Para
mim,
as
pessoas são como os animais
e
os animais como as plantas
e
as plantas como o húmus
e
o húmus como a terra
e
a terra como as rochas.
Por
vezes, pergunto-me
serão
as pessoas como as rochas?
jef,
novembro 2020
Para
mim,
as
pessoas são como os animais
e
os animais como as plantas
e
as plantas como o húmus
e
o húmus como a terra
e
a terra como as rochas.
Por
vezes, pergunto-me
serão
as pessoas como as rochas?
jef,
novembro 2020
Humano
e natural.
Eis
a história fabulosa da Ala dos Cavalheiros de Ekeby. Um grupo de homens nem
muito maus nem muito bons, ingénuos velhacos, joviais decrépitos, aventureiros
comilões, românticos acirrados, dançarinos inveterados à frente dos quais está
o indescritível Gösta Berling, o mais apaixonado e inconsciente de todos, aliás
um pároco bêbado e, por tal, proscrito. Todos eles sabem tocar um instrumento
musical, mesmo que o façam no teclado virtual. Caso contrário, não seriam
cavalheiros. Todos estão prontos a brincar, a amar, mas também a lutar contra
inimigos infames, entre os quais alguns dos mais ricos da região: o diabólico
industrial Sintram, o inteiriçado conde Henrik Dohna, o possessivo Melchior
Sinclair ou a poderosa mineira Margareta Samzelius que fizera desaparecer no
ódio a doce Margareta Celsing. Tudo isto está escrito nas páginas iniciais do
livro. As restantes dão corpo ao mais puro encanto geográfico da literatura de
Selma Lagerlöf. Aliás, a exímia contadora de lendas e narrativas sempre assumiu
a Suécia como musa suprema inspiradora para uma escrita que veio renovar o
espírito naturalista do romantismo. Nela a paisagem sueca é rainha mas não
apenas como elemento cénico para conjecturas mais ou menos depressivas. A
grande província de Värmland verga-se ao peso orográfico das montanhas e
ravinas ou ao sinuoso traçado do lago Löven, que constitui o seu coração. Mas a
diferença entre estas florestas geladas ou os rápidos deste rio e uma certa
literatura também geográfica, porém mais gótica e anglo-saxónica, recheada de
orgues dementes e castigadores, é total. Aqui, a paisagem é o elemento central
da narrativa, surgindo como força motriz das transformações culturais do homem
mas, simultaneamente, identifica-se como matéria-prima pronta a ser por este
modificada. A natureza é tão humana quanto as canções, os risos, as siderurgias
ou a agricultura de subsistência. O urso, no seu monte Gurlita, é tão
fundamental quanto o pároco e a sua prelecção. A superior candura de Selma
Lagerlöf apresenta o homem na sua superior unidade, ora acusando alegremente o
seu pecado, ora amnistiando-o com severidade. A cultura e a paisagem da Suécia
rendem-se apaixonadamente perante a sua narrativa. Deste modo, a escritora
troca a sua pátria pela síntese de um universo, íntegro e pacificado, regido
pelas lendárias armas da Natureza, do Homem e de Deus. Em suma, «A Saga de
Gösta Berling» é um dos mais belos livros publicados no ano de 2006 em
Portugal.
jef, março 2007
Ora aqui está uma oportunidade perdida.
Todos sabemos a elevadíssima qualidade do cinema iraniano,
tanto do ponto de vista estético-ético como do político-social. Nem será
necessário recordar a absoluta obra-prima do cinema mundial que é «Close-Up» de
Abas Kiarostami (1990). Por isso, aguardamos o melhor.
Agora, é uma comédia louca e colorida sobre a actividade de
um assassino que tem por objectivo decapitar tudo quanto é cineasta iraniano,
gravando-lhes na testa a palavra «pig». Porém, Hasan Kasmai (Hasan Majuni),
amante dos AC/DC e violento jogador de ténis, realizador proscrito pelas
autoridades oficiais, sem produtor e impedido de realizar as suas obras de
culto, chora no colo de sua mãe e pergunta por que é que o assassino não se
aproxima dele. Sim, dele, que devia ser o primeiro a ser assassinado e que,
agora, apenas lhe é permitido realizar filmes publicitários sobre insecticida
para baratas. Tudo parecia movimentar-se num ambiente auspicioso de louca luta
social e familiar, um pouco à Woody Allen, um pouco à Pedro Almodóvar, com um
cineasta deprimido e mulherengo que fala pelos cotovelos de modo lânguido, e
magnificamente interpretado por Hasan Majuni, a fazer lembrar a displicência
estilística de Miguel Lobo Antunes em «Technoboss» (João Nicolau, 2019) mas a
movimentar-se em cenários psicanalíticos e fellinianos e a tender para a
justiça sanguinária à Tarantino.
