sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Fluxograma

 









Para mim,

as pessoas são como os animais

e os animais como as plantas

e as plantas como o húmus

e o húmus como a terra

e a terra como as rochas.


Por vezes, pergunto-me

serão as pessoas como as rochas?


jef, novembro 2020

 

Sobre o livro «A Saga de Gösta Berling» de Selma Lagerlöf, Cavalo de Ferro, 2006. Tradução de Inga e Miguel Gullander.


 









Humano e natural.

Eis a história fabulosa da Ala dos Cavalheiros de Ekeby. Um grupo de homens nem muito maus nem muito bons, ingénuos velhacos, joviais decrépitos, aventureiros comilões, românticos acirrados, dançarinos inveterados à frente dos quais está o indescritível Gösta Berling, o mais apaixonado e inconsciente de todos, aliás um pároco bêbado e, por tal, proscrito. Todos eles sabem tocar um instrumento musical, mesmo que o façam no teclado virtual. Caso contrário, não seriam cavalheiros. Todos estão prontos a brincar, a amar, mas também a lutar contra inimigos infames, entre os quais alguns dos mais ricos da região: o diabólico industrial Sintram, o inteiriçado conde Henrik Dohna, o possessivo Melchior Sinclair ou a poderosa mineira Margareta Samzelius que fizera desaparecer no ódio a doce Margareta Celsing. Tudo isto está escrito nas páginas iniciais do livro. As restantes dão corpo ao mais puro encanto geográfico da literatura de Selma Lagerlöf. Aliás, a exímia contadora de lendas e narrativas sempre assumiu a Suécia como musa suprema inspiradora para uma escrita que veio renovar o espírito naturalista do romantismo. Nela a paisagem sueca é rainha mas não apenas como elemento cénico para conjecturas mais ou menos depressivas. A grande província de Värmland verga-se ao peso orográfico das montanhas e ravinas ou ao sinuoso traçado do lago Löven, que constitui o seu coração. Mas a diferença entre estas florestas geladas ou os rápidos deste rio e uma certa literatura também geográfica, porém mais gótica e anglo-saxónica, recheada de orgues dementes e castigadores, é total. Aqui, a paisagem é o elemento central da narrativa, surgindo como força motriz das transformações culturais do homem mas, simultaneamente, identifica-se como matéria-prima pronta a ser por este modificada. A natureza é tão humana quanto as canções, os risos, as siderurgias ou a agricultura de subsistência. O urso, no seu monte Gurlita, é tão fundamental quanto o pároco e a sua prelecção. A superior candura de Selma Lagerlöf apresenta o homem na sua superior unidade, ora acusando alegremente o seu pecado, ora amnistiando-o com severidade. A cultura e a paisagem da Suécia rendem-se apaixonadamente perante a sua narrativa. Deste modo, a escritora troca a sua pátria pela síntese de um universo, íntegro e pacificado, regido pelas lendárias armas da Natureza, do Homem e de Deus. Em suma, «A Saga de Gösta Berling» é um dos mais belos livros publicados no ano de 2006 em Portugal.

 

jef, março 2007

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Sobre o filme «Pig» de Mani Haghighi, 2018





















Ora aqui está uma oportunidade perdida.

Todos sabemos a elevadíssima qualidade do cinema iraniano, tanto do ponto de vista estético-ético como do político-social. Nem será necessário recordar a absoluta obra-prima do cinema mundial que é «Close-Up» de Abas Kiarostami (1990). Por isso, aguardamos o melhor.

Agora, é uma comédia louca e colorida sobre a actividade de um assassino que tem por objectivo decapitar tudo quanto é cineasta iraniano, gravando-lhes na testa a palavra «pig». Porém, Hasan Kasmai (Hasan Majuni), amante dos AC/DC e violento jogador de ténis, realizador proscrito pelas autoridades oficiais, sem produtor e impedido de realizar as suas obras de culto, chora no colo de sua mãe e pergunta por que é que o assassino não se aproxima dele. Sim, dele, que devia ser o primeiro a ser assassinado e que, agora, apenas lhe é permitido realizar filmes publicitários sobre insecticida para baratas. Tudo parecia movimentar-se num ambiente auspicioso de louca luta social e familiar, um pouco à Woody Allen, um pouco à Pedro Almodóvar, com um cineasta deprimido e mulherengo que fala pelos cotovelos de modo lânguido, e magnificamente interpretado por Hasan Majuni, a fazer lembrar a displicência estilística de Miguel Lobo Antunes em «Technoboss» (João Nicolau, 2019) mas a movimentar-se em cenários psicanalíticos e fellinianos e a tender para a justiça sanguinária à Tarantino.

