quarta-feira, 19 de junho de 2019

Sobre o filme «A Propósito de Llewyn Davis» de Ethan Coen e Joel Coen, 2013






















Este filme tem muitas das características que tornam muito particulares os filmes dos irmãos Coen. Goste-se ou não dos filmes e das respectivas características. Cenários quase irreais dentro da realidade onde as personagens aparecem em palco, alienígenas, desprotegidas, incoerentes, em pausa dramática ou silêncio literário. Narrativas que, não fosse o humor, umas vezes corrosivo, outras, quase de vaudeville ou chapliniano. A fotografia estilizada. A banda sonora sempre inesquecível.

Llewyn Davis (Oscar Isaac) está em Nova Iorque, na fronteira de uma invernal Greenwich Village. 1961. Traz na bagagem discos editados sem sucesso e canções folk para cantar em caves fumarentas e soturnas. Encontra, perde, encontra e perde, novamente, um gato pacífico mas pouco tímido, amarelo. O gato é o seu alter-ego, a sua sombra, o seu espelho.

 Llewyn Davis irá tentar um contrato discográfico, em Chicago.

Llewin Davis parece uma figura caída, daquelas do antigo literário oitocentista. Ou um pouco mais recente. Gregor Samsa, Raskolnikov, Bartleby. Faz-me lembrar Sergei Dovlatov («Dovlatov» de Aleksey German Jr., 2018). Mas este pobre cantor folk tem um espectro real – Dave van Ronk (1936 – 2002) artista inspirador do tom musical nova-iorquino e de Bob Dylan, Tom Paxton, Phil Ochs ou Joni Mitchell.

Um filme triste e irónico, em simultâneo (outras das diabruras dos irmãos Coen), numa paisagem fria, quase sinistra, entre o azul, o cinzento e o sépia, toldada pela desilusão, a solidão e a aparição de seres grotescos mesmo que muito reais, numa deriva a partir da qual, o actor Oscar Isaac vai impondo a incongruência aflitiva mas benévola da personagem.

E claro, a banda sonora deve ser protegida para património futuro auditivo da humanidade.

jef, junho 2019

«A Propósito de Llewyn Davis» (Inside Llewyn Davis) de Ethan Coen & Joel Coen. Com Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman Justin Timberlake, Garrett Hedlund, F. Murray Abraham, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Max Casella, Jerry Grayson, Adam Driver. França / EUA, 2013, Cores, 105 min.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Sobre o filme «Todos Sabem» de Asghar Farhadi, 2018






Depois de «Uma Separação» (2011), «O Passado» (2013) ou «O Vendedor» (2016), o iraniano Asghar Farhadi terá ganhado velocidade, fama e dinheiro de produção. Aterra num melodrama policial de cariz e tiques espanhóis, onde Laura (Penélope Cruz) viaja de Buenos Aires até à terriola natal, tipicamente espanhola quanto ao alarido e à alegria (mais um estereotipo do que uma realidade meridional), para participar com os seus dois filhos no casamento da irmã. Aí, reencontra o seu antigo namorado (Javier Bardem). Aí, regressa o seu actual marido argentino Alejandro (Ricardo Darín), chamado em lágrimas. Aí, desaparece a sua filha Irene (Carla Campra) no meio da festa e da chuva. Aí todos serão cinematograficamente acusados, a par e passo, consoante a linha da novela, consoante as pedrinhas da intriga deixadas em tempo pelo realizador no decorrer do filme mas sem prestar muita atenção aos ditames da real verosimilhança. Tudo está bem quando acaba bem ou mal. Tudo está bem porque, afinal, os malfeitores poderão ser ainda acusados, sem nova reviravolta, enquanto os actores se esforçam com todas as forças por circular em planos fechados e cenários um tanto pindéricos, um tanto claustrofóbicos e em repetição.

Quando um mau filme entretém o serão e um bom realizador se perde pelo meio de prémios internacionais e castings pomposos.

jef, junho 2019

«Todos Sabem» (Todos lo Saben) de Asghar Farhadi. Com Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín, Bárbara Lennie, Eduard Fernández, Ramón Barea, José Ángel Egido, Carla Campra


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Sobre o livro «Zzzzzzzzzz» de André Ruivo, Stolen Books / Inspector Cheese Adventures, 2019. 52 páginas, 26 x 26 cm.













Se, porventura, existisse um instrumento musical que transformasse o tempo em espaço líquido, esse objecto sem forma ou contornos, clepsidra fora do vidro, seria muito parecido com o sono. Ou com a sesta.

