quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Sobre o filme «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» de Rainer Werner Fassbinder, 1972



 





















Revê-lo agora, em cópia restaurada, num ecrã grande e com idosa maioridade é um acto de compreensão estética e ética do mundo.

Um filme sobre a palavra e o poder, vindo do teatro, filmado em palco isabelino, três ou quatro estruturas ostensivamente cénicas, sobrepostas, a cama no centro, onde as figuras femininas se cruzam e interpretam as suas próprias angústias, as suas próprias razões, à luz do próprio olhar cruzado, silenciado, ofendido ou assumido, negando em cada cena tudo aquilo que terá sido dito ou assumido na cena anterior. Como tantas vezes acontece ao longo de uma vida inteira. Aqui em duas horas e sobre o olhar de manequins-espelho, maquilhagens-máscara, lágrimas teatrais, guarda-roupa ostensivamente dramático, exuberante, irreal.

Fassbinder prova-nos que um filme de sucesso comercial pode ser tão pouco comercial, tão incomum, tão heterodoxo, tão esteticamente plástico, tão contido e estilizado. Tão clássico. Tão teatral no sentido em que no teatro tudo o que não é visto é por nós assegurado como verdade. A verdade do amor como forma de negar a liberdade ao outro. A verdade do poder como forma de subjugar o afecto. A verdade de assumir a submissão como modo de aceitar um amor silenciado. Desde a tragédia grega, Shakespeare, Brecht, Ibsen ou Bergman.

Todo o acto dramático parece condensar-se na relação da recém-divorciada Petra von Kant (Margit Carstensen) com a jovem sedenta de futuro e liberdade Karin (Hanna Schygulla), sob o olhar envidraçado e assumidamente submisso da secretária Marlene (Irm Hermann), em contraponto com a resignada, talvez invejosa, Sidonie (Katrin Schaake). Também em conflito consigo própria e olhando-se ao espelho nos olhares de sua mãe Valerie (Gisela Fackeldey) e de sua filha Gabi (Eva Mattes). Valerie reencontrou Deus, Gabi, iniciou-se no amor adolescente.

Afinal, a história do poder e da submissão no mundo nascido este do recanto da paixão e das entranhas femininas.


jef, novembro 2022

«As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» (Die Bitteren Tränen der Petra von Kant) de Rainer Werner Fassbinder. Com Margit Carstensen, Hanna Schygulla, Katrin Schaake, Eva Mattes, Gisela Fackeldey, Irm Hermann. Argumento: Rainer Werner Fassbinder. Produção: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler Cenários: Kurt Raab. Guarda-roupa: Maja Lemcke. Fotografia: Michael Ballhaus. RFA, 1972, Cores, 89 min.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Sobre o filme «O Medo Come a Alma» de Rainer Werner Fassbinder, 1973































Um dos filmes mais intensamente políticos sobre o amor. Ou como R.W. Fassbinder transforma a realidade para que esta adquira a sua mais real profundidade e nos leve a acreditar que a arte é um dos grandes êmbolos ou alavanca com energia suficiente para modificar a sociedade.

O caso parece ter mesmo acontecido, tendo sido noticiado, mas o desfecho é muito mais cruel do que o da história que o realizador conta.

Emmi (Brigitte Mira), mulher com idade para ser avó, empregada de limpeza, é levada até a casa, num dia de chuva, por um jovem negro, imigrante marroquino, gentil e cerimonioso, Ali (El Hedi ben Salem), a trabalhar numa oficina de automóveis. A noite passa-se carinhosamente pois os transportes já não podem levar Ali de volta até casa. Emmi e Ali apaixonam-se. Emmi e Ali resolvem casar-se. Emmi e Ali casam-se.

Mas a sociedade não está preparada para aceitar um amor assim.

Em apenas hora e meia e numa cronologia cénica e dramática rigorosa, bela e perfeita, não só vemos o efeito da sociedade sobre o inusitado casal, como assistimos ao que, dentro de cada um, de Emmi e de Ali, se vai transformando. A relação com as colegas de trabalho e a família de Emmi, a masculinidade e a úlcera de estômago de Ali. As relações laborais, de vizinhança, o racismo, o envelhecimento, a sociedade que dever ser muito mais produtiva do que afectuosa.

Tudo dito de um modo simplesmente belo, sem rodriguinhos de encenação, sem palavras a mais, com os silêncios certos, num palco discretamente exuberante.

Tudo ali conta.

