sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre o filme «A Voz da Lua» de Federico Fellini, 1990

 





É extremamente difícil escrever sobre «A Voz da Lua». Ficou como epitáfio da obra e da vida de Federico Fellini, personagem que nunca separou o seu dia-a-dia dos filmes que ia criando, também das personagens, dos cenários reais-falsos que construía, da música de filarmónica, da fantasiosa trupe circense que sempre manteve junto a si. Porém, este não é um testamento, apenas o último filme que realizou. Mas é tão denso, resume tão bem tudo que para trás ficou dito e baralhado; é tão desencantado no modo abrupto como a derradeira cena termina («Se todos fizéssemos um pouco de silêncio, certamente havíamos de ouvir alguma coisa.», vindo do alto da Lua ou do fundo de um poço, acrescento eu); que é pouco provável que alguém o consiga associar à maravilhosa nostalgia que o universo felliniano deixou para todos nós.

A desamparada e ingénua figura de Roberto Benigni, no papel de Ivo Salvini, apaixonado platonicamente por Aldina Ferruzzi (Nadia Ottaviani), que o expulsa atirando-lhe um sapato de cinderela (e que ele lhe deseja, a todo o custo, devolver), faz o contraponto com a figura desesperada, revoltada e nervosa do advogado Gonnella (Paolo Villaggio) que pretende reverter o presente para o conforto de um passado desaparecido. As televisões de Berlusconi e as festas barulhentas a toldar a verdade dos factos e os singelos passos de uma valsa. Salvini e Gonnella são as duas faces de uma Lua para sempre encarcerada do desalento.

É, para mim, impossível sair de «A Voz da Lua» sem a absoluta sensação de abandono e de fim. Talvez mesmo, de morte.


jef, setembro 2020

«A Voz da Lua» (La Vocce della Luna) de Federico Fellini. Com Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Marisa Tomasi, Nadia Ottaviani, Angelo Orlando, Dario Ghirardi, Dominique Chevalier, Nigel Harros, Vito, Uta Schmidt, George Taylor, Susy Blady, Giordano Falzoni, Ferruccio Brembilla. Argumento: Federico Fellini, Tulio Pinelli e Ermanno Cavazzoni, baseado no romance deste último «Il Poema dei Lunatici». Fotografia: Ronino Delli Colli. Música: Nicola Piovani. Produção: Mario e Vittorio Cecchi Gori. Itália / Paris, 1990, Cores, 118 min.

 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Sobre o filme «Uma Gota de Mel» de Tony Richardson, 1961









 





















Manchester on fire and childhood.

Saído da peça de teatro escrita por Shelagh Delaney quando esta tinha 19 anos, conta a história de Josephine (Rita Tushingham) e do seu relacionamento com a sua mãe, Helen (Dora Bryan), com o namorado desta, Peter (Robert Stephens), com o jovem marinheiro negro Jimmy (Paul Danquah), com o jovem estilista e homossexual Geoffrey Ingham (Murray Melvin)...

Na realidade, um filme que utiliza a imagem triste, pobre e suja de Manchester (na melhor fotografia a preto de branco de Walter Lassally), para distanciar do neo-realismo o trágico realismo do sofrimento humano, aproximando-o do expressionismo dramático do cinema mudo.

Este filme deixa-nos a inesquecível substância teatral e emocional, diria mesmo afectiva, das grandes sagas do cinema. Os olhos de Josephine reflectem a inevitável inocência para a pulsão fatídica de Keechie (Cathy O’Donnell) em «Os Filhos da Noite» (Nicholas Ray, 1949), a mesma dádiva apaixonada mas sem retorno de Gelsomina (Giulietta Massina) em «A Estrada» (Federico Fellini, 1954). Também aqui as crianças rodeiam as personagens, coro protector ou enxame ameaçador. Afinal, a cantilena infantil reconcilia-nos com a vida ou acusa uma sociedade de pós-guerra, sem memória, ignóbil e desumana?

Um filme que não pode ser ignorado!


jef, setembro 2020

«Uma Gota de Mel» (A Taste of Honey) de Tony Richardson, 1961. Com Dora Bryan, Robert Stephens, Rita Tushingham, Murray Melvin, Paul Danquah, Michael Bilton. Argumento: Tony Richardson e Shelagh Delaney, baseado na peça desta última. Fotografia: Walter Lassally. Música: John Addison. Produzido: Tony Richardson. Grã-Bretanha, 1961, P/B, 101 min.

