quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Sobre o disco «The Ascension» de Sufjan Stevens, AKR 2020











Bem-vindos ao mundo amedrontado, angustiado, encantado de Sufjan Stevens. «The Ascension» cria um espelho de fractais electrónicos e desenhados durante 15 canções em loop e 80 minutos de sonho meio-alucinado meio-planante, distanciando-se, por exemplo, de «Carrie & Lowell» (2015) não pelo lado interior e psicológico mas pela percussão caleidoscópica que o músico assume em nome próprio. E com ele, o guitarra-baixo Casey Foubert vai certificando cada linha melódica soturna e clarividente.

Como se um certo grunge de Seattle se casasse com o fumarento trip-hop de Bristol, amparado pelo drum’n’bass de Goldie. Estranhamente convoca no mesmo momento o espírito de Beth Gibbons, Fiona Apple, Kurt Cobain, Prince e Neil Young. Numa doce confusão. Todos juntos enclausurados numa capela onde as orações esqueceram o fito de Deus. Todos dentro de um elevador sem paragem pelos andares, durante uma qualquer pandemia.

Brian Eno parece estar a programar, Beck a destabilizar, Danny Elfman a transmitir essa notálgica aura coral de filme de fantasia.

Tudo soa a antigo mas é novíssimo nesse tão difícil equilíbrio dançante entre a alegria deprimida e o eufórico confinamento, deslizando até essa longa faixa final, «America»: “Don’t look at me like I’m acting hysterical / Don’t do to me what you did to America”.

jef, novembro 2020

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Sobre o livro «O Quarto de Giovanni» de James Baldwin. Alfaguara, 2020 (1956). Tradução de Valério Romão.


 









De modo interior, coisa profunda que a leitura provoca, relações, coincidências, sinapses no interior da memória, ao terminar «O Quarto de Giovanni» recordei-me da intranquilidade crescente que me provocou a leitura de «O Estrangeiro» de Camus. Essa inquietação que as grandes obras escritas sobre o desespero da solidão definitiva e a amargura do que fica calado provocam na alma do leitor que se deixa aprisionar pelo talento narrativo do escritor filósofo.

Somente os grandes, como James Baldwin, conseguem cativar a leitura começando a contar, assim, a história pelo fim. Desde logo, o jogo é-nos desvendado. As peças e dados já estão lançados e consumada a tragédia numa certa cidade de Paris que, ardentemente, deseja ver o Verão terminado e com ele também a paixão condenada entre o jovem americano David e o jovem italiano Giovanni. Ambos estrangeiros.

«Era uma questão de punição e sofrimento. Não sei como soube isso, mas soube-o imediatamente. Talvez porque no fundo eu queria viver. E olhei para o quarto com aquela extensão nervosa e calculista da inteligência e de todas as nossas forças que sobrevém quando avaliamos um perigo incontornável e mortal.»

Apenas a mestria consegue apresentar o facto, sem rodriguinhos e autocomiseração, indo directa ao assunto com o rigor das descrições finas, sucintas, ternamente circunstanciais, e os diálogos que nos deixam perante o desconforto do que nunca será dito e a suja amargura dos ambientes que vão toldando o ocaso do que já nos foi dado ouvir do início.

E esse facto é a tragédia da sua própria negação. A negação que é o inexorável caminho para a evidência e a evidência é um lugar anunciado e terrivelmente escuro.

Estranhas similitudes. Tal como no livro de Albert Camus, o protagonista é confrontado com ausência de si próprio através do anúncio, longínquo e frio, da morte de sua mãe num asilo, também neste livro, a falta de uma mãe parece ser o ponto de partida para o caminho de David em direcção ao coração do seu escondido e repudiado mal. Nos dois livros, a sociedade em volta, inquisitorial, papel de embrulho revelador de uma angústia avolumada e de uma culpa sem redenção, aponta o dedo e retira qualquer possibilidade de perdão. Faz largar a energia cinética da lâmina sobre a recusa de um corpo. A lâmina corre na aceleração da gravidade e da pena dessa negação.

É um romance soberbo, que se lê de um fôlego, publicado pela primeira vez em 1956 com a inclemente objectividade e a sinistra clarividência de que a homossexualidade era uma circunstância punível nos Estados Unidos e de que a pena de morte só seria interdita em França em 1981, pelo esforço de François Miterrand, entrando como emenda na constituição francesa apenas em 2007.

 

jef, novembro 2020

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sobre o disco «Right as Rain» de Madalena Palmeirim, 2019

 

 
























O disco tem o condão de me relembrar, ao longo das 12 canções, o universo heterogéneo, embora coerente e uníssono, da música popular que povoa as prateleiras dos meus discos. América, Brasil, Cabo Verde, Portugal têm em comum belos povos que constroem belas cantigas vindas de harmonias e ritmos eternamente reconhecíveis.

