terça-feira, 18 de agosto de 2020

Sobre o filme «A Estrada» de Federico Fellini, 1954

 







Ao unirmos a sintomática cena inicial com Gelsomina (Giulietta Massina) a chegar à beira-mar, de gravetos às costas, e a ser chamada pelo bando de miúdos que a avisam que deve ir a correr pois a sua irmã Rosa morreu e a mãe acaba de a vender ao viúvo e saltimbanco Zampanó (Anthony Quinn) por 10.000 liras, devendo seguir viagem de imediato; sim, se unirmos esta cena com a final, a mais poética e deslumbrante, em que Zampanó se enrosca e se perde nas mesmas areias da beira-mar, percebemos que a intenção primeira de Fellini não é, certamente, a mobilização da sociedade para alterar a sua crassa injustiça social mas a de criar um plano emocional que espelhe o profundo interior trágico das personagens. Uma tragédia que está latente, suspensa no ar até que surge um funâmbulo na corda bamba, louco ternurento ou bobo desastrado (Richard Basehart). Nessa altura, o espectador sabe que nada ficará a salvo, deve preparar-se para o pior. Porém, Gelsomina (e essa é o fulcro da tragédia) é amada por todos, acarinhada por todos, miúdos, graúdos, espectadores, comensais, freiras; gratidão recebida com uma espécie de ingenuidade santificada. Gelsomina é amada até por Zampanó.

Deste modo, o cinema regressava do programático neo-realismo ao mais puro e desprezado romantismo. Os acólitos cineastas e cinéfilos não o perdoaram. O público, pelo contrário.

Fellini criou, aqui, o seu futuro mundo circense, dramático, operático. Nunca mais largou Giuletta Massina ou Nino Rota. Nunca mais deixou de colocar os actores, quantas vezes não-actores, no centro da rua e a rua como cenário realista. Nunca mais prescindiu de colocar decores, cenas e falas inexplicados, mas cenicamente poéticas, labirinticamente oníricas.

Talvez seja aqui que Federico Fellini tenha averbado no dicionário o seu adjectivo. “Felliniano”.


jef, agosto 2020

«A Estrada» (La Strada) de Federico Fellini. Com Giulietta Massina, Anthony Quinn, Richard Basehart, Aldo Silvani, Marcella Rovere, Mario Passante. Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tulio Pinelli. Fotografia: Otello Martelli. Música: Nino Rota. Produção: Dino De Laurentiis. Itália, 1954, P/B, 94 min.

 


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Sobre o livro «Epítome de Pecados e Tentações» de Mário de Carvalho, Porto Editora 2020











Parecem ser os contos um incisivo e mordaz sublinhado àquelas obras de Ovídio que dão pelo nome de «Amores» ou «Arte de Amar». Tudo nestas duas vem esclarecido, tudo naqueles onze parece ser um modo de, sorrindo, desdizer na mais pura narrativa os ditos compêndios com vinte séculos de existência.

Também este livro sugere um vaguíssimo ciclo, tal como Ovídio realizara antes: Um livro deles, um livro de ambos, um terceiro livro delas. Neste caso: a ‘Ronda’, os ‘Burgueses’, agora o ‘Epítome’… Vá lá, no conjunto, a reunião conciliatória! No presente volume, os textos têm o olhar da mulher vivida, sabida ou por saber, mas de férrea personalidade sobre as titubeações, a falácia, a puerilidade e a inoperância amorosa deles. São elas que, não mandando ou arrogando, aqui ditam.

São textos de uma versatilidade exegética única de um autor que olha a raio x os que tem à sua volta também de modo único. Transforma a realidade, os costumes e os tiques, num apuro ficcional deleitoso. Ou seja, resume o androceu lusitano num epítome de grácil sarcasmo, sagaz fleuma, recôndita ternura.

E se o último conto, «O auditor», vem isolado numa III secção será pela razão conclusiva de que é um texto que (me) ficará indelével na memória como um dos mais belos contos de Mário de Carvalho.


jef, agosto 2020

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Conversas à parte










Conversas à parte.

Todas as conversas são terapêuticas porque todas as palavras são insubstituíveis. Não têm sinónimo absoluto. Contudo, mais do que terapêutica, a palavra partilhada faz jus à origem do homem, este que se aproxima mais do diálogo do chimpanzé do que do monólogo do orangotango. O homem nasceu para falar com os outros, seja na missa, no quiosque ou no café. Paradoxalmente, à medida que multiplicou os meios de comunicação foi abandonando a missa, o quiosque, o café. Adoeceu. Perdeu a capacidade de discursar para se fazer ouvir, de ouvir para saber, de voltar a pedir a palavra para a entregar ao outro, entre silêncios ponderados, cúmplices ou sisudos.