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Sobre o livro «Satyricon» de Petrónio. Tradução de Delfim F. Leão. Cotovia, 2005










A História momentânea da literatura.

A maior valia trazida pela recente vaga de traduções directas de clássicos gregos e latinos liga-se à plena consciência da sua contemporaneidade. Sem negar a soberana importância de tais obras, razão primeira que as fez chegar até nós através dos séculos, a nova guarda de tradutores trabalha directamente para os leitores de hoje. Negando essa comum, e talvez presunçosa, tendência entre historiadores e literatos de tentarem fixar as obras no futuro, esgotando-as e cumulando-as de epítetos e prelecções que retiram o aliciante carácter de surpresa à leitura. Eles entregam os livros simplesmente à normal compreensão (diversão) do amante da leitura. É o caso da presente edição de «Satyricon» de Petrónio. O tradutor Delfim F. Leão reconhece que o texto, escrito presumivelmente no século I sob os auspícios do extravagante Nero, poderia naturalmente apresentar-se sobre diversas perspectivas e códigos de linguagem. Por isso, na página de rosto a obra é apresentada como a “versão portuguesa de Delfim F. Leão”. A escolha dos instrumentos linguísticos recai então sobre os que sugerem o maior afastamento do tradutor, despojando a obra de explicações interlineares e adaptando o vocabulário de forma a colocar o texto dentro do tempo do leitor e, em simultâneo, acentuando a sensação de clivagem entre o género erudito e o “popular”. Porque “Satyricon” reflecte a sua modernidade narrativa, precisamente, numa fragmentação de forma e conteúdo, que o tempo apenas ajudou a aprofundar, sonegando-lhe parte considerável dos livros que na origem o integravam. Uma série de relatos mais aventurosos que venturosos fazem circular o trio ou quarteto amoroso (a contar com o poeta malquisto mas astuto gerador de heranças, Eumolpo) num rodopio de situações que ostentam a ironia sobre a arte, o sexo, a tradição literária ou os novos-ricos, mais como síntese dialéctica, contraponto dramático, promiscuidade de estilos, do que como crítica moralmente explícita ao poder ou aos costumes. Um facto que, apesar de tudo, não terá poupado Petrónio do ‘suicídio induzido’, executado contudo de forma tão teatral como a sua obra, uma ironia negra que faz lançar sobre o final canibalesco de «Satyricon» o véu pesado da tragédia.


jef, junho de 2006

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Sobre os livros «Amores» e «Arte de Amar» de Ovídio e «Caminhos do amor em Roma» de Carlos Ascenso André. Cotovia, 2006






É nu o Amor

 

“alguma vez terá fim o teu amor,

ó poeta, tão teimoso no teu assunto?”

Ovídio, “Amores”, 3.1.15-16

 

Carlos Ascenso André pode afirmar, através do seu meticuloso estudo sobre o amor em Roma, que Ovídio é exímio em contradizer-se. Porém, mais incoerente do que o poeta é a essência própria do amor. Ovídio terá, assim, por atenuante, as ínvias características do tema que apaixonou tanto os mestres da antiguidade como os posteriores mestres académicos que passaram uma vida a dissecar tão determinantes elegias.

Se o gozo no fingimento e a técnica da dissimulação fossem, afinal, os únicos alicerces da sedução, esse patamar intermédio para o final usufruto do amor, aqui tomado pelo contínuo encadeado de efémeros actos de prazer, então por que razão os poetas explicitariam também a sofrida escravidão face ao objecto amado quando este lhes é recusado em permanência? Se Roma do séc. I a. C. não valorizasse o prolongado, quantas vezes doloroso, romantismo que impregna o sentimento maior, então por que versejariam desta forma os poetas que aos salões eram chamados para encantar os convivas? Deste modo, Cíntia não seria apenas um devaneio para Propércio, nem Lésbia o fútil objecto do amor de Catulo. Nem mesmo Délia, Némesis ou Márato caprichos momentâneos para a libido de Tibulo. Quanto valeria o sentimento que Corina despertava em Ovídio, esse poeta, o mais prazenteiro de todos, executor da exaustiva e tecnicista cartilha da «Arte de Amar»? Então não escreve ele que a conquista do amor deve ser conseguida sob o ferro da insinuação e do disfarce?

