quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Sobre o filme «A Filha Perdida» de Maggie Gyllenhaal, de 2021




Não fosse a pragmática e eficaz realização, a primeira saliente-se, de Maggie Gyllenhaal, que não nos deixa um minuto sossegados no interior do mal-estar extremo de Leda, a professora de literatura comparada que decide ir passar férias sozinha na ilha grega de Spetses.

Não fossem ainda as impressionantes interpretações de Olivia Colman (Leda, na actualidade) e de Jessie Buckley (Leda, a jovem mãe de duas meninas e estudante universitária); para além da beleza de Dakota Johnson (Nina, a mãe da menina que se perde na praia e a quem roubam a boneca preferida) e de Dagmara Dominczyk (Callie, uma familiar policial e desconfiada); e as interpretações dos saudosos Ed Harris (Lyle, o velho americano que entrega as casas aos turistas) e Peter Sarsgaard (o professor Hardy, por quem a jovem Leda se apaixona e por quem vai abandonar as filhas), e o filme resumir-se-ia a um monte de actos falhados e maldades inconsequentes que Sigmund Freud tinha dificuldade em explicar.

Ficaria o espectador apenas centrado num chorrilho de desagradáveis situações sobre a recusa maternal, a universal suspeita sobre o próximo, o ressabiamento por um passado mal resolvido e o princípio da maldade como modo de sublimar o trauma.

Ou talvez a minha memória cinematográfica ainda permaneça no enlevo desse poço sem fundo de ternura (e onde a recusa paternal é o centro de todo o afecto) que dá pelo nome de «Lua de Papel» (Peter Bogdanovich, 1973).

Aviso final: E nunca tirem férias nas praias gregas de Spetses!


jef, fevereiro 2022

«A Filha Perdida» (The Lost Daughter) de Maggie Gyllenhaal. Com Olivia Colman, Dakota Johnson, Jessie Buckley, Ed Harris, Peter Sarsgaard, Dagmara Dominczyk, Paul Mescal, Robyn Elwell, Ellie Mae Blake, Jack Farthing. Argumento: Maggie Gyllenhaal baseado no romance de Elena Ferrante. Produção: Charles Dorfman, Olivia Colman, David Gilbery, Maggie Gyllenhaal. Fotografia: Hélène Louvart. Música: Dickon Hinchliffe. EUA, Grã-Bretanha, Grécia, 2021, Cores, 121 min.

 


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Sobre o filme «Coração Selvagem» de David Lynch, 1990























Longe de «Eraserhead» (1977) ou «Inland Empire» (2006), talvez um dos filmes de David Lynch onde o realizador se espraia sem pudor em todas as suas maiores dimensões: o humor, a fantasia, a moralidade, o erotismo, a exuberância dos decores e da música. As histórias cruzadas com um nexo desconexo. Assumindo a maior das suas dimensões – a comédia –, usa e abusa desse extravagante e delicioso modo de oferecer aos actores a liberdade de lançarem as personagens sobre a narrativa. Uma espécie de bailado burlesco. As personagens são a própria história como se se tratasse de um livro de contos fictícios, dilacerantes e muito divertidos. Um filme da Disney para crianças que não têm medo do escuro, do sangue, do perigo das estradas americanas ou do sexo. Com bruxas más e fadas madrinhas! Aqui nada falta!

História de amor indestrutível que todos desejam destruir (mas jamais conseguirão). A começar pela mãe-madrasta de Lula (Laura Dern), a extraordinária Marietta Fortune (Diane Ladd), que, desejando sexualmente o genro Sailor (Nicolas Cage), pretende a todo o custo matá-lo pois este terá assistido à morte (muito pouco acidental) do marido e pai de Lula, num incêndio provocado. Sailor, exibindo o seu casaco pele de cobra, símbolo da sua individualidade, por duas vezes é esperado à porta da prisão pela sua amada. Na última, cantar-lhe-á «Love Me Tender», conforme prometido. Até lá, os amantes inseparáveis serão confrontados com Bobby Peru (Willem Dafoe), Santos (J.E. Freeman), Johnnie Farragut (Harry Dean Stanton), Juana (Grace Zabriskie), Uncle Pooch (Marvin Kaplan) ou Perdita (Isabella Rossellini).

