segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Sobre o filme «Salvatore Giuliano» de Francesco Rosi, 1962



 


















Nos últimos meses, a Itália persegue-me (e bem) cinefilamente. Qualquer coisa faz sentido entre «O Leopardo» (Luchino Visconti, 1963), «Marcha sobre Roma» (Mark Cousins, 2022) ou «O Sol do Futuro» (Nanni Moretti, 2023). E agora esta peça teatral de Francesco Rosi, «Salvatore Giuliano». 

A questão siciliana num mundo neo-realista entre as montanhas e o tribunal, entre a população de Montelepre que protege com garras e dentes um filho da terra que se torna chefe de um bando resistente ao poder italiano e que luta pela independência da ilha no pós-guerra. Salvatore Giuliano, que ao espectador apenas surge como cadáver, chorado, beijado e carpido por sua mãe, tornado um resistente sobrevivente, chefe de um grupo de bandidos que dilacera à metralha uma pacífica manifestação-piquenique promovida pelo Partido Comunista Italiano no 1º de Maio.

Tudo realizado na lógica operática em que o coro feminino das mulheres aldeãs não actrizes rivaliza com o coro masculino dos rapazes não actores que se agrupa em torno do protagonista-ausente, numa movimentação febril de massas tendo por palco um gigantesco cenário. Sobre essa gestão (soberba) do espaço mais amplo (ou mais restricto) onde se situa a acção dos grupos não profissionais é, ainda, impossível não me recordar, por exemplo, de «A Terra Treme» (Luchino Visconti, 1948) ou de «Ladrões de Bicicletas» ou de «Milagre de Milão» (Vittorio De Sica, 1948, 1950).

Aqui, é o teatro no mundo centrado na procura do seu propagonista!

 

jef, outubro 2023

«Salvatore Giuliano» de Francesco Rosi. Com Salvo Randone, Frank Wolff, Pietro Cammarata, Sennuccio Benelli, Pippo Agusta, Sennuccio Benelli, Pietro Cammarata, Max Cartier, Nando Cicero, Pietro Franzone, Giovanni Gallina, Vincenzo Norvese, Carmelo Oliviero, Renato Pinciroli. Argumento: Francesco Rosi, Suso Cecchi D'Amico, Enzo Provenzale, Franco Solinas. Produção: Franco Cristaldi. Fotografia: Gianni Di Venanzo. Música: Piero Piccioni. Itália, 1962, Cores, 123 min.

 

 

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Sobre o filme «O Assassino» de David Fincher, 2023








Será mesmo este filme uma comédia sobre a importância filosófica do “acto falhado”? Um assassino ultra-profissional a mover-se na esfera mafiosa dos altos dólares, um ser gélido, quase oriental, paciente, matemático, cauteloso, calculista, implacável, de olhar vítreo sobre os corpos mortos e os corpos vivos, falha um golpe há muito estudado e, para ele, aparentemente de fácil execução. Afinal ele tem um coração romântico e uma mansão-esconderijo demasiado exposta na República Dominicana. Conseguirá o belíssimo Michael Fassbender suportar a longíssima sequência de episódios sangrentos daquela missão impossível, sem mudar de expressão e repetindo em voz off a mesmíssima frase comportamental durante cerca de duas horas? Por que razão agarra ele um ralador de cenouras em vez de uma faca eléctrica? Por que razão, quase “criminosa”, se desperdiça os poucos minutos da aparição de Tilda Swinton?

Enfim, entretém bem a matiné dominical via netflix mas não satisfaz e até irrita um pouco a narrativa rápida e presunçosa. Sobretudo, faz-nos ir a correr rever Michael Fassbender em «Fome» (Steve McQueen, 2008) e Tilda Swinton em «A Voz Humana» (Pedro Almodóvar, 2020).


jef, novembro 2023

«O Assassino» (The Killer) de David Fincher. Com Michael Fassbender; Tilda Swinton; Charles Parnell, Arliss Howard, Kerry O'Malley, Sophie Charlotte, Emiliano Pernía, Gabriel Polanco, Sala Baker, Endre Hules, Bernard Bygott, Monique Ganderton, Daran Norris. Argumento: Andrew Kevin Walker baseado no romance gráfico de Alexis Nolent e Luc Jacamon. Produção: William Doyle e Peter Mavromates. Fotografia: Erik Messerschmidt. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Guarda-roupa: Cate Adams. EUA, 2023, Cores, 118 min.

