sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sobre o filme «A Forma da Água» de Guillermo del Toro, 2017















Com «O Labirinto do Fauno» (2006), Guillermo del Toro criou uma nova fronteira para a fantasia no cinema, lançou raízes para uma estética  do imaginário diversa, tornou mais adulta uma certa criatividade que se associa à mente infantil, suspeito que bastante erradamente. A expectativa foi lançada. Ficámos em guarda para o filme seguinte. Hollywood sonhou. O dinheiro chegou prolixo. A obra nasceu. «A Forma da Água». Choveram os prémios, até por Veneza! Também um monte de nomeações para os globos de ouro e para os óscares!

Fins dos anos 50 ou início dos 60, a guerra fria, os russos, a espionagem, os muito maus, a discriminação feminina, da raça negra, da orientação sexual, dos mudos. O assédio. A aceitação da diferença. Um conjunto extraordinário de Cadillacs.

Uma banda sonora do superactivo Alexandre Desplat, secundado por uma vintena de canções maravilhosas.

Um conjunto de actores de excelência: Sally Hawkins («Blue Jasmine» Woody Allen, 2013), Octavia Spencer («Fruitvale Station – A Última Paragem», Ryan Coogler, 2013), Michael Shannon («Polícia Sem Lei», Werner Herzog, 2009), Richard Jenkins («Sete Palmos de Terra», Nathaniel Fisher, 2001-2005), Michael Stuhlbarg («Chama-me pelo Teu Nome», Luca Guadagnino, 2017).

Um mundo inundado pelo fogo-fátuo da cenografia espampanante!

E para quê?

A fantasia no cinema é coisa deveras complicada de fazer. Perguntem ao fazedores de obras-primas: Victor Fleming («O Feiticeiro de Oz», 1939),  Robert Stevenson («Mary Poppins, 1964), Stanley Kubrick («2001, Odisseia no Espaço», 1968), Steven Spielberg («.E.T. – O Extra-Terrestre», 1982), Tim Burton («Eduardo Mãos de Tesoura», 1990), …

Na minha modesta opinião, não basta uns quantos temas da moda, dinheiro e nomeações para óscares. A fantasia merece um guião plausível, contenção, humildade e aquele toque de génio que espevita a memória criativa do espectador para que este construa o que não existe!

jef, janeiro 2018

«A Forma da Água» (The Shape of Water) de Guillermo del Toro. Com Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins, Michael Stuhlbarg, Doug Jones. Fotografia: Dan Laustsen; Música: Alexandre Desplat. EUA / Canadá, 2017, Cores, 123 min.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Chama-me pelo Teu Nome» de Luca Guadagnino, 2017

















O que mais encanta no filme é um certo romantismo desprendido, sem dogmas e explicações, perseguições ou represálias, sobre um amor primeiro que, teria tudo para ser «proibido». Mas não é. Nem sequer tem lições moralizantes ou tragédias mórbidas. Apenas o seu fim, natural. Tudo corre através das indolentes paisagens do Norte de Itália, ao som das canções de Sufjan Stevens («The Mistery of Love»,«Visions of Gideon», «Call Me By Your Name»).

1983. Durante umas tranquilas férias, Elio (Timothée Chalamet) aproxima-se de Oliver (Armie Hammer), académico americano que chega por umas semanas para ajudar as pesquisas arqueológicas do pai de Elio (Michael Stuhlbarg). Elio tem 17 anos, Oliver, 24.

Como em todas as férias grandes de Verão pouco se passa e essa tranquila inactividade vai sendo tomada pela paixão, algo velada, sustentada mais por mal entendidos ou displicente distracção, do que por requebros de amor. No início.

O actor Timothée Chalamet faz o pleno, num papel de estrutura dramática complexa. Aparece suave mas determinado, impaciente mas firme, sobranceiro mas ingénuo, dentro de cenas consecutivas de jardins vislumbrados, portas entreabertas, janela discretas. Talvez o romance de André Aciman ou o argumento de James Ivory  - «Quarto com Vista sobre a Cidade» (1986) ou «Regresso a Howards End» (1992) - , confira ao filme a aura de ‘romantismo renascentista’. E, claro, a fotografia de Sayombhu Mukdeeprom…

Contudo, a meio, o filme vai-se perdendo em cenas e pequenos episódios que vão confundido a emotividade das personagens, certamente arrastadas por Armie Hammer, um Oliver muito belo mas um tanto inexpressivo, sem pulso para acompanhar Timothée Chalamet, afastando-se assim da expressividade da estatuária greco-latina cujas imagens surgem no ecrã.