Como uma criança que recusa desenhar nos pequenos cantos das páginas, André Ruivo não teme e cativa-lhes o centro criativo, como as linhas em espiral, hipnóticas também, de um vinil. Sonolentas mas não deprimidas.

A hipnose dolente de uma tarde de Verão, «Não pensar em nada…». Não ouvir nada, «Brrroooomm!!» «Crash!» «Zzzzziiing!» «Boum!». Quase todas as páginas se inscrevem nesses traços próximos, negros no branco dos olhares velados pela dormência, pelo tédio ligeiro que surge antes da ausência imposta ao corpo pelo baixar das pálpebras. Aquele primeiro sonho ainda cravado de realidade que aos poucos abranda e entra na abstracção cubista de um candeeiro, uma cadeira, um quadrado, um triângulo. Qual dos quatro objectos contém mais simbolismo, nos propõe um sinal mais forte? Não reparemos numa clave de sol que se ouve de olhos fechados. Centremo-nos na interrogação multiplicada na página.

André Ruivo em «Zzzzzzzzzz», longe da agitação psíquica de «Mystery Park» (chili com carne, 2012) ou das travessuras cromáticas e urbanas de «Aventuras de Qualquer Coisa» (Stolen Books, 2018), lança-se, forte, perante a vontade de desenhar qualquer coisa que, de tão discreta ou linear, se torna imprescindível: vários casais que se apoiam enquanto se escondem; um espreguiçar franco; um, apenas um, mas o mais sincero, sorriso declarado.

André Ruivo vence o silêncio pela influência branda do sono, tocando no livro todas as suas facetas gráficas mais íntimas mas preenchendo somente com linhas escuras o espaço que aqui é muito amplo, páginas invadidas pela harmonia vital de um bocejo terno.

jef, junho 2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Sobre o filme «O Que Me Ficou da Revolução» de Judith Davis, 2018













Entre a voz de Colette Magny e as Folhas de Erva de Walt Whitman.

Angèle (Judith Davis) é neta da revolução porque os pais são filhos do Maio de 68. Vive no sonho da sociedade ser pensada ideologicamente pelas pessoas e para as pessoas. Deseja aproximá-las, projectando uma rua onde agora está um muro de trânsito e ruidoso silêncio. Lidera um grupo de intervenção política mas que exerce mais o papel de terapia psico-social. Ela não compreende por que a mãe abandonou a família e os ideais. Tem medo de se aproximar efectiva e afecticvamente de Saïd (Malik Zidi), professor primário na escola onde a malta se reúne. Acima de tudo, Angèle revolta-se contra si própria. Não encontra o seu lugar. A revolução já passou.

Ora aqui está um filme que bem seria de Julie Delpy não fosse tão ingénuo, quase infantil. Judith Davis escreve o argumento, realiza e interpreta. Filma uma persona que poderia ser um duplo por quem se apaixonou. É um filme galhofeiro, agradavelmente trôpego, copiando alguns tiques de nouvelle vague. Sem dúvida ingénuo, repito, onde se fala demais em pouco tempo, fingindo cénica a ansiedade juvenil. Mas não deixa de ser cativante o modo inocente como cola as personagens a um mundo que parece saído de banda desenhada ou de um sonho acarinhado.

Com uma banda sonora que deve ser ouvida atentamente.

jef, junho 2019

«O Que Me Ficou da Revolução» (Tout ce qu'il me reste de la révolution) de Judith Davis. Com Judith Davis, Malik Zidi, Claire Dumas, Simon Bakhouche, Mélanie Bestel, Nadir Legrand, Mireille Perrier, Yasin Houicha, Pat Belland, Samira Sedira. Argumento: Judith Davis. França, 2018, Cores, 88 min.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Sobre o filme «3 Rostos» de Jafar Panahi, 2018

















Não interessa muito entender por que assim se chama o filme. O facto é que Jafar Panahi consegue novamente um triplo feito:

1. Dar aos rostos filmados de muito perto, entre o vidro da câmara e o vidro do jipe, a fotogenia imprescindível para que o espectador os coloque no centro de um drama que afinal é uma comédia que talvez seja mesmo uma tragédia. Os lenços, os xadores, os mantos, são de uma beleza paisagística imensa… tal como já o tinham sido em «Shirin» de Abbas Kiarosmaki (2008).