Palavra do Senhor (Antunes).

 

jef, agosto 2020


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Sobre o livro «Requiem» de Antonio Tabucchi, Dom Quixote, 2007 (1991)

 







Decorridos vinte e nove anos, «Requiem» continua limpo, vigoroso, desavergonhado, acima de tudo, libertário. Aliás, a liberdade é talvez o símbolo, a essência, que subtrai o livro a qualquer data cultural. A liberdade linguística aqui assumida faz Tabucchi entrar no limbo universal dos escritores apátridas. A realidade “alucinada” apresenta-se firme, calma, racional, entregue de alma e corpo ao sonho e aos mortos. A vida morre e renasce numa contínua alegria pagã, concretizada em doze horas sufocantes e lisboetas, fazendo o espaço e o tempo coincidir e confundir-se logicamente. A topografia onírica da capital adquire um brilho difícil de encontrar no tórrido mês de Julho, através de uma narrativa que abraça a mais velha trama literária – a viagem delirante. Deste modo, com gosto reafirmamos, uma vez mais, que o autor de «Jogo do Reverso» é um dos mais lúcidos escritores contemporâneos da língua portuguesa. E se os livros são de quem os lê, o presente requiem ficará para sempre associado a José Cardoso Pires e aos pinheiros mansos que antes verdejavam em torno do Camões. O livro termina com a tradução de Pedro Tamen para o revelador texto “Um universo numa sílaba – vagabundagem à volta de um romance” (1999).

 jef, junho 2007

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Sobre o livro “A velha e outras histórias” de Daniil Harms, Assírio & Alvim, 2007. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Introdução de Filipe Guerra.











A revolução na arte realista

Esta edição tem tudo para ser especial. Primeiro, tem a tradução do russo para língua portuguesa de Nina Guerra e Filipe Guerra. Segundo, pela primeira vez, apresenta-se em Portugal uma colectânea de textos do escritor e dramaturgo Daniil Harms (ou Daniil Kharms, segundo a nomenclatura inglesa), um dos fundadores na U.R.S.S. da OBERIU, a Associação da Arte Real. Daniil Harms subscreveu o manifesto dessa associação, proclamando, em 1927, uma nova leitura para a “arte revolucionária de esquerda”. Abstraindo os vocábulos (e todo o objecto artístico) do seu normal enquadramento sintáctico, aqueles retomariam, na percepção dos receptores, o seu conteúdo semântico original, ou seja, transformavam-se em arte real e, portanto, revolucionária. Como é óbvio, mais do que as palavras, as sessões de leitura ou as apresentações dramáticas deste conjunto de criadores, e de Harms em particular, tornaram-se mais revolucionárias do que a linha assumida, na altura, pela própria Revolução Russa. O realismo destes textos que, hoje em dia, poderá ser tomado por surrealismo, torna-se progressivamente mais incómodo levando à perseguição e morte da grande parte dos seus autores pelo aparelho político soviético. Em 1941, Harms volta a ser preso, após o tormento do desemprego, da fome e da incompreensão artística. No ano seguinte, a sua mulher é informada da sua morte. No conto “A Velha”, que muito justamente dá título ao livro, cruza-se a realidade trágica existencialista do mundo de Dostoiévski com a devota "surrealidade" futurista de Nikolai Gógol, condensando o espírito de uma Europa que, hoje ainda, se vê dilacerada entre o génio e a iniquidade. Por último, a presente edição torna-se mais importante pela sua organização precisa e sintética. Não condicionando a leitura da obra pelas circunstâncias conturbadas da vida do seu autor, não deixa de a enquadrar historicamente com o conteúdo dos seus anexos e introdução.


jef, abril 2008

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sobre o livro «Metamorfoses» de Ovídio, Cotovia, 2007. Tradução de Paulo Farmhouse Alberto










O compêndio das morais imoralidades

 

                  “A tal ponto a arte não se vê na arte!” (10.252)

Assim exclama Ovídio, narrando o desmedido amor platónico de Pigmalião perante a perfeição da estátua de marfim, aquela que será transformada na mais pura mulher de carne e osso por uma Vénus agradecida com tamanha devoção do artista. Se o poeta declara a ilusão misógina do escultor, abstraindo a consciência ao próprio conceito de arte, vem ele reclamar para si próprio exactamente o contrário. Ovídio sabe como esculpir o poema de modo a torná-lo uma obra de arte de contornos intemporais. Sabe, ainda, que a sua criatividade molda um passado fictício, real, mutante, fixando-o, para sempre, num futuro que ele desconhece mas que está seguro de que receberá a obra com tanto ou mais furor do que o seu efémero presente. Por isso, também ele, com justificada presunção, começa por convocar nada menos que as musas inspiradoras de Homero e Virgílio para terminar afirmando, tal como aqueles já o haviam feito, que escreve para que o seu espírito abrace a eternidade negada ao corpo temporal.     

