segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Sobre o filme «Meia-Noite em Paris» de Woody Allen, 2011
















No filme de Woody Allen de 2011, algumas coisas devem deixar perplexos os críticos mais ferozes e adoçar o espírito dos espectadores mais cépticos.

Este filme é dos mais benévolos e românticos dos últimos anos do realizador, contudo contém toda aquela acrimónia humorística e «antiamericana» tão deliciosa em Woddy Allen. Tudo quanto é americano parece tolo, todo a cidade de Paris é deslumbrante, dourada e terna. Atente-se na inicial e carinhosa longa paisagem de sol-a-sol em jeito de introdução, em jeito de «videoclip».

Gil (Owen Wilson) é um escritor americano e deseja instalar-se numa Paris literária, culta e desaparecida. Leva lá a noiva Inez (Rachel McAdams) e os sogros. Mas a coisa corre mal. À meia-noite ele entra sistematicamente na máquina do tempo  transportando-o ao que é apenas o sonho urgente de uma Paris hiperactiva. Espanta-se com F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), Zelda Fitzgerald (Alison Pill), Cole Porter (Yves Heck), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Josephine Baker (Sonia Rolland), Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dalí (Adrien Brody), Man Ray (Tom Cordier)… Gil entrega o seu manuscrito a Gertrude Stein (Kathy Bates), encanta-se por Adriana (Marion Cotillard), não desdenha a guia intérprete de um museu (Carla Bruni). Deseja sempre voltar mas ultrapassa o tempo e chega à Belle Epoque. Mas deve regressar a Paris de hoje. Deixa Inez e encanta-se por uma simples vendedora de vinis de Cole Porter (Léa Seydoux).

Neste filme tudo é muito simples, nostálgico, caridoso e terminante… Lembra certa atmosfera maravilhosa de «A Rosa Púrpura do Cairo» (1985), lembra filmes bondosos de Frank Capra ou Aki Kaurismäki. Encanta esse lado do coração com que Woody Allen também toca a arte maior, sem sofisma ou sarcasmo. Talvez seja isso que deixe os pés atrás aos críticos e deleita os espectadores.

jef, outubro 2018

«Meia-Noite em Paris» (Midnight in Paris) de Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Tom Cordier, Adrien Brody, Kurt Fuller, Marcial Di Fonzo Bo, Sonia Rolland, Mimi Kennedy, Yves Heck, Alison Pill, Tom Hiddleston, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Corey Stoll, Kathy Bates, Léa Seydoux. EUA / Espanha, 2011, Cores, 94 min.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Sobre o filme «A Filha do Poceiro» de Marcel Pagnol, 1940


















Podemos assistir a este filme como sendo uma comédia dramática. Ou um melodrama cómico de epílogo moral. Ou até como uma fábula de Esopo. Ou uma parábola bíblica. Ou um episódio homérico. Ou um conto marxista anti-marxista.

Patricia (Josette Day) é uma rapariga virginal, simples e caridosa, a extremosa filha mais velha do humilde poceiro Pascal Amoretti (Raimu). Apaixona-se por Jacques Mazel (Georges Grey), garboso piloto de aviação e filho do abastado comerciante André Mazel (Fernand Charpin) e de Marie Mazel (Line Noro), do qual acaba por engravidar. Porém, Félipe Rambert (Fernandel), modesto ajudante de seu pai na abertura dos poços, está encantado por ela e tudo fará pela sua felicidade.

Este filme é uma longa sequência de preconceitos, encantamentos, repúdios, pedidos de desculpa, reconciliações, regressos improváveis, nascimentos milagrosos. Afinal, é um filme fantástico sobre o verdadeiro Amor, a verdadeira Paixão, a Amizade pura, o efeito do Perdão.

Nada seria sem o instinto (quase divino) de Marcel Pagnol em colocar a câmara ao serviço do próprio instinto dos grandes actores. Perante o drama, ele concede a palavra mais cómica, o gesto perfeito, o esgar único, a situação insólita, insinuando o riso perante a tragédia. Desconcertando o espectador que fica sem saber qual será a próxima reviravolta moral, onde terminará aquele vaivém de amor e rejeição, ingenuidade e tradição, orgulho contido e amizade impoluta.

