segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sobre o filme «A Sombra do Caçador» de Charles Laughton, 1955






Este filme é um objecto estranho. Custa a acreditar que tenha sido produzido e realizado pela MGM em 1955, de tal modo é estética e moralmente «estelizado». Quero dizer, firme, inflexível, exagerado, programático e, ao final de mais de sessenta anos, intocável.

As figuras vêm de uma pantomima da «commedia dell'arte» em que a luz negra faz avantajar a sombra de Harry Powell (Robert Mitchum) sobre uma janela psicologicamente ameaçadora. Apesar de tudo, as crianças vão dormindo…

A lanterna mágica surge dentro de uma cenografia «Bauhaus» e a realidade aproxima-se do pesadelo de tal modo que os degraus das escadas, as margens do rio, os animais fantasma, saem de um conto de fadas más ou de um museu de história pouco natural. Rachel Cooper (Lillian Gish) protege os cordeiros em tempos de Natal, de caçadeira em riste. Mas as crianças já não o são e o seu choro é adulto.

O confronto ético religioso coloca em causa o bem e o mal mas, acima de tudo, o legal e o ilegal. Um reverendo misógino, assassino de mulheres e ladrão, prega a moralidade para que Icey Spoon (Evelyn Varden) faça de coro maléfico, ampliando as desgraças e desculpando os pecados. Entretanto, as crianças confundem as histórias bíblicas – Moisés, Jesus –, e os irmãos John Harper (Billy Chapin) e Pearl Harper (Sally Jane Bruce) “resistem e perduram”.

«A Sombra do Caçador» é uma elegia vinda do trágico sangue grego como se um Frank Capra ou um Kenji Mizoguchi tivessem a noção da doutrina do mal. Uma tragédia que até poderia acabar bem…
…não fosse o miúdo, escondido no celeiro, avistar o cavaleiro em contraluz e sussurrar:
 «Mas será que ele nunca dorme?»
                                                                                  
jef, novembro 2017

«A Sombra do Caçador» (The Nigth of the Hunter) de Charles Laughton. Com Robert Mitchum (Harry Powel), Shelley Winters (Willa Harper), Lillian Gish (Rachel Cooper), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Don Beddoe (Walt Spoon), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper), Gloria Castillo (Ruby). Música: Walter Schumann. Fotografia: Stanley Cortez. EUA, 1955, P/B, 90 min.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Sobre o filme «Peregrinação» de João Botelho, 2017

















Existe qualquer coisa neste filme de inconsistente ou, talvez, de insólito …. De fragmento. De trágico. De cómico. De narrativa quebrada. De filme musical que não deixa de ser filme híper-romântico. De beleza extrema que contraria a fábula dos cenários e das paisagens fantásticas, sem nunca se contagiar com o degradante «efeito especial».

Um grande amigo meu lembrava bem e eu respondia: «Tens razão, Adriano! Sim, “Os Canibais” de Manoel de Oliveira!».

O livro também é assim! Fragmentado, louco e ilegível (porque já ninguém o lê!), totalmente visível por ser das narrativas mais cénicas, mais deslumbrantes, mais cabriolescas, mais inventivas e mentirosas de sempre.

João Botelho é exímio a fazer teatro. Faz de cenários reais, do mar imenso e dos marinheiros cantantes, uma ópera para deslumbrar o São Carlos.

E «insólito» pode ser sinónimo de «inconsistente»? Fernão Mendes, que Minta!

jef, novembro 2017

Botelho, João “Peregrinação”. Cláudio da Silva, Luís lima Barreto, Ricardo Aibéo, Jani Zhao, Catarina Wallenstein, Rui Morisson, Cassiano Carneiro, Pedro Inês, Maya Booth e Zia Soares, Marcello Urgeghe, João Cabral. Música: Fausto, Daniel Bernardes e Luís Bragança Gil. Portugal, 2017, Cores. 109 min.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Sobre o disco «Colors» de Beck, Fonograf / Capitol, 2017
















Nada de novo na Frente Ocidental. Contudo…
Beck Hansen tem aquele dom muito seu de ir corrigindo o próprio passado musical através de um modo futuro ou maneira de ser que se assemelha a um «método» ou um «sistema» mas que também se pode aproximar do caos das partículas que, a determinado momento, jamais confirmam o lugar onde se encontram.