É com este espirituoso engano, fazendo reflectir a arte na superfície da própria arte, que a falácia de Ovídio opera. Um poema colossal é construído, verso após verso, ao longo de quinze livros e de centenas de episódios, adaptando uma cronologia histórica que une a origem do universo ao elogio contemporâneo de Júlio César e Augusto. Uma linha ininterrupta que termina no futuro dos futuros: «Metamorfoses» de Públio Ovídio Nasão!

É esta a sua essência, este o seu corpo. A sua perene liberdade.

Porque a liberdade começa no próprio título, ou seja, em “formas mudadas”, na mudança, no contínuo novo, na eterna dialéctica, na discussão pública da ideia, no protótipo democrático de uma Grécia que Ovídio altera com a consciência programática e legisladora de uma Roma que, por sua vez, também se transforma de república em império. Uma plenitude criativa que reside na certeza do constante, eterno e universal, fluir das essências que desaparecem para, depois, reaparecerem em novos corpos adaptados. Não será por acaso que o poeta dá a palavra final a Pitágoras (15.60-478), transformando-lhe o discurso em clássica (moderna) acção filosófica. É na convicção formal desse discurso recebido de uma Grécia clarividente que ele faz ancorar a sua prática poética. Ele que é conhecedor da tradição helénica e sabe que o herói é o que pratica actos heróicos, possuindo estes a devida correspondência na ciência pública da palavra. Ovídio recupera a dialéctica como primeira metamorfose da ideia, colocando a acção do valente Ájax frente à retórica do “velhaco” (13.712), “cobarde ou audacioso” (14.671) Ulisses, ao disputarem as armas do malogrado Aquiles (13.1-398). Também escorado pela formulação épica, tão vernácula quanto popular, o poeta vai deleitando-se a abusar de magníficas narrativas de valentia: “Perseu e Fineu” (livro 5) e “A batalha dos Lápitas e Centauros” (livro 12); ou revertendo tal ímpeto viril para a ira dos deuses: “Níobe e Latona” (livro 6) e “a morte de Hércules” (livro 9).

Porém, “Metamorfoses” coloca-se acima desta ordem moral imoral, impondo até, com recorrência, a ideia da inocência do erro humano perante a perversa e omnisciente genealogia divina, regida pelo inevitável adultério de Júpiter e pela intolerância vingativa de Juno. Acima de tudo, Ovídio parece apostado em brincar com todas as peças que o inebriante jogo de personagens lhe proporciona, manipulando-as com destreza, ao sabor da sua veia criativa, treinada nas anteriores obras amorosas. O poeta sabe que ludibria quando apresenta uma intrincada teia de factos irreais, montada segundo uma cronologia de índole histórica, sequência essa também falaciosa, já que grande número de histórias são contadas dentro de outras histórias, onde os novos narradores associam, no presente, lendas mais antigas. É, certamente, no campo lúdico da literatura que podemos situar essa concêntrica ordem diegética em que a multiplicidade das aspas vai revelando os simultâneos discursos directos. E se Ovídio pode enganar, narrando casos lendários em subtil miscelânea com factos históricos, “Metamorfoses” torna-se um caso sério e verídico ao reconhecer-se como um dos maiores arquivos da gigantesca tradição cultural greco-latina.

Porém, se o poeta se demarca relativamente ao vínculo moral das histórias, quantas vezes irónico, com a constante introdução de parêntesis, em genial intromissão do narrador, chamando a atenção do leitor distraído para a sua opinião explícita, a obra, naturalmente, reflecte a moral do escritor perante a sociedade romana, consciente da importância política da poesia na definição pública das ideias. Não pode deixar de ser intencional a já referida longa dissertação de Pitágoras relativamente à partícula final dedicada ao contemporâneo e Augusto Octávio, como inesquecível é a carga poética imposta às descrições em “a Fome” (livro 8), “O Rumor” (livro 12) ou “Báucis e Filémon” (livro 8).

