segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Uma História Simples» de David Lynch, 1999.





















Se existe um filme de Natal é este. Talvez até mais do que «Do Céu Caiu uma Estrela» (Frank Capra, 1946), «Música no Coração» (Robert Wise, 1965), «Mary Poppins, (Robert Stevenson, 1964) ou «O Estranho Mundo de Jack» (Henry Selick, 1993). Talvez mesmo mais literário que «O Conto de Natal do Senhor Scrooge». É a história de um homem que deseja ainda voltar a contemplar as estrelas junto do seu irmão.

Vejo-o para refazer a minha ideia de humanidade e de uma América clara, complacente, solidária, solitária, percorrendo nostalgicamente as suas extensões on the road.

Evidentemente, um filme sobre o tempo irrecuperável que me faz sempre chorar baba e ranho. Porém, todo o poder irónico e visual de David Lynch está lá, em cores saturadas, junto às casas, ao solo, aos relvados, ao asfalto, filmado abstractamente tão perto da figura de todos os americanos como do perfil de cada um deles. Um sarcástico carinho transbordante, sublinhando não os defeitos dos homens mas a sua capacidades de os superar.

Dedicado a Alvin Straight (1920-1996) que oferece a história verdadeira de um homem de 73 anos, combatente da Segunda Grande Guerra, que vive com a sua dedicada filha, Rose (Sissy Spacek). Ao receber a notícia de que o irmão Lyle (Harry Dean Stanton) está gravemente doente resolve ir visitá-lo, recuperando uma amizade perdida há dez anos. Alvin (Richard Farnsworth) não tem carta de condução e não gosta de ser conduzido, por isso fará a viagem de 500 km, desde Laurens no Iowa até Mount Zion no Wisconsin, conduzindo um cortador de relva durante seis semanas.

Não há história mais simples e terna sobre o fim do tempo. Ou, melhor, sobre a sua duplicação.

  

jef, dezembro 2020

«Uma História Simples» (The Straight Story) de David Lynch. Com Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Jane Galloway Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wiegert, Tracey Maloney, Dan Flannery, Jennifer Edwards-Hughes, Ed Grennan,  Jack Walsh, Matt Guidry, Bill McCallum, Barbara E. Robertson, Everett McGill, Anastasia Webb, James Cada, Sally Wingert, Barbara Kingsley, Ralph Feldhacker, Harry Dean Stanton. Argumento: John Roach, Mary Sweeney. Música: Angelo Badalamenti. Fotografia: Freddie Francis. Produção: Pierre Edelman, Neal Edelstein, Michael Polaire, Mary Sweeney. EUA, 1994, Cores, 112 min.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Sobre o livro «Coleccionadores» de Mário de Carvalho. Raiz Editora, 1995.

 









Este é um dos livros da minha biblioteca pequenina (1). Prezo tanto esta como a outra, a dos calhamaços. Dela continuarei a dar notícia, numerando os tomos por facilidade coleccionista, agora que ando arrumar estantes.

O conto «Coleccionadores» é retirado da terceira parte do primeiro livro de Mário de Carvalho «Contos da Sétima Esfera», inicialmente editado pela Vega em 1981.

O volume é o número 3 da colecção “Baratinha” e tem mesmo como símbolo um simulacro do artrópode parasita. Tem 30 páginas em formato de fotografia ao estilo da já esquecida viagem ao santuário do Sameiro ou da bênção das fitas de formatura da neta. 10,5 x 15 cm. Dirigida por Cristina Duarte e Graça Magalhães. Tem duas interessantes ilustrações, presume-se, do director gráfico João Botelho. Ainda inclui uma apresentação do texto, «A Aventura de Ler», doutamente escrita por Teresa Almeida, onde nos são explicadas as diferentes directrizes que conduzem a vertente onírica e fantástica da imaginção louca de Mário de Carvalho, alicerçada na teoria de Tzevetan Todorov sobre a aceitação do caso como pura fantasia literária ou, mais além, como realidade gerida por leis ainda a descobrir. Enfim, teorias!

