quarta-feira, 8 de junho de 2022

Sobre o filme «A Árvore, o Presidente e a Mediateca» de Éric Rohmer, 1993


































Em 1972, Woody Allen realiza a comédia «ABC do Amor - Everything You Always Wanted to Know About Sex* (*But Were Afraid to Ask)». Ficámos, deste modo, a saber tudo sobre aquela coisa sem ter de ir perguntar ao pai.

21 anos depois, Éric Rohmer, de uma maneira paralela e em apenas 105 minutos, realiza um maravilhoso monumento humorístico, condensando tudo, mas mesmo tudo, o que já devíamos ter entendido sobre a política nacional mas nunca nos tinham consigo explicar.

Julien Dechaumes (Pascal Greggory) é uma espécie de aristocrata socialista, divorciado mas com uma belíssima namorada Bérénice (Bérénice), com terras e uma bela mansão, que após um desaire eleitoral a nível nacional se torna presidente da câmara. Tem bons conhecimentos da capital e conhece o editor de um periódico relativamente famoso (François-Marie Banier) que através da divulgação do seu trabalho em artigo poderá conseguir bom financiamento para um equipamento cultural de estilo e arquitecto (Michel Tisseau). Assim, a jornalista Blandine Lenoir (Clémentine Amouroux) chega à vila apostada em dar visibilidade à real política local. Entrevista agricultores e mulheres da terra, até que chega ao vibrante professor Marc Rossignol (Fabrice Luchini) que tem por lema a defesa do ambiente e a preservação de uma árvore monumental, possivelmente centenária, que será abatida para ser construída a mediateca. Um facto é que o editor da revista dá um corte radical na reportagem deixando em evidência a monumentalidade da árvore e o trabalho abnegado do professor. E é a filha deste, Zoé Rossignol (Galaxie Barbouth), que já não pode ouvir o pai com os argumentos ambientalistas, que vai falar com o vizinho e presidente da câmara, Julien.

A realidade é que o dinheiro não chega para financiar o projecto, a árvore talvez vá morrer de pé e o professor continua a dar aulas entusiasmadas às crianças sobre uma partícula gramatical conjuntiva “se”. Se tudo fosse ao contrário nada seria deste modo. E toda a vila acaba em grande confraternização, comendo, bebendo, brincando, cantando e dançando.

Happy End.

 

jef, junho 2022

«A Árvore, o Presidente e a Mediateca» (L’Arbre, le Maire et la Médiathéque) de Éric Rohmer. Com Pascal Greggory, Arielle Dombasle, Fabrice Luchini, Clémentine Amouroux, François-Marie Banier, Michel Jaouen, Jean Parvulesco, Galaxie Barbouth, Jessica Schwing, Raymonde Farau, Manuella Hesse, Solange Blanchet, Mathe Pillaud, Michel Tisseau, Françoise Etchegaray. Argumento: Éric Rohmer. Produção: Françoise Etchegaray. Fotografia: Diane Baratier. Música: Sébastien Erms. França, 1993, Cores, 105 min.

               

terça-feira, 7 de junho de 2022

Sobre o filme «A Caixa» de Lorenzo Vigas, 2021






















Um filme onde a violência extrema é a todos níveis condensada no olhar de um adolescente que, no México, vai recolher os restos mortais de seu pai encontrados numa vala comum. Porém, Hatzín (Hatzín Navarrete) devolve a urna afirmando haver um erro de identificação e telefona à avó, com quem vive, dizendo-lhe que aguarda esclarecimentos e até arranjara emprego. Porém, a determinação férrea de Hatzín fá-lo perseguir um homem que se parece com a memória que tem do pai. Um homem grande, forte e violento que possui um esquema atroz de angariação de mão-de-obra escrava para trabalhar nas fábricas de têxteis onde a exploração, o esgotamento e a morte são apenas moedas de troca do lucro comercial.