Na realidade, Ovídio surge como dono da excelente arte de manipular circunstâncias, oferecendo a táctica venatória ao predador ainda inexperiente, no entanto, logo a seguir, parece não se importar em contradizer-se, embora talvez não tanto como outros contemporâneos, surgindo como presa vulnerável manietada pelo assombro do seu enlevo, expondo-se a um fascínio cuja verdade imponderável se situa a meio termo entre o prazer e o pudor.

Porém, essa mesma verdade não se encontra na essência do facto narrado poeticamente, ausente que está há mais de vinte séculos, mas na interpretação dada à palavra que o poeta registou e na posterior adaptação trabalhada pela arte do tradutor. A tarefa de Carlos Ascenso André reveste-se, por isso, de uma particular responsabilidade pois deve consolidar e transmitir, na actualidade da língua portuguesa, a sua visão sobre a sociedade romana, a língua latina e o conceito pessoal do escritor sem, contudo, ferir a eterna chama volátil do poema.

«Caminhos do amor em Roma» é a obra que introduz, circunstancia e justifica o citado princípio do contraditório, sem a qual «Amores» e o sequente «Arte de Amar» tornar-se-iam apenas mais uma versão portuguesa da poética amorosa de Ovídio. Este conjunto de obras, à qual se juntará possivelmente «Cantos de tristeza», reflectindo a poesia de Ovídio sobre o exílio, evidencia o notável panorama actual da academia portuguesa. Associada a uma corajosa política editorial, a recente universidade extravasa os portões da escola e entrega nas mãos do leitor comum não só magníficas traduções, realizadas a partir dos originais e respeitando a sua métrica poética, como associa textos como é o caso deste estudo que, de forma clara e pedagogicamente intuitiva, concede novos patamares de conhecimento a uma leitura contemporânea da literatura ancestral, património cultural da humanidade.

Na ausência de semelhante enquadramento, talvez não fosse tão perceptível a deliciosa insolvência que une, separando-os, os três livros incluídos em «Arte de Amar» e aqueloutros que estruturam «Amores». Se na primeira colectânea, de índole marcadamente doutrinal, a aprendizagem reparte-se pela arte da sedução, com um livro dedicado aos homens e outro às mulheres, e ainda um terceiro onde se explicita a técnica de prolongar o amor; em «Amores», as elegias possuem um carácter mais livre, lúdico e espontâneo quanto ao desenvolvimento dos temas e à sua sequência (se for lícito aplicar tais adjectivos aos clássicos da literatura).

Assim, a «Arte de Amar» celebra o leviano hedonismo amoroso, expondo, alínea por alínea, o método mais apropriado para laçar as vítimas, levando por vencidas as adversárias, fossem elas casadas ou não. Neste âmbito, o adultério e o matrimónio são talvez os temas literariamente mais interessantes aqui tratados, relativamente aos quais os textos e notas complementares de Carlos Ascenso André vêm sublinhar como os actos de amor na Roma de então se regiam sob pragmáticas bases sociais, determinadas pelo contrato e pela detenção do poder, obrigando inclusive o poeta a excluir tacitamente certas mulheres do alvo da sedução, dado o seu estatuto não o permitir, por respeito possivelmente aos mais recentes decretos do imperador Augusto.

Em «Amores» são já bastante mais nítidos os exemplos onde o poeta se vê, em certa medida, prisioneiro desse irrequieto sentimento que viria a consolidar, impregnando, séculos mais tarde, as poesias renascentista e romântica. São poemas que desvendam o espírito maior de Ovídio na exploração dos temas através de uma complexa assunção sintáctica. Exemplos dessa mais bela e contraditória veia poética são as elegias onde Corina resplandece numa tarde que declina (1.5), onde se repudia a invejosa pressa da Aurora (1.13) ou onde o protagonismo é roubado por um anel oferecido (2.15).

Qual será então mais verdadeiro, o pragmatismo que reduz o amor a um mecanismo aperfeiçoado pelos profissionais da sedução, apartando-o do simulacro contratual da sociedade que deseja a perpetuidade de bens e descendência, ou, pelo contrário, a concessão que lhe atribui as doces virtudes e as penas amargas de uma prisão desejada?

Quem responde é o contraditório dos poetas latinos da antiguidade que, na sua maior ou menor ingénua leviandade, melhor revelam a verdade suprema: o amor foi, é e será o maior sentimento de todos os tempos, a melhor criação da humanidade, ser tão único e incongruente que jamais alguém o poderá cobrir com as delicadas vestes da ilusão.