Um filme que devia ser levado à cena em todas as escolas e universidades.

Um filme a ser guardado no coração.


jef, novembro 2022

«O Medo Come a Alma» (Angst essen Seele Auf) de Rainer Werner Fassbinder. Com Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Barbara Valentin, Irm Hermann, Elma Karlowa, Anita Bucher, Gusti Kreissl, Doris Mattes, Margit Symo, Katharina Herberg, Lilo Pempeit, Peter Gauhe, Marquard Bohm, Walter Sedlmayr, Hannes Gromball, Hark Bohm, Rudolf Waldemar Brem, Karl Scheydt, Ingrid Caven, Kurt Raab, Rainer Werner Fassbinder. Argumento: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Jürgen Jürges. Cenários: Kurt Raab, Rainer Werner Fassbinder. RFA, 1973, Cores, 93 min.

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Sobre o filme «O Casamento de Maria Braun» de Rainer Werner Fassbinder, 1979.







Um filme rápido, ágil, veloz. Hollywoodesco ao modo de Fassbinder. Como ele vê o futuro da Alemanha Ocidental após a guerra, entre os escombros de uma velha sociedade destruída, na voragem do poder e na ascensão do seu novo ritmo, voraz. Fassbinder entrega a Hanna Schygulla o poder feminino de edificar essa nova moral, esse novo dogma, esse novo amor.

Por causa da guerra e da mobilização militar, Maria Braun poucas horas passa com o marido, Hermann Braun (Klaus Löwitsch) mas, após aquela terminar acredita que ele regressará, contudo não se resigna nem ao destino, nem ao que a sociedade parece estar a reservar-lhe. Vencerá agarrando todos os truques, todos os subterfúgios, toda a crença de que é capaz de lá chegar. Nada a detém. Mesmo quando o marido regressa e a vê envolvida com um soldado americano. Maria mata o amante, Hermann dá-se como culpado. Por amor. Maria singrará no mundo milagroso dos negócios alemães do pós-guerra. Vai para a cama com o patrão, Karl Oswald (Ivan Desny), tornam-se amigos e amantes. E Karl entrega dinheiro a Hermann, na prisão, às escondidas, para que ele possa sair da Alemanha e regressar com a vida restabelecida. Maria e Hermann Braun amam-se mas tornam-se desconhecidos um do outro. Maria Braun continua a trepar pelos escombros de uma cidade que se reconstrói à imagem da própria Maria Braun.

Um filme que nega veemente a parábola de Fassbinder que afirma “o amor é mais frio do que a morte”. Contudo, no final, a transformação de uma quase comédia em puro melodrama, assegura que Fassbinder nunca deixou de questionar o futuro da sociedade, do cinema e do amor.

Um filme que parece simples mas que também é escrito nas entrelinhas de um diálogo exuberante e cristalino.

Um dos filmes, senão o filme, de Hanna Schygulla.


jef, novembro 2022

«O Casamento de Maria Braun» (Die Ehe der Maria Braun) de Rainer Werner Fassbinder. Com Hanna Schygulla, Klaus Löwitsch, Gisela Uhlen, Ivan Desny, Elisabeth Trissenaar, Gottfried John, Hark Bohm, George Eagles, Claus Holm, Günter Lamprecht, Anton Schiersner, Lilo Pempeit, Sonja Neudorfer, Volker Spengler, Isolde Barth, Rainer Werner Fassbinder. Argumento: Pea Fröhlich, Peter Märthesheimer. Produção: Wolf-Dietrich Brücker, Volker Canaris. Guarda-roupa: Barbara Baum. Fotografia: Michael Ballhaus. Música: Peer Raben. RFA, 1979, Cores, 89 min.

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Sobre o filme «O Mercador das Quatro Estações» de Rainer Werner Fassbinder, 1971







Um filme clássico. Tem mais de tragédia grega do que aparenta. Fala de um homem sem qualidades que leva o tormento até ao fim, até aguentar, até se matar com dezenas de copos de aguardente. Um filme onde ninguém aparenta estar e ser feliz mas que envolvem o personagem como um coro que vai, figura a figura, de silêncio em silêncio, de flashback em flashback, definindo as razões por que retiraram as qualidades a Hans, o tal homenzinho. Sem redenção. Sem deus ex-machina. Um melodrama perfeito.