 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Sobre o filme «Marcha Sobre Roma» de Mark Cousins, 2022



 






















A origem do mal.

O que mais me intriga no filme talvez seja o que mais me atrai. Essa exploração livre e um pouco caótica do cinema como método de entretenimento e exploração da verdade histórica. O cinema como arte manipuladora, fazendo da mentira o simulacro da realidade. Precisamente, começa por escalpelizar, fotograma a fotograma, o filme realizado em 1922 por Umberto Paradisi «A Noi». Um filme que se inicia em Nápoles e faz crer na posterior e triunfal chegada de Mussolini a Roma. Afinal, tudo não passou de um fracasso e de uma encenação pífia com a sistemática duplicação de imagens, a começar pela ausência da subida em pompa de Mussolini e dos Camisas Negras da escadaria do soldado desconhecido, pela alteração das datas para esconder a chuva, a lama ou pela pouca adesão popular às movimentações fascistas.

Além disso, a belíssima actriz Alba Rohrwacher fala para a câmara como uma mulher que sentiu o entusiasmo pela ascensão do regime e depois o confronto deprimente perante as suas bárbaras consequências.

Fala-se de «O Triunfo da Vontade» de Leni Riefenstahl (1935), de «O «Couraçado Potemkine» Serguei Eisenstein (1925). Também de «Um Dia Inesquecível» de Ettore Scola (1977). De outros filmes realizados pelo mundo na década de 20.

Fala-se de Hitler, de Franco, de Salazar, de Haile Selassie, da Maçonaria. E de como os rapazes fascistas gostam de aparecer às varandas. Também de Trump, de Bolsonaro, de Viktor Orbán, de Giorgia Meloni…

Fala-se de Roma como cenário de teatro e de passeio sobre os vestígios arquitectónicos do fascismo.

Fala-se, por fim, da reabertura de uma sala de espectáculos que da provável demolição se ergueu para assumir o seu papel como Cine-Teatro de intervenção, de estudo, de discussão da arte social do cinema, onde se mantiveram nas paredes os símbolos esculturais colocados anteriormente pelo regime de Mussolini.

Um filme que, através das imagens de recolha histórica, da encenação dramática e do fio contínuo temporal transportado pela realidade política oferece um emocional testemunho contra as hifas que o fascismo de Mussolini vem lançando até aos dias de hoje.


jef, novembro 2023

«Marcha Sobre Roma» (Marcia su Roma) de Mark Cousins. Com Alba Rohrwacher, Mark Cousins (voz), Donald Trump, Benito Mussolini, Gabriele D'Annunzio, Haile Selassie, Giacomo Acerbo. Argumento: Mark Cousins e Tommaso Renzoni. Produção: Carlo Degli Esposti, Nicola Serra, Antonio Badalamenti. Fotografia: Timoty Aliprandi, Mark Cousins. Itália, 2022, Cores, 98 min.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Sobre o filme «Estranha Forma de Vida» de Pedro Almodóvar, 2023












O filme gira em torno da figura de Jake, xerife respeitado, metódico, de espírito reservado, talvez taciturno, que logo no segundo minuto da curta-metragem, em conversa com um correligionário, ficamos a saber que tem um grave homicídio entre mãos por resolver. Entretanto, chega um velho amigo, Silva que lhe coloca dois graves dilemas. O do passado, de há 25 anos, uma paixão fulminante entre os dois que terá durado poucos meses e que o xerife deseja esquecer. E o do presente, o desse crime, que Jake deve sancionar e Silva, absolver.

Tudo perfeito, o maravilhoso Ethan Hawke (Jake), sempre de negro, nunca esboça um sorriso contra Pedro Pascal (Silva) luminoso, colorido, sem sombras de um passado que pretende transportar para o presente. Entre os dois, os dois dilemas. O tradicional inconciliável que traduz toda a génese do filme de cowboys deixando-os frequentemente presos ao seu cavalo, caminhando para um horizonte empoeirado e solitário.

Num filme de cowboys “americanos” a masculinidade está sempre presente e a homossexualidade é frequentemente subliminar. Aqui é o cerne do drama. E aqui é justa, parcimoniosamente contida e bela.