 

 “É nu o Amor e não aprecia artefactos de beleza.”

 

(Propércio, 1.2.8) 

 

p.s. para quando a tradução e edição das cartas apócrifas de Ovídio «Heroides»?         

 

jef, novembro 2006

«Arte de Amar» e «Amores» de Ovídio. Tradução de Carlos Ascenso André, Cotovia, 2006

«Caminhos do amor em Roma – sexo, amor e paixão na poesia latina do séc. I a. C.» de Carlos Ascenso André, Cotovia, 2006

Sobre o filme «Os Inúteis» de Federico Fellini, 1953

 

 
































Moraldo (Franco Interlenghi), Alberto (Alberto Sordi), Fausto (Franco Fabrizi), Leopoldo (Leopoldo Trieste) e Riccardo (Riccardo Fellini) são cinco amigos inseparáveis que vivem ao correr da vida, sem ocupação e em dolce far niente. Seriam bons vivants se fossem ricos e as famílias que os sustentam não fossem pobres ou remediadas, saídas de uma Itália “neo-realista” do pós-guerra, devastada e tristemente alegre. Estamos a um ano da realização de «A Estrada».

E o mundo de Fellini, auto-cinematográfico, pantomineiro, circense, simultaneamente alegre e abandonado, já construído por episódios sucessivos, aparece aqui condensado numa comédia onde sabemos que tudo pode acabar num mar de nostálgicas premências. Um mundo onde as mulheres são o mote, a regra e a direcção, mas o homem, de modo infantil e volúvel, obstinadamente lhes desobedece.

As cenas em que o baile de Carnaval substitui as de circo, onde todos estão travestidos em personagens luxuriantes, terminam de manhã, com um Alberto em lágrimas, bêbado, vestido de mulher, a arrastar uma cabeça de gigantone, irremediavelmente devastado ao ver a irmã, sustento da casa, fugir com o amante. Vai amparado por Moraldo, que não o abandona mas vai ficando cada vez mais entristecido. Nesse baile, todas as personagens entram num jogo quase fatal e exuberante. O seu destino foi ali traçado.

As cenas que antecedem o grande final, essas em que todos (e Fausto principalmente) correm angustiados atrás de uma Sandra (Eleonora Ruffo) desaparecida com um bebé nos braços, são de um apuro sublime da tragicomédia cinematográfica. Um non sense muito mais expressionista que neo-realista, a tocar o génio das comédias densas de Charlie Chaplin.

E Charlot reaparece de novo na minha memória, numa das cenas mais memoráveis do cinema, quando Moraldo-Fellini parte de comboio, de madrugada, sem avisar e, na estação, surge apenas a despedir-se a criança-factor-ferroviário, o seu amigo-consciência, a imagem “maternal” da realidade fora da encenação.


«Onde vais?

Não sei. Vou-me embora.

Mas o que vais fazer?

Não sei. Preciso de partir. Vou-me simplesmente embora.»


E o comboio parte inelutável e, na sua trepidação, olhamos o presente-futuro dos amigos que ficam, dormindo em inocente tranquilidade.


 jef, setembro 2020


«Os Inúteis» (Il Vitelloni) de Federico Fellini. Com Franco Interlenghi, Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Leopoldo Trieste, Ricardo Fellini, Eleonora Ruffo, Jean Brochard, Claude Farell, Carlo Romano, Enrico Viarisio, Lida Baarova, Arlette Sauvage, Vira Silenti, Achille Majeroni, Guido Martufi. Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tulio Pinelli, baseado numa ideia deste último. Fotografia: Otello Martelli, Luciano Trasatti, Carlo Carlini. Música: Nino Rota. Guarda-roupa: Margherita Mariani, Bomarzi. Produção: Lorenzo Ogoraro. Itália / Paris, 1953, P/B, 103 min.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Sobre o filme «Oito e Meio» de Federico Fellini, 1963









 



























1000 personagens em busca de realizador.

Quando, em 1921, Luigi Pirandello escreveu «Seis Personagens à Procura de um Autor», essa peça quase ingovernável onde as personagens invadem o palco revoltadas com o decorrer dos acontecimentos e a ausência inepta do autor-encenador, o dramaturgo de Agrigento desconhecia que, 40 anos depois, surgiria uma extraordinária sequela, não menos bela, não menos louca, história total, real, demente, comovente, onírica, coerente, abstracta econsciente, esta extraordinária fábula fantasiada por Federico Fellini e pela sua legião de trabalhadores-cúmplices.