Hans Epp (Hans Hirschmüller), vendedor ambulante de fruta, vive sob o poder de uma sociedade que nunca o aceitou. Hans, porém, acabou por viver conformado, aceitando a tal sociedade num sofrimento calado de resignação. Afinal, a grande guerra não tinha acabado assim há tão pouco tempo e as famílias viviam sob suspeição interior. O poder maternal desdenha Hans, a mulher não lhe é fiel, uma antiga paixão surge de um flashback onde não aceita as rosas que ele tem para lhe entregar mas que, no final, no funeral, surgem ao longe como parábola de uma vida inconsequente. A filha assiste ao encontro sexual da mãe com o amante e, noutra cena, leva um estalo por tirar macacos do nariz enquanto as duas aguardam à mesa por Hans, que se embebeda no bar. Diz que só regressa a casa quando bem entender, num acto de rebeldia estéril e infantil face ao torniquete feminino que o envolve e castiga.

Os cenários são despojados de decores e artefactos (como os filmes de Eric Rohmer), para que nos concentremos no essencial, na violência que permanece ora latente ora explosiva, como matriz de uma sociedade por deslindar.

Os silêncios e as pausas entre as cenas surgem para dar justa enfase ao modo teatral que sobrecarrega dramaticamente o personagem.

Esta espécie de ribalta, tão pouco realista, amplia o rigor do sofrimento e evidencia o fulcro da violência que a sociedade oferece a Hans para que sublime todas as suas frustrações.

Até as lágrimas finais são de glicerina. É que a realidade só pode mesmo ser assistida através das cortinas do palco de Fassbinder.


jef, novembro 2022

«O Mercador das Quatro Estações» (Händler der Vier Jahreszeiten) de Rainer Werner Fassbinder. Com Hans Hirschmüller, Irm Hermann, Hanna Schygulla, Kurt Raab, Karl Scheydt, Andrea Schober, Gusti Kreissl, Ingrid Caven, Heide Simon, Peter Chatel, Elga Sorbas, Lilo Pempeit, Walter Sedlmayr, El Hedi ben Salem, Marian Seidowsky. Argumento: Rainer Werner Fassbinder. Cenários: Kurt Raab. Guarda-roupa: Uta Wilhelm e Kurt Raab. Fotografia: Dietrich Lohmann. RFA, 1971, Cores, 89 min.



quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Sobre o filme «Peter von Kant» de François Ozon, 2022




























Este está a um passo de ser um óptimo filme, quase uma comédia que, de modo ostensivo, usurpa a sombra de um dos filmes míticos de Fassbinder, «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» (1972), e persegue o fantasma de um dos mais hiperactivos e geniais realizadores alemães contemporâneos.

A história é muito simples como jamais terá sido cada dia de Rainer Werner Fassbinder. O prestigiado realizador Peter von Kant (Denis Ménochet) vive entre a espada da realização aclamada e a parede das suas obsessões criativas e afectivas. Vive com o seu secretário, Karl (Stefan Crepon), e tenta esquecer uma antiga paixão cinematográfica por Sidonie (Isabelle Adjani). E eis que esta chega a sua casa e lhe apresenta um jovem adónis, Amir (Khalil Ben Gharbia), por quem Peter se apaixona loucamente.

As figuras de Peter, Amir e Karl são extremamente caricaturais, contudo nunca chegam a ser desesperadamente caricaturais, como eram as personagens criadas por Fassbinder. Notamos esse facto quanto entra em cena Sidonie e que, por diversas razões, vai ocupar, com plasticidade cénica e dramática, o centro do ecrã e absorver a nossa atenção. Assim acontece também quando a sua mãe aparece no dia de aniversário, Rosemarie von Kant (Hanna Schygulla). A par destas duas personagens, ao extraordinário actor Denis Ménochet é-lhe oferecido o difícil papel de Peter von Kant, inventivo e histriónico mas que nunca deixa de nos parecer infantil, mimado e choramingão.

E «As Lágrimas Amargas de Petra von Kant» (1972) e toda obra de Rainer Werner Fassbinder sempre tiveram um carácter politicamente subversivo, socialmente provocador, esteticamente incontornável, mas nunca terá sido mimada ou choramingona!

A este filme falta-lhe qualquer coisa. Alguma centelha perdida de génio.


jef, março 2022

«Peter von Kant» de Asghar Farhadi. Com Denis Ménochet, Isabelle Adjani, Khalil Ben Gharbia, Stefan Crepon, Hanna Schygulla, Aminthe Audiard. Argumento: François Ozon, adaptação livre de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” de Rainer Werner Fassbinder. Produção: Genevieve Lemal, François Ozon. Fotografia: Manuel Dacosse. Música: Clément Ducol. França, Alemanha, 2022, Cores, 85 min.