Felizmente que as personagens do pai e da mãe de Elio (Michael Stuhlbarg e Amira Casar) vão crescendo ao longo do filme, acompanhando a história e o actor principal. Corrijo o primeiro parágrafo. O discurso que o pai faz ao filho é mesmo uma lição moral e conclui o filme de modo brilhante. E ainda temos Esther Garrel, a namoradinha de Elio, Marzia.

Um belo e terno filme para confirmar que a memória da primeira paixão deve ser guardada, não como trauma pelo seu termo, mas com a alegria de ter sido vivida.

jef, janeiro 2018


«Chama-me pelo Teu Nome» (Call Me by Your Name) de Luca Guadagnino. Com Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois. Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom. Segundo o romance de André Aciman. Canção de Sufjan Stevens. EUA/ Brasil / Itália / França, 2017, Cores, 132 min.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Sobre o filme «The Post» de Steven Spielberg, 2017















É por filmes como este que a América poderá ser grande, não é decididamente com Donald Trump, contra o qual Steven Spielberg terá realizado este filme.

Na guerra que o actual presidente dos Estados Unidos da América lançou contra os jornais e os jornalistas, revemos as decisões encarnadas por Katharine Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks), proprietária e director do jornal ‘The Washington Post’, quando ponderaram a publicação de um grande relatório do Pentágono que punha em causa a participação americana na guerra do Vietname. Um relatório sacado por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys), funcionário daquela instituição. O pré- Watergate.

Não será um grande filme de Spielberg mas é, sem qualquer dúvida, um filme rápido (ou telefilme) de Spielberg! O modo como faz o filme girar em torno maravilhosa Meryl Streep quase faz de «The Post» um filme brilhantemente feminista.

A deferência sobre a imposição da verdade, o esclarecimento do público, a vontade democrática do confronto de ideias, finanças e economias, a defesa incondicional do jornalismo, é emocionante e concentra-se nas derradeiras cenas, de enorme suspense, onde Katharine Graham e Ben Bradlee, cada um na sua própria casa, uma rodeada de investidores financeiros, o outro, de jornalistas, decidem ao telefone pela publicação dos dados, apesar da muito provável represália judicial.

Pena que os espaços interiores enclausurados não dêem mão a Spielberg para os seus habituais voos paisagísticos, pena a pressa com que é contado o início da história, pena o ricto de Tom Hanks, invariável, sempre de queixada cerrada, tentando mimar talvez o verdadeiro Ben Bradlee.

São estes, no entanto, pequenos defeitos para um filme de combate necessário.

E, claro, a música é de John Williams!

jef, janeiro 2018

«The Post» de Steven Spielberg. Com Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Carrie Coon, Matthew Rhys. EUA, 2017, Cores, 115 min.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sobre o filme «O Garoto de Charlot» de Charlie Chapin, 1921














Este filme é um dos mais belos filmes de Charlie Chaplin. É um filme de mudança, de reorganização do cansaço da sua criatividade. É um filme de estudo. Uma curta-metragem que é também uma longa-metragem. Trata-se da sublimação do seu passado trágico e da catarse de uma recente tragédia. A morte do filho recém-nascido, filho da muito jovem e fugaz esposa, a actriz Mildred Harris, em 1919.

«O pecado da maternidade».
As palavras surgem após a epígrafe temática:
«Uma comédia com um sorriso e, talvez, uma lágrima».

A mãe (Edna Purviance) sai do hospício com um recém-nascido nos braços. Está desesperada e acaba por deixá-lo no banco de um luxuoso automóvel estacionado num bairro de ricos. A criança traz uma nota manuscrita entre as roupas: «Quem a encontrar, ame-a e cuide bem dela.»

O automóvel é roubado e a criança colocada no lixo pelos ladrões numa esquina do bairro paupérrimo onde vive Charlot. Ele sai de casa, escapa por um triz a um monte de entulho lançado por uma janela. Encontra o bebé e suspeita que tenha sido atirado também pela janela. Tenta deixá-lo perto de alguma mãe. Não consegue. Finalmente, adopta-a!

Ou antes, é The Kid (Jackie Coogan) que adopta Charlot e passa a protegê-lo e a educá-lo através de uma sucessão extraordinária de cenas cómicas. As peripécias sucedem-se até que Charlot, triste e desamparado, adormece sozinho à porta de sua pobre casa. Então, sonha que o bairro é o Paraíso cheio de anjos. Mas o paraíso é também nefasto e os anjos viciosos.

É acordado por um polícia que o agarra e o leva para a esquadra…
O resto, sabemos nós.