Um ajuste de contas consigo próprio e com o tempo que passa, com o processo criativo e a obsessiva página em branco de Mallarmé, também com todos os que veneram a obra do seu duplo Guido (Marcello Mastroianni) e tanto lhe exigem. Também com os críticos furiosos que acabam enforcados. Uma espécie de pedido de desculpa perante as lágrimas da abandonada e sempre próxima mulher Luisa (Anouk Aimée), com a amante abandonada Carla (Sandra Milo), mas sempre ali ao lado.

Personagens preteridas tal como a fé em busca de uma centelha de fé, como a infância reprimida, a paternidade, a maternidade, a possível doença, o fim à vista…

Uma troca acalorada de argumentos com outro Mastrioanni, o jornalista sem escrúpulos mas em consciência do fim do mundo, Marcello Rubini de «A Doce Vida», realizado três anos antes.

Talvez uma confissão à beira de um confessionário onde cabe o mundo todo e o seu circo, reinventado pelo ilusionismo de Maurice (Ian Dallas) que obriga Guido a ir em frente e a lançar a nave espacial aos céus, fazendo descer pela escadaria, irmanados, todos, agora vestidos de branco, mortos e vivos, rindo e dançando, seguindo de mãos dadas a banda filarmónica tocada por palhaços e dirigida por aquela criança flaustista, também ela de branco, que se vai desvanecendo no ecrã.

«A vida é uma festa, vamos vivê-la.», repete Guido pegando na mão de Luisa e dirigindo-a para a roda.


jef, setembro 2020


«Oito e Meio» (Otto e Mezzo) de Federico Fellini. Com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinali, Anouk Aimée, Sandra Milo, Rosella Falk, Madeleine Lebeau, Caterina Boratto, Barbara Steele, Mario Pisu, Guido Alberti, Mario ConocchiaJean Rougeul, Edra Gale, Ian Dallas, Annibale Ninchi, Giuditta Rissone, Tito Masini, Yvonne Casadei, Marco Gemini. Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tulio Pinelli, Brunello Rondi. Fotografia: Gianni Di Venanzo. Música: Nino Rota. Guarda-roupa: Piero Gherardi. Produção: Angelo Rizzoli. Itália, 1965, P/B, 114 min.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Sobre (a bela editora Cotovia) e o livro «Odisseia» de Homero. Tradução de Frederico Lourenço. Cotovia, 2003


 









Super-homem Super-poema.

O tradutor da nova edição de «Odisseia» de Homero consegue a façanha de repor a verdade dos factos e, ao mesmo tempo, revelar a ordem exacta dos factores. Deste modo, se atribuirmos o valor de “palavras” aos factos ou aos factores, logo surge, em termos silogísticos, a correspondência de “poesia” para a realidade e a ordem. Ou seja, no presente livro, a verdadeira escolha das palavras adapta-se à estrutura ordenada do velho poema grego, concedendo finalmente aos leitores-ouvintes portugueses o prazer pleno da leitura-audição de um dos mais famosos livros do mundo. Porque era de ausência de poesia o que padeciam as anteriores versões portuguesas, que agora surgem, por comparação, prosaicas, circunspectas, ininterruptas, enfadonhas. Logo “falsas” e “desordenadas”.

E se o Poema é o mais depurado estado da arte, em que o conceito supera constantemente a forma, e vice-versa, fazendo-os coincidir numa unidade que se pretende perfeita, então esse poder, e porque não necessidade, adquire uma magnitude sem limites quando a sua origem remonta aos tempos em que as palavras ditas ainda não tinham equiparação linear gráfica e todas as histórias eram apenas contadas ou cantadas. O tempo em que a palavra não podia ser relida devendo seguir, no presente, a verdade que a narrativa pretendia descrever. O tempo em que a história, aperfeiçoada pelas gerações que a cantavam, devia tornar-se realidade e soar perfeita aos ouvintes. São estas palavras, transcritas da voz para o papel, descritas em doze mil versos distribuídos por vinte e quatro cantos, trazidas directamente do grego ancestral para a língua portuguesa contemporânea, que o tradutor faz regressar, submetendo o leitor à transfiguração para espectador do mais comovente canto sobre alguém de carne e osso que se transforma em divino e herói, ou no seu inverso. Agora, a odisseia de Ulisses, homem valente, astuto e sensível, vem soar aos ouvidos do leitor português como uma história simultaneamente encantada e verosímil. Assim o Poema completa o ciclo, encontra-se com o conceito que descreve e retira a verdade do próprio corpo, inteiro e estruturado.