Um pouco de Fellini pela humanidade na extravagância. Um pouco de Coppola pelo colorido desabrido da imaginação. Um pouco de Tarantino pelo modo de construir uma peça única a partir do fundo de catálogo das colecções de revistas de aventuras pulp fiction.

jef, fevereiro 2022

«Coração Selvagem» (Wild at Heart) de David Lynch. Com Nicolas Cage, Laura Dern, Willem Dafoe, J.E. Freeman, Crispin Glover, Diane Ladd, Calvin Lockhart, Isabella Rossellini, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie, Sherilyn Fenn, Marvin Kaplan, William Morgan Sheppard, David Patrick Kelly, Freddie Jones, John Lurie, Jack Nance, Pruitt Taylor Vince. Argumento: David Lynch baseado no romance de Barry Gifford. Produção: Steve Golin. Fotografia: Frederick Elmes. Música: Angelo Badalamenti. EUA, 1990, Cores, 125 min.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Sobre o filme «Albatros» de Xavier Beauvois, 2021

 



















Étretat, uma vila pacata à beira-mar na Normandia, onde ainda são descobertas munições esquecidas de uma guerra grande. Laurent (Jérémie Renier) é um atencioso pai de família e chefe de brigada da polícia local. Todos o conhecem e respeitam. Todos se conhecem. As ocorrências vão sendo controladas com a tranquilidade de uma pequena povoação. Laurent acaba de propor casamento a Marie (Marie-Julie Maille) e a filha de ambos, Poulette (Madeleine Beauvois), será uma espécie de madrinha amorosa. Nos tempos livres, Laurent veleja no “Albatros”.

Contudo, um jovem criador de gado vê-se em apuros com as exigências sanitárias por cumprir das autoridades veterinárias e descontrola-se. Acaba por fugir. Laurent monta o cerco mas as coisas não correm bem. Um disparo acidental, o primeiro tiro de uma vida profissional, coloca Laurent em desespero emocional e em fuga de um mundo que deixou de lhe pertencer.

O restante filme passar-se-á entre Laurent, o seu o barco “Albatros” e o oceano, tão implacável quanto apaziguador.

O melhor do filme é mesmo a credível e realista interpretação de Jérémie Renier (em uníssono com Marie-Julie Maille) envolvendo toda a comunidade numa espécie de policial humanista com laivos de George Simenon.

O pior do filme é uma espécie de arrogância estética ultra-romântica que transporta o filme até a um evitável final em happy-end melodramático, pontuado por um belo pôr de sol marítimo e um alvo vestido de noiva.


jef, fevereiro 2022

«Albatros» de Xavier Beauvois. Com Jérémie Renier, Marie-Julie Maille, Victor Belmondo, Madeleine Beauvois, Iris Bry, Olivier Pequery, Xavier Beauvois, Alexandre Lefrançois. Argumento: Xavier Beauvois, Frédérique Moreau, Marie-Julie Maille. Produção: Alejandro Arenas. Fotografia: Julien Hirsch. França, Alemanha, Bélgica, 2021, Cores, 115 min.

 

 

Sobre o filme «Lua de Papel» de Peter Bogdanovich, 1973























Uma ode ao cinema americano e à comédia dramática feitos pela estrada fora. Contém tanto de alegria e comovente inocência como de mordaz sátira política a uma América que (ainda hoje) deixa à flor da pele os ossos e o sangue de uma população que anda ao deus dará, martirizada, abandonada, sobrevivendo entre a espada da crença piedosa e a parede da manhosa extorsão.

Moses Pray (Ryan O’Neal) vende bíblias de luxo a recém-viúvas, dizendo que os defuntos as teriam acabado de encomendar, imprimindo-lhes à última hora os nomes das chorosas mulheres. Passando ele pelo funeral de uma antiga amante, vê-se a cargo com uma criança sem família próxima com a qual todos evidenciam as parecenças. Sobretudo o queixo. Moses deve levá-la sã e salva até uma longínqua tia. Ela é Addie Loggins (Tatum O’Neal) e rapidamente exige ser Addie Pray. Exige ainda 200 dólares de um negócio obscuro feito em seu nome. Sem mais, Addie demonstra sensibilidade e eficácia extremas para os negócios ambulantes de Moses.