Nada seria sem essa figura divina, intocada e intocável, criada por Josette Day. Nem sem o confronto entre Raimu e Fernandel. Nem sem o esgrimir moralizante entre Raimu e Fernand Charpin.

Ao espectador tudo isto parece perfeitamente imoral, pois ri de uma tragédia tão próxima e lacrimeja de um final tão conciliador. E a guerra pelo meio. E a cidade e o campo em contradição. E a tecnologia motorizada justaposta à travessia arcádica de uma ribeira.

Este filme tem na génese o mais simples (ou complexo) prazer literário!

jef, setembro 2018

«A Filha do Poceiro» (La Fille du Puisatier) de Marcel Pagnol. Com Raimu, Fernandel, Josette Day, Line Noro, Georges Grey, Milly Mathis, Clairette Odera, Roberte Asnaud, Raymonde, Tramel. Argumento: Marcel Pagnol, Fotografia: Willy Faktorovitch, Música: Vincent Scotto. Produção: Charles Pons, Marcel Pagnol. França, 1940, Cores, 140 min.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Sobre o filme «French Can-Can» de Jean Renoir, 1954














A Grande Ilusão é a própria realidade.
1888. Paris, Pigalle. O Moulin Rouge vai abrir portas. A figura principal é a do seu mentor, Ziegler. Aqui, Danglard (Jean Gabin).
A cidade prepara-se para a grande abertura com o ressurgimento do “can-can”, o renovado French Cancan. E se o ministro inaugurara as fundações do edifício vermelho com Marselhesa e tudo, acabando num expressivo arraial de pancadaria, deixando Danglard entre a veterana Margot, a Bela Abadessa, (Maria Félix) e a estreante Nini (Françoise Arnoul), ambas namoradas do empresário, será o discurso do próprio Danglard sobre as mulheres que ama mas, principalmente, sobre o espectáculo que idolatra, que vai reconciliar as duas mulheres e convencer Nini a ir até ao centro do palco, na apoteótica e comovente cena final.
Não existe filme mais realista sobre a arte mágica do espectáculo.
Não existe melhor filme musical, mais humanamente alegre, sobre a etérea e fugaz fantasia do teatro.
Danglard não vê o início do espectáculo. Está longe do palco, nos camarins, sentado num cadeirão, move um dos pés ao som do french can-can que ele próprio ajudara a criar. A sua alegria está concentrada no que é fantástico e irreal, está fora do palco. Está dentro do mundo!
Por que razão sofrer se a música e a dança estão ali à mão de semear?
Que a humanidade se reconcilie!
Que o espectáculo recomece!

jef, setembro 2018

«French Can-Can» (French Cancan) de Jean Renoir. Com Jean Gabin, Françoise Arnoul, Maria Félix, Gianni Esposito, Franco Pastorino, Valentine Tessier, Philippe Clay, Jean-Robert Caussimon, Dora Doll, Lydia Johnson, Max Dalban, Gaston Modot, Michel Piccoli, Michèle Philipe, Pierre Dlef, Edith Piaf, Patachou. Argumento: Jean Renoir sobre uma ideia de André-Paul Antoine. Cenários: Max Douy. Guarda-roupa: Rosine Delamare. Música: Georges Van Parys. França, 1954, Cores, 102 min.

Sobre o filme «BlacKkKlansman: O Infiltrado» de Spike Lee, 2018














Spike Lee faz filmes importantes.
«BlacKkKlansman: O Infiltrado» foi estreado um ano depois do ataque de um condutor, apoiante da anacrónica supremacia branca, em Charlottesville, Virgínia, a uma manifestação pacífica contra o racismo, onde morreu uma manifestante. Trump discursa a favor dos fascistas. Estas cenas concluem o filme que termina com a imagem de uma bandeira dos Estados Unidos da América virada do avesso. 
A preto e branco.