Desde 1994, com esse célebre «Mellow Gold» e todos os outros álbuns mais ou menos escondidos (inqualificáveis, finos, brutos, barulhentos, dançantes, festivos, amáveis), que nos habituámos a esse modo hip-hop-transgénico-vegan / trash-bossa-nova / folk-heavy-country / pop-rock-delight.

Pode «Colors», com as 10 canções, não construir verdadeiramente nada de novo a ocidente da novidade mas traz Beck de novo. Colors – Seventh Heaven – I’m So Free – Dear Life – No Distraction – Dreams – Wow – Up All Night – Square One – Fix Me. 

À 20ª audição revejo o espelho de «Mellow Gold». E isso é bom. Pois as origens nunca estão onde nos prometeram… E o futuro da música também nada nos garantirá!

«Colors». Nada mais simples! Nada mais Pop! Nada mais primaveril para o início do Inverno! Se não existem notícias a Ocidente, viremo-nos para os restantes pontos cardeais. Façamos as articulações articularem. Dancemos a Oriente!

jef, novembro 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre o filme «Para Além do Paraíso» de Jim Jarmusch, 1984

















A solidão da chegada.
Ou como Eva (Eszter Balint), vinda de Budapeste, não é recebida por Willie (John Lurie), seu primo. Ou como Eddie (Richard Edson), amigo de Willie, repara em Eva. Ou como os dois amigos partem de carro, com o bolso cheio de dólares ganhos ao póquer (com bluff), em busca de Eva que foi viver com a tia Lotte (Cecilia Stark).
Afinal, um filme sobre a solidão das chegadas e de um certo fim dos sonhos de juventude. Apesar de tudo, o oposto de «Jule e Jim» de François Truffaut (1962) e «Bando à Parte» de Jean-Luc Godard (1964). Apesar de tudo, três filmes em hipótese e tese.
Afinal, para quê partir se tudo é igual em todo o lado?
Nova Iorque – Cleveland – Florida.

Este filme destrói a esperança com o humor sub-reptício das curtas cenas separadas por slides negros para oferecer ao espectador o tempo de as digerir, estética e cognitivamente, e entender como é possível fazer uma comédia sobre a desilusão e as eternas falsas partidas.

O diálogo com o amedrontado, zangado ou febril, operário fabril. A bisca jogada com a tia Lotte. A beleza branca do lago de Cleveland. A balada «I Put a Spell on You» de Screamin Jay Hawkins, a sair de um leitor de cassetes.

Na realidade, nada mais estranho do que o Paraíso.

jef, novembro 2017


«Para Além do Paraíso» (Strager than Paradise) de Jim Jarmusch. Com John Lurie, Eszter Balint, Richard Edson, Cecillia Stark, Danny Rosen, Tom DiCillo. Música: John Lurie. EUA, 1984, P/B, 89 min.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sobre o disco «French Touch» de Carla Bruni, Teorema / Verve / Universal, 2017


















Gosto muito deste disco. Na música popular a essência da novidade está, exactamente, em repetir segundo o coração que a ouve. E Carla Bruni repete-me bem algumas das canções nele instaladas mas sem macular a memória que delas guarda, adicionando-lhes ainda a dose justa de falta de vergonha e desfaçatez que dão aquele toque especial de estarmos a pisar terra de incréu.

Juntar Depeche Mode «Enjoy de Silence» (já que as palavras magoam) com Clash «Jimmy Jazz», «Love Letters» de Dick Haynes e «Miss You» dos The Rolling Stones, não seria razoável.

Renegociar o «The Winner Takes it All» dos Abba, colocando-o mesmo antes do «Crazy», em dueto com o próprio Willie Nelson, e depois atirá-lo para os braços dos AC/DC («Highway to Hell»), tem que se lhe diga.

Ir tocar na perfeita «A Perfect Day» de Lou Reed e colá-la a «Stand by Your Man» (Tammy Wynette), que me traz à memória a extraordinária Dolly Parton, ultrapassaria os limites.

Mas, pior, terminar recordando Rita Hayworth em «A Dama de Xangai», com «Please Don’t Kiss Me», ou a intocável «Moon River» cantada por Audrey Hepburn em «Breakfast at Tyffany’s», seria razão para mandato de prisão imediata!

Mas o raio do disco roubou-me o músculo cardíaco. Carla Bruni deixa a sua voz de Nouvelle Vague / Nouvelle Chanson ao sabor dos arranjos cirurgicamente simples e discretos de Davis Foster que sabem acarinhar e esconder a sua afinada desafinação.