Tudo corria bem até aparecer o verdadeiro assassino com cara de suíno e versículos do Corão na voz! E é aí que a porca torce o rabo e perde o ritmo, deixando-nos abananados, vendo a charla política sem explodir em definitivo, antes esvaziando-se de sentido catártico, afinal apaziguando as hostilidades, esquecendo o ápice fulcral e castigador da sociedade moralista, coisa que é sempre a pedra de toque na melhor comédia social.

Contudo, a caracterização das personagens, os actores, as cores e o movimento de câmara são dignos de boa nota.


jef, novembro 2020

«Pig» de Mani Haghighi. Com Hasan Majuni, Leila Hatami, Leili Rashidi, Parinaz Izadyar, Saber Abar, Mahnaz Afshar, Siamak Ansari, Vishka Asayesh. Argumento: Mani Haghighi. Música: Peyman Yazdanian. Fotografia: Mahmoud Kalari. Montagem: Meysam Molaei. Direcção artística: Amir Hossein Ghodsi. Guarda-roupa: Negar Nemati. Produção: Mani Haghighi. Irão, 2018, Cores, 104 min.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Sobre o livro «Século Passado» de Jorge Silva Melo, Cotovia, 2007


 









O passado e o presente.

Aqui se conta a sentida história de um século que é, dramaticamente, passado. E se é bem verdade a afirmação de José Pacheco Pereira sobre o livro: “O dilema da minha geração é que, ao mesmo tempo que se queria saber tudo (e durante uns anos poder tudo), não se queria perder a inocência” (Ípsilon, 11 de Maio de 2007), também é certo que a nostalgia (talvez antes melancolia) que perpassa todo o «Século Passado» está cuidadosamente encenada, diria dramatizada para levar o espectador-leitor a uma percepção emotiva muito precisa. E, nisso, a mestria de Jorge Silva Melo não é de todo inocente. Não é por acaso que este conjunto de artigos, notas, apresentações críticas e crónicas de jornal não se apresentam de forma redutoramente cronológica, nem sequer afloram a obra contemporânea vivida pelo autor, nem teatros ou amigos presentes, como está ressalvado em nota final. É notório que a pretensão é a de construir a história de um mundo de sonho, de utópica ilusão, de ilusória esperança que só no passado ficcionado pela memória e pela arte dramática é possível. Assim se exploram, em capítulos expressamente não diários, esse Ser Cinema, esse Ser Teatro, esse Ser Arte, lançados num país sem liberdade mas deliciosamente espicaçado pela juvenil maquinação omnipotente, seres ancorados ainda na ferocidade da escrita e na intransigência da imagem cinematográfica. Mas também, mais tarde, esquecidos pelo mercado de uma certa “liberdade económica”. Este é um livro sobre a morte e a vida, que se deve ler como romance que é, da primeira à última página, seguindo os passos de personagens como João Bénard da Costa, João César Monteiro, Fiama Hasse Pais Brandão, Mário Dionísio, Glicínia Quartim ou Sofia Areal, deambulando numa Lisboa de praças, cafés e jardins públicos e na intimidade que estes sempre fabricam. Um espaço público e privado onde ainda encontramos Jacques Tati, John Ford, Howard Hawks ou Alfred Hitchcock em sublimes retratos de maioridade crítica. Um livro sem medo de ser emocionalmente adjectivador, mordaz e, porque não, fúnebre, que reconhece na esperança maior, por mais ilusória que seja, força digna de mover montanhas. Uma montanha mágica, futura, que até pode acontecer em Montemor-o-Velho enquanto o sol desce sobre os plácidos campos do Mondego…

E deste modo, o pano desce no fim do primeiro acto.

 

jef, setembro 2007

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Sobre o filme «Lilith e o Destino» de Robert Rossen, 1964

 

























De modo abrupto, a carreira de Robert Rossen termina com este filme maravilhoso. Tinha 56 anos. Uma espécie de elegia ou epitáfio ao amor, à pulsão sexual e à luta de classes. Como se a arquitectura de Antonioni se casasse com os olhares mudos e expressionistas de Eisenstein, e as bandas sonoras de Kubrik tivessem reflexo na composição psicanalítica de Buñuel ou na estrutura social de Nicholas Ray.