Madalena Palmeirim recolhe-se não sobrepondo presunção musical às melodias ternamente visitadas, aos arranjos expostos de modo simples, aos poemas mais nostalgicamente amorosos. Por outro lado, contém essa simplicidade silenciosa e amável que une pela força as diversas latitudes do tal folk universe.

O mais curioso é, exactamente, o modo veemente como a música de Madalena Palmeirim me faz lembrar o à-vontade, a reverência iconoclasta pela música tradicional que têm Zeca Afonso ou António Variações. Também a intimidade meio country-folk meio recolhimento-de-lareira de Gillian Welch, Will Oldham ou Devendra Banhart. Ou o modo despojado mas despudorado como Marisa Monte ataca o samba ou Lucibela, a morna. Ou como Feist ou Cat Power abraçam o mundo eléctrico para reorganizar o velho poder dos blues.

Não tenho qualquer dúvida, «Right as Rain» é um disco que não vou conseguir parar de ouvir.


jef, novembro 2020

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Sobre o disco «Sunset in the Blue» de Melody Gardot, Decca / Universal 2020

















Retirando do alinhamento o óbvio e dispensável bonus track «Little Something» (embora comercialmente imprescindível com as pandemias que correm) cantado em dueto com Sting, «Sunset in the Blue» vem confirmar a minha ideia de que a bossa-nova é um caso sério inventado para cantores raros, de vozes frágeis mas possuidores de convicções fortes, eficientes em melodias de alma silenciosa propícias para a melancolia do esquecimento e para textos que, julgados à pressa, sugerem pouco dizer.

A bossa-nova parece sempre delicodoce mas pertence ao mundo profundo de um jazz estranho, mundo que é revelado apenas ao talento de músicos que compõem em modo invisível e arranjos transparentes, milimetricamente inseguros e harmoniosos, dados ao improviso. Talvez mesmo só para “desafinados”. Amália Rodrigues e Stan Getz conheciam-lhe o mistério. Melody Gardot aproxima-se-lhes em sub-reptícia e perspicácia musicais. Na melancolia também.

Aliás, esclareçamos que a cantora e compositora construiu um catálogo harmónico que só podia vir aqui desembocar. Ou seja, adaptou a bossa-nova ao seu jazz aquático e serenamente nostálgico. A produção permanece nas mãos de Larry Klein e os arranjos orquestrais nas de Vince Mendonza. As orquestras são a Royal Philharmonic Orchestra e a Global Digital Orchestra. Esta última, em «From Paris with Love», convocada à distância “via electrão”, à conta do Covid, sendo os músicos remunerados integramente. O jazz deslumbra-se na guitarra de Anthony Wilson, no saxofone de Donny McCaslin, no piano de Philippe Baden Powell na melhor faixa do álbum, «You Won’t Forget Me».

Claro que Melody Gardot inclui «Moon River». E coloca a voz de António Zambujo num registo mais grave do que o costume em «C’Est Magnifique». E compõe e canta em inglês, francês e português. «Um Beijo» ou «Ninguém, Ninguém», suavemente, quase como desculpa, numa tonalidade harmoniosa que muito deve a Pierre Aderne, esse luso-franco-brasileiro que tem um cosmos musical secreto e mágico em Lisboa, perdido lá para a Rua das Pretas.

Melody Gardot sempre tem a suave e contida particularidade de quase não fazer notar a propensão para a terna melancolia e, em «Sunset in the Blue», encontra-lhe um porto seguro na sua muito íntima e “desafinada” bossa-nova.

 

jef, novembro 2020

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Sobre o livro «A Luz da Guerra» de Michael Ondaatje. Relógio D’Água, 2018. Tradução de Margarida Periquito.

 

 

«A maior parte das grandes batalhas ocorre nos vincos dos mapas topográficos.»

Resumidamente, o comentário de Robert Bresson retirado de uma entrevista filmada e que serve de epígrafe a este livro inevitável, resume-o de modo paradigmático.

Na guerra, na grande História ou nas “pequenas histórias que guardamos precariamente mas que compõem as nossas vidas”, a maior parte das virtudes e tragédias ficam abandonadas pela leitura leviana ou nem são lidas por se esconderem nos locais mais inacessíveis da memória.

A Segunda Grande Guerra destruiu a Europa reedificando-a depois segundo um alfabeto de violência e esquecimento que perdurou até aos nossos dias e que foi mal negociado desde o armistício, em Maio de 1945. Este livro conta ainda a história pungente e secreta de Londres, sobrevivente às suas próprias custas, dessa lenta e longa agonia a que se chama o “sarar das feridas”.