Num filme, onde a palavra parece recolher-se perante o olhar sagaz e a tenacidade silenciosa de Hatzín, o realizador deixa ao espectador a solução de praticamente todas as deixas da intriga. A determinação e o desejo em encontrar um pai são maiores. Porém, nada parece ser ou estar certo face à entrega a um adolescente quase criança de um mundo pantanoso e trágico. A morte é apenas um facto concreto e definitivo. Apenas umas ossadas recolhidas dentro de uma urna. Não interessa muito de quem são. A verdade perante a raiva da decepção pouco importa. O regresso impõe-se. O futuro nem tanto.


jef, junho 2022

«A Caixa» (La Caja) de Lorenzo Vigas. Com Elián Gonzalez, Hatzín Navarrete, Hernán Mendoza, Cristina Zulueta. Argumento: Paula Markovitch e Lorenzo Vigas. Produção: Charles Barthe, Michael Hogan, Kilian Kerwin, Brian Kornreich, Miguel Mier, Alejandro Nones e John Penotti. Fotografia: Sergio Armstrong. México / EUA, 2021, Cores, 90 min.

 

sábado, 4 de junho de 2022

Sobre a peça de teatro «Morte de um caixeiro viajante» de Arthur Miller. Teatro D. Maria II, Lisboa 2022.


























Esta história não é sobre o fim do capitalismo. Também não será sobre a sua eterna ressurreição, renascimento, reinvenção. Eu, que nada percebo de história, suspeito que o capitalismo terá nascido com a primeira troca entre aqueles homens que não sabiam escrever nem andar sobre rodas. Mesmo antes dos Fenícios, de Marco Polo e da rota da seda, de Vasco da Gama e dos caminhos marítimos para a Índia, dos mercadores flamengos, dos comerciantes árabes, judeus e dos vendilhões do Templo. Antes de Karl Marx e Friedrich Engels terem inventado a mais-valia. Antes de Vladimir Ilitch Ulianov e Mao Tsé Tung terem inventado a máxima de um país vinte sistemas.

Aqui, pouco interessa tudo o que se passa antes do coração do caixeiro viajante Willy Loman sucumbir ao desastre do sonho americano do quanto mais vendo, mais tiro, mais tenho. Talvez seja mais sobre o desastre de muitos dos nossos próprios sonhos que vão ficando, incólumes de realização, pelo caminho. Esta peça é essencialmente sobre a força que se exerce e persiste em tentar anular a tristeza e a solidão. Não é sobre o eterno retorno mas sim sobre o eterno falhanço. Como diria o outro, esta história é sobre a continuada tentativa de falhamos novamente mas menos mal.

Esta peça é também sobre a alegria de Willy Loman.

«Morte de um caixeiro viajante» é um prodígio de condensação e cruzamentos narrativos, convocando toda a vida de Linda e Willy Loman, e dos seus dois filhos falhados, Biff e Harold, para duas horas de representação emotiva. Desde o primeiro segundo, quando a música desce sobre a madrugada de Willy e este regressa a casa, desasado, e ainda tenta esconder, mentir, sorrir. Todos, nesta crónica de uma morte anunciada, escondem, mentem, sorriem para não morrerem.

Feliz, tão feliz é toda esta (e também nossa) representação da infelicidade humana dos actores maiores Américo Silva, Joana Bárcia, António Simão, Pedro Caeiro ou André Loubet.

Feliz, mas tão feliz mesmo, é a minha memória de Jorge Silva Melo (desde o ano de 1974 quando o vi representar «A Herança» de Marivaux lá pelo alto terraço do Capitólio)!

Que sempre viva Jorge Silva Melo!


jef, junho 2022

«Morte de um caixeiro viajante» de Arthur Miller. Com Américo Silva, André Loubet, António Simão, Hélder Braz, Joana Bárcia, Joana Resende, José Neves, Nídia Roque, Paula Mora, Pedro Baptista, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias. Tradução Ana Raquel Fernandes, Rui Pina Coelho. Cenografia e Figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Som: André Pires. Direcção artística: Pedro Marques. Encenação: Jorge Silva Melo. Produção Artistas Unidos. Teatro D.Maria II. Junho 2022

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Sobre o disco «Get on Board» de Taj Mahal & Ry Cooder, Nonesuch / Perro Verde, 2022



 








Há discos assim.