Tudo corria bem até aparecer o verdadeiro assassino com cara
de suíno e versículos do Corão na voz! E é aí que a porca torce o rabo e perde
o ritmo, deixando-nos abananados, vendo a charla política sem explodir em
definitivo, antes esvaziando-se de sentido catártico, afinal apaziguando as
hostilidades, esquecendo o ápice fulcral e castigador da sociedade moralista,
coisa que é sempre a pedra de toque na melhor comédia social.
Contudo, a caracterização das personagens, os actores, as
cores e o movimento de câmara são dignos de boa nota.
jef, novembro 2020
«Pig» de Mani Haghighi. Com Hasan Majuni, Leila Hatami, Leili Rashidi, Parinaz Izadyar, Saber Abar, Mahnaz Afshar, Siamak Ansari, Vishka Asayesh. Argumento: Mani Haghighi. Música: Peyman Yazdanian. Fotografia: Mahmoud Kalari. Montagem: Meysam Molaei. Direcção artística: Amir Hossein Ghodsi. Guarda-roupa: Negar Nemati. Produção: Mani Haghighi. Irão, 2018, Cores, 104 min.
O
passado e o presente.
Aqui
se conta a sentida história de um século que é, dramaticamente, passado. E se é
bem verdade a afirmação de José Pacheco Pereira sobre o livro: “O dilema da
minha geração é que, ao mesmo tempo que se queria saber tudo (e durante uns
anos poder tudo), não se queria perder a inocência” (Ípsilon, 11 de Maio de
2007), também é certo que a nostalgia (talvez antes melancolia) que perpassa
todo o «Século Passado» está cuidadosamente encenada, diria dramatizada para
levar o espectador-leitor a uma percepção emotiva muito precisa. E, nisso, a
mestria de Jorge Silva Melo não é de todo inocente. Não é por acaso que este
conjunto de artigos, notas, apresentações críticas e crónicas de jornal não se
apresentam de forma redutoramente cronológica, nem sequer afloram a obra
contemporânea vivida pelo autor, nem teatros ou amigos presentes, como está
ressalvado em nota final. É notório que a pretensão é a de construir a história
de um mundo de sonho, de utópica ilusão, de ilusória esperança que só no
passado ficcionado pela memória e pela arte dramática é possível. Assim se
exploram, em capítulos expressamente não diários, esse Ser Cinema, esse Ser
Teatro, esse Ser Arte, lançados num país sem liberdade mas deliciosamente
espicaçado pela juvenil maquinação omnipotente, seres ancorados ainda na
ferocidade da escrita e na intransigência da imagem cinematográfica. Mas
também, mais tarde, esquecidos pelo mercado de uma certa “liberdade económica”.
Este é um livro sobre a morte e a vida, que se deve ler como romance que é, da
primeira à última página, seguindo os passos de personagens como João Bénard da
Costa, João César Monteiro, Fiama Hasse Pais Brandão, Mário Dionísio, Glicínia
Quartim ou Sofia Areal, deambulando numa Lisboa de praças, cafés e jardins
públicos e na intimidade que estes sempre fabricam. Um espaço público e privado
onde ainda encontramos Jacques Tati, John Ford, Howard Hawks ou Alfred
Hitchcock em sublimes retratos de maioridade crítica. Um livro sem medo de ser
emocionalmente adjectivador, mordaz e, porque não, fúnebre, que reconhece na
esperança maior, por mais ilusória que seja, força digna de mover montanhas.
Uma montanha mágica, futura, que até pode acontecer em Montemor-o-Velho
enquanto o sol desce sobre os plácidos campos do Mondego…
E
deste modo, o pano desce no fim do primeiro acto.
jef,
setembro 2007
De modo abrupto, a carreira de Robert Rossen termina com este
filme maravilhoso. Tinha 56 anos. Uma espécie de elegia ou epitáfio ao amor, à
pulsão sexual e à luta de classes. Como se a arquitectura de Antonioni se
casasse com os olhares mudos e expressionistas de Eisenstein, e as bandas sonoras
de Kubrik tivessem reflexo na composição psicanalítica de Buñuel ou na
estrutura social de Nicholas Ray.