Nada aqui nos é dito directamente. Excepto talvez o «I love you», sintomático, dramático, a chama ígnea da tragédia. Ou talvez não. Também, no final, quando Vincent (Warren Beatty) se aproxima e (nos) pede ajuda.

E se nada é referido textualmente, tudo está visto nos planos agressivamente fechados sobre o modo de amar, também sobre a pele, os olhos, os lábios de Lilith, (Jean Seberg) essa vestal louca e infantil, artista plástica que desenha com folhas e terra, dócil mas furiosa por desejar distribuir a sua dádiva amorosa, quase fogo divino, por todos igualmente. Na idílica clínica psiquiátrica para ricos, no piquenique sob a chuvada, à beira do tormentoso curso de água, no centro da feira mediável e do torneio equestre tudo fica por ouvir e os sons sobrepõe-se invariavelmente aos segredos disfónicos de Lilith. Apenas as crianças a ouvem. E a surpreendente música de Kenyon Hopkins que sobrepõem, de modo esquizofrénico, as variações atónicas do jazz à música da banda, à valsa ou à melodia de embalar tocada por Lilith. O médico, director da clínica, expõe a estrutura assimétrica da teia de uma aranha apanhada pela esquizofrenia. Como se explicasse o valor estético do trabalho do aracnídeo mas também a entrega de Lilith ou a orfandade de mãe e da guerra de Vincent. Naquela clínica, ele encontra tudo o que a vida lhe recusou. Mostra mas não lho entrega. Daí o seu amor, daí a sua revolta.

Um filme de revolta analítica e da maior profundidade artística tomado pela beleza de dois grandes actores: Jean Seberg e Warren Betty.

 

jef, novembro 2020

«Lilith e o Destino» (Lilith) de Robert Rossen. Com Warren Beatty, Jean Seberg, Peter Fonda, Kim Hunter, Anne Meacham, Jessica Walter, Gene Hackman, James Patterson, Robert Reilly. Argumento: Robert Alan Aurthur e Robert Rossen, segundo o romance de J.R. Salamanca. Produção: Robert Rossen. Fotografia: Eugen Schüfftan. Decores: Gene Callahan. Guarda-roupa: Ruth Morley. Música: Kenyon Hopkins. EUA, 1964, P/B, 114 min.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Sobre o filme «Quatro Contos» de Gabriel Abrantes, 2015, 2016, 2018



















Autor do surpreendente filme de «Diamantino» (2018), Gabriel Abrantes tem uma enorme intuição para gerir a técnica cinematográfica e a tecnologia digital, libertando a sua veia refractária de olhar as histórias e analisar o mundo. Estes quatro filmes denunciam a sua índole humorística sem freio. E sabe bem ver alguém que no mundo da arte se dá ao luxo de a subverter, rindo dela, sem medo de não cumprir ritmos, rituais e praxes. Como uma criança desaustinada que sabe que tem muito jeito para o non-sense e a gestão narrativa da comédia. Um bocadinho de Edgar Pêra, um bocadinho de Manuel João Vieira, um bocadinho de Monty Python.

«Freud Und Friends» (2015) é uma viagem entre Sigmund Freud, Herner Werzog, um tamboril manipulado clinicamente e a irmã da namorada do paciente mais totó do mundo: Gabriel Abrantes. Os seus sonhos, desvendados no Centro Champalimaud para o Desconhecido, revelarão o neurológico impossível.

«Uma Breve História de Princesa X» (2016) é a história mais rápida dos quatro capítulos (e talvez a mais coerente na sua disparatada velocidade de 7 minutos). Um impossível busto da bisneta de Napoleão, Marie Bonaparte, acaba em objecto fálico de bronze luzidio e aquela em escritora de reputados manuais sobre a sexualidade feminina. 

«Os Humores Artificiais» (2016) revela, em jeito “Pixar”, a terna saga do robô Andy Coughman, programado para a “stand-up comedy”, que se apaixona irremediavelmente pela jovem índia Xingu em pleno Mato Grosso.

Em «As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra» (2018) as estátuas do Louvre rebelam-se contestando a sua caduca imobilidade, saindo para olhar a revolta nocturna da cidade de Paris. Será este o mais complexo dos filmes mas também aquele cuja irreverência fica cativa numa proposta um tanto ingénua, quase pueril, quase banal.