No entanto, é uma comédia divertidíssima baseada no livro autobiográfico do protagonista, Ron Stallworth «Black Klansman», o primeiro polícia negro que se infiltra num núcleo do Ku Klux Klan, evitando um ataque bombista contra os activistas negros nos finais dos anos 70, Springs, Colorado. A iluminação e a banda sonora merecem toda atenção. A intriga ainda mais.

O confronto dramático entre os duplos do polícia infiltrado, o negro Ron Stallworth (John David Washington) e o judeu Flip Zimmerman (Adam Driver) é de uma contenção e humor muito particulares. Não existem excessos, nem comiseração. Apenas essa forma de representar no silêncio e na transformação da voz, da expressão e dos gestos. Um infiltrado deve ser discreto. Contudo...

Depois, aparecem cenas de «E Tudo e Vento Levou» (Victor Fleming, 1949) e «O Nascimento de uma Nação» (D. W. Griffith, 1915).

Surge ainda Harry Belafonte.

Por todas as razões, este filme deve ser visto!

jef, setembro 2018.

«BlacKkKlansman: O Infiltrado» (BlacKkKlansman) de Spike Lee. Com John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Robert John Burke, Topher Grace, Jasper Pääkkönen, Harry Belafonte. Baseado no romance autobiográfico de Ron Stallworth, “Black Klansman” (2014). EUA, 2018, Cores, 135 min.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Sobre o livro «Avenida do Príncipe Perfeito» de Filomena Marona Beja. Parsifal, 2017














Filomena Marona Beja é uma autora que tem mundo. Os pés assentes na terra, o espírito, numa sociedade que aguarda o princípio histórico, uma análise factual, uma planta, um alçado, uma geografia que merece ser percorrida de régua, mapa ou bússola na mão. O seu mundo é o nosso e está aí para ser lido. Mais do que recordado, interpretado.

Não admite a escrita fora do contexto. Lisboa, as últimas décadas do século passado. A oriente, a transformação geográfica dos arrabaldes em local de lazer, de Expo’98, de busca imobiliária por terrenos sacados aos contentores, às refinarias, aos depósitos de lixo. Uma cidade rodeada de um mundo feito de guerras entre o Irão e o Iraque, invasões bélicas por motivo de armas de destruição massiva e ganância petrolífera. As torres gémeas e o 11 de Setembro. Quem não recorda?

Mas sobre tudo isto a vida de um atelier de arquitectura e construção civil e de todos os que seguiam o mestre Manuel Caio, o mestre carpinteiro Abel Martins, o engenheiro Alexandre. A construção da vivenda de estilo e presunção dos Laranjeira e Sá, e de sua filha Maria Benedicta…

Se existe escritora amável e que mais luta pela pesquisa do presente nos anéis e nos anuais de um passado que quase nos toca, ela é Filomena Marona Beja. A contenção no uso das palavras, a sua feroz táctica sintáctica em poupar em longos períodos, parágrafos e capítulos, revela acima de tudo, uma destreza narrativa que encanta e nos faz reflectir sobre quanto a nossa memória também proporciona uma estranha mistura dos tempos da acção que nos vai rodeando.

Os livros de Filomena Marona Beja lêem-se com um enorme prazer.

jef, setembro 2018

Sobre o filme «O Prazer» de Max Ophuls, 1952












Pode tecer-se as considerações mais intrincadas sobre o título do filme face ao seu conteúdo, desenvolver teorias, esgrimir argumentos, contudo, um facto é que ele é uma enorme homenagem à arte de fazer cinema, do ponto de vista da composição estética da câmara que gira e corre por personagens, espaços e janelas, da estrutura dramática dos diversos palcos quase isabelinos, mas principalmente da capacidade ética do género humano de poder sempre falhar e sempre poder reerguer-se.

Três histórias.
«Le Masque». Alguém que dança eternamente, até à exaustão, rodeado de um maravilhoso “palais de la dance”, onde as escadarias e o brilho, o movimento ininterrupto dos dançarinos e dos empregados de mesa termina numa solitária mansarda parisiense que aguarda talvez por um novo amanhecer.