Tudo num invejável apuro editorial, muito limpo, bem maquetado, com ISBN e Depósito Legal. E, claro, texto integral. Tudo muito explicadinho não vá o super-narrador e falido personagem contador da história (ou o seu amigo Diniz Álvares, emergente coleccionador de mapas falsos) deixar de acreditar na futura Guerra das Nações provocada pela feroz capacidade geográfica de um pingo tanino de vinho sobre um velho planisfério.

Mário de Carvalho é um dos grandes contadores da literatura em português, como é prova esta grande narrativa contada em 15 páginas pequeninas.

Viva a leitura em tempos de Natal farrusco, chuva parva e pandemia pirata!


jef, dezembro 2020

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Chungking Express» de Wong Kar Wai, 1994


 






























De certo modo, podia ser um «Blade Runner» (1982) pelo ritmo inóspito de sobrevivência, pela atmosfera oriental e saturada, pela desconfiança solitária no futuro. Mas em «Chungking Express» existe uma maravilhosa tendência non sense para o humor superlativo e para a ternura cerimoniosa que o coloca no lado oposto do distópico filme de Ridley Scott.

O polícia 223, He Zhiwu (Takeshi Kaneshiro) tem dificuldade em apanhar os malfeitores na noite densa de Hong Kong talvez porque a sua namorada May o deixara no final de Abril. Por mais que corra para que o corpo não possua água suficiente para as lágrimas, por mais que coma ananás de latas com prazo a terminar a 1 de Maio, o alimento referido de May, não consegue esquecer o abandono e vai até a um famoso bar na cidade afundar as mágoas em whisky. Aí encontra uma incógnita rapariga de gabardina, óculos escuros, cabeleira loura, fugida do drug dealer que acabara de lhe roubar o produto. No quarto de hotel, ela dorme, ele come batatas fritas. Mais tarde, no dia 1 de Maio, dia do seu aniversário, recebe uma mensagem de parabéns da incógnita loura.

No snack-bar onde telefona diariamente, o polícia 223 quase não repara na nova empregada Faye (Faye Wong). Porém, esta faz boa nota do polícia de giro 663 (Tony Chiu-Wai Leung) que está prestes a romper o namoro com uma comissária de bordo. Sabendo que ele ali vai todos os dias, quando esta última parte deixa-lhes as chaves num envelope nesse snack-bar. Secretamente, Faye pega nelas e começa a frequentar a casa do polícia nas suas horas de turno. Assim, principia um namoro platónico em qualquer dos sentidos.

Sobre estes dois contos cruzados, Wong Kar Wai verte doses colossais de movimentos de câmara, iluminação, sons, canções e música que até podia fazer-nos crer estarmos frente a um enorme video-clip, não fosse a parcimónia narrativa, ao mesmo tempo nostálgica e sorridente, com que preenche a alma e o olhar dos personagens. Esse modo devoto como Faye enche de carpas o aquário do polícia 663, ou o carinho com que o polícia 223 limpa com a gravata os sapatos da mulher adormecida.

Um filme sobre a generosa solidão. Um filme que fica nos ouvidos.


jef, dezembro 2020

«Chungking Express» de Wong Kar Wai. Com Tony Chiu-Wai Leung, Brigitte Lin, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Valerie Chow, Jinquan Chen, Lee-Na Kwan, Zhiming Huang, Liang Zhen, Songshen Zuo. Argumento: Wong Kar Wai. Fotografia: Christopher Doyle, Andrew Lau Wai Keung. Música: Frankie Chan, Michael Galasso, Roel A. García. Canções: “California Dreamin” The Mamas & the Papas; “What a Diff'rence a Day Made” por Dinah Washington. Produção: Wong Kar Wai, Chan Ye Cheng, Jacky Pang Yee Wah, Jet Tone Productions Ltd. Hong Kong / China, 1994, Cores, 102 min.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Sobre o livro «O Inverno do Nosso Descontentamento» de John Steinbeck, Livros do Brasil, 2014 (1961). Tradução de João Belchior Viegas.











Ethan Allen Hawley vive em New Baytown. É descendente de orgulhosos caçadores de baleias e piratas aristocráticos. Acompanhamo-lo da Páscoa até ao Dia da Independência. Possui na vitrine um talismã dado pela tia Deborah e ao lado, numa pata de elefante, a bengala feita de dente de narval vinda do avô marinheiro. Traz na memória o ancestral incêndio no navio Belle Adair e a perda pelo pai da propriedade da mercearia onde agora trabalha como empregado. Tem uma encantadora esposa, a amorosa e confiante Mary, e dois filhos tão comuns quanto adolescentes: Ellen e Allen.