Mas se não gosta da forma sussurrada, por vezes adolescente no vibrato, por vezes quebrada no pianíssimo, entre o jazz de bar de hotel e a jukebox de um diner madrugada dentro, não vai ser agora. Esqueça! Esqueça também Sarkozy!
Carla Bruni continua a ser o que sempre foi… a cantar o que sempre quis.
E continua linda de morrer nestas fotografias de antologia realizadas por Mario Sorrenti, esse tal…

jef, novembro 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sobre o filme «O Outro Lado da Esperança» de Aki Kaurismäki, 2017
















De Helsínquia, com esperança. Ou seja, De Helsínquia com amor.         
Aki Kaurismäki consegue não se rir. Mesmo quando fala das coisas mais sérias. Qualquer coisa entre Dario Fo e David Lynch. Qualquer coisa entre o político, o estético e o Jacques Tati.
O refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji) chega ao porto de Helsínquia escondido num navio de carga e quase é atropelado pelo ex-vendedor de camisas Wilstrom (Sakari Kuosmanen) que acabou de deixar a aliança no cinzeiro da sua mulher, alcoólica. Khaled e Wilstrom, um empregado, outro patrão, acabam irmanados no exílio de um restaurante que, para sobreviver, deve alterar as ementas ao sabor do gosto da clientela. Khaled perdeu a irmã algures nos Balcãs, Wilstrom ganhou uma pipa de massa à mesa de um casino clandestino.
Em «O Outro Lado da Esperança», Kaurismäki coloca os actores quase esfíngicos, ao som de uma série de velhas bandas finlandesas de blues, dentro de cenários muito mais «eslavos» que «escandinavos», deprimidos e cinzentos, sob a égide de Jimmy Hendrix e da solidariedade mais amorosa.
Desde a magnífica cena quase sem palavras em que Wilstrom, de mala na mão, se despede da mulher, até aquela outra cena, quase bíblica, do grupo de skinheads que atacam Khaled e que são rechaçados por um grupo de desgraçados sem-abrigos.
Tudo neste filme está do lado da esperança, é seriamente cómico, é delirantemente sério, é esteticamente estilizado para que o olhar e a consciência do espectador se concentrem no essencial da Arte.
«O Outro Lado da Esperança» é um filme fora de moda e totalmente dentro do nosso tempo. A ser visto com urgência!

jef, novembro 2017

«O Outro Lado da Esperança» (Toivon Tuolla Puolen) de Aki Kaurismäki. Com Sherwan Haji , Sakari  Kuosmanen, Dome Karukoski, Ville Virtanen, Kati Outinen. Finlândia, 2017, Cores, 100 min.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sobre o filme «A Paixão de Van Gogh» de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, 2017














Diz a nota de imprensa. «Este "biopic" sobre Vincent Van Gogh apresenta-se como a primeira longa-metragem "completamente pintada do mundo". Foram pintados e repintados 853 quadros a óleo, trabalho realizado por mais de 100 artistas diferentes a partir de 130 obras do pintor holandês. Ao todo, 65 mil fotogramas.»
E acrescenta: «A história foca-se mais na morte do que na vida do artista».

E eu, ao assistir à hora e meia do filme:
a)     confirmo a beleza deslumbrante de um pintor genial que mudou radicalmente o modo de olhar a arte, a cor, a luz, o retrato, o campo agrícola, a paisagem. Mais importante, alterou o princípio psicológico de interpretação do próprio olhar;
b)     reconheço o trabalho extraordinário da equipa técnica, dos pintores, actores e produtores (e músicos), para nos transmitir o esplendor colorido de Vincent Van Gogh;
c)     fui levado através de uma narrativa urgente e bem intrincada pelos últimos e trágicos dias do mais trágico dos pintores;
d)    fiquei com a sensação de que alguma coisa nesta animação ficou aquém, que o filme se tornava ingénuo, vagamente descrente de si próprio, talvez infantil ou bacoco, a deixar plana, a duas dimensões, sem pontos de fuga ou linhas de horizonte, sem futuro, uma das pinturas mais esculpidas e futuristas do mundo…

contudo, valeu bem a ida ao cinema.

jef, novembro 2017

«A Paixão de Van Gogh» de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (Loving Vincent). Com Saoirse Ronan , Jerome Flynn, Aidan Turner, Douglas Booth, Chris O’Dowd, Robert Gulaczyz, Eleanor Tomlinson, John Sessions, Helen McCrory. Animação. Grã-Bretanha, Polónia, 2017, Cores, 95 min.