Uma espécie de súmula profética da humanidade sob o encantador olhar fotográfico László Kovács. Entre Roosevelt, a Grande Depressão e a Lei Seca. Entre o Kansas e o Missouri. Entre «Bonnie e Clyde» (Arthur Penn, 1967) e «O Garoto de Charlot» (Charles Chaplin, 1921.

Um filme puro e inesquecível.


jef, fevereiro 2022

«Lua de Papel» (Paper Moon) de Peter Bogdanovich. Com Ryan O’Neal, Tatum O’Neal, Madeline Kahn, John Hillerman, P.J. Johnson, Jessie Lee Fulton, James N. Harrell, Lila Waters, Noble Willingham, Bob Young, Jack Saunders, Jody Wilbur. Argumento: Alvin Sargent com base no romance Joe David Brown «Addie Pray». Produção: Peter Bogdanovich, Francis Ford Coppola, William Friedkin, Frank Marshall. Fotografia: László Kovács. Guarda-roupa: Polly Platt. EUA, 1973, P /B, 102 min.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Sobre o filme «Memória» de Apichatpong Weerasethakul, 2021.
































Este filme foi entregue à actriz Tilda Swinton. Uma persona artística tão versátil e pura, quanto abstracta, no modo como veste cada uma das personagens. Aqui assume integralmente a pele de Jessica que anda em busca da réplica perfeita de um som, talvez estrondo, que a persegue em sonhos e no sono. Está na Colômbia e procura também a memória arqueológica e futurista desse objecto acústico que anseia por uma interpretação muito precisa. Deste modo, também a própria memória carece de um significado ou, talvez melhor, de uma transmissão psico-neurológica que a traga do passado para o presente.

Deixemo-nos ir sem mais delongas caminhando atrás da ansiedade de Jessica, essa Tilda Swinton que preenche o ecrã e nos faz divagar pelo interior do que não entendemos lá muito bem. Não interessa.

Fui, assim, também eu divagando por dentro da minha memória, relembrando Antonio Tabucchi que, numa das últimas edições de «Requiem» (Dom Quixote, 2007), disserta no final sobre a memória e refere como a voz do seu pai, falecido há pouco, regressa em sonho claro chamando por ele. Comoveu-me muito. Também o mesmo me sucedeu, escutando a voz do meu pai, calma mas deveras precisa, dizendo o meu nome como se quisesse que eu acordasse naquele momento. E acordou mesmo!

Também, entretanto, fui vogando até uma das mais belas composições de Laurie Anderson «The Beginning of Memory» (Homeland, 2010) quando nos conta a história de uma cotovia que voava em círculos numa antiga era antes da Terra existir, quando havia apenas ar e pássaros. Um dia, o seu pai morreu e a cotovia, sem terra, ficou com um dilema – onde enterrar o seu corpo? Por fim, encontrou a solução fazendo-o na parte de trás da cabeça. Assim nasceu, a Memória, diz-nos Laurie Anderson.

«Memoria» de Apichatpong Weerasethakul pode não ser o melhor filme abstracto do mundo mas fez-me contemplar Tilda Swinton e transportou-me até à memória que trago na parte de trás da cabeça, levando-me a Antonio Tabucchi, a Laurie Anderson, até ao meu pai.


jef, fevereiro 2022

«Memória» (Memoria) de Apichatpong Weerasethakul. Com Tilda Swinton, Elkin Díaz, Jeanne Balibar, Juan Pablo Urrego, Daniel Giménez Cacho Agnes Brekke, Jerónimo Barón. Argumento: Apichatpong Weerasethakul. Produção: Tilda Swinton, Apichatpong Weerasethakul, Paola Andrea Pérez Nieto. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Som: Raúl Locatelli. Música: Cesar Lopez. Colômbia, Tailândia, França, Alemanha, 2021, Cores, 136 min.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Sobre a peça de teatro «Obstrução» de Dimítris Dimitriádis. Teatro Paulo Claro na Politécnica, Lisboa 2022


 


















Sócrates sai da Arcádia e volta a Atenas para deixar a cidade e regressar ao silêncio da pele nua do mar. Visita o silêncio do que nunca escreveu. Os jovens escutam-no. O corpo é o aqui e o agora. A ágora espreita, escandalizada.

Tântalo lamenta-se pelo gelo da fome e da sede do que jamais tocará. Quer chegar-se mas o ali é mais além e os corpos distendem-se, distanciam-se, petrificam. Rejeita o agora. Apenas lamentação.

Narciso nega e nega-se para poder ser só ele. Porém, quando percebe que o outro, o homem, seu semelhante, o deseja como ele se deseja, deixa de mirar o reflexo no espelho da água e entrega-se ao outro, que é homem também. Finalmente, reconhece-se como igual e deixa-se amar.

Aquiles, o herói mortal é ferido. Mortalmente. O sudário é vermelho-sangue. No final, a ferida e o sofrimento são o presente, são o reflexo do corpo. São o próprio corpo que se entrega à morte. Apenas corpo e presente intangíveis, sem futuro. Voltámos ao início. O passado (e o futuro) é como as palavras que nada são, apenas qualquer coisa quando transformadas em acção. Até lá as palavras (e o corpo) são somente presente e o presente não é nada. Antes, é o nada. É o corpo além.

Tal como cada um de nós em cada dia que termina.

O texto é de uma beleza sublime, é como uma homília sacrificial. O traço da vida efémera. Uma representação do futuro inconstante que, talvez, jamais consigamos tocar. É a pele do mundo em nós.

 

jef, janeiro 2022

«Obstrução» de Dimítris Dimitriádis. Com André Loubet, Diogo Freitas, Simon Frankel, Pedro Caeiro, Pedro Lacerda. Tradução José António Costa Ideias. Cenografia e Figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Encenação: Jorge Silva Melo M16. Teatro Paulo Claro na Politécnica. Janeiro 2022

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Sobre o filme «O Bom Patrão» de Fernando León de Aranoa, 2021


















Digamos que calha mesmo bem estrear esta comédia desabrida numa altura em que tanto se fala de liberalismo e de bons patrões que recebem incentivos estatais e depois, muito natural e voluntariamente, vão distribuir os lucros assim conseguidos (quais robins dos bosques!), pelos diligentes e afanosos operários. A sociedade prospera, o sol brilha e ficamos todos felizes.

Esta comédia lembra aquelas peças de teatro com muitas portas por onde saem e entram personagens num frenesim esgrimindo muitos enganos e tropelias. Só que aqui poucas portas existem e são de vidro. O equilíbrio é o centro da intriga já que a fábrica é construtora de balanças industriais e o respectivo dinamómetro é Javier Bardem, o patrão Blanco, vestindo um hiperactivo executivo com toques de familiaridade e magnanimidade e tiques de ambição e ganância desmedidas. A todo custo quer vencer o prémio concedido pelo governo regional e de que a sua fábrica é finalista.

O argumento é bem ardiloso e Javier Bardem faz de um troca-tintas manhoso e cândido, mestre em esquivar-se das imparáveis situações mais confrangedoras, numa espécie de corrida para o disfarce e camuflagem. Apenas parece ser superado pela três grandes figuras que ele nunca consegue enganar, personagens interpretadas por três grande actores: a esposa Adela (Sonia Almarcha), a jovem amante Liliana (Almudena Amor) e o insuperável operário, velho e deprimido, Fortuna (Celso Bugallo). Basta atentar na grande cena que é o jantar que o casal dá à família da estagiária Liliana e na impagável cena final em que Fortuna permanece imperturbável vigiando as costas do patrão de berbequim eléctrico em riste.

Pois Ruis Nabeiros não há muitos e o liberalismo modernista não caberá, deste modo, ganancioso e belicoso que é, nesta comédia divertidíssima.


jef, janeiro 2022

«O Bom Patrão» (El Buen Patrón) de Fernando León de Aranoa. Com Javier Bardem, Manolo Solo, Almudena Amor, Óscar de la Fuente, Sonia Almarcha, Fernando Albizu, Tarik Rmili, Celso Bugallo, Rafa Castejón Francesc Orella, Martín Páez, Mara Guil, Eva Rubio. Argumento: Fernando León de Aranoa. Produção: Fernando León de Aranoa, Jaume Roures. Fotografia: Pau Esteve Birba. Música: Zeltia Montes. Espanha, 2021, Cores, 120 min.