E sobre o livro nada mais pode ser dito sem estragar a sua capacidade “cinematográfica” de manietar o leitor numa rede secreta (mas trágica) que nos faz acarinhar as doces personagens para, logo de seguida, lhes entregar a suspeita da vingança e da desiludida resignação.

Certamente New Baytown ainda hoje existe, mas sem poder ostentar essa falsa mas literária ingenuidade que agora é dissecada até ao osso pelas redes sociais. Certamente, também hoje, ainda permanecerá essa crença profunda numa “América pura” (e hipócrita) mesmo que a verdade sobre a sua “impureza” esteja exposta aos quatro ventos.

O poder dos diálogos em descrever e narrar o que não está dito (nem olhado), de acicatar o crescente estado de inquietude romântica provocado pela sua leitura, lançam-nos num suspense quase policial, intimista e psicótico, a lembrar a inquietação sarcástica de Hitchcock ou Highsmith.

Um romance que se lê com a mesma cativante premência que nos é imposta pela sorridente crueldade de «Alice no País das Maravilhas».


jef, dezembro 2020

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Estranhos de Passagem» de Stephen Frears, 2002



 














Um dos meus filmes de sempre, daqueles que jamais me cansarei de rever. E não é apenas por ouvir durante a ficha técnica final «Glass, Concrete & Stone», uma das mais bonitas canções na fase II de David Byrne (in «Grown Backwards», Nonesuch 2004).

Também não será somente pelo ternurento confronto das duas personagens que, partilhando um pequeno apartamento, não se podem encontrar em público por causa dos serviços de estrangeiros e dos inspectores de trabalho. O actor Chiwetel Ejiofor dá corpo a Okwe, o imigrante nigeriano ilegal que partilha a casa clandestinamente com Audrey Tautou, a jovem turca Senay que não possui licença de trabalho. Encontram-se de fugida no hotel do pérfido Señor Juan, um magnífico Sergi López que ganha a vida alugando quartos para ali vender a vida de alguns pobres aos que, tendo dinheiro, podem comprar para a sua própria sobrevivência.

Acima de tudo, comove-me a perícia de Stephen Frearas para transformar, pelo ritmo do suspense, pela carinhosa fraternidade de todos aqueles estrangeiros de passagem, a realidade trágica das sociedades ocidentais “ricas” numa espécie de triste comédia ultra-romântica.

Através do labor angustiado dos belos Senay e Okwe, também das amizades do porteiro russo Ivan (Zlatko Buric), da prostituta Juliette (Sophie Okonedo) ou do sábio operador da morgue Guo Yi (Benedict Wong), a hostil cidade de Londres transforma-se, de certo modo, num recanto solidário de esperança e amorosa humanidade.


jef, dezembro 2020

«Estranhos de Passagem» (Dirty Pretty Things) de Stephen Frears. Com Chiwetel Ejiofor, Audrey Tautou, Sergi López, Benedict Wong, Sophie Okonedo, Zlatko Buric, Jeffery Kissoon, Kriss Dosanjh, Israel Oyelumade, Yemi Goodman, Nizwar Karanj, Paul Bhattacharjee, Darrell D'Silva, Barber Ali, Rita Hamill, Josef Altin, Ron Stenner, Kenan Hudaverdi, Adrian Scarborough. Argumento: Steven Knight. Fotografia: Chris Menges. Música: Nathan Larson. Grã-Bretanha, 2002, Cores, 93 min.

