quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Sobre o filme «O Último Golpe» de Jacques Becker, 1954




















Em Jacques Becker existe um modo, digamos “aristocrático”, de tocar a película. O jeito inviolável de colocar a decência do cinema acima de qualquer suspeita. Contar uma história sem que o ecrã dê por isso. A estética dos planos e do instinto de fazer cinema é para ele um dogma moral. Nada os pode ultrapassar.

Max (Jean Gabin) não se despenteia mesmo quando dá uma série de estaladas em série no quarto onde se esconde Josy (Jeanne Moreau) namorada de Riton (René Dary), apanhada “namoriscando” com Angelo (Lino Ventura), um certo gangster que trabalha num sector diferente mas na mesma área geográfica. Max acabou de realizar o seu último golpe e preparava-se para ir gozar uma reforma merecida.

A partir deste simples, quase infantil, estratagema narrativo, Jacques Becker vai mostrando a honestidade dos planos rápidos, sincopados, levando a câmara estrategicamente atrás dos passos ininterruptos dos personagens. Os gangsters estão vestidos de forma impecável, as coristas-dançarinas movem-se como num palco apertado de teatro, a jukebox toca repetidamente um tema inesquecível em modo western de Ennio Morricone, os automóveis estão polidos ao infinito para lançar o brilho sedutor sobre os espectadores, captando o estrépito das automáticas nas cenas do resgate nocturno de Riton. Aqui há qualquer coisa de Orson Welles...

Inclusive, quando Max foge para uma segunda habitação e leva o seu amigo Riton para ali pernoitar, Jacques Becker faz-nos assistir à partilha de uma refeição frugal e a um distribuir de lençóis, pijamas e escovas de dentes, provando a intimidade fraterna que existe entre os dois camaradas de crime, mas também o sentido de lealdade protectora de Max, a sua educação e cumplicidade, apesar de tudo quando este pensa do outro e é ouvido em voz-off. Aqui há qualquer coisa de John Ford...

Este filme de cowboys-gangsters oferece a dimensão enorme do actor Jean Gabin e a política teatral da lisura cinematográfica de Jacques Becker.

jef, setembro 2018

«O Último Golpe» (Touchez Pas au Grisbi) de Jacques Becker. Com Jean Gabin, René Dary, Vittorio Sanipoli, Gaby Basset, Paul Barge, Alain Bouvette, Daniel Caichy, Denise Clair, Angelo Dessy, Jeanne Moreau, Lino Ventura, Dora Doll, Delia Scala, Marilyn Buferd, Paul Frankeur, Lucilla Solivani, Paul Œttly. Argumento: Jacques Becker, Albert Simonin, Maurice Griffe, baseado no romance de Albert Simonin. Música: Jean Wiener. Fotografia: Pierre Montazel. Produção: Robert Dorfmann. França, 1960, 94 min.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Sobre o livro «As Aventuras de Qualquer Coisa» de André Ruivo, Stolen Books 2018













É verdade!
Este livro de André Ruivo não repete o grande formato de «Retratos», 29,5 x 41 cm (2017). «As Aventuras de Qualquer Coisa» apenas repete os retratos que se tirariam e, depois, imprimiriam em papel, no formato 10x15. Não tanto «retrato», ao alto, mas «paisagem», pelo baixo. Paisagem que vê a cidade como suporte dos grandes sapatos, alguns polícias, algum meliante, um ou outro sonhador. "Espera aí que eu já te tramo."

Paisagens urbanas com seres mais ou menos dialogantes, perdidos uns dos outros mas, por vezes, encontrados por quem não desejam. Seres extravagantes apenas porque se interrogam e logo se esquecem da questão que colocaram. Como em «Mystery Park» (chili com carne, 2012), ligeiras e perturbadas, londrinas. Mas desta vez com o pantone esquizofrénico de quem já pensou em ir à praia («O Campo à Beira-Mar», 2015, animação) ou ao circo («O Circo», 2017, animação).

André Ruivo insiste e conquista um espaço único que é apenas seu mas cujas fronteiras plásticas se vão alargando. Por isso, um espaço reconhecível pelos seus leitores. Contudo, abrangente, sempre mutante. Como se as imagens e as palavras desejassem a metamorfose constante que o autor lhes impõe.

jef, setembro 2018

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Sobre o disco «Pleasure» de Feist, Polydor / Universal, 2017
















Leslie Feist é uma artista da música real. Das canções do amor futuro e do amor por haver. Ela não teme o passado.

Feist sabe que o Pop-Rock é uma cultura que se constrói com o ritmo que alimenta melodicamente a balada que é interrompida pela guitarra eléctrica que é sustentada pela pausa que depois vai agarrar, no silêncio, a guitarra acústica. Tudo muito claro e simples, envolto na batida simples e no eco etéreo de um estúdio que acarinha, no interior, o espraiar acústico, quase de mantra.

