira-se.
O motociclista sinistrado apanha boleia e, no colo da mulher,
só deseja registar o seu testamento. O hospital que fique para depois.
A sobrinha do realizador estuda cinema e tem um tpc para
fazer. Uma curta-metragem distribuível segundo as regras fundamentais do cinema
iraniano. Filma sempre e pede ao pequeno apanhador de lixo que devolva a moeda
apanhada no chão ao seu dono. Seria um fim excelente para o seu trabalho: sacrifício
e altruísmo! O miúdo não obedece.
A advogada dos presos políticos, incluindo do realizador, devolve-lhe
o sorriso solidário e distribui rosas num acto de pura estética e benevolência
política.
A verdade encenada é sempre mais verdadeira.
Dos mais belos filmes políticos de sempre!
jef, abril 2018
«Taxi» de Jafar Panahi. Irão, 2015, Cores, 82 min.
terça-feira, 17 de abril de 2018
Sobre o filme «Manifesto» de Julian Rosefeldt, 2015
Sofrerá este filme de uma tripla incompatibilidade. Sem hipótese
de conciliação.
Por um lado, o modo como vai buscar textos fundamentais que, modernistas,
desafiaram a estrutura estética e ética da sociedade, envolvendo-os com uma
capa de mavioso colorido burguês com up-grade proletário e digital. O humor
poderá ser sempre revolucionário mas neste caso toca o risível.
Em segundo lugar, Cate Blachett é uma diva que merece o
tempo, a luz, a sobriedade e o génio de um Woody Allen, não a apressada
singeleza lírica e, por vezes, ridícula de Julian Rosefeldt.
Na terceira alínea, os belos cenários e os extravagantes
decores em que são situados os monólogos da agitação. Fazem perder o olhar,
levitar a imaginação, enlevar essa maravilhosa coisa que é entrar no cinema e
esquecermo-nos de nós e do mundo real, passando a ser aquele mesmo e por breves
instantes o nosso mundo real. E a música de Ben Lukas Boysen e Nils Frahm,
inteligente e sóbria. Um belo celofane que faz esquecer o que é um
Manifesto.
E, agora, dentro do meu cérebro como irei compatibilizar o
inconciliável? Terei de ir buscar os estetas revolucionários Méliès, Buñuel,
Kubrick, Pasolini, Bergman, Antonioni, Tarkovsky, Lynch, Roy Andersson ou Laurie Anderson, para reconciliar o
olhar com as sinapses e a minha compreensão cinéfila?
jef, abril 2018
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Sobre o disco «Laço Umbilical» de Lucibela, Lusafrica 2018
Há discos assim. Viciam. Obrigam a gastar a tecla «repeat». Clarificam
o gosto musical. Melhor, identificam o que procuramos insistentemente no fundo do fundo da música.
Lucibela lança o primeiro álbum e com ele refaz a perspectiva
do que é o meu pré-conceito de música cabo-verdiana. Nada disto é
verdadeiramente “morna” ou “coladeira”, sequer “valsa”, “mazurca”, “fado”, “samba”
ou “jazz”. Contudo «Laço Umbilical» não provoca qualquer hiato com a tradição
de um dos países mais musicais do mundo, nem com as raízes negras ou ramos latinos
que a faz respirar.
Cabo Verde está lá todo, tradicional e moderno, alegre e
nostálgico, dançante e terno. Graças a essa maravilhosa doçura de contralto-quase-lírico
de Lucibela. Graça aos arranjos de Toy Vieira, tão simples, suaves e libertos,
que parecem difíceis de imaginar. Graças a essa magia que faz cobrir a saudade com
a poeira levantada pelo pé de dança.
Claro! Está lá Manuel de Novas unido ao mais jovem Mário Lúcio
e à belíssima e novíssima Elida Almeida.
Claro! Em «Laço Umbilical» está tudo o
que eu quero de um disco.
Talvez grande parte de mim esteja contido nestas canções!
jef, abril 2018
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