Só que um filme de cowboys levam muito tempo a percorrer a rua, a chegar ao deserto, a encontrar o mau, a preparar o duelo, a delinear a intriga, o dilema, a solidão e o saloon, o posto do xerife e o espírito do verdadeiro homem bom. E aqui, tudo está certo, mas em meia hora. Eu precisava de mais uns minutos para compreender e apreciar a paisagem.

E por que me explicaram no fim (em entrevista com Pedro Almodóvar) cada segundo de um filme que está explicado por si próprio! Pois quando saí do cinema já tinha perdido o fio da meada do “meu” filme!


jef, outubro 2023

«Estranha Forma de Vida» (Extraña forma de vida / Strange way of life) de Pedro Almodóvar. Com Ethan Hawke, Pedro Pascal, Pedro Casablanc, Manu Ríos, George Steane, José Condessa, Jason Fernández, Sara Sálamo, Oihana Cueto, Daniela Medina. Argumento: Pedro Almodóvar. Produção: Agustín Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Música: Alberto Iglesias. Guarda-roupa: Anthony Vaccarello. Espanha, 2023, Cores, 31 min.

          

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Sobre o filme «O Sol do Futuro» de Nanni Moretti, 2023


 





















Este filme ensina-nos a conviver com o passado, um passado que, quando o recordamos, ele próprio nos demonstra que o futuro é uma coisa efémera.

Não há volta a dar, os dias esgotam-se. E o passado resultou nisto.

Contudo, Giovanni/Moretti, nesse seu modo de realizador em crise dentro do pretérito de um partido comunista obsoleto; dentro de um cenário que nunca está suficientemente anotado; de actores criativos e actrizes de usam feias chinelas; de produtores falidos e circos húngaros em exílio; de um casamento na cadeira de psiquiatra; de uma esposa que produz um filme de falsa violência; irá reverter a existência numa espécie de relatório final. Ou num rascunho, pois aquela até ao fim pode vir sempre a ser alterada.

Contudo, Giovanni/Moretti olha a câmara de frente e nega para si próprio o campo-contracampo. Fala-nos nos olhos e diz-nos que se quer ir embora, esconder-se debaixo dos lençóis, tapar-se com o cobertor e ver na televisão um filme de Fellini a comer um gelado. Em família. Ele é impositivo mas não se consegue impor a ninguém. Nem à própria vida, ao próprio rascunho do futuro breve.

Fellini já tinha falado desse futuro final em «Fellini 8 ½» (1963). Wim Wenders em «O Estado das Coisas» (1982).

Contudo, Moretti/Giovanni propõe alterar-lhe o fim, torná-lo mais ligeiro, talvez mais dançável, por isso, mais consciente (como diria David Byrne).

Acrescentar-lhe a ternura, ou um sorriso, ou uma palavra, ou uma ideia.

Ou um filme fundamental.

Colocar o futuro em pausa.


 jef, outubro 2023

«O Sol do Futuro» (Il sol dell'avvenire) de Nanni Moretti. Com Nanni Moretti, Margherita Buy, Silvio Orlando, Barbora Bobulova, Mathieu Amalric, Zsolt Anger, Jerzy Stuhr, Arianna Pozzoli, Valentina Romani, Teco Celio, Elena Lietti, Flavio Furno, Francesco Brandi, Michele Eburnea, Laura Nardi, Giuseppe Scoditti, Arianna Serrao, Blu Yoshimi. Argumento: Francesca Marciano, Nanni Moretti, Federica Pontremoli, Valia Santella. Produção: Nanni Moretti e Domenico Procacci. Fotografia: Michele D’Attanasio. Música: Franco Piersanti. Guarda-roupa: Silvia Segoloni. Itália / França, 2023, Cores, 95 min.