«O Garoto de Charlot» é um filme triste e terno, comovente, cómico, romântico e realista, sobre a ideia falsa de que a infância encerra, por norma, a alegria e a felicidade. Um filme sobre a infância que fica guardada na vida adulta. Um dos filmes mais firmemente sociais criados pela extraordinária figura do maior palhaço do mundo.

jef, janeiro 2018
                                                                      
«O Garoto de Charlot» (The Kid) de Charlie Chapin. Com Charles Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan, Carl Miller, Baby Hahaway, May White, Tom Wilson, Henry Bergman. EUA, 1921, P/B, Mudo, 68 min.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Uma Mulher Não Chora» de Akin Fatih, 2017
















O propósito do filme de Fatih Akin é claramente político.

Em Berlim, um ex-traficante de droga Nuri Sekerci (Numan Acar) cumpre a pena devida, reintegra-se na sociedade, casa-se com Katja (Diane Kruger) e é pai exemplar de um menino. Até que um dia, uma bomba colocada perto no local de trabalho mata pai e filho.
No final, como epílogo, surge um esclarecimento sobre o número de vítimas mortais que uma determinada organização nazi já provocou na Alemanha.

O filme é realizado na totalidade em torno de Diane Kruger que constrói maravilhosamente Katjia, aquela que carrega a cruz do sofrimento horrível, da injustiça judicial, da suspeição constante, da vingança final. Diane Kruger faz eclipsar o filme sob o seu olhar torturado, captado sem filtro ou atenuante estética, tornando o espaço sempre claustrofóbico mesmo na grande sala de audiência.

A expressividade da actriz é única e dá à narrativa a tonalidade plástica que só algumas mulheres conseguem. Dir-se-ia «glamour» ou «sex appeal», não fosse um filme tão justo contra a ignomínia xenófoba, contra o horror do nazismo contemporâneo.

Porém, existe uma ânsia no filme em explicar tudo e terminar todas as pontas narrativas que coloca a personagem Katja numas certas bolandas apressadas que poderiam ser evitadas para melhor oferecer ao espectador a dor de tão terrível mas tão actual crime.

Resumindo, «Uma Mulher Não Chora» é um óptimo filme de acção que deve ser visto por todas as razões. Claro, também pela mais bela Diane Kruger.

jef, janeiro 2018

«Uma Mulher Não Chora» (Aus Dem Nichts / In The Fade) de Fatih Akin. Com Diane Kruger, Denis Moschitto, Numan Acar, Samia Muriel Chancrin, Johannes Krisch , Ulrich Brandhoff. França / Alemanha, Cores, 106 min.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sobre o filme «Canções do Segundo Andar» de Roy Andersson, 2000



















É um filme sobre a condição do trabalho e como a degradação deste ou, em última análise, a sua ausência abrupta pode fazer derrapar o ser humano até ao desespero insano.

De César Valejjo (1892-1938) vem a epígrafe, mil vezes ouvida:

«Amado seja o que se senta».

Pode haver quem se ria (e este filme tem um humor tácito que cruza Bergman com Fellini ou Tati ou Monty Python) mas esse ficará pálido depois. Como os personagens, desfeitos, de cara empoada, olhos vermelhos, feridos, a um passo do sacrifício humano, da venda de Cristo Crucificado, por grosso ou a retalho. Talvez seja melhor imolar uma criança por outra. 

Este filme é sobre a Cidade metafórica onde os penitentes do quotidiano tentam sobreviver com aflição moral e muita dor física. Quem se dedica à poesia enlouquece, e se alguém se dedica ao trabalho, perde-o. O trânsito está péssimo e quem leva a vida a tentar colocar comida na mesa e a divertir-se um pouco, é melhor pensar duas vezes. Pode sentir-se dentro do resignado mas potencialmente lutador Coro dos Escravos Hebreus, se viajar de metro. Pode incendiar o local de trabalho. Mas perde sempre.

Nós, os espectadores, podemos sorrir, rir até, sentirmo-nos perdidos dentro do absurdo da cidade e da dor mas não devemos esquecer que estamos sempre face a duas narrativas em simultâneo. No cinema de Roy Andersson como na vida.

A não esquecer, igualmente, o tema musical entre o modo barroco e o modo popular de Benny Andersson.

jef, janeiro 2018.

«Canções do Segundo Andar» (Songs From The Second Floor / Sånger från andra våningen) de Roy Andersson. Com Bengt C.W. Carlsson, Lars Nordh, Stefan Larsson, Torbjörn Fahlström, Rolando Núñez. Fotografia: István Borbás;

Jesper Klevenås; Música: Benny Andersson. Suécia, 2000, Cores, 98 min.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Dia de pescaria











Dia de pescaria.

Reverter o senso na direcção do inverso.
Converter a razão na propriedade apaixonada do reverso.
Depois, fixar o olhar na imagem virtual da floresta
Reflectida na superfície espelhada da lagoa
Em dia de calmaria.

jef, janeiro de 2018