domingo, 6 de dezembro de 2020

Sobre o filme «A 8ª Mulher do Barba Azul» de Ernst Lubitsch, 1938






São pouco mais de 80 minutos da mais pura e expressiva comédia americana de Ernst Lubitsch. Tudo pode ser visto, antes de ser ouvido. Mas atenção, tudo o que é ouvido transforma-se na epígrafe das imagens que se lhe seguem. Tudo é rápido, tudo é explícito, tudo é contido e tão cómico! Estamos numa das estâncias balneares do Sul de França e a nossa atenção fixa-se, logo de início, na compra apenas do casaco de um pijama pelo multimilionário Michael Brandon (Gary Cooper), facto que leva o director da casa comercial a acusar tal exigência de «comunismo». O caso é que o próprio director também usa apenas o casaco do pijama. Contudo, o caso resolve-se a bem e as calças riscadas do dito pijama acabam por ser partilhadas com Nicole de Loiselle (Claudette Colbert) que chega de surpresa à loja. As alusões sexuais só ali começam na tentativa do ingénuo machista milionário conquistar o amor da independente mas falida filha de De Loiselle (o impagável Edward Everett Horton), apesar das ferozes reticências da Tia Hedwige (a ainda mais impagável Elizabeth Patterson), apesar dos doutos ensinamentos de Shakespeare na peça «A Fera Amansada», apesar da tão pouco convicta infidelidade de Nicole com o secretário bancário Albert De Regnier (o fantástico David Niven!)…

Tudo aqui são cenários soberbos, extraordinário guarda-roupa, olhares maliciosos, silêncios subentendidos, risos e hálito a cebola! Aqui não há um único mal-entendido, apenas teatro, inteligência e diversão.


jef, dezembro 2020

«A 8ª Mulher do Barba Azul» (Bluebeared’s Eighth Wife) de Ernst Lubitsch. Com Claudette Colbert, Gary Cooper, Edward Everett Horton, David Niven, Elizabeth Patterson, Herman Bing, Warren Hymer, Franklin Pangborn, Armand Cortes, Rolfe Sedan, Lawrence Grant, Lionel Pape, Tyler Brooke. Argumento: Charles Brackett e Billy Wilder sobre a peça de Alfred Savoir. Produção: Ernst Lubitsch e William LeBaron.  Fotografia: Leo Tover. Música: Werner R. Heymann e Friedrich Hollaender. Guarda-roupa: Travis Banton. Cenografia: A.E. Freudeman. EUA, 1938, P/B, 82 min.

 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Sobre o filme «Disponível para Amar» de Wong Kar Wai, 2000




























Este filme é deslumbrante.

Todas as perguntas que fazemos enquanto, poeticamente, as imagens se sucedem são-nos respondidas minutos depois. Por terceiros. ( «Mas ela veste-se sempre assim para ir comprar massa?» ) Tudo parece estar fora de uma ordem vigente, de uma vontade moralmente aceite. Acima de tudo, o Amor. O confinamento exíguo, imbrincado, ombro com ombro, a tortuosa sequência de portas que se fecham ou se abrem; corredores estreitos, escadas íngremes, cozinhas enevoadas de vapor e suor, apenas conquistam o espaço maior da liberdade no interior de uma paixão que será sempre vigiada pelo pudor das esquinas, pelo rubor das chuvadas assombrosas. As flores estampadas, as sedas tecidas e os vidros translúcidos, as paredes a esboroar, uma máquina de cozinhar arroz que ficará sem uso, um bilhete sem resposta. Uma gravata duplicada, uma mala de senhora que se repete, uma relação extraconjugal que, no estrangeiro, se pressente consumada. E, na solidão, sentida como fracasso puro. Por isso, o espectador nunca lhes vislumbra as faces. Uma intimidade apaixonada que se identifica em planos mais que fechados, quase sobrepostos, ou em sincopados slow-motions. Uma intimidade que recrudesce nas sombras silenciosas das partituras de Michael Galasso e Shigeru Umebayashi ou no sotaque latino, mais melancólico que romântico, de Nat King Cole. Uma solidão e um segredo inelutáveis que, para serem sublimados, devem ser encerrados no interior do tronco oco de uma árvore.

A beleza deste filme é mesmo inesquecível.


jef, dezembro 2020

«Disponível para Amar» (In the Mood for Love) de Wong Kar Wai. Com Maggie Cheung, Tony Chiu-Wai Leung, Ping Lam Siu, Tung Cho 'Joe' Cheung, Rebecca Pan, Kelly Lai Chen, Man-Lei Chan, Kam-Wah Koo, Szu-Ying Chien, Paulyn Sun, Roy Cheung. Argumento: Wong Kar Wai. Fotografia: Christopher Doyle, Pun-Leung Kwan, Ping Bin Lee. Música: Michael Galasso, Shigeru Umebayashi. Guarda-roupa: William Chang. Hong Kong, China, 2020, Cores, 98 min.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Sobre o livro «A Situação do Homem no Cosmos» de Max Scheler, Texto & Grafia, 2008. Tradução de Artur Morão.



