O que poderia ser um filme
político (e é) sobre a ganância do velho, rico e insensível, D. Andrés (Andrés Soler), proprietário de
uma ‘vila’ onde vivem paupérrimas famílias de
operários, e que ele deseja expulsar à viva força policial, ainda sobre a
oposição colectiva dos moradores, liderada pelo operário Carmelo (Roberto Meyer), afinal transforma-se num melodrama pungente, carnal e sanguinário, sobre a
paixão de Pedro ‘El Bruto’ (Pedro Armendáriz) – o algoz carniceiro contratado
por D. Andrés para expulsar os moradores – por Meche (Rosita Arenas), filha de
Carmelo que entretanto morreu à conta dos maltratos infringidos pelo próprio El
Bruto. Pelo meio, está Paloma (Katy Jurado), a jovem e fogosa esposa do patrão
e proprietário, apaixonada pela força viril de El Bruto, mas que, pela
violência do ciúme, o denunciará à polícia.
Tudo, na realidade, poderia
ser um mero melodrama de faca e alguidar, série B, terceira categoria, não
fosse um filme de Luis Buñuel. Filmado no tempo recorde de 18 dias.
Não tivesse a magnífica luz fotográfica
de Agustín Jiménez.
Não tivesse a simbologia
carnal do mestre, quando Paloma, após coser um botão na camisa de El Bruto para
que ele não mostrasse a desejada força, o morde no peito; e, depois, El
Bruto pede para a infantil Meche lhe retire uma arma da omoplata espetada ali pelos seus perseguidores (como a um touro).
Não estivessem lá os eternos
ícones dos animais. Escondido no quintal de Meche, El Bruto estrangula uma
galinha para que o cacarejar não o denunciasse e, dias depois, ela descobre em casa uma caixa onde, bucolicamente, uma gorda galinha
pastoreia meia dúzia de pintainhos. No acto final, um galo negro, sinal de
morte, olha nos olhos de Paloma após esta ter consumado a denúncia e assistido à
morte pela polícia do seu apaixonado.
Não contivesse esse furor
humorístico concedido a D. Pepe (Paco Martinez), o acamado pai velho do velho D. Andrés, que
ainda vai roubar rebuçados após a morte do seu filho.
Não nos levasse por uma agitada
teia de palavras, imagens e cenários, que nos prende de imediato, não nos deixa
respirar, lembrando a rapidez cénica de certas sequências dos filmes de Jean
Renoir.
«O Bruto» é uma grande ópera,
expressionista e romântica mas de que o próprio Luis Buñuel não gostava.
jef,
julho 2019
«O Bruto» (El Bruto) de Luis Buñuel. Com Pedro
Armendáriz, Katy Jurado, Rosita Arenas, Andrés Soler, Paco Martinez, Roberto
Meyer, Glorita Mestre, Beatriz Ramos, Paz Villegas, José Muñoz, Diana Ochoa,
Ignacio Villalbazo, Jaime Fernández. Argumento: Luis Buñuel, e Luis Alcoriza.
Fotografia: Agustín Jiménez; Música: Raul Lavista. Produtor: Sergio Kogan. 1953,
México, P/B, 81 min.
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