Mas se é possível questionar a dialéctica moral do poema, já indiscutível parece ser a sua ordem literária. Ou seja, o seu maior poder é a liberdade literária. «Metamorfoses» representa um exaustivo compêndio da arte de bem narrar e de bem descrever, uma trama sinuosa onde, sobretudo, interessa a fruição da escrita e da leitura, num jogo onde o gato e o rato se metamorfoseiam entre si, a começar pela ironia de um épico dedicado a formigas, rãs, centauros e ciclopes, a que se sobrepõe as pérfidas intenções de excelsas divindades, os actos guerreiros de heróis, as incríveis manobras dos humanos ou o elogio aos estadistas. Profundo conhecedor da essência passional, tanto na vertente masculina como na feminina, Ovídio surge como mestre absoluto da narração do firmamento do amor desentendido, cruzando-o com o maravilhoso descritivo das íntimas geografias, de lagoas, grutas e florestas, ou dos amplos planisférios e paisagens aéreas: a inglória corrida celeste de Faetonte (livros 1 & 2), o infausto suspense de Bíblis (livro 9) ou Mirra (livro 10), a cénica tempestade em “Céix e Alcíone” (livro 11), a trágica narração do amor entre Píramo e Tisbe (livro 4) ou o humorístico bucólico cantar de Polifemo dedicado a Galateia (livro 13).

Deste modo, Ovídio contradiz Pigmalião, fazendo rever as múltiplas formas artísticas no espelho das outras tantas leituras de uma obra de arte absoluta. A arte sobre a arte, num círculo fechado que, a cada novo giro, consolida a eterna originalidade da obra com a ininterrupta recriação do mundo, um mundo edificado pelo constante diálogo entre os homens, criando sempre novas qualidades para a matéria do pensamento. Uma obra completa, um universo que não seria possível ler, agora, em português, sem a sua consequente transformação pelo tradutor (também amável poeta) Paulo Farmhouse Alberto, que faz ainda inserir, em mais um cuidadoso volume dos Livros Cotovia, duas leituras complementares: uma geográfica, com os mapas mediterrânicos impressos nas guardas do livro; a outra filogenética, com um glossário que ajuda a percorrer o fio da mais complexa família divina.

“Pois quando a humidade e o calor atingem certo equilíbrio,

eles concebem, e da união dos dois nascem todas as coisas.

E embora o fogo combata a água, uma humidade quente

tudo gera, e a concórdia discordante favorece a procriação.”

(1.430-433)

jef, setembro 2007

Sobre o filme «Decameron» de Pier Paolo Pasolini, 1970.

 


A arte de Pasolini, de certo modo, assusta, de tal modo é realista, integra, despudorada, livre de normas e peias, sempre inconclusiva apesar, de novo de certo modo, permanentemente moral porque política. Inconclusiva porque infinita e aberta aguardando a nova visão que o espectador lhe dará. Os filmes de Pasolini assentam em primeiro lugar na ideia abstracta que surge da literatura.

«Decameron» aproxima-se cenicamente da arquitectura geográfica de «O Evangelho Segundo São Mateus» (1964), onde as personagens centrais são a poeira, as pedras e o caminho, percorridos pelos pés, quantas vezes descalços, em jeito de peregrinação e demanda. Aqui, já os pés fogem das trapaças, de ladrões e agiotas, dos pecados, correndo à procura da redenção no sexo e na palavra divina. Também as caras “bruegelianas”, o riso, o corpo e os sexos desnudados são tão veementemente teatrais, demorando-se a câmara observando longamente as rugas, o suor e a falta de dentes, que tais retratos desmontam qualquer filtro estético expressionista. Por isso, talvez nos assustem um pouco e o riso leva consigo um ligeiro pedido de desculpas. A humanidade é mesmo assim, encantadoramente devassa, cruelmente devota. Talvez feia. Talvez bonita.

Ao rever o filme é impossível não recordar a volição da pintura de «Andrei Rublev» de Andrei Tarkovsky (1966) ou as cenas movimentadas, a câmara correndo entre figurantes, as personagens descendo e subindo escadas, de Jean Renoir. 

Este é o primeiro da «Trilogia da Vida» («Contos de Canterbury» de 1971 e «As Mil e Uma Noites» de 1974). Estamos a cinco anos de «Saló ou 120 Dias de Sodoma» e do seu assassinato.


jef, agosto 2020

«Decameron» (Il Decameron) de Pier Paolo Pasolini. Com Franco Citti, Nineto Davoli, Pier Paolo Pasolini, Angela Luce, Silvana Mangano. Argumento: Pier Paolo Pasolini segundo «Decameron» de Bocaccio. Fotografia: Tonino Delli Colli. Música: Ennio Morricone. Alemanha, Itália, França, 1970, Cores, 107 min.