Este livro não é para fracos.

Um pequeno grande tratado sobre antropologia filosófica, ou seja, sobre essa forma de “mostrar como da estrutura fundamental do homem derivam todos os seus monopólios, todas as suas produções e obras específicas”. A partir de uma conferência dada em 24 de Abril de 1927, Max Scheler desenvolve um fascinante e vigoroso périplo que se inicia com o centralizador impulso da planta, passa pelo instinto e pela inteligência prática dos animais, e chega ao homem que reconhece o objecto no espelho eidético do espaço e do tempo mas, recusando e sublimando o impulso para a realidade, vai reencontrar-se com o espírito que se afigura mais além. Nesse ponto médio entre a energia vital e o espírito, ele depara-se com o ser no mundo, o cosmo, e, para lá, com uma divindade por construir. Quer dizer que o homem fugindo do nada atómico acaba por descobrir um Deus incompleto, ou seja, regressa afinal dessa imensa viagem com uma mão aparentemente cheia de muito pouco. Ao longo deste sinuoso percurso poderão ter errado Platão, Tomás de Aquino, Darwin, Hegel, Marx, Freud, Husserl, ou sobretudo Descartes. Porém, Buda e Hölderlin terão acertado. Numa escrita simples, pedagógica, viva, por vezes a tocar o humor, Max Scheler explica o inexplicável: o que é e onde está o homem, rematando sem qualquer tipo de contemplações: “a metafísica não é nenhuma companhia de seguros para homens fracos, com necessidade de apoio”.

 

jef, agosto 2008

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Sobre o filme «Certas Mulheres» (Certain Women) de Kelly Reichardt, 2016


 






























Faz frio em Livingston, Montana. A neve e o vento cercam o planalto de mais perto que as suas montanhas. A banda sonora (Jeff Grace) até podia ter caído nas mãos de Ry Cooder, Bruce Springsteen, Neil Young ou Eddy Vedder. As quatro mulheres que nos contam as três histórias devem um voto de silêncio ao Inverno e à solidão provocada pela incompreensão das grandes distâncias.

A advogada Laura (Laura Dern), arrastando o cão pela trela, tenta entender o patrão e o cliente Fuller (Jared Harris) que foi injustiçado por um manhoso contrato de trabalho.

Gina (Michelle Williams) fuma às escondidas quer construir uma casa para um futuro que deseja bem mais próximo enquanto luta para motivar o marido Ryan (James Le Gros) e a filha Sara (Sara Rodier).

A professora de direito escolar Elizabeth Travis (Kristen Stewart) faz duas horas ao volante para chegar, à noite, a seu segundo emprego. Uma improvável cowgirl - ou horsegirl - (Lily Gladstone) entra inadvertidamente na sala de aula e interessa-se pela matéria. Talvez mais pelo esforço exausto da professora e acompanha-a no diner antes de esta regressar novamente. Uma compreensível mas incompreendida amizade surge sem destino.

São quatro actrizes espantosas que dão corpo ao interior psicológico e terno de uma América também ela enregelada, solitária, silenciosa, ausente. As histórias vêm dos contos de Maile Meloy mas bem podiam ter saído da imaginação de Sam Shepard.


jef, abril 2020


«Certas Mulheres» (Certain Women) de Kelly Reichardt. Com Michelle Williams, Kristen Stewart, Laura Dern, Lily Gladstone, James Le Gros, Jared Harris, Joshua T. Fonokalafi, Rene Auberjonois, Sara Rodier. Argumento: Kelly Reichardt baseado em contos de Maile Meloy. Fotografia: Christopher Blauvelt. Música: Jeff Grace. EUA, 2016, Cores, 97 min.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Sobre o disco «The Ascension» de Sufjan Stevens, AKR 2020











Bem-vindos ao mundo amedrontado, angustiado, encantado de Sufjan Stevens. «The Ascension» cria um espelho de fractais electrónicos e desenhados durante 15 canções em loop e 80 minutos de sonho meio-alucinado meio-planante, distanciando-se, por exemplo, de «Carrie & Lowell» (2015) não pelo lado interior e psicológico mas pela percussão caleidoscópica que o músico assume em nome próprio. E com ele, o guitarra-baixo Casey Foubert vai certificando cada linha melódica soturna e clarividente.

Como se um certo grunge de Seattle se casasse com o fumarento trip-hop de Bristol, amparado pelo drum’n’bass de Goldie. Estranhamente convoca no mesmo momento o espírito de Beth Gibbons, Fiona Apple, Kurt Cobain, Prince e Neil Young. Numa doce confusão. Todos juntos enclausurados numa capela onde as orações esqueceram o fito de Deus. Todos dentro de um elevador sem paragem pelos andares, durante uma qualquer pandemia.