«La Maison Téllier». O mais longo conto. Uma fábula sobre o prazer dos olhos e do corpo, sobre a líbido assumida como fundamento do ser. Principalmente, uma fortíssima elegia à alegria, ao amor “quase” fraternal e à comunhão emocional dos espíritos condensada naquele comovente choro colectivo na igreja da aldeia vigiado por anjos e névoas.

 «Le Modèle». Quem pinta o quê? O modelo ou o pintor? Impressionismo ou sedução? Expressionismo ou renúncia ou amor? O atelier, a floresta à beira do rio e o esconderijo, a janela aberta, são peças de arquitectura dramática fundamental. Quem olha? Quem escuta? Quem narra?

«Será preferível ser feliz a ser alegre.» A frase ressoa, nessa penumbra de triste resignação face ao tempo que não regressa. Será a voz do actor Jean Servais que vai narrando a ideia de Max Ophuls que vai secundando as palavras de Guy de Maupassant. A tela escura anuncia que alguém gosta da obscuridade, que a noite é sua amiga, a melhor hora para contar de histórias.

Um gesto de Arte!

jef, setembro 2018

«O Prazer» (le Plaisir) de Max Ophuls. Com Claude Dauphin, Jean Galland, Gaby Morlay, Madeleine Renaud, Danielle Darrieux, Jean Gabin, Pierre Brasseur, Mila Parely, Paulette Dubost, Ginette Leclerc, Daniel Gelin, Simone Simon, Jean Servais. Argumento Max Ophuls e Jacques Natanson, baseado em três contos de Guy de Maupassant (“Le Masque”, “La Maison Téllier” e “Le Modèle”). Fotografia: Christian Matras e Philippe Agostini. Música: Joe Hajos e Maurice Yvain baseada em temas de Jacques Offenbach. Produção: François Harispuru e Ben Barkay. França, 1952, P/B, 95 min.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Sobre o filme «O Veneno» de Sacha Guitry, 1951















O crime perfeito por consentido.
Existe nesta comédia negríssima de Sacha Guitry uma vocação tão irónica de moralizar o imoralizável, uma irreverência face ao plausível, uma insolência perante a ética, a norma e o judicial, que transforma o filme num dos pontos mais particulares deste conjunto de 16 obras-primas do cinema francês, a que o Nimas (Lisboa) e a Medeia Filmes chamaram «Os Grandes Mestres 1930-1960 – Os Padrinhos da Nouvelle Vague).

De tal forma irónico que Sacha Guitry inicia o filme apresentando a ficha técnica de viva-voz e vivo-corpo, homenageando todos os que o permitiram que a obra se realizasse. Isto é teatro, isto é um palco, isto são actores, logo podemos rir de um crime perfeito, por consentido, por representado. Estou ilibado!

Peça de teatro delirante que se move em torno da figura de Paul Braconnier (Michel Simon) que não suporta a mulher, Blandine Braconnier (Germaine Reuver), que por sua vez não o suporta. Para isso, resolve contratar o célebre advogado Aubanel (Jean Debucourt) e mobilizar toda a população de Remonville, a aldeia onde vive.

A partir daí, Michel Simon transforma-se de néscio, lerdo, angustiado, quase deprimido, Paul Braconnier, num aplaudido activista do crime e da causa na barra do tribunal.

Fica o riso mais inteligente a pairar sobre a aldeia, a justiça, o casamento, a verdade. Fica a crença de que existem filmes que nos deixam perplexos perante a liberdade total de expressão artística. Fica, então, a perspectiva de que talvez alguma da Nouvelle Vague não passe de uns meninos do coro a fazer passar-se por estetas pós-modernos.

jef, setembro 2018

«O Veneno» (Le Poison) de Sacha Guitry. Com Michel Simon, Germaine Reuver, Jean Debucourt, Pauline Carton, Jacques Varennes, Jeanne Fusier-Gir, Albert Duvaleix, Henry Laverne, Jacques de Féraudy, Jacques Derives. Argumento: Sacha Guitry. Fotografia: Jean Bachelet. Produção: Jean Le Duc, Alain Poré e Paul Wagner. França, 1951, P/B, 85 min.