Feist afirma a sua cultura, feita de uma Pop a exigir do público que distinga e aplauda uma produção feita de quebras, palmas, fracturas, palavras ditas e restos de gravação que podiam não ficar registadas nas faixas. Contudo, não dispensa também o amor pela Folk dos grandes espaços florestais americanos, canadianos. A produção é da própria Feist, de Renaud Letang e Mocky).

Feist deve gostar muito de P.J. Harvey e Nick Cave. Gostará de Nirvana e Niel Young. Não desdenhará Animal Collective ou Joni Mitchell. Talvez de Beck.

Feist é tutora de um modelo muito próprio que sustém uma fórmula independente e história, lógica e irracional, produto maior da música que imprime em quem a escuta o desejo do disco nunca terminar.

jef, setembro 2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Sobre o disco «Anthem» de Madeleine Peyroux, Decca / Universal, 2018












Quando me apercebi que a canção «Anthem» era o hino da esperança desesperada que Leonard Cohen colocara a meio do álbum «The Future», editado pela Columbia, compreendi que a sua conterrânea Madeleine Peyroux também tinha o direito de agitar a tradição do seu próprio mundo com a ligeireza da pop, do funk, da soul, desse groovy quantas vezes apenas ligeiramente ligeiro. Assim é a produção do disco «Anthem» às mãos do ultra veterano Larry Klein. Mais pop, mais dançável, talvez mais profundo.

Em 1992, «The Future» foi contestado (ou estranhado) pelas caixas de ritmos, pela batida fundo-de-bar, pelos coros femininos que completavam os agudos e lançavam laivos delicodoces no paradigma da música «tão séria» de Leonard Cohen. Contudo, o disco foi premiado, foi dançado, tornou-se uma espécie de hino rejeitando o imobilismo de estilo, reformulando fórmulas, dando conceito aos pré-conceitos.

A canção «Anthem» é uma homenagem ao futuro daquilo que sempre pode desaparecer e devemos ter a consciência de ainda agarrar.

Também Madeleine Peyroux tornou-se no paradigma de, por mais que faça, associar a carreira ao futuro de uma tradição musical da folk ajazzada que sempre gosta de tocar as cordas do amorável.

Se estranharmos o disco «Anthem» por roçar o limite do popular lírico é que a cantora tem todo o direito a explorar as fronteiras de um mundo há muito conquistado. Desde «Dreamland» (1996).

«Anthem» significa mesmo “hino”.

jef, setembro 2018

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Sobre o filme «Juliet, Nua» de Jesse Peretz












Claro que ninguém viu «Juliet, Nua». 

Uma espécie de comédia dramática bem ao jeito do melhor episódio televisivo inglês, mesmo que americana. Com uma intriga a lembrar «À Procura de Sugar Man» de Malik Bendjelloul (2013).

Apesar de ser baseado num outro romance do viciado em música popular anglo-saxónica e coleccionista de LP, Nick Hornby. Amável escritor inglês que trata com amor tanto as personagens como os vinis. Lembre-se o belíssimo «Alta Fidelidade» de Stephen Frears (2000).

Apesar de ter o amado e versátil e desalinhado e enorme actor Ethan Hawke a fazer de músico desaparecido, perdido de si próprio e da própria música, Tucker Crowe.

Apesar de nele se descobrir a belíssima actriz Rose Byrne (a recordar a nossa Julianne Moore) numa Annie casada há 15 com Duncan (Chris O’Dowd) que é um obsessivo apaixonado pelo único álbum editado por Tucker Crowe.

Apesar de ser este filme uma daquelas comédias discretas, dóceis, inteligentes, realizadas em modo ágil, onde o humor é sempre ampliado pela linha trágica e inconsequente que o tempo sempre arrasta pelo dia-a-dia.

jef, agosto 2018

«Juliet, Nua» (Juliet, Naked) de Jesse Peretz. Com Rose Byrne, Ethan Hawke, Chris O'Dowd, Megan Dodds, Jimmy O. Yang , Nina Sosanya. Baseado no romance de Nick Hornby. EUA, 2018, Cores, 105 min.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Sobre o filme «O Testamento de Orfeu» de Jean Cocteau, 1960

















Sobre este filme pode escrever-se tudo. Ou talvez nada. 
Alain Resnais diz a Jean Cocteau: «Que lição de liberdade deste a todos nós!». 
É exactamente essa liberdade que recebemos neste filme-poema-gráfico.