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Sobre a apresentação do livro «I Don’t Think So – Postais» de André Ruivo e João Eduardo Ferreira, A Morte do Artista, 2022. Feira da Festa da Ilustração, A Gráfica, Setúbal. Sábado, 29 de Outubro de 2022, 16h00.













Quando 15 textos curtos meus vêm, quatro anos depois, ilustrar 16 obras plásticas de André Ruivo nascidas para serem “postadas” no vazio da internet e que foram expostas na Casa da Cultura de Setúbal, em Novembro de 2018.

Renascimento feliz para estas imagens figurativamente abstractas criadas pelo André e que desafiaram a figurativa abstração da minha fantasia. Escrever sempre foi criar imagens codificadas sobre uma realidade que se transforma continuamente. E, através desse código narrativo e, digamos, definitivo, a escrita tende a impor uma predominância ou uma certa hegemonia estética. Quantas vezes falsa.

Quem terá nascido primeiro, o ovo ou a galinha? O pincel ou a pena? A imagem ou a ideia?

Quem leia estes desenhos ou observe estes pequenos contos que o diga.

Um livro onde as cores e os objectos são, naturalmente, muito importantes, porque físicos mas codificados nas diversas linguagens.

‘«O equilíbrio, em última análise, é a capacidade extrema de não se desequilibrar. É a busca eterna feita por dentro e por fora do corpo humano. É também a permanente fúria calma que invade os infinitos céus da astrofísica e as partículas mínimas da incerteza que fazem de Schrödinger um improvável gato quântico.» Assim pensa Anselmo, que tem grande queda para perseguir tal simetria, pois sabe que sobre um estado aparentemente harmonioso paira sempre o fantasma futuro do seu oposto – o desequilíbrio.’             

em «O Equilibrista»

jef, outubro 2022

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Sobre o livro «Lisboa Indo e Vindo» de Filomena Marona Beja. Parsifal, 2022.


 









A obra de Filomena Marona Beja é, acima de tudo, inclassificável por género literário. São livros sempre cronistas, sempre históricos, sempre geográficos.

Por sistema e estilo, existe nos seus livros uma ideia arquitectada como um plano urbanístico, uma planta onde implementar ruas e pelourinhos, uma espécie de arquivo romanceado onde são colocados esquiços de prédios, alçados, empenas, alicerces históricos, pormenores saídos de alguma esquina escondida, de algum jardim esquecido.

Também uma vocação social de acreditar no dia presente quando este entende e não esquece os dias passados que o construíram. Uma espécie de arquitectura onde as informações históricas se misturam com o diálogo directo, indirecto, o chiste, o apupo, a intervenção, o ponto de exclamação e o punho no ar. Nada de frases intercalares, nada de entre vírgulas, nada de dúbias interpretações.

Aqui, a vida reclama futuro, modernismo, uma actividade guerreira e planificada como nas obras pictóricas de Fernand Léger.

A História corre lesta e pragmática entre as histórias que sustentam os habitantes anónimos da cidade.

Aqui vamos encontrar a aturada pesquisa que a autora tem executado ao longo dos anos. 12 crónicas sobre e sob os passos de Lisboa. Eu preferia chamar-lhe contos dado o arco narrativo completo que elas desvendam, relembrando, sublinhando, comovendo sobre as históricas paisagens urbanas desta tão velha (e bela) cidade.

Marvila e o Poço do Bispo. As velhas livrarias da Baixa. A raiz e a foz do rio Tejo português. Os azulejos de Maria Keil e o Metropolitano. A cor das flores dos jacarandás. A velha história conventual do Hospital de São José. O ringue de patinagem do Jardim Zoológico. O cheiro adocicado e acre que percorria as ruas vindo da torrefacção do café. O Largo do Carmo e as suas revoluções e chafarizes. O Campo de Alvalade onde se passeava de burro a Rainha Santa Isabel e, mais tarde, um tal famoso barbeiro António que ali foi abrir um cabeleireiro unissexo. Também as futuristas demolições de Duarte Pacheco.

Na obra historicamente arquitectónica de Filomena Marona Beja faltavam estas crónicas-contos para nos fazer reviver uma Lisboa que, em parte, já não existe mas que nos faz desejar contemplar novamente a beleza das sete colinas que nos continuarão a acolher e deslumbrar.


jef, agosto 2022