Brian Eno parece estar a programar, Beck a destabilizar, Danny Elfman a transmitir essa notálgica aura coral de filme de fantasia.

Tudo soa a antigo mas é novíssimo nesse tão difícil equilíbrio dançante entre a alegria deprimida e o eufórico confinamento, deslizando até essa longa faixa final, «America»: “Don’t look at me like I’m acting hysterical / Don’t do to me what you did to America”.

jef, novembro 2020

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Sobre o livro «O Quarto de Giovanni» de James Baldwin. Alfaguara, 2020 (1956). Tradução de Valério Romão.


 









De modo interior, coisa profunda que a leitura provoca, relações, coincidências, sinapses no interior da memória, ao terminar «O Quarto de Giovanni» recordei-me da intranquilidade crescente que me provocou a leitura de «O Estrangeiro» de Camus. Essa inquietação que as grandes obras escritas sobre o desespero da solidão definitiva e a amargura do que fica calado provocam na alma do leitor que se deixa aprisionar pelo talento narrativo do escritor filósofo.

Somente os grandes, como James Baldwin, conseguem cativar a leitura começando a contar, assim, a história pelo fim. Desde logo, o jogo é-nos desvendado. As peças e dados já estão lançados e consumada a tragédia numa certa cidade de Paris que, ardentemente, deseja ver o Verão terminado e com ele também a paixão condenada entre o jovem americano David e o jovem italiano Giovanni. Ambos estrangeiros.

«Era uma questão de punição e sofrimento. Não sei como soube isso, mas soube-o imediatamente. Talvez porque no fundo eu queria viver. E olhei para o quarto com aquela extensão nervosa e calculista da inteligência e de todas as nossas forças que sobrevém quando avaliamos um perigo incontornável e mortal.»

Apenas a mestria consegue apresentar o facto, sem rodriguinhos e autocomiseração, indo directa ao assunto com o rigor das descrições finas, sucintas, ternamente circunstanciais, e os diálogos que nos deixam perante o desconforto do que nunca será dito e a suja amargura dos ambientes que vão toldando o ocaso do que já nos foi dado ouvir do início.

E esse facto é a tragédia da sua própria negação. A negação que é o inexorável caminho para a evidência e a evidência é um lugar anunciado e terrivelmente escuro.

Estranhas similitudes. Tal como no livro de Albert Camus, o protagonista é confrontado com ausência de si próprio através do anúncio, longínquo e frio, da morte de sua mãe num asilo, também neste livro, a falta de uma mãe parece ser o ponto de partida para o caminho de David em direcção ao coração do seu escondido e repudiado mal. Nos dois livros, a sociedade em volta, inquisitorial, papel de embrulho revelador de uma angústia avolumada e de uma culpa sem redenção, aponta o dedo e retira qualquer possibilidade de perdão. Faz largar a energia cinética da lâmina sobre a recusa de um corpo. A lâmina corre na aceleração da gravidade e da pena dessa negação.

É um romance soberbo, que se lê de um fôlego, publicado pela primeira vez em 1956 com a inclemente objectividade e a sinistra clarividência de que a homossexualidade era uma circunstância punível nos Estados Unidos e de que a pena de morte só seria interdita em França em 1981, pelo esforço de François Miterrand, entrando como emenda na constituição francesa apenas em 2007.

 

jef, novembro 2020

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Sobre o disco «Right as Rain» de Madalena Palmeirim, 2019

 

 
























O disco tem o condão de me relembrar, ao longo das 12 canções, o universo heterogéneo, embora coerente e uníssono, da música popular que povoa as prateleiras dos meus discos. América, Brasil, Cabo Verde, Portugal têm em comum belos povos que constroem belas cantigas vindas de harmonias e ritmos eternamente reconhecíveis.

Madalena Palmeirim recolhe-se não sobrepondo presunção musical às melodias ternamente visitadas, aos arranjos expostos de modo simples, aos poemas mais nostalgicamente amorosos. Por outro lado, contém essa simplicidade silenciosa e amável que une pela força as diversas latitudes do tal folk universe.

O mais curioso é, exactamente, o modo veemente como a música de Madalena Palmeirim me faz lembrar o à-vontade, a reverência iconoclasta pela música tradicional que têm Zeca Afonso ou António Variações. Também a intimidade meio country-folk meio recolhimento-de-lareira de Gillian Welch, Will Oldham ou Devendra Banhart. Ou o modo despojado mas despudorado como Marisa Monte ataca o samba ou Lucibela, a morna. Ou como Feist ou Cat Power abraçam o mundo eléctrico para reorganizar o velho poder dos blues.

Não tenho qualquer dúvida, «Right as Rain» é um disco que não vou conseguir parar de ouvir.


jef, novembro 2020