2. Colocar na base da intriga as novas tecnologias e a modernidade da realidade falseada através de um vídeo que simula o suicídio da jovem Marziyeh que pretende angariar a simpatia da famosa actriz Behnaz Jafari que, em desespero e interrompendo as filmagens onde participava, pede ao realizador Jafar Panahi que a leve ao local da tragédia.

3. Fazer um falso filme sobre a realidade de uma falsa verdadeira intriga em que os actores Behnaz Jafari, Jafar Panahi e Marziyeh Rezaei fazem de si próprios e todos os figurantes da aldeia do Norte do Irão são os actores principais de um país cuja cultura transcende a própria vocação de Jafar Panahi em realizar «não-filmes».

Uma brincadeira mesmo muito séria sobre a condição humana e a sua consciência.

jef, junho 2019

«3 Rostos» (3 Faces) de Jafar Panahi. Com Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei. Irão, 2018, Cores, 100 min.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Sobre o filme «O Rio» de Emir Baigazin, 2018

















Este filme tem um enorme potencial de enfado. Talvez mesmo de tédio. Primeiro, o espectador deseja deslumbrar-se com as cores entre o ocre, o 'tierra de siena queimada', a cor de pó, que cobrem as figuras dos cinco irmãos que, na pequena quinta enfiada entre o deserto claustrofóbico e o rio perigosamente encantador, são escravizados pelos seus pais. Vivem eles entre Esparta e o Deus das Moscas (William Golding,1954), numa sociedade onde as brincadeiras são enclausuradas pelo trabalho de sol-a-sol e pelos castigos corporais.

O espectador aguarda. Aparece um quase primo vestido de extraterrestre ou manipulador de matérias perigosas com um tablet na mão. Ele mostra-lhes os jogos electrónicos. Eles mostram-lhe a corrente forte do rio. Negoceiam. Parece que a intriga vai desenvolver.  Num cenário entre um dengoso «Aconteceu no Oeste» (Sergio Leone, 1968) e uma caricatura de «O Estado das Coisas» (Wim Wenders, 1982).

Mas não. Tudo se queda num pretensioso bailado onde a repetição dos movimentos pelos cinco irmãos, ou das pegadas na areia, ou das braçadas na água, se alastra até à exaustão das frases ditas em tempo ou do olhar vago que é, também este, artisticamente sorumbático. 

Enfim, uma espécie de drama-comédia em superprodução que se deseja a si própria estética e política. Pois, nem uma coisa nem outra.

A salvar poderá estar o esforço dramático das cinco crianças. E a paisagem que, ali, realmente é bela.

jef, maio 2019

«O Rio» (Ozen) de Emir Baigazin. Com Zhalgas Klanov, Eric Tazabekov, Zhasulan Userbayev, Ruslan Userbayev, Bagdaulet Sagindikov, Sultanali Zhaksybek. Realização, argumento e fotografia: Emir Baigazin. Cazaquistão, Polónia, Noruega, 2018, Cores, 108 min.


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Sobre o filme «Em Chamas» de Lee Chang-Dong, 2018.

















Não sendo o melhor filme de suspense do mundo, contém características que se ausentam de muitos dos potenciais bons filmes do planeta.

Os olhares dos três personagens principais cruzam-se emocionalmente mas quase sem se cruzarem em crescentes tensão e desespero. Mas aparentando alienação ou falso desprendimento.

Lee Jong-su (Yoo Ah-in) vive de entregas comerciais mas pretende ser escritor. Certo dia, encontra Shin Hae-mi (Jun Jeong-seo), amiga de infância que faz publicidade na rua de uma das lojas. Esta partirá em breve para África e pede-lhe para tratar do gato na sua ausência. Quando regressa apresenta-lhe Ben (Steven Yeun) que por lá encontrou e por quem se sente atraída. E o caso complica-se…

Sem dúvida um filme com garra na construção das personagens e na contenção que as torna enigmáticas concedendo-lhes fascínio à própria angústia e ansiedade.

No final, mas talvez de modo excessivamente melodramático, o espectador é levado a seguir a paixão de Lee pela desaparecida Shin e a pensar que uma certa loucura que o motiva é a própria intriga literária que ele persegue.

jef, maio 2019

«Em Chamas» (Beoning) de Lee Chang-Dong. Com Ah-In Yoo, Steven Yeun, Jong-Seo Jun. Baseado num conto de Haruki Murakami. Coreia do Sul, 2018, Cores, 148 min.