Nada aqui nos é dito directamente. Excepto talvez o «I love
you», sintomático, dramático, a chama ígnea da tragédia. Ou talvez não. Também,
no final, quando Vincent (Warren Beatty) se aproxima e (nos) pede ajuda.
E se nada é referido textualmente, tudo está visto nos planos
agressivamente fechados sobre o modo de amar, também sobre a pele, os olhos, os
lábios de Lilith, (Jean Seberg) essa
vestal louca e infantil, artista plástica que desenha com folhas e terra,
dócil mas furiosa por desejar distribuir a sua dádiva amorosa, quase fogo
divino, por todos igualmente. Na idílica clínica psiquiátrica para ricos, no piquenique
sob a chuvada, à beira do tormentoso curso de água, no centro da feira mediável
e do torneio equestre tudo fica por ouvir e os sons sobrepõe-se invariavelmente
aos segredos disfónicos de Lilith. Apenas as crianças a ouvem. E a surpreendente
música de Kenyon Hopkins que sobrepõem, de modo esquizofrénico, as variações atónicas
do jazz à música da banda, à valsa ou à melodia de embalar tocada por Lilith. O
médico, director da clínica, expõe a estrutura assimétrica da teia de uma
aranha apanhada pela esquizofrenia. Como se explicasse o valor estético do trabalho
do aracnídeo mas também a entrega de Lilith ou a orfandade de mãe e da guerra
de Vincent. Naquela clínica, ele encontra tudo o que a vida lhe recusou.
Mostra mas não lho entrega. Daí o seu amor, daí a sua revolta.
Um filme de revolta analítica e da maior profundidade artística tomado
pela beleza de dois grandes actores: Jean Seberg e Warren Betty.
jef, novembro 2020
«Lilith e o Destino» (Lilith) de Robert Rossen. Com Warren
Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda, Kim Hunter, Anne Meacham, Jessica Walter, Gene
Hackman, James Patterson, Robert Reilly. Argumento: Robert Alan Aurthur e Robert
Rossen, segundo o romance de J.R. Salamanca. Produção: Robert Rossen. Fotografia: Eugen
Schüfftan. Decores: Gene Callahan. Guarda-roupa: Ruth Morley. Música: Kenyon
Hopkins. EUA, 1964, P/B, 114 min.
Autor do surpreendente filme de «Diamantino» (2018), Gabriel
Abrantes tem uma enorme intuição para gerir a técnica cinematográfica e a
tecnologia digital, libertando a sua veia refractária de olhar as histórias e
analisar o mundo. Estes quatro filmes denunciam a sua índole humorística sem
freio. E sabe bem ver alguém que no mundo da arte se dá ao luxo de a subverter,
rindo dela, sem medo de não cumprir ritmos, rituais e praxes. Como uma criança
desaustinada que sabe que tem muito jeito para o non-sense e a gestão narrativa da comédia. Um bocadinho de Edgar
Pêra, um bocadinho de Manuel João Vieira, um bocadinho de Monty Python.
«Freud Und Friends» (2015) é uma viagem entre Sigmund Freud,
Herner Werzog, um tamboril
manipulado clinicamente e a irmã da namorada do paciente mais totó do mundo:
Gabriel Abrantes. Os seus sonhos, desvendados no Centro Champalimaud para o
Desconhecido, revelarão o neurológico impossível.
«Uma Breve História de Princesa X» (2016) é a história mais
rápida dos quatro capítulos (e talvez a mais coerente na sua disparatada
velocidade de 7 minutos). Um impossível busto da bisneta de Napoleão, Marie
Bonaparte, acaba em objecto fálico de bronze luzidio e aquela em escritora de
reputados manuais sobre a sexualidade feminina.
«Os Humores Artificiais» (2016) revela, em jeito “Pixar”, a
terna saga do robô Andy Coughman, programado para a “stand-up comedy”, que se
apaixona irremediavelmente pela jovem índia Xingu em pleno Mato Grosso.
Em «As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra» (2018)
as estátuas do Louvre rebelam-se contestando a sua caduca imobilidade, saindo
para olhar a revolta nocturna da cidade de Paris. Será este o mais complexo dos
filmes mas também aquele cuja irreverência fica cativa numa proposta um tanto
ingénua, quase pueril, quase banal.