 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Sobre o filme «Orlando, A Minha Biografia Política» de Paul B. Preciado, 2023






















Nem documentário. Nem reportagem. Nem ficção. Esclarecedor sem ser didáctico, paternalista. Acima de tudo, este filme traduz através do teatro, da sobriedade, do humor e da poesia construída em torno da personagem de Orlando de Virginia Woolf (1928), o complexo mundo contemporâneo da transsexualidade e das pessoas que assumem serem não-binárias, ou seja, que não se vêem como homem ou como mulher, géneros opostos e exclusivos, mas integrados numa escala ou gradiente entre um sexo e o outro. Sem dogmas esclarece. Sem rodriguinhos expõe a questão social. Sem lamechices ouvimos na primeira pessoa, neste caso, pelos diversos Orlandos vestidos (ou travestidos) de actores-reais que se consideram não-binários e, actualmente, percorrem no seu interior o caminho de transformação e descoberta de um novo ser nos seus próprios corpo e mente. A dificuldade de definição sexual; o processo de transformação a partir da puberdade; o papel da toma de hormonas sintéticas e das cirurgias; como se estipulará administrativamente a continuidade do número fiscal a uma pessoa cuja identidade já não corresponde aos dados iniciais.

É um filme que não tem contemplações, nem exibicionismo, nem autocomiseração como forma de política de conquistar adeptos para a causa. Nada disso. É mesmo um filme político que usa o princípio estético e a ternura para levar a água ao seu moinho e afirmar a necessidade de se criarem estatutos e compreensão para um mundo em afirmação que não será assim tão novo quanto o pintam.


jef, outubro 2023

«Orlando, A Minha Biografia Política» (Orlando, ma biographie politique) de Paul B. Preciado. Com Arthur, Emma Avena, Amir Baylly, Jenny Bel'Air, La Bourette, Nathan Callot, Kori Ceballos, Liz Christin, Iris Crosnier, Naëlle Dariya, Tom Dekel, Clara Deshayes, Virginie Despentes, Eleonore, Castiel Emery, Le Filip, Pierre et Gilles, Noam Iroual, Vanasay Khamphommala, Lillie, Elios Lévy, Tristana Gray Martyr, Victor Marzouk, Frédéric Pierrot. Argumento: Paul B. Preciado. Produção: Yaël Fogiel e Laetitia Gonzalez. Fotografia: Victor Zébo. Música: Clara Deshayes. França, 2023, Cores, 98 min.

 

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Sobre o livro «O Corsário Negro» de Emilio Salgari. Círculo de Leitores, 1997 (1898). Tradução de António J. Pinto Ribeiro.










Emilio de Roccanera, nobre italiano e senhor de Ventimiglia, lidera o leme e as aventuras marítimas do grande navio “Relâmpago” pelos mares das Caraíbas, mares que circulam entre as riquezas das colónias espanholas, Cuba, Golfo do México, Venazuela... Mas o Corsário Negro não pretende as riquezas que rouba e que vai distribuindo pelos flibusteiros e bucaneiros que servem a equipagem do navio. Ele apenas quer recuperar o corpo enforcado do seu irmão o Corsário Verde, exposto na praça de Maracaíbo a mando do seu inimigo figadal, o flamengo a soldo dos espanhóis, Wan Guld. Esse sim, o arqui-inimigo e traidor para quem deseja a vingança suprema. A operação é coroada de êxito apesar de tão arriscada como aventurosa, secundada pelos companheiros de armas Carmaux e Wan Stiller, dois piratas que até então navegavam com um terceiro irmão assassinado, o Corsário Vermelho, e ainda pelo forte e leal negro Moko.

Claro que nenhum dos heróis morre! Claro que ninguém sequer fica ferido! Estejam descansados. E ainda aparece o amor misterioso e contido, talvez mesmo condenado, pela belíssima duquesa Honorata, feita prisioneira para servir um chorudo resgate. E ainda temos a eterna, lenta e sofrida progressão pelos mangais tropicais de Maracaíbo, onde as plantas, animais, feras e invertebrados são descritos com minucia, por vezes debaixo de violentas tempestades tropicais sob a luz de relâmpagos e fortes trovões comparados a carros e comboios apesar de estar em pleno século XVII.

Mas isso pouco importa, nem Salgari terá conhecido de perto as tropelias náuticas que narra e descreve. O que é bom reconhecer é que o autor italiano tem o jeito espantoso de alongar a narrativa ou de apressá-la a seu belo prazer, sem olhar a meios, tantas vezes sem coerência, mas dando-lhe um ritmo infatigável que, juntamente com a mestria de encher a história de apontamentos misteriosos que se desenvolverão mais além, torna-o um dos grandes mestres literários das leituras oníricas e novelescas dos adolescentes de antanho.

A seguir, pois claro, lerei «A Rainha das Caraíbas» para saber como a história continua.


jef, outubro 2023