O leitor-ouvinte é levado a entusiasmar-se com os episódios sem perder o fio à meada do romance ou a forma modernista, quase cinematográfica, com que os truques narrativos se encadeiam. As palavras não podem perturbar a alternâncias de cenas simultâneas embora geograficamente distintas, a sucessão dos diferentes planos consecutivos, ou a flutuação do género narrativo até chegar ao tempo presente, altura em que a história se desenrola em ritmo acelerado. Para isso a ordem das palavras deve ser rigorosa para que sigam a verdade dos versos, pois estes perseguem fervorosos a agilidade da narração e o carácter intemporal e universal das personagens. Para isso, são imprescindíveis as repetições de vocábulos e de versos, as pausas para a compreensão e as adaptações subtis, mas não menos poéticas, das deflexões silábicas que acompanham a cadência homérica. São estas algumas características que fundamentam o entusiasmo da leitura e, porque não, da declamação desta Odisseia.

Inclusive, o tradutor abandona a tendência fácil e paternalista de tentar explicar tudo o que se esconde por trás de um texto com tantos séculos de fama, proveito e academismo. Além de dois textos de abertura, sucintos e circunstanciais – Prefácio e Introdução –, a ausência absoluta de notas filológicas, filosóficas ou geográficas permite ao leitor-ouvinte criar aquilo a que tem direito quando decide pegar num qualquer livro, seja ele famoso ou não. A liberdade de construir a sua interpretação, de produzir a sua análise crítica, de se deixar enlevar pelos seus próprios sentimentos e imaginar as geografias que a memória lhe inspira.

Pode agora o leitor-ouvinte comum dar largas à sua emoção, pois pouco lhe interessará se a realidade da guerra entre gregos e troianos se esfuma em episódios mais ou menos incríveis sobre a bravura do Mediterrâneo e dos que nele habitam. Nada é realmente importante quando ainda mal sabemos se, um dia, Ulisses será recompensado pela sua obstinação em regressar a casa, abdicando da imortalidade divina que a irresistível Calipso lhe oferece em troco de um pouco do seu amor. Por enquanto, temos de dar crédito à obscura gruta do temperamental e esfomeado Ciclope Polifemo, aos inusitados hábitos alimentares dos Lotófagos e Lestrígones, aos poderes meteorológicos de Éolo, aos grunhidos dos valorosos companheiros transformados em porcos pela bela Circe, ao canto das sedutoras Sereias, aos urros ferozes de Cila e Caríbdis, aos gritos desvairados dos pedaços de vacas do Sol enquanto rodam no espeto, mas principalmente às inquietantes predições de Tirésias vindas do mundo espectral de Hades. Tal como Ulisses, estamos nas mãos dos deuses que parecem mais apaixonados, volúveis e menos sensatos que os próprios humanos. O que interessa é que estamos prontos a oferecer libações à insinuante deusa Palas Atena para que entregue sem demora o nosso herói, mesmo que seja nu e abandonado, aos cuidados da doce Nausícaa, princesa dos Feaces. Assim, ele mais depressa chegará à pátria Ítaca onde, revigorado pelo poder dos deuses, pelo amor da família e pela lealdade dos súbditos, terá ainda de ultrapassar a mais difícil provação e vencer todos quantos ele mais reprova.

E até à última linha somos levados pela história através da bela Poesia...

(Quem subtraiu do super-poema as peripécias trágico-marítimas de Ulisses, senhor de Ítaca, rei da Nostalgia e da Saudade, foi o infatigável tradutor-escritor-poeta Frederico Lourenço. A ele, à editora Cotovia e também a Homero – fosse ele lá quem fosse – , devemos empenhado tributo por terem acrescentado um precioso tomo à nossa mais desordenada, embora verídica, biblioteca. A Biblioteca das Viagens, Aventuras, Mentiras e Utopias: de Júlio Verne a Jonathan Swift, de Fernão Mendes Pinto a Bruce Chatwin, de Cervantes a Italo Calvino...)


jef, setembro de 2003