Gabriel Abrantes é um fenómeno na diversão cinematográfica, na
manipulação da tecnologia mas também na captação de investimentos para realizar
filmes impensáveis num mundo artístico tão temente às novidades falíveis como é
o dos nossos dias.
jef, novembro 2020
Capítulo I. Lisboa. «Freud Und Friends». Com Sónia Balacó, Gabriel
Abrantes, Carloto Cotta, André E. Teodósio, David Phelps, Joana de Verona.
Portugal / Suiça, 2015, Cores, 23 min.
Capítulo II. Paris (e Nova Iorque). «Uma Breve História de
Princesa X» (A Brief History of Princess X). Com Francisco Cipriano, Joana
Barrios, Filipe Vargas. Portugal / França, 2016, Cores, 7 min.
Capítulo III. Aldeia Yawalapiti (e São Paulo). «Os Humores
Artificiais». Com Margarida Lucas, Gilda Nomacce, Ivo Müller, Amanda Rodarte.
Portugal / brasil, 2016, Cores, 30 min.
Capítulo IV. Paris (Encore no Louvre). «As Extraordinárias
Desventuras da Menina de Pedra» (Les Extraordinaires Mesaventures de la Jeune
Fille de Pierre). Com Liza Lapert, Virgil Vernier, Vimala Pons, Alexis Manenti,
Annie Mercier, Caroline Reruas. Portugal / França, 2018, Cores, 20 min.
«Travels With Charley: In
Search of America». Um
livro muito simples sobre uma América esquecida e reencontrada através da
viagem por uma grande parte dos 50 estados, ao volante do Rocinante, a caravana
especialmente equipada para o efeito. Sentado a seu lado vai Charley, um velho
cão d’água que sofre de alguns problemas de saúde mas também sofre de grandes
inteligência e intuição perceptiva. Sem ele, a voz de Steinbeck perder-se-ia
por não encontrar eco reflexivo. Lá atrás, o balde com água, roupa suja e detergente
chocalha, em moderno artefacto de "higienização".
Em 1960, o escritor tinha 58 anos e a percepção de que
não viveria muito mais tempo. O livro é publicado em 1962, ano em que receberá
o prémio Nobel e, 58 anos depois, é indicado em Portugal como leitura
recomendada no plano lectivo dos liceus. E compreende-se que assim seja, até se
aplaude, pois, repito, é um livro simples sobre a vocação ecuménica da alma
humana, que entusiasma, entretém, ensina e comove como raros livros de viagem
farão.
Não interessa se a viagem ocorreu assim, daquele modo, ou
se parte é essência da viagem ficcional da narrativa. John Steinbeck é mestre
nesse estilo de “argumento” e deixa-nos na mão, para que nós a tomemos, essa
lógica “cinematográfica” que mistura uma certa melancolia de um bom livro, de
uma óptima viagem, que sabemos irá chegar ao fim e a aceitação nostálgica de
uma paisagem natural, urbana, humanizada que actualmente parece irreconhecível mas
que permanecerá sempre como sua.
A América é um lugar de cidades, estradas, florestas, desertos,
diners, estações de serviço, gentes que se encontram ou se isolam sob a
complacente observação do escritor, sobre o seu silêncio incisivo e
determinado. Ali está para nós uma realidade que será sempre “ficcionada” por
cada nova leitura, pela percepção de cada um, a começar pelas do autor. Desde
que ele parte de Sag Harbor, Long Island, atrasando os seus planos por ter de
salvar o seu veleiro da tempestade Donna, até aí voltar, meses depois, extenuado
de guiar, perdido nas vias rápidas de Nova Jersey, mas certo que encontrará um bom
chui que lhe dirá: «Não pense nisso, amigo, ainda ontem me perdi em Brooklyn.»
Metáfora ou não, também Ulisses se quis perder até chegar a Ítaca
ou Marco Polo se deslumbrou com as sedas sem desejar regressar a Veneza. John
Steinbeck fala de uma América perdida e reencontrada com uma audácia apaixonada
de cowboy ou a firmeza introspectiva de monge: a América ali está perdida
nas suas vicissitudes e eternamente reedificada a partir dos seus escombros.
Assim também nós desejamos ver os Estados Undos da América em
construção, após as eleições da próxima semana. Trump não merece ser
conterrâneo de Steinbeck!
jef, outubro 2020