 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Sobre o filme «A 8ª Mulher do Barba Azul» de Ernst Lubitsch, 1938






São pouco mais de 80 minutos da mais pura e expressiva comédia americana de Ernst Lubitsch. Tudo pode ser visto, antes de ser ouvido. Mas atenção, tudo o que é ouvido transforma-se na epígrafe das imagens que se lhe seguem. Tudo é rápido, tudo é explícito, tudo é contido e tão cómico! Estamos numa das estâncias balneares do Sul de França e a nossa atenção fixa-se, logo de início, na compra apenas do casaco de um pijama pelo multimilionário Michael Brandon (Gary Cooper), facto que leva o director da casa comercial a acusar tal exigência de «comunismo». O caso é que o próprio director também usa apenas o casaco do pijama. Contudo, o caso resolve-se a bem e as calças riscadas do dito pijama acabam por ser partilhadas com Nicole de Loiselle (Claudette Colbert) que chega de surpresa à loja. As alusões sexuais só ali começam na tentativa do ingénuo machista milionário conquistar o amor da independente mas falida filha de De Loiselle (o impagável Edward Everett Horton), apesar das ferozes reticências da Tia Hedwige (a ainda mais impagável Elizabeth Patterson), apesar dos doutos ensinamentos de Shakespeare na peça «A Fera Amansada», apesar da tão pouco convicta infidelidade de Nicole com o secretário bancário Albert De Regnier (o fantástico David Niven!)…

Tudo aqui são cenários soberbos, extraordinário guarda-roupa, olhares maliciosos, silêncios subentendidos, risos e hálito a cebola! Aqui não há um único mal-entendido, apenas teatro, inteligência e diversão.


jef, dezembro 2020

«A 8ª Mulher do Barba Azul» (Bluebeared’s Eighth Wife) de Ernst Lubitsch. Com Claudette Colbert, Gary Cooper, Edward Everett Horton, David Niven, Elizabeth Patterson, Herman Bing, Warren Hymer, Franklin Pangborn, Armand Cortes, Rolfe Sedan, Lawrence Grant, Lionel Pape, Tyler Brooke. Argumento: Charles Brackett e Billy Wilder sobre a peça de Alfred Savoir. Produção: Ernst Lubitsch e William LeBaron.  Fotografia: Leo Tover. Música: Werner R. Heymann e Friedrich Hollaender. Guarda-roupa: Travis Banton. Cenografia: A.E. Freudeman. EUA, 1938, P/B, 82 min.

 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Disponível para Amar» de Wong Kar Wai, 2000




























Este filme é deslumbrante.

Todas as perguntas que fazemos enquanto, poeticamente, as imagens se sucedem são-nos respondidas minutos depois. Por terceiros. ( «Mas ela veste-se sempre assim para ir comprar massa?» ) Tudo parece estar fora de uma ordem vigente, de uma vontade moralmente aceite. Acima de tudo, o Amor. O confinamento exíguo, imbrincado, ombro com ombro, a tortuosa sequência de portas que se fecham ou se abrem; corredores estreitos, escadas íngremes, cozinhas enevoadas de vapor e suor, apenas conquistam o espaço maior da liberdade no interior de uma paixão que será sempre vigiada pelo pudor das esquinas, pelo rubor das chuvadas assombrosas. As flores estampadas, as sedas tecidas e os vidros translúcidos, as paredes a esboroar, uma máquina de cozinhar arroz que ficará sem uso, um bilhete sem resposta. Uma gravata duplicada, uma mala de senhora que se repete, uma relação extraconjugal que, no estrangeiro, se pressente consumada. E, na solidão, sentida como fracasso puro. Por isso, o espectador nunca lhes vislumbra as faces. Uma intimidade apaixonada que se identifica em planos mais que fechados, quase sobrepostos, ou em sincopados slow-motions. Uma intimidade que recrudesce nas sombras silenciosas das partituras de Michael Galasso e Shigeru Umebayashi ou no sotaque latino, mais melancólico que romântico, de Nat King Cole. Uma solidão e um segredo inelutáveis que, para serem sublimados, devem ser encerrados no interior do tronco oco de uma árvore.

A beleza deste filme é mesmo inesquecível.


jef, dezembro 2020

«Disponível para Amar» (In the Mood for Love) de Wong Kar Wai. Com Maggie Cheung, Tony Chiu-Wai Leung, Ping Lam Siu, Tung Cho 'Joe' Cheung, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Man-Lei Chan, Kam-Wah Koo, Szu-Ying Chien, Paulyn Sun, Roy Cheung. Argumento: Wong Kar Wai. Fotografia: Christopher Doyle, Pun-Leung Kwan, Ping Bin Lee. Música: Michael Galasso, Shigeru Umebayashi. Guarda-roupa: William Chang. Hong Kong, China, 2020, Cores, 98 min.