Um poeta-Cocteau, espécie de morto-vivo, trajado como antigamente, calção, jaqueta, cabeleira empoada, encontra-se com alguns seres mais ou menos voláteis que morrem e renascem e voltam a morrer, com recurso a balas mágicas que fazem o ciclo completar-se e entregam a morte a quem pretende levar o seu testamento a juízes que fumam e interrogam objectos e palavras. As flores renascem, os cavalos e os ciganos seguem caminho enquanto Édipo e a sua mãe Jocasta, Orfeu e Eurídice, o anjo Heurtebise e Cegeste, Picasso e Aznavour, recebem o poema como testemunho.

Eu era miúdo e estes filmes passavam nas sessões de cinema na televisão. Eu não percebia absolutamente nada, a minha mãe explicava-me que Jean Cocteau era assim, meio maluco, poeta e artista, e fazia filmes esquisitos mas muito bonitos. Eu via e encantava-me com as figuras de teatro, os efeitos especiais, as cenas a andarem para trás, uma espécie de desenhos animados encantados que não era preciso compreender apenas gostar. (Como a verdadeira poesia.) Na minha memória, entre o susto, o deslumbramento e o riso infantil, ficaram para sempre registados os olhos cegos pintados sobre os olhos tapados do poeta-Cocteau, os mortos-vivos, as personagens que desapareciam entre fumos, Picasso a espreitar.

Ficou-me para sempre essa vocação para o poeta conceder a total liberdade de nos encantarmos com o filme incompreensível, com o belo inexplicado, com a sedução do ser plástico que é a palavra, absoluta abstracção da Arte.

jef, agosto 2018

«O Testamento de Orfeu» (Le testament d’Orphée) de Jean Cocteau. Com Jean Cocteau, Françoise Arnoul, Claudine Auger, Charles Aznavour, Brigitte Bardot, Lucia Bosé, Yul Brynner, Maria Casares, Françoise Michel Comte, Picasso. Argumento: Jean Cocteau. Música: Georges Auric, François Baschet, Jacques Lasry, Jacques Météhen, Martial Solal, Christoph Willibald Gluck. Fotografia: Roland Pontoizeau. Produção: Jean Thuillier, François Truffaut. França, 1960, P/B (quase), 77 min. Nimas (25-08-2018)****

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Sobre o filme «Aquela Loira» de Jacques Becker, 1952





















É muito interessante como os Cahiers du Cinéma e a Nouvelle Vague adoptaram este filme como seu patrono e, ao mesmo tempo, se desculpam pelo facto de o apreciarem. George Sadoul, quando escreve, parece fazer o mesmo. «Desculpem-nos mas, apesar de tudo, apesar do classicismo romântico à Donizetti, Verdi ou Bizet, apesar da camada moral que lhe está subjacente, apesar do amor trágico contado de modo tão sumário, linear e eficaz, nós gostamos deste filme!»
Curioso, mesmo, pois este filme tem um encanto pouco «americanizado», de estética «cordial», sem saltos na narrativa ou «incompreensíveis» aproximações a objectos modernos ou personagens «descentradas» da câmara abraçando o existencialismo.

Aqui há o modo tão ao jeito da Carmen, do Romeu e Julieta ou do «West Side Story / Amor Sem Barreiras» (Jerome Robbins, Robert Wise, 1961), de levar o espectador a acreditar no primeiro instante na tragédia que vai assistir, colocando-lhe o olhar sobre um belíssimo e luminoso casal, quais aristocratas a fazer de prostituta e rufia, Casque d’Or (Simone Signoret) e Manda (Serge Reggiani), num diálogo que vai sendo reduzido ao mínimo para que as expressões ampliem a capacidade de comunicação teatral. Para que o «pathos» venha tocar o coração do espectador em definitivo.

Contudo, a sequência das cenas é sempre tão esteticamente exagerada, tão sintética ou «impressionista» sobre a paisagem, tão estática sobre os rostos, prendendo o outro olhar do espectador ao movimento narrativo que, de certo modo, é fácil compreender a razão pela qual a Nouvelle Vague se apaixonou pelo filme. A chegada das barcaças enquanto se ouve a alegre canção sobre a moleira e o moinho, a altercação entre rufias na esplanada que vai desencadear o romance, o rodopio dos dançarinos, a fuga para a casa de campo, a fuga do carro penitenciário, a cena-armadilha em que cai Manda na esquadra da polícia, quase suicida. A cena brutal que antecede o desfecho.

Tudo neste filme carece de  uma segunda análise, uma segunda chance, um segundo olhar apaixonado.

A Nouvelle Vague é a rainha do múltiplo!

jef, agosto 2018

«Aquela Loira» (Casque d’Or) de Jacques Becker. Com Simone Signoret, Serge Reggiani, Claude Dauphin, Raymon Bussières, Odette Barencey, Loleh Bellon, Solange Certon, Daniel Mendaille, Dominique Davrray, Jacquelini Dane, Paul Barge. Fotografia: Robert Lefèvre, Música: Georges Van Parys. França, 1952, Preto e Branco, 96 min.