Gabriel Abrantes é um fenómeno na diversão cinematográfica, na manipulação da tecnologia mas também na captação de investimentos para realizar filmes impensáveis num mundo artístico tão temente às novidades falíveis como é o dos nossos dias.

 

jef, novembro 2020

Capítulo I. Lisboa. «Freud Und Friends». Com Sónia Balacó, Gabriel Abrantes, Carloto Cotta, André E. Teodósio, David Phelps, Joana de Verona. Portugal / Suiça, 2015, Cores, 23 min.

Capítulo II. Paris (e Nova Iorque). «Uma Breve História de Princesa X» (A Brief History of Princess X). Com Francisco Cipriano, Joana Barrios, Filipe Vargas. Portugal / França, 2016, Cores, 7 min.

Capítulo III. Aldeia Yawalapiti (e São Paulo). «Os Humores Artificiais». Com Margarida Lucas, Gilda Nomacce, Ivo Müller, Amanda Rodarte. Portugal / brasil, 2016, Cores, 30 min.

Capítulo IV. Paris (Encore no Louvre). «As Extraordinárias Desventuras da Menina de Pedra» (Les Extraordinaires Mesaventures de la Jeune Fille de Pierre). Com Liza Lapert, Virgil Vernier, Vimala Pons, Alexis Manenti, Annie Mercier, Caroline Reruas. Portugal / França, 2018, Cores, 20 min.

 

domingo, 1 de novembro de 2020

Sobre o livro «Viagens com o Charley» de John Steinbeck, Livros do Brasil, ? (1962), Colecção Dois Mundos n.º 92. Tradução de Sousa Victorino.











«Travels With Charley: In Search of America». Um livro muito simples sobre uma América esquecida e reencontrada através da viagem por uma grande parte dos 50 estados, ao volante do Rocinante, a caravana especialmente equipada para o efeito. Sentado a seu lado vai Charley, um velho cão d’água que sofre de alguns problemas de saúde mas também sofre de grandes inteligência e intuição perceptiva. Sem ele, a voz de Steinbeck perder-se-ia por não encontrar eco reflexivo. Lá atrás, o balde com água, roupa suja e detergente chocalha, em moderno artefacto de "higienização".

Em 1960, o escritor tinha 58 anos e a percepção de que não viveria muito mais tempo. O livro é publicado em 1962, ano em que receberá o prémio Nobel e, 58 anos depois, é indicado em Portugal como leitura recomendada no plano lectivo dos liceus. E compreende-se que assim seja, até se aplaude, pois, repito, é um livro simples sobre a vocação ecuménica da alma humana, que entusiasma, entretém, ensina e comove como raros livros de viagem farão.

Não interessa se a viagem ocorreu assim, daquele modo, ou se parte é essência da viagem ficcional da narrativa. John Steinbeck é mestre nesse estilo de “argumento” e deixa-nos na mão, para que nós a tomemos, essa lógica “cinematográfica” que mistura uma certa melancolia de um bom livro, de uma óptima viagem, que sabemos irá chegar ao fim e a aceitação nostálgica de uma paisagem natural, urbana, humanizada que actualmente parece irreconhecível mas que permanecerá sempre como sua.

A América é um lugar de cidades, estradas, florestas, desertos, diners, estações de serviço, gentes que se encontram ou se isolam sob a complacente observação do escritor, sobre o seu silêncio incisivo e determinado. Ali está para nós uma realidade que será sempre “ficcionada” por cada nova leitura, pela percepção de cada um, a começar pelas do autor. Desde que ele parte de Sag Harbor, Long Island, atrasando os seus planos por ter de salvar o seu veleiro da tempestade Donna, até aí voltar, meses depois, extenuado de guiar, perdido nas vias rápidas de Nova Jersey, mas certo que encontrará um bom chui que lhe dirá: «Não pense nisso, amigo, ainda ontem me perdi em Brooklyn.»

Metáfora ou não, também Ulisses se quis perder até chegar a Ítaca ou Marco Polo se deslumbrou com as sedas sem desejar regressar a Veneza. John Steinbeck fala de uma América perdida e reencontrada com uma audácia apaixonada de cowboy ou a firmeza introspectiva de monge: a América ali está perdida nas suas vicissitudes e eternamente reedificada a partir dos seus escombros.

Assim também nós desejamos ver os Estados Undos da América em construção, após as eleições da próxima semana. Trump não merece ser conterrâneo de Steinbeck!


jef, outubro 2020