Lá pela década de 60 do século passado, Taj Mahal e Ry Cooder andaram pelos «Rising Sons» e a partir dali (ou mesmo antes) foram reconstruindo um mundo único, lógico, sólido, criativo, repleto das diversas caras que a música popular da América (e também a música popular de todo o mundo) forneceu à fantasia universal do blues, da folk, da country, da texmex, do rhythm’ blues e por aí fora…

São sete décadas condensadas em onze canções livres, absolutamente livres, registadas em som directo, onde Taj Mahal (80 anos) e Ry Cooder (75 anos) – acompanhados pela percussão e baixo de Joachim Cooder – dão largas ao improviso sincero e leal, às ganas da alegria sentida por tantos anos de cumplicidade e busca das razões, talvez inexistentes, da música popular.

Ou me engano muito ou o meu fascínio por esta música, tão simples, cantarolável, dançável, talvez mesmo infantil, vem do génio com que lhe colocam todas as possíveis variações em cada acorde. Talvez um pouco como acontece na erudição da música barroca que vive tanto da linha melódica de base, como dos arpejos, codas e fugas com que depois a alindam. Por isso, gosto tanto de blues como de Bach.

Diz Ry Cooder que ficou fascinado pelos mistérios e possibilidades ouvidos num LP 10’’ aos 12 anos: «Get On Board: Negro Folksongs by the Folk Masters» com as canções de Sonny Terry, Brownie McGhee e Coyal McMahan. Inventivo, encriptado, movediço, livre, irreverente e, por tudo isto, tão futurista.

Diz Taj Mahal: «Brownie McGhee & Sonny Terry, Rev. Gary Davis! Um trio de Blues Rascals (blues “patifes”) – se tal coisa alguma vez existiu –, no ombro do qual agora nós nos apoiámos e construímos.»

Ouvindo bem, é tão maravilhosa a música da América!


jef, maio 2022

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Sobre o filme «Paris 13» de Jacques Audiard, 2021


























Esta parábola sexual tem por premissa a imagem de que o sexo e o amor podem salvar a cidade. Na memória surgiu-me um outro filme que argumentava igualmente que a colmeia urbana seria redimida através da reconciliação amorável dos corpos e dos sexos: essa bela peça cinematográfica, sem classificação possível, chamada «Shortbus» de John Cameron Mitchell (2006). Neste último caso, a cidade a ser salva é Nova Iorque do pós-11 de Setembro. Agora, no filme de Jacques Audiard é a cidade de Paris da actualidade.

Tudo se passa no velho 13º arrondissement enclausurado na arquitectura vertical do aço, betão e vidro, multilinguístico, jovem, estudantil, cheio de trabalho precário e descartável. Uma cidade fortuita e acelerada, com encontros e desencontros reais e virtuais, com solidão e ansiedade, contudo ainda centrada na estratégia dos corpos reunidos como consumação da proximidade emocional. Nesse aspecto, «Paris 13» é uma comédia romântica desesperada, um divertimento ou scherzo angustiado. Uma espécie de comédia triste e simbólica tentando copiar o proverbial modo cinematográfico de Éric Rohmer.

A história é simples. Camille (Makita Samba) procura um quarto para alugar em casa de Émilie (Lucie Zhang) que pretende uma rapariga mas sai-lhe assim um rapaz com nome de rapariga. Ela trabalha num call-center. Ele é professor da escola Fernand Léger (nem de propósito, pois a bela fotografia de Paul Guilhaume mostra-nos uma cidade intensamente geométrica, plana e realista). Camille pretende fazer uma pausa antes de embarcar no doutoramento mas acaba a fazer um biscate na agência imobiliária de um amigo. Reclama por ajudante e surge-lhe Nora (Noémie Merlant) que gostaria de cursar direito mas, por virtuais circunstâncias da vida, vai conhecer Amber Sweet (Jehnny Beth) que trabalha no etéreo mundo das plataformas virtuais. Só isto.

Émilie é inconstante, exigente, volúvel e apaixonada. Camille é obstinado, sério, amoroso e apaixonado. Nora deseja a mudança mas busca qualquer coisa de que não tem bem a certeza.