Nada sobre o livro poderá ser dito sem destruir o seu extraordinário enigma literário (contado de forma única!) sobre tal dédalo de mentiras, segredos e enganos, resistência e organização subterrânea, sobrevivência, abandono, amor e luto. Sobretudo uma história de silêncios insuportavelmente ditos e insuportavelmente ouvidos.

Londres sai escalpelizada como a rã dissecada em vida que fica a pulsar entre alfinetes para que se lhe estudem, de modo radical, as veias e as artérias. Aqui ficam em vivissecção pela memória geográfica e juvenil de Nathaniel os vasos de uma cidade percorrida por afluentes, canais artificiais e eclusas de um Tamisa que sempre reconheceu as viagens clandestinas de meliantes, contrabandistas e resistentes.

Este livro, também ele construído psicanaliticamente por meandros e eclusas, tem o condão de mostrar sem piedade, mas com uma imensa ternura, a quantidade de falsos-verdadeiros órfãos deixados pela guerra atrás de uma muralha de solidão. A intimidade triste desses becos sem saída e enraizada na vitória dos aliados e no desentendimento e na ambição dos vencedores.

Acima de tudo, «A Luz da Guerra» descreve um povo combatente mas fleumático, humorístico e solidário, organizado, tradicionalista e intransigentemente jardineiro.

Um livro obrigatório.

 

jef, novembro 2020

 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Fluxograma

 









Para mim,

as pessoas são como os animais

e os animais como as plantas

e as plantas como o húmus

e o húmus como a terra

e a terra como as rochas.


Por vezes, pergunto-me

serão as pessoas como as rochas?


jef, novembro 2020

 

Sobre o livro «A Saga de Gösta Berling» de Selma Lagerlöf, Cavalo de Ferro, 2006. Tradução de Inga e Miguel Gullander.


 









Humano e natural.

Eis a história fabulosa da Ala dos Cavalheiros de Ekeby. Um grupo de homens nem muito maus nem muito bons, ingénuos velhacos, joviais decrépitos, aventureiros comilões, românticos acirrados, dançarinos inveterados à frente dos quais está o indescritível Gösta Berling, o mais apaixonado e inconsciente de todos, aliás um pároco bêbado e, por tal, proscrito. Todos eles sabem tocar um instrumento musical, mesmo que o façam no teclado virtual. Caso contrário, não seriam cavalheiros. Todos estão prontos a brincar, a amar, mas também a lutar contra inimigos infames, entre os quais alguns dos mais ricos da região: o diabólico industrial Sintram, o inteiriçado conde Henrik Dohna, o possessivo Melchior Sinclair ou a poderosa mineira Margareta Samzelius que fizera desaparecer no ódio a doce Margareta Celsing. Tudo isto está escrito nas páginas iniciais do livro. As restantes dão corpo ao mais puro encanto geográfico da literatura de Selma Lagerlöf. Aliás, a exímia contadora de lendas e narrativas sempre assumiu a Suécia como musa suprema inspiradora para uma escrita que veio renovar o espírito naturalista do romantismo. Nela a paisagem sueca é rainha mas não apenas como elemento cénico para conjecturas mais ou menos depressivas. A grande província de Värmland verga-se ao peso orográfico das montanhas e ravinas ou ao sinuoso traçado do lago Löven, que constitui o seu coração. Mas a diferença entre estas florestas geladas ou os rápidos deste rio e uma certa literatura também geográfica, porém mais gótica e anglo-saxónica, recheada de orgues dementes e castigadores, é total. Aqui, a paisagem é o elemento central da narrativa, surgindo como força motriz das transformações culturais do homem mas, simultaneamente, identifica-se como matéria-prima pronta a ser por este modificada. A natureza é tão humana quanto as canções, os risos, as siderurgias ou a agricultura de subsistência. O urso, no seu monte Gurlita, é tão fundamental quanto o pároco e a sua prelecção. A superior candura de Selma Lagerlöf apresenta o homem na sua superior unidade, ora acusando alegremente o seu pecado, ora amnistiando-o com severidade. A cultura e a paisagem da Suécia rendem-se apaixonadamente perante a sua narrativa. Deste modo, a escritora troca a sua pátria pela síntese de um universo, íntegro e pacificado, regido pelas lendárias armas da Natureza, do Homem e de Deus. Em suma, «A Saga de Gösta Berling» é um dos mais belos livros publicados no ano de 2006 em Portugal.

 

jef, março 2007