Um filme sobre a procura permanente da redenção de uma cidade. Uma cidade que se moderniza afectivamente a partir dos sobressaltos vindos do passado e da pulsão incerta com que o futuro a ameaça.


jef, maio 2022

«Paris 13» (Les Olympiades, Paris 13e) de Jacques Audiard. Com Lucie Zhang, Makita Samba, Noémie Merlant, Jehnny Beth, Camille Léon-Fucien, Oceane Cairaty, Anaïde Rozam, Pol White, Rong-Ying Yang, Geneviève Doang, Xing Xing Cheng. Argumento: Jacques Audiard, Céline Sciamma, Léa Mysius, Adrian Tomine, a partir de três contos deste última. Produção: Valérie Schermann e Jacques Audiard. Fotografia: Paul Guilhaume. Música: Rone. França, 2021, Cores, 105 min.

 

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Sobre o filme «Conto de Inverno» de Éric Rohmer, 1992




















Este conto (ou fábula ou parábola) apresenta, talvez, um das mais complexas personagens femininas de Éric Rohmer: Félicie (interpretada por uma mesmo genial Charlotte Véry) que vive sem amargura para um amor passado, fixado na memória pela crença na reminiscência de um Verão encantado, e por isso eternamente juvenil e amoroso. Como âncora e produto real dessa recordação mágica, Félicie tem a seu cargo, amoroso e genético, Elise (Ava Loraschi), uma menina de cinco anos, com a qual vive em casa de sua mãe (Christiane Desbois). Mas a absoluta crença no porvir não lhe permite ligar-se em definitivo ao bibliotecário filósofo Loïc (Hervé Furic) ou ao cabeleireiro Maxence (Michel Voletti) que a amam verdadeiramente. Para ela, é tudo uma questão de tempo. Um tempo credor do próprio tempo, compensador, salvador, que faz Félicie emocionar-se até às lágrimas quando assiste à representação de «Conto de Inverno» de Shakespeare, também ele credor da eterna esperança num futuro alicerçado na vontade férrea do passado.

Sim, «Conto de Inverno» de Éric Rohmer é um filme mágico, terno e muito simples. Tão simples quanto seja acreditarmos todos os dias num futuro bom.


jef, maio 2022

«Conto de Inverno» (Conte d’Hiver) de Éric Rohmer. Com Charlotte Véry, Frédéric Van Den Driessche, Michel Voletti, Hervé Furic, Ava Loraschi, Christiane Desbois, Rosette, Jean-Luc Revol, Haydée Caillot, Jean-Claude Biette, Marie Rivière. Argumento: Éric Rohmer. Produção: Margaret Ménégoz. Fotografia: Luc Pagès. Música: Sébastien Erms. França, 1992, Cores, 114 min.

               

Sobre o livro «Hot» de André Ruivo. Chili Com Carne, 2022






















O erotismo (e a pornografia) é, desde sempre, a expressão única da humanidade do que é, por natureza, o lugar mais privado (para não dizer íntimo) do homem e da mulher. Esse lugar abstracto que se constrói quando está a sós com o seu corpo ou quando está acompanhado e explora o corpo de outrem com o seu próprio corpo. Uma expressão provocatória ou de contravenção face à natureza desses actos, digamos, dérmicos. Uma rebelião contra ainda alguma sociedade moral e religiosa. Um modo claro, literário ou gráfico, de extravasar, prolongar, comungar, tornar perene, o prazer sexual que, se é constituído por preliminares, também, para males dos seus pecados, incorpora o irrevogável fim!

Mas representar a pele dos amantes em tom cor-de-rosa bebé e o seu corpo entre amáveis contornos rechonchudos, retira absolutamente a carga erótica à pulsão sexual do grafismo. É esta a maior provocação que André Ruivo faz não ao erotismo mas ao mais alto estatuto que a sociedade ocidental confere hoje à banalização da sua representação.

Esqueçamos os lençóis de cetim ou os colchões de água. Esqueçam o mestre Vilhena. Nada disso! André Ruivo deposita a sua incontornável tendência para a amabilidade das personagens nestes desenhos, acarinhando-as em lençóis ternurentos e mesmo muito cómicos.

Tal como em Quino, Sempé ou Luís Afonso, as figuras de André Ruivo fazem parte de um bairro onde as criaturas, cerimoniosamente, dirão sempre “Olá! Boa noite! Como está?» antes de praticarem qualquer acto, sexual ou